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Sobre luisagadelha

Luísa é graduada e mestra em Letras, graduanda em Filosofia, ama literatura desde sempre e quadrinhos há alguns anos, tem preferência por romances (longos), sejam clássicos ou contemporâneos e se esforça - ou nem tanto - para ler mais poesia. Isso quando não está vendo séries.

A imensa força de quem sucumbe

laura beth

Arte de Laura Beth

aos Migliaccios

A imensa força de quem sucumbe

– e sucumbir é fera que a todos cerca
soslaio olhar que a tudo espreita
fardo das manhãs anoitecidas
refrão do instante
e diz-se instante deste perecer sob novas peles –

É a força de perceber, ainda,
no jogo dos signos
morada da morte
E na mecânica diversa dos gestos
um só adeus, contínuo, à delicadeza

(Lucas Trindade da Silva)

Três poemas de Talden Farias

pinterst

 

 

 

 

 

Ilustração: Pinterest

 

Caminhante
A Antonio Machado

 

se o fim
da estrada
é a morte
estar no caminho
é a própria sorte
(viver é buscar
– e não achar –
um norte)

***

Amar

amar é
dizer
adeus

 

(a quem
se era)
amar é
dizer
a Deus

 

(quem
– se tornou
o que –
se é)

***

Persona

viver
só cabe
a trena

onde houver
beleza

viver
só vale
a pena

porque existe
natureza

(viver
só abre
a cena

quase tudo
incerteza)

Poema de Marilize Bentes

anastasia lisich

Arte: Anastasia Lisich

Eu preciso sair pra vida
Botar roupa de viver
Pra desintoxicar
Eu to farta de paredes e tetos
To farta de mim
Porque eu, em excesso, sou demasia
Eu preciso do outro
Do ar
Dos ares
Das canções das ruas
Do vento importunando meus cabelos
Eu não gosto de vento
Preciso de vento
Preciso do céu
Sem quadrados
Sem telas
Sem distâncias
Estou farta de mim
Não é pessoal, juro
Juro pela minha dor
Pela minha falta
Pela minha saudade
Preciso do mundo
Dos corredores
Da minha mesa emprestada
Do sussurrar dos livros
Dos insights
Dos orgasmos acadêmicos
Do maldito prazo
Da agonia
Da luta
Da procrastinação legítima, não imposta
Da lida
Da utopia
Encontros
Pessoas
Carne
To com saudade dos cafés
Poéticos
Confidentes
Terapêuticos
Do barulho das bandejas
Da música tocada
Dentro e fora da gente
Burburinhos
Gargalhadas
Lamentos solitários
Estamos solitários
Detesto vídeos
Eles doem
Implicam saudade
Implicam distância
Sou eu, distante
Vídeo, distância, saudade, paliativo
To farta do ciclo
To precisando sumir
De mim
Do exagero de mim

tigre

 

Chloe Joyce
Ilustração: Chloe Joyce

tigre

um tigre, da alta e eterna noite,
tão claro, acordo e o vejo.
um corpo de imaterial imagem
olhando-me como se todo ele eu fosse,
eu, o tigre.
muito do que pediria ali erguia-se concentrado
em versus negro sobre terrena plaga,
um magnânimo sol de opaca luz,
tão sábio e imóvel e eterno.
mais uma vez meu coração de tigre,
de braça em braça,
saltara sobre mim.
eu estava salva.

(Maíra Borges Wiese)

Uma sentimentalidade que pensa

carla llanos

Ilustração: Carla Llanos

Negado o poder de albergar o amor dentro de si,
E, sobretudo,
De produzir amor,
E de atingir o fim da sua existência,
Que é a felicidade,
Deve conhecer as obrigações que
A natureza lhe impõe – ao Homem;
Deve conhecer as obrigações,
Com as quais nasce,
Para com Deus, para consigo mesmo
E para com os outros homens.
Porque
O verdadeiro amor
É uma sentimentalidade que pensa.

(Maíra Borges Wiese)

Zolpidem

pilar zeta
Arte: Pilar Zeta

Zigue zague
Tique taque
O zumbido no ouvido
O zombar do zodíaco

A proeza da natureza
O sono natural – ou artificial
O sono biológico – ou socialmente concebido

Hipnótico de coalizão
Veloz, atroz, feroz
Voraz? Talvez

Verniz na cicatriz
Encanto, artefato, adereço
Amanheço
Soo razoável
E até sensata – embora sensabor

Anestésicos, narcóticos,
Sedativos, ansiolíticos
Sonsos e seguros
Aceleram o
Futuro.

(Luísa Gadelha)

Dois poemas de Talden Farias

Porvir

no fim
do dia
todos nós
seremos apenas
corpos
deitados sobre a cama

no fim
da vida
todos nós
seremos apenas
mortos
deitados sob a lama

***

Amar-te

amar-te
por isso
arte

amar-te
por isso
arde

(desamar-te
por isso
a morte

não amar-te
por isso
à marte)

amar-te
por isso
até

(Talden Farias)

tristain-and-iseult
Pintura de Rogério de Egusquiza