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Sobre luisagadelha

Luísa é graduada e mestra em Letras, graduanda em Filosofia, ama literatura desde sempre e quadrinhos há alguns anos, tem preferência por romances (longos), sejam clássicos ou contemporâneos e se esforça - ou nem tanto - para ler mais poesia. Isso quando não está vendo séries.

Poema (1) de Eliza Araújo e Raquel Medeiros

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Ilustração: Guy Denning

[pequenas ponderações sobre costas: do cavalo e do amor]

Não sei de onde veio
Isso de poemas
Me saírem dos poros
Pele molhada ou não:
transbordam
vindo das entranhas,
do umbigo
ou da superfície da pele:
essa coisa outra no espelho
na qual se vive quenãosesabe:
o maior órgão do corpo.

Me escondo em meus cadernos,
mas às vezes quero afirmar
com o coro do mundo
que é ok ser humano,
não estar no topo das coisas
não sabê-las antes de senti-las.
.
Tomar as rédeas da vida
é uma metáfora sem rumo
na iminência de um cavalo.

Fizemos tantos
manuais que tomamos gosto
nos apegamos, desejamos
na bíblia, regras para ser bom
como ser feliz
no livro de autoajuda
conquistar um homem em dez
passos na Marie Claire do
mês passado quinhentas calorias por
dia para a barriga de fora

Saber tudo antes
de sentir não saber.
Quantos versos se perdem
nas cláusulas do contrato
de ser gente do jeito que
querem que a gente seja

O poema na contramão
descendo na banguela
engatinhando e depois sobre
duas duras pernas
correndo solto cavalo
liberto sem rumo desenha
um mapa com os sinais
nas costas do seu amor
escorrendo no canto
do olho
da boca
da vulva

Reticências entre a orelha
e a nuca o
poema faz apneia
dois minutos
respira
sente
e nada sabe.

Poema (1) de Cláudia R. Sampaio

Tito Merello Vilar
Ilustração: Tito Merello Vilar

Se eu desaparecer hoje
E falo mesmo do meu corpo aqui tão sentado
a escrever desde a ponta da língua
à légua mais distante da minha vida,
diz que compreendi.
Diz que sei que nada está onde é certo estar
Que o amor súbito é a escada para o entendimento

Diz que fui ar azul sobre campos de secura
estrada recta ao infinito,
um acidente ao longe
Que provei toda a sede quando engoli os homens
Que queimei alegremente no ácido das palavras
Que tombei em ricochete para que me vissem
e que, quando me viram, me ergui animal

Diz que me viste nua, sempre
Que corri por hospícios de olhos fechados
e a boca às avessas
Que vivi mais ao alto do que em mundo plano
e fui honesta na minha rente loucura

Diz que nunca esqueci a subida a um plátano
Que ninguém viveu no meu lugar, nem eu, no de ninguém
Que fui o halo frio que preenchi com esta pena
pela minha ausência
E que tudo o que disse foi com silêncio

Diz que sei, sobretudo, que ardemos juntos como ventosas,
Que o teu corpo me serviu de andar às pernas asmáticas
Que te agradeço ter-te oferecido lírios
Que me reduziste o nojo da espécie
Diz que eu fui eu

Guarda-me este segredo que tenho largo por baixo dos cabelos:
– quanto em mim fui que não vivi
quanto em ti é que fui eu?

Mas não te preocupes, não desapareço hoje
Quando me conheceste já eu não existia
e tu sabes
que essas saudades que vais tendo
são as minhas.

Poema (1) de Lucas Trindade da Silva

Aykut Aydoğdu
Ilustração: Aykut Aydoğdu

a Martina

tu que me diz do vento em repouso
do brilhar maior das sombras de árvores mortas

tu que me fala d’au
sência
de
movi
mento
como um bem
como um fruto
a ser conquistado

tu que numa rede balança e chama de fonte
os estímulos alheios de sal frente ao mar

tu que altiva olha o agreste dos meus olhos
como se o árido das dores sós fossem quimera
e o ardor de quem assim sofre fosse despeito
e assombro
despropositado
ao pôr-se nos sulcos da vida

tu que absorve toda a falta que concebo
e me põe num estado de espera
sobre os atributos daquilo
que em conjunto interpelam com o meu nome

tu ardósia potência de cores

que descansa sobre o leito de um nunca apaziguar

(trindade da silva)

Poema (1) de Diana Andrade

malcilm liepke

Ilustração: Malcolm Liepke

Não me queiras, homem

Se queres a minha boca,
mas desmereces o que nela é grito
e o verbo com que luto,
não me queiras, homem.
Se queres olhos que te fitem,
sem olhares comigo na mesma direção,
nem compartilhares o horizonte em que não nos bastemos sozinhos,
não me queiras, homem.
Se me queres ouvidos,
e não me falarás de teu amor pelo mundo,
pela gente, por outros que também encarnem a ti,
não me queiras, homem.
Se me queres às pernas,
mas não te importa o caminho que percorrem,
nem as barreiras que saltam para irem tão longe quanto possam,
não me queiras, homem.
Se me queres mãos de te tocar,
e não estarás na rua quando eu for punho,
cerrado, erguido, sendo mais do que artesã de ti,
não me queiras, homem.
Se me queres à cama,
e és indiferente à razão do meu levantar,
todo dia, com a coragem das que acreditam,
não me queiras, homem.
Boca e grito, olhos e horizonte
ouvidos e escuta, pernas e caminho
mãos e punho, alcova e levantar:
se me queres,
eis-me.

Poema (5) de Eliza Araújo

karen lynch
Ilustração: Karen Lynch

 

[Saturno tem milhões de anéis]

quando você pede

pra deitar a cabeça em meu peito

descanso a mão sobre sua têmpora,

forma secreta de abençoar uma coisa viva

a paz do meu momento é sono, o teu

e tento entrar em teu sonho respirando no ritmo

da sua respiração : esvaziando a mente como se estivesse sobre o colchão tatame

em posição de lótus

passando pra frente pensamentos que não me servem

se já fui feliz assim, próximo

se ainda há pó de café no pote, próximo

aquela foto com minha família onde meu irmão morava, próximo

quem eu chamo de família, próximo

(…)

te amar me faz estar em paz com as coisas

espalho o tamanho disso pelas bordas dos nossos corpos quando você dorme assim em mim

tenho frio na mesma medida do medo

tenho praticamente o tanto de anos que me levou pra me saber livre

você me olha como se fosse o perdão em forma humana

e assim sinto que mereço todas as coisas que me afagam

inclusive a sua presença

e o ciclo que ela cria

entre o meu amor de mim

e esse que te tenho

e volta.

Poema (4) de Eliza Araújo

oldman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Pinterest

[PAI DE MÃE]

Vovô
é feito de memórias.
Jamais peguei na sua mão
mas pela narração de minha mãe
Sei onde ficavam suas linhas
e qual delas interrompia a linha da vida.
Posso ouvir o som dos seus sapatos no domingo
e sinto que ele gostava de sentar
onde batia o sol da tarde.
Era de posar para fotos
sorrir para vizinhos
Sentar-se de joelhos separados
desfazendo o vinco das calças.
Provavelmente bebia água
em goles pequenos e apressados
comia pão com manteiga e miolo
e mergulhava o biscoito maria no copo de café.
Sei que escrevia cartas,
uma das minhas coisas favoritas da vida.
Sei que amou,
uma das coisas que me faz quem sou.
Na cidade de onde vim
ainda piso nos passos dele
e mesmo que não leve sua memória
seguro o lápis –
não o lapso,
e beijo sua história
em forma de mãe.