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Sobre luisagadelha

Luísa é graduada e mestra em Letras, graduanda em Filosofia, ama literatura desde sempre e quadrinhos há alguns anos, tem preferência por romances (longos), sejam clássicos ou contemporâneos e se esforça - ou nem tanto - para ler mais poesia. Isso quando não está vendo séries.

Poema (4) de Eliza Araújo

oldman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Pinterest

[PAI DE MÃE]

Vovô
é feito de memórias.
Jamais peguei na sua mão
mas pela narração de minha mãe
Sei onde ficavam suas linhas
e qual delas interrompia a linha da vida.
Posso ouvir o som dos seus sapatos no domingo
e sinto que ele gostava de sentar
onde batia o sol da tarde.
Era de posar para fotos
sorrir para vizinhos
Sentar-se de joelhos separados
desfazendo o vinco das calças.
Provavelmente bebia água
em goles pequenos e apressados
comia pão com manteiga e miolo
e mergulhava o biscoito maria no copo de café.
Sei que escrevia cartas,
uma das minhas coisas favoritas da vida.
Sei que amou,
uma das coisas que me faz quem sou.
Na cidade de onde vim
ainda piso nos passos dele
e mesmo que não leve sua memória
seguro o lápis –
não o lapso,
e beijo sua história
em forma de mãe.
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Poema (3) de Luísa Gadelha

 

zonadapalavra

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Pinterest
Poesia

versos podem ser
analgésicos
nostálgicos
cômicos incômodos
iminentes, icônicos
insustentáveis
nas costas curvados
versos são
etéreos, instantes
materiais, estantes

Poema (3) de Eliza Araújo

virginie bocaret

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Arte: Virginie Bocaert]
[EN ROUTE]
Nunca pratiquei muito
isso de chorar de felicidade
deixo as portas entreabertas
os óculos um pouco
propositadamente sujos
pra não correr o risco
de também talvez chorar
no coletivo
no trânsito
No vaivém das coisas,
das pessoas com suas histórias.
Na rua passou um moço
como um ex-namorado
lembrar dos cacos em que o coração presente
já esteve
me deixou
sei lá
medo
e vontade de saltar
e ir dizer desaforos ao homem desconhecido
As pessoas fazem loucuras
As pessoas são descompensadas
Sei disso porque estou na beira
das coisas quase sempre
Estou na beira
Agora mesmo estou,
mas dentro de casa.
No ônibus também estava uma senhora só.
Minha avó naquela idade gostava de ir
comigo à feira
A senhora só carregava as próprias compras
um livro
e a si
com aqueles andadores que fazem um barulhão.
Imagina precisar daquilo
e querer chegar de surpresa
Imagina
e querer pular na chegada do ano novo.
Tinha garotos risonhos,
mas de um olhar meio perdido
Meninas de fones de ouvido.
Gente entretida com o filme das ruas,
Hoje não fez sentido
Ia chover, mas não.
Fazer frio, mas não.
Algo no ar daqui me deixa
já sem saber que palavras usar,
que facetas minhas mostrar,
por onde começar a chorar.

Poema (2), de Luísa Gadelha

christian schloe

 

 

 

Ilustração: Christian Schloe

 

animula vagula blandula

(nos versos do imperador adriano):

essa alminha errante completa hoje

trinta e três voltas ao redor do sol

(me perdoem os geocêntricos)

trinta e três: a idade de cristo

(me perdoem os céticos)

quatro, quase cinco renovações totais

de todas as células do meu corpo

(me perdoem os criacionistas)

33 primaveras de mentira,

(aliás, 30, porque 3 passei fora do país)

(e porque em joão pessoa não há estações do ano)

e, no entanto,

me pergunto o que resta daquela menina

que brincava de barbies

neste corpo quase irreconhecível

naquela menina que

teve uma infância

ordinária

trivial

e vulgar

como quase todas as outras meninas

em todos os lugares

e todas as épocas

me pergunto o que resta

de mim

neste estrangeiro

corpo

que deixa de responder,

lentamente,

aos meus comandos

que esbranquiça as poucas madeixas

que não caíram

que escurece o entorno dos olhos

contra minhas ordens de repouso e trégua

que transforma alguns órgãos

em pequenos invólucros

de sentimentos

uma carcaça carregando

frágeis saquinhos de

amores, esperança, mágoas

um pouquinho de inveja,

algumas frustrações e

borboletas, balões, docinhos açucarados

o saquinho do entusiasmo

infla, seca e retoma

num eterno ciclo

em sintonia com a respiração,

elevando os seus juízos e inventos

o coração, esse órgão preferido dos apaixonados,

não sei que assombros carrega

sei apenas que, dentro deste saquinho em particular

carrego vários outros saquinhos

daquelas e daqueles que passaram dentro mim

citando cummings:

i carry your heart with me

(i carry it with my heart)

Poemas (2) (3) de Daniel Novo

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Fotografia do autor
Sou um herói porque me mantive de pé 
diante dessas bestas de carne humana 
que infernizaram os dias de solidão. 

Sou um herói porque cerrei os punhos 
mas não levei as mãos à cara 
dessa ralé bem falante e humilhadora 
que incapacita os seus próprios motivos. 

Sou um herói porque trinquei os dentes 
e virei costas a esses chulos com 
focinho de pau e alma de amargura 
que invejam quem com pouco sorri. 

Mas eu só serei um herói quando 
com pezinhos de lã e sem falsas pretensões 
eu conseguir afastar de mim este ódio 
este rancor ostracizado! 

(A todos os guerreiros de Abril) 

***

Foi numa madrugada de Abril, 
faz agora 40 anos, 
que à inquietação do lápis azul 
o povo largou o avental 
e respondeu: - São cravos, senhor!

Poema (2) de Eliza Araújo

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Ilustração: Pinterest
Eu digo as máquinas o que devem
fazer com meus dedos
Que estranho esse
imperativo sem palavras
Os bipes que registram o número
em outros contextos são o único
sinal da morte
ou como gosto de colocar,
passagem pro outro lado.
Inventaram tantas coisas para não
ficarmos sós
A tela da coisa acende
quando se escreve
A folha do caderno, não.