Arquivo do autor:Frederico Barbosa

Sobre Frederico Barbosa

Poeta, professor de literatura, organizador de oficinas de criação poética e performer de poes ouia, publicou oito livros de poesia como Nada Feito Nada (1993, Prêmio Jabuti), Brasibraseiro (2004, Prêmio Jabuti), com Antonio Risério e SigniCidade (2009), a coletânea Cinco Séculos de Poesia (2000) e a antologia de poesia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (2002), com Claudio Daniel. Foi curador da primeira biblioteca temática de poesia do país, a Alceu Amoroso Lima, em São Paulo. Foi, durante alguns anos, crítico literário dos jornais Jornal da Tarde e Folha de S. Paul. Foi Diretor da Casa das Rosas desde a sua reinauguração como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura em 2004 até 2016 e foi, entre 2008 e 2010, diretor executivo da Poiesis – Organização Social de Cultura, que administra a própria Casa das Rosas, o Museu da Língua Portuguesa, a Casa Guilherme de Almeida e as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo. Foi colunista da Rádio Estadão com o quadro Poesia Viva. Atualmente é professor do Colégio Equipe e Coordenador Cultural do Instituto Equipe - Cultura e Cidadania.

Esta Pantera

A Poesia de Frederico Barbosa

pantera

O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Augusto dos Anjos – Versos Íntimos

cerco fechado
bombas de todos
os lados

sobre mim

que erro eu?

que ódio raiva
cativo?

quantos ataques
me restam?

quantas vinganças
desperto?

de que adverso íntimo
virá
o próximo petardo?

até que
eu
mesmo
– escarro adiado –
me resolva
e exploda

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Maiakóvski de Boteco

(in Fábrica de Carapuças)

anarquista de butique
meia boca metaleiro
ozzy bozo beatnik
idiota por inteiro

maiakóvski de boteco
enche a cara
por completo

analfabeto
sem caráter
salta-pocinhas
o dia inteiro

vive de bolsa
…….da mulher gentil
industrializa seu passado fabril

traduz sua afasia
sem saber
 ………………a língua
do poema
……………….a linguagem
da poesia

maiakóvski de boteco
enche a cara
e solta o verbo

vira vira vira
vinho barato
virou
vinagre midiático

e a revolução?
com a pinga de parati
esqueceu-a no balcão

maiakóvski de boteco
enche a cara
e dá um treco

Frederico Barbosa

Nota: Os fatos e acontecimentos retratados no livro Fábrica de Carapuças são fictícios. Qualquer semelhança com pessoa viva ou morta é mera coincidência. Toda identificação é desautorizada pelo autor e será considerada construção do leitor.

 

Quando Chove

Em São Paulo, quando
chove,
chovem carros.

Tudo para:
pontes, viadutos, Marginais.

E a água retoma
seu curso original:
Anhangabaú, Sumaré, Pacaembu.

Ruas onde eram rios,
ex-rios, caminhos de rato, canais.
Rios sobre ruas,
Avenida do Estado, Via Dutra, Radial.

Em São Paulo, quando
chove,
chovem apocalipses
de quintal.

Frederico Barbosa

DIE BEWEGUNG

já que não vou sair por aí 
no movimento quebrando vou 
ficar aqui bem brando nada 
godfather se a mão beijada 
é contra nada sobe aqui no 
meu monte quase triste dos 
perdidos sem vida na volta 
perdido sem vinda na volta

Perplexo com os atuais acontecimentos de São Paulo, reencontrei este poema que escrevi há exatos 30 anos, em 1983. Está no livro Na Lata – Poesia Reunida (1978-2013), que acabo de publicar pela Iluminuras (SP). A principal motivação do poema foi a canção Street Fighting Man, dos Rolling Stones: 

Vocação do Recife – para Jomard Muniz de Britto

Image

Recife 
Não a Veneza americana 
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais 
Não o Recife dos Mascates 
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois – 
Recife das revoluções libertárias 
Mas o Recife sem história nem literatura 
Recife sem mais nada 
Recife da minha infância
Manuel Bandeira – Evocação do Recife


Recife sim
das revoluções libertárias
da teimosia ácida
do contra.

Não o Recife da minha infância
de golpe e exílios
gorilas e séquito
de vermes venais.

Recife sim
da coragem Caneca
da conscientização neológica
das lutas ligas lentes
do sempre
não.

Não o Recife sem literatura
no papo raso da elite vesga
a vida mole e a mente dura.

Recife sim
poesia e destino
na memória clandestina
de sombras magras
sobre pontes e postais.

Bandeira
sutil na preterição sim.

Clarice sim
frieza entranhada
na estranheza de ser Recife.

Recife sim
na literatura navalha
só lâmina solar
solidão sem soluços
só suor de João Cabral.

Recife sim
nos cortes certos
de Sebastião
contra a metáfora vaga
e o secreto.

Não o Recife sonho consumo
de turistas e prostitutas
na praia do sim
shopping sem graça
de Boa Viagem.

Recife sim
que em Nova Iorque
se revê
Hudson Capibaribe
ecos de Amsterdam.

Recife rios
ilhas retalhos
retiros velhos
reflexos de Holanda.

Não o Recife que revolta
na extrema diferença.
Não o Recife que expulsou
sua própria inteligência.

Recife sim
que se revolta
vivo.

Faca clara
que ainda fala
não.

 

Frederico Barbosa

Poema do livro Na Lata – Poesia Reunida (1978-2013), a ser lançado dia 6 de junho de 2013.

A Ratoeira (The Mouse-trap)

À memória de Millôr Fernandes

“to catch the kings conscience”
Shakespeare – Hamlet

I

em elsinor
na peça hamlet
a peça de hamlet

é ratoeira

metaficção
teste do real
denúncia suicídio

uma peça é uma peça
(dentro da peça)
loucura com método

se
mente
planta
veneno
colhe
confissão

e a corte segue
hipócrita

todo o mundo
(um pequeno círculo)
sabe sem querer
que se diga

matam o eu-lírico
e ainda duvidam
do poder da poesia:

pobre yorick
(bobo podia)
que falta de espírito!

por isso eu agradeço
os vossos bons conselhos
boa-noite senhoras
boa-noite amáveis senhoras
boa noite boa-noite

Frederico Barbosa