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Sobre refugiados e cometas, por Eduardo Sabino

Por Eduardo Sabino

Pense num livrinho potente, a melhor coisa que li neste ano na literatura nacional: “O cometa é um sol que não deu certo”, do meu amigo Tadeu Sarmento, vencedor, merecidamente, do Barco a Vapor 2017.

É um pequeno romance sobre crianças sírias em um campo de refugiados; seus medos, distrações e descobertas. Crianças que tentam se manter crianças quando sua liberdade de brincar está todo o tempo ameaçada, quando suas casas e escolas foram tomadas, quando o mundo desaba à sua volta e elas não entendem muito bem o que está acontecendo.

Com um tema tão denso, imaginei que leria algo que se enveredasse em algum nível pelos caminhos de um “Feras de lugar nenhum”, de Uzodinma Iweala, um romance que, embora seja narrado pelo ponto de vista infantil, é um soco que deve ser recebido/compreendido pelo leitor adulto, que entende as coisas não muito claras para o menino soldado de Iweala e que está mais preparado que a criança leitora ou o jovem leitor para lidar com os trechos mais pesados do livro.

Entretanto, e essa para mim é a maior façanha do “Cometa”, não é esse o caso. Encontramos na verdade uma narrativa aberta a leitores de diferentes faixas etárias, isso porque Tadeu sabe que uma história também pode conter uma segunda e uma terceira histórias que pontencializam umas às outras: seu livro também é uma ode à amizade, capaz de nascer nos desertos mais improváveis, e essa camada da narrativa é tratada com graça e leveza. Leveza que em nenhum momento banaliza o drama dos refugiados, mas que contrapõe a infância, sua poesia e sua imaginação, ao horror do mundo adulto, mostrando que a primeira, apesar de tudo, sairá triunfante.

Outro bom achado é a associação do movimento do cometa no universo com o dos refugiados no planeta e toda a metáfora mais abrangente de sua formação e trajeto, mas quanto a isso é melhor não entrar em detalhes: leiam o livro.

Um adendo:

As descrições físicas dos personagens, sob os olhos de Emanuel, o protagonista, um menino curioso e observador, são um espetáculo à parte. Sempre encontram algum estranhamento cômico que já é uma marca da ficção de Tadeu:

O velho sobe tão lentamente que parece nem se mexer. Enquanto anda, bate o cajado no chão, como se procurasse água entre as pedras. Ao chegar mais próximo, Emanuel percebe que metade de seus cabelos é branca, e a outra, preta, dando a impressão de só ter envelhecido do lado que arrasta a perna. O mesmo acontece com o seu bigode. A diferença é que a sua ponta branca está do lado preto dos cabelos, e a preta, do lado branco. Isso confunde Emanuel um pouco.”

***

O cometa é um sol que não deu certo

Edições SM

120 páginas

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E se o assassino for o romancista?

Por Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

ó curvas ó delícias
concede-me essa ruivinha que aí vai
a doce boquinha suplicando beijo
ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem

(Dalton Trevisan, “Balada do Vampiro”, in Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 1992, p.23)

Há uma velha anedota brasileira sobre um motorista de caminhão, em cujo para-choque se lia: “Eu quero é rosetar”. Aquilo incomodava os bons costumes da cidadezinha, então o padre, o prefeito e as beatas exigiram que o engraçadinho excluísse a legenda libertina. Dias depois, o caminhão aparece com os elípticos dizeres: “Continuo querendo…” Evoco isso para fazer um comentário sobre o livro E se Deus for um de nós, de Tadeu Sarmento, editado pela editora fluminense Confraria do Vento, em 2016. Meu comentário não é análise, não é resenha, eu quero mesmo é rosetar sobre o texto desse autor pernambucano, agora radicado em Belo Horizonte, já na casa dos quarent’anos, poeta e romancista premiado nos últimos tempos.

Divertir, brincar, folgar, pagodear são os termos da área semântica de rosetar. E como fazer isso após a leitura de um romance cuja trama está repleta de crimes cometidos por um serial killer obcecado em perseguir ruivas virgens? É por isso que peço emprestado, à guisa de epígrafe, o trecho do vampiro de Curitiba, o nosso velho contista Dalton Trevisan, dono de uma linguagem concisa, com imagens precisas, amalgamando humor e tragédia ao captar o inconsciente coletivo encarnado em seus personagens suburbanos. E, por contraste, Tadeu Sarmento cria um narrador que é mais chegado a encher linguiça do que a elaborar uma narrativa contida: “E se conto em um livro longo é porque não tive tempo suficiente para escrever um curto. Pois cortar exige mais trabalho que encher linguiça. Enchendo linguiça escondemos melhor os defeitos do texto. Quem é capaz de identificar um erro ortográfico ou de concordância na grande Comédia humana de Balzac? Acredito que ninguém.”(p.376)

Ao encher a linguiça do texto, o romancista é o principal assassino, pois mata o nosso tempo, e, por muitas vezes, também ameaça a matar o leitor, matar de rir, bem entendido. Porque é o humor a principal arma desse autor, criando situações hilariantes com personagens que trabalham num Call Center repleto de funcionários digamos assim fora do esquadro, tratados sob perspectiva nada politicamente correta, como se lê na p.38: “E nossa empresa saiu na frente para cumprir o sistema social de cotas de vagas de emprego para deficientes. Por isso gagos, portadores de síndromes de Tourette. Além deles temos a equipe dos anões, dos cegos, dos albinos fosforescentes, dos esquizofrênicos controlados, dos autistas e dos tetraplégicos.

O narrador já havia esclarecido: “Somos supervisores de Call Center, Gomes e eu. Cada qual cuida de uma equipe de atendentes em um setor diferente, específico, da empresa. Minha equipe é composta por vinte e três operadores receptivos, os quais batizei de ‘garotos de Tourette’. Gomes pegou a equipe dos gagos. A de Gomes fica localizada no setor de cancelamento de serviços; a minha, em um setor obscuro, conhecido como NID, que recebe todas as ligações não classificadas pelo atendimento eletrônico inicial. Em geral, operadores de Call Center são cooptados nas fileiras dos perdedores, dos desgraçados, entre mães solteiras, estúpidos, prostitutas arrependidas, adolescentes estupradas e arrimos de família. […] Resumindo: operadores de Call Center jamais chegarão à realidade, são apenas promessas, casulos, presságios de uma infância duradoura.” (p.36)

Desse núcleo de “comunicação” há boas passagens humorísticas no livro, e faço questão de transcrever algumas. Por exemplo, na p.43 há uma situação que é a caricatura viva de um de nossos dramas cotidianos: “Não é possível cancelar por cancelar […] Depois, o motivo do cancelamento deve estar parametrizado no sistema e, caso não esteja, o operador gago lerá para o cliente todas as duzentas e sessenta e seis opções de cancelamento disponíveis.” Na p.50, o narrador evoca o nome de um cantor brega que se notabilizou por atirar calcinhas para seu público feminino: “Os trotes caem mais que caspa pelo NID. Os tarados também. Tem um que até já apelidamos de ‘Wando’: sempre liga mais ou menos no mesmo horário, para perguntar a cor da roupa de baixo dos rapazes.” Outro cantor, agora norte-americano, é evocado na p.53: “Sua voz era límpida, clara e segura, ainda que bastante grave e com sotaque inglês, como se fosse o próprio Tom Waits sentado sobre um caixote de engraxate, dublando Deus nos filmes bíblicos.” Até a grande obra épica lusitana se presta a um componente hilário na arte de encher linguiça: “[…] é comum recebermos ligações de suicidas e de estranhos admiradores de Camões, que varam a noite se revezando na leitura ao telefone de Os Lusíadas, no intuito de concluírem o sarau com o longo poema antes de o dia amanhecer.” (p.52)

Se Os lusíadas é uma obra real, há, ao longo do romance, referências a obras que só existem nesse universo ficcional salpicadas de humor erótico: “[…] além do catálogo da Taschen, meu seleto amigo levou os livros “Memórias de um rapaz subentendido”, de Melo Rego de Leite; “Morrer à sombra das cerejeiras”, de Paula Noku; “Quando a pomba gira mais que o carrossel”, de Dengoso Caminha; “100 sonetos de uma noite agropastoril”, do poeta soropositivo Florindo Saltita; “Laranjas, laranjais e ereções”, de Armando Vergalho; “A fotografia de meu antigo bofe sambando merengue”, de Pablo Potira, além dos clássicos “A noite dos bocais iluminados” e “O desenvolvimento da pederastia nas regiões montanhosas, de Almejo Pinto.” (p.17);  “[…] cofiando o longo bigode prussiano que cultivava desde que lera um livro chamado O Bigode e a Ostra: manual prático de cunilíngua para barbudos, de Nietzsche a Leminski, Vol.I, do escritor, filósofo e homem bem casado Silvério Lanugem.” (p.94)

Outras referências estéticas são acompanhadas por jocosos comentários: “Só que o que mais Magela apreciava no Conrad de sua adolescência era a ideia de se poder tomar qualquer navio daqueles e avançar sem rumo sobre o mar azulado sem correr o risco de o velho Roberto Carlos estar cantando em algum deles.” (p.162); “[…] casara com um pintor norte-americano da escola de Cézanne chamado Vulgo Angelis, um especialista persistente em retratar guarda-chuvas azuis ao fundo de confusas chuvas de granizo.” (p.319)

Nomes risíveis e figuras e situações excêntricas ocorrem a rodo na obra: “O próximo a ser detido para averiguação foi Energúmeno Souza, vigia do rinque de patinação onde Eveline Vegas foi encontrada morta.”(p.98); “[…] um Pinto grave, circunspecto, e próximo de uma espécie de altar de mármore coberto por um manto de veludo vermelho com pompons macios nas pontas e detalhes em crochê de elefantinhos falsamente felizes.”(p.367);  “ […] viu adentrar no salão a jovem Mica Basso, acompanhada de seu inseparável poeta russo e das duas ruivas albinas congolesas, as quais traziam no braço, cada uma, o cadáver embalsamado das pequenas e misteriosas ruivas gêmeas desaparecidas, embaladas como bonecas nas mãos das duas, talvez, improváveis damas de honra, de um improvável casamento.” (p.368)

Episódios bíblicos são inesperadamente deslocados, ganhando dimensões de nonsense ou de caráter de metalinguagem irônica: “[…] um paraíso no qual o leão pastará ao lado do cordeiro e o urso de pelúcia ao lado do cavalo de carrossel.”(p.67); “Falo da escrita desse livro. Ele, Magela, tem a fluidez musical dos ótimos escritores e eu tenho a história toda na cabeça, logo, estamos no caminho certo, ainda que tropecemos algumas vezes. Mas se até Cristo tropeçou no caminho a caminho do Gólgota, quem somos nós para exigir a própria perfeição?” (p.374)

A irreverência em relação ao sagrado não são poucas: “[…] o que viria a seguir seria algo diverso do prometido no próprio nome da seita (Cristãs pelo Anal)” (p.295); “Seria preciso manter a fé e a ereção. E se a fé hoje em dia não remova mais montanhas é só porque os ambientalistas protestariam.” (p.368). Deus, que está presente no título do livro, é trazido na fala da protagonista Yves, a bela ruiva irlandesa: “– Se Deus fosse um de nós, o que faria  – perguntou novamente, solfejando a música com seu sotaque irresistível: What if god was one uf us.”(p.29). A canção é de Eric Bazilian, da banda The Hooters, que ganhou notoriedade na voz de Joan Osborne.

Humor negro, escatologia, símiles inusitados (como aquele, da p.160: “Tem o olhar infantil e melancólico de boxeadores aposentados.”) são ingredientes que tornam a narrativa saborosa. Personagens secundários entram na intriga para que o derramamento de sangue não faça cessar o fluir do riso: “[…] O barbeiro Pedro Silva era mais surdo que uma porta bem trancada, o que lhe garantia um número cada vez maior de clientes, sobretudo depois que Firmino Patusco, seu desleal colega de profissão, cortou a carótida de um pobre coitado após se assustar com o estouro de escapamento de um carro, provavelmente ocasionado por cabos de vela presos que faiscaram um no outro, o que lhe valeu um processo por homicídio culposo, que corre atualmente em segredo de justiça.” (p.281) Há outra figura que ninguém deseja cumprimentar: “Gostava de fazer origamis com papel higiênico usado e não costuma lavar as mãos.” (p.25)

No que diz respeito às imagens, principalmente quanto ao uso de símiles, chama-nos atenção certa obsessão pelo Sol, como se o autor, em meio aos intencionais disparates na obra, fizesse questão de buscar a lucidez. Vejamos alguns exemplos:
Seu olhar é de desprezo gelado, o jeito que um lagarto secando ao Sol olha para outro lagarto secando ao Sol.” (p.132)

 “Nunca viu nada parecido com o que viu e, ao mesmo tempo, sentia-se leve depois de ver, igual a um condor que se livra da presa durante o voo para chegar mais rápido ao Sol.” (p.281)

“[…] não gosta de lugares apertados. E que ali estava bem apertado, um ônibus espacial de médio porte com mil leprosos rumo ao Sol.” (p.319)

Em uma digressão sobre o filme de Pasolini sobre a obra de Sade, há essa crítica, também acompanhada pelo Sol: “ […] transpostas para o cinema suas imagens são indigestas ou tediosamente ridículas. Algumas são alergicamente teatrais. Parafraseando o teólogo Bataille: é o mesmo que querer olhar o Sol diretamente e, sem poder, contentar-se com as manchas de luz que espocam nas retinas ao forçar o fechamento dos olhos diante dele.” (p.300)

No que concerne aos disparates, vejam uma passagem impagável, envolvendo o cômico “Jeca” Mazzaropi, que foi sepultado numa cidade paulista, abruptamente deslocada para o Norte brasileiro: “E já que retomamos personagens, quero dizer que Plínio Parula fechou o sebo e prestou concurso público para coveiro em Pindamonhangaba, um cidade belíssima, capital do Acre, célebre por dar abrigo aos restos mortais do ator de pornochanchada Mazzaropi.”(p.378)

O assassino de John Lennon também entra no jogo dos disparates: “[…] Que foi visitá-la  ano passado, quando se inscreveu no ‘II Concurso Anual para Sósias do Mark Chapman do Município de Alden’.”(p.319). Ainda no quesito de sósias, eis uma passagem marcante, na p.54: “Clara Rosa, uma anã com vitiligo avançado […] casou escondido em Las Vegas com um sósia do Elvis Presley da fase decadente dos shows dos cassinos.

E há outros disparates associados a aspectos sexuais: Era natural de Buenos Aires, onde trabalhara de prostituta e descobrira que, quando depilava a boceta, os pelos pubianos caídos no chão formavam frases (em espanhol) que prediziam o futuro.” (p.128). A própria terra do autor é motivo de chacota: “– Morar no Recife hoje em dia me faz sentir como um absorvente. – Não entendi.– O lugar é bom, mas o momento é crítico.” (p.78)

A sexualidade, que é o motor da ação do serial killer, é tratada com humor e ironia, expondo os personagens com seus preconceitos, como é o caso de um homossexual enrustido, que age como homofóbico: “Gomes já deu provas suficientes de ser homofóbico e a homofobia, convenhamos, é fruto de um amor homossexual traumatizado, a soma de desejos reprimidos que permanecem latentes, pressionando de dentro a personalidade de Dúbio Gomes, empurrando-a em direção  da neurose, quiçá do fascismo (já que o fascista é só um neurótico que cumpriu suas ambições.” (p.42)

As cartilhas com conteúdo sexual, assunto polêmico na atual campanha presidencial, é abordado também com tintas da ironia: “Já no carro, durante o trajeto, escuta no rádio que, ano que vem, o governo vacinará contra o HPV, prioritariamente, meninas entre dez e onze anos de idade. Esse mundo está todo fodido mesmo, pensa Gonçalo Magela […] logo teremos cartilhas  de educação sexual nas escolas, orientando o que se deve fazer caso o dente de leite caia durante o sexo oral. Fato: não sei de que modo o assassino ainda consegue achar virgens nessa cidade sórdida, ainda por cima ruivas, ele completa. Se Raymond Chandler estivesse vivo, com certeza, escreveria um livro sobre o assassino de ruivas.” (p.161)

Dizer que se se trata de um romance lúdico ainda é muito pouco: a narrativa de E se Deus for um de nós é um grande desconcerto, no sentido de provocar constantemente o leitor, deixando-o literalmente zonzo, como se lê na p.352: “[…] Que não sobreviveu ninguém para contar a história. Que a história, aliás, era muito feia para ser contada. […] Parecia zonza com tanta informação despejada de uma só vez.” A presença de um personagem como Brum, mais onomatopeia do que nome, ajuda na construção barulhenta de figuras insólitas, como exibem as passagens: “Brum era um homem obsessivo e ciumento, que piorou bastante nas últimas semanas, sobretudo depois de a empresa que representava ter recusado sua ideia de montar uma linha de bichinhos de pelúcia com problemas mentais, os quis, segundo Brum, ajudariam a ensinar, de uma forma lúdica e finalmente, crianças a conviverem com as diferenças.”(p.164); “Brum foi detido no Aeroporto Internacional dos Guararapes […] levando na mala cinco protótipos dos seus brinquedos, com os quais esperava negociar a patente em Amsterdã. Entre eles: Durva, a tartaruga com síndrome de pânico; Lilith, a cobra anoréxica; Poliana, a ovelha com múltiplas personalidades; Troto, um crocodilo com fobia à água; e Sandrine, um hipopótamo albino com compulsão por comida.” (p.165)

Para quem desejar trechos, digamos assim, mais sérios, é só colher passagens que parecem um pouco aforismáticas: “Quem viaja é impelido para o futuro.” (p.25); “– […] deveríamos ter escutado nossas mães e estudado. Desde que o mundo é mundo que o livro é mais leve que a enxada.” (p.238); “[…] nenhum objeto é capaz de atiçar ou produzir um desejo. Ao contrário: é o desejo que, em seu movimento de dispêndio, torna desejado um objeto, como uma flecha que só procura um alvo depois de lançada.” (p.342); “[…] quem está cheio de si fica vazio de todo resto.” (p.362).

Quanto a mim, prefiro imagens assim, hilariantes, hiperbólicas, encharcadas de humor: “[…] parecia excessivamente sério, mas era a seriedade de um javali mijando sob a luz fosforescente.” (p.238); “[…] o álcool ajudava a destravar sua língua e até ali já bebera cerveja suficiente para inundar a Mongólia, isso sem contar a parte que Mulligan bebeu, a qual daria para alagar, senão o Vietnã, ao menos a região norte do Vietnã.” (p.272)

O leitor, afinal, mesmo morrendo de tanto rir, deverá reconhecer que está nas mãos de um bom assassino, ou “assassigno”. como diria o poeta Márcio Almeida. Tadeu Sarmento não se furta de, à maneira dos pós-modernistas, dar sua pitada metalinguística, como na p.214: “Não existe relação hierárquica entre leitor e escritor, Belino pensava, já que ambos caminham inseguros sobre o mesmo campo minado. Só que em horários diferentes, Belino completou para si mesmo e, ainda que se sentisse perdido, pois, a literatura só atrai os nostálgicos, os exilados, os que não se sentem bem em lugar algum, salvo no rio irreal dos parágrafos de um livro, Belino e Graham Greene se encontravam na mesma página, dançando desprotegidos, de patins, sobre pistas de gelo, ou atravessando, vendados, numa corda bamba em dia de vento, cada qual com seu salto quinze, pontudo.” E, mais adiante, quase no apagar das luzes de sua lúcida obra, ainda vem com esta: “Pois não estamos escrevendo ficção. Tudo o que descrevemos aqui aconteceu, só que mais ou menos. Mas mais para mais que para menos, segundo a escola Kurt Vonnegut para picaretagem & piano. O problema é que tudo que aconteceu tem um tempo e memorizar, no limite, é de fato polir. A imaginação é uma memória polida, aparada em suas arestas, pronta para ser recontada.” (p.376)

Queria rosetar mais ou menos assim. E, depois de vampirizar o texto do Tadeu Sarmento, volto aos versos da balada do vampiro curitibano: “ó curvas ó delícias/concede-me/ essa ruivinha que aí vai/a doce boquinha suplicando beijo/ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem”.

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

A torção do cotidiano pela profundidade poética, em Garrafas ao mar, de Adriane Garcia

Por  Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

Em Garrafas ao mar (Penalux, 2018), novo livro de poemas de Adriane Garcia, a poeta faz do mínimo o transbordamento afetivo de todo o mar, como se nele a linguagem se afundasse em profundos e nobres segredos. O êxtase do mar está cheio de mensagens cifradas, fugindo do óbvio minúsculo das superfícies. A profundidade em Adriane Garcia é seu código para as letras grávidas de luz e sombras. Lembro-me aqui de uma frase de Nietzsche, com quem Adriane dialoga num dos poemas: “A consciência é uma garrafa vazia num oceano de afetos em maremoto.” E numa das epígrafes do livro de Garcia, encontramos um Mario Quintana filosófico a trazer para nós a força do poético: “O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar/Quem a encontra/Salva-se a si mesmo.” A poesia é nossa salvação em meio ao caos da humanidade, parece nos dizer a poeta aqui em questão que busca a utopia longínqua do poético como ultrapassagem da crueldade que assola nossa sociedade com a violência, as guerras, a fome.

No poema que abre o livro, “Prozac é na farmácia”, descobrimos como o inusitado surge no cotidiano, como se quebra a lógica do real pela poesia nova e original: “Minha poesia/Se jogava da escada”. Em “O senhor tem fogo”, temos uma heroína contemporânea, um diálogo com a história. Nela, o contemporâneo forma um diálogo com a tradição, trazendo o passado para o frescor do presente. A Joana francesa se transforma com a linguagem americanizada, “a dark”, traduzindo o jogo com as palavras, o obscuro, a escuridão, o implícito é revelado pelo fogo da explosão do claro e explícito, a luz e a sombra se conjugam num abraço pleno de beleza e mistério. O que se esconde e o que se mostra é uma das armas secretas de Adriane para driblar a concisão de seus poemas, que caminham desde o poético, o cotidiano e o prosaico, deixando o enigmático para as invasões abarcantes do leitor.

Em “Excesso de sol”, temos a desconstrução do bíblico pelo viés do lírico. Garcia não se enaltece apenas pela luz, pelo claro e ofuscante, a obviedade sofre uma torção no real, nos deixando o gosto do que se esconde sobre suas dobras, no mistério do que é treva e infinitude: “Jamais um homem/Ou um anjo/Poderia olhar diretamente/Para Deus”. Em “Constrangimento”, a luta corporal entre estar e ser mostra sua dose de ironia e sarcasmo. O sujeito em sua essência, o domínio do “eu” não se encontra e completa sob a transitoriedade do “estar” à beira do precipício. Garcia produz uma torção no cotidiano que é dilatado para que nós enxerguemos melhor. Seus poemas curtos têm grande intensidade de carga expressiva, fazendo valer a máxima poética.

Não só o poético, mas o sagrado e o mítico irrompem de sua poesia magistral, fazendo uma Iemanjá se molhar na podridão de uma baía, criticando a poluição e o caos urbano. Além do religioso, não poderia deixar de comparecer em sua arte a metalinguagem tão desgastada na contemporaneidade em imagens banais e triviais, mas que em, Adriane Garcia, ganha contornos ricos e inusitados. Na sua poesia que contrasta fala e faca, temos os jogos com as palavras semelhantes na sonoridade, mas diversas nos sentidos, produzindo um labirinto de harmonias contrárias. O substantivo concreto “faca” produz abstrações a partir do corte enviesado, fora do padrão exato, fazendo nascer a “faca-metáfora”, que sangra, faz doer a pluralidade dos sentidos. O tradicional, em Garcia, é ressignificado o tempo todo pelos olhos do presente da poeta anfíbia e plural. O fogo-fátuo do instante produz suas eternidades.

Adriane Garcia tem um vasto conhecimento, passando da poesia, da pintura, do sagrado, do biológico, da medicina e da tradição anterior. Em “O coelho e a tartaruga”, retoma a moral das fábulas, a partir de Esopo e La Fontaine. Enquanto o ódio é rápido, o amor é devagar. Assim, temos o gênero narrativo dentro da poesia, misturando a prosa e o poético. Enquanto em Clarice Lispector, esta trazia a poesia para a prosa, Adriane, com plena liberdade e força criativa, traz o prosaico para dentro da carne poética. O multiuniverso de conhecimentos de Garcia nos mostra seu pleno domínio de saberes diversos e seu livro é uma miscelânea dos conhecimentos mais profundos sobre cada assunto. A fábula é um gênero enxuto, casando-se bem com a poesia desta poeta por ora aqui apresentada. Em sua poesia há a sabedoria mais sublime, entrecortada pela sabedoria popular, o coloquial, o livre e espontâneo.

Adriane Garcia também revela o sofrimento e a fragilidade de nossos corpos. A doença comparece. Ela faz uma análise cirúrgica e bem detalhada. Podemos ver num de seus poemas “Ostea porosa” como a dor ganha sua dimensão expandida a partir da repetição, mostrando a gradação do aspecto frágil de nosso corpo, que apesar, da elevação grandiosa do poético, nos expõe a fraqueza que se contrapõe ao dom imortal da escrita. Em “Inadequação”, temos um diálogo com nosso poeta maior, Drummond, que em “A flor e a náusea”, revelou a força do poético no chão de nossa realidade, o que Adriane Garcia nos apresenta tão bem nas entrelinhas fiáveis de sua teia poética: “Saber que há flores/Estando onde só há/Deserto.” Em Adriane, o fabular, o féerico e o mítico irrompem do chão do real, trazendo seus perfumes num deserto de silêncio e estagnação. As sereias vão transmudando a realidade que é perecível, como os “enlatados”. Estas inadequações na poesia de Garcia nos expõem os contrastes precisos e certeiros, como pregava um dos homenageados de seu livro, o pré-socrático Heráclito, através de sua “harmonia dos contrários”, a completa junção entre o arco e a lira.

O transbordamento da imensidão do mar em contraste com as pequenas garrafas hermeticamente fechadas revela o encontro desta riqueza dos opostos, que encontramos na poesia impactante de Garcia: “Julgava-me uma sábia/Que tinha a idade do mar”. Este em sua profundeza abismal revela segredos e dons poéticos que a poesia verdadeira de Adriane nos apresenta em frascos encantados de memórias e confissões. Por vezes, em algumas de suas poesias, temos o tom confessional do trabalho da poeta que se derrama neste mar vasto da beleza. Estes contrastes comparecem em sua poesia, que mescla o bíblico, o mítico, o cotidiano, causando um impacto em nossas retinas “fatigadas”. Ela mistura um vocabulário chulo, por exemplo, ao romântico e sublime, desconstruindo a poética elevada pela revelação do caos cotidiano. Ela diz em “Poético”: “Da puta que o pariu da noite diáfana”.

Este encantamento das coisas contrárias, das similitudes de coisas distantes, mostra por outro lado seu desencantamento em que as coisas devem ser nomeadas por sua identidade: “E pau é pau/Pedra é pedra.” Com as metáforas para o suicídio produz os enigmas do ser e seus deslizes: “Já matei várias de mim/E umas se mataram às outras.”. Temos até mesmo a desconstrução da figura do poeta ideal, com a imagem do poeta “torto”, maldito em “Inútil unção dos enfermos”: “Jogue água benta no poeta/E verá/Onde há fumaça/E fogo”. Além dos assuntos poéticos, Garcia não deixa de refletir sobre nossa realidade cruel, como o sofrimento das crianças, a partir da fome e das guerras. Faz um poema dedicado à Marielle Franco, mostrando o grito de nossa liberdade, que a luta sobrevive mesmo tendo o caos para nos amedrontar. A desilusão com os vivos a faz gostar mais do reino dos mortos, onde não imperam os vícios e paixões, mas o “Zero” e o silêncio. Por vezes, o tom confessional da poeta faz lapidar as entranhas de dentro do ser, como em “Chistiane F”. Em certas análises de nossa realidade pútrida, como ver o belo em meio à podridão? Nestes momentos, sua poesia me faz lembrar da linguagem escatológica de Augusto dos Anjos que revelava o feio e o asco em meio à beleza de seus versos. Adriane Garcia consegue a difícil proeza de revelar a violência e a crueza da realidade com a fina flor da poesia.

Os jogos de linguagem são perfeitos em sua poesia. Temos, por exemplo, o jogo entre o gramatical e o biológico numa criação inusitada, conjugando palavras e espécies, como em “Genoma constrangedor”: “Eu/Tu/Ele/Nós/Vós/Eles/Somos/Da mesma espécie”. Além dos jogos de linguagem, encontramos um trabalho de reescritura do passado, como podemos ver em “Ecce homo”, onde a poeta só consegue entender a frase que Jesus disse –Ama ao próximo como a ti mesmo – pelo olhar de Nietzsche que dizia – Torna-te quem tu és. Dessa forma, o sou é espelho do outro. Só conseguimos nos enxergar pelo olhar do outro. Em suas poesias amorosas, encontramos o mistério do amor que não tem explicações e respostas fáceis, como em “O morador”. Encerrando o livro, temos o poema-título de sua obra, que reflete sobre a morte das baleias e o mistério das mensagens que nunca se abriram na vastidão do mar. O poema ainda fala da infância da poeta: “Sim, eu tive baleias na infância”. Portanto, em Adriane Garcia, encontramos uma poeta madura, que domina a urdidura poética, causando impactos inusitados nos leitores. Sua poesia versátil, completa e plena de sentidos nos conduz à imensidão do mar e suas profundezas, ganhando cada vez mais espaço no cenário da poesia brasileira contemporânea.

A literatura imprescindível de Philip Roth – Leitura de Casei com um comunista

Por Adriane Garcia

O romance Casei com um comunista, de Philip Roth (Cia das Letras, 2000), tradução de Rubens Figueiredo, conta a história de Ira Ringold, narrada pelo conhecido alter-ego de Roth, Nathan Zuckerman. Nathan conhecera Ira na adolescência, quando Ira já era um militante comunista linha dura. Décadas depois, ao se encontrar com o professor Murray, irmão de Ira, Nathan toma conhecimento do fim da história de seu ídolo nos anos de juventude. É essa história que Philip Roth nos trará em 422 páginas.

Para além da trama que se passa nos anos de macarthismo, da perseguição política aos comunistas, a “caça às bruxas” dos anos 50, nos Estados Unidos da América, Philip Roth traz ao leitor, neste livro, um verdadeiro tratado sobre política e literatura, sobre liberdade e disciplina, liberdade e desapego e sobre ideologia e morte. Sobretudo, do que Roth falará e deixará claro, na composição de seus próprios personagens, será sobre a complexidade individual, o antagonismo humano.

Ira (um astro de rádio em ascenção) é o comunista ferrenho que se casará com uma atriz de sucesso, a rica e famosa Eve Frame, escravizada emocionalmente pela filha Sylphid. Entre a ideologia comunista e a prática burguesa, a vida de Ira Ringold e daqueles que orbitam em torno de sua história, habilmente mostrada por Roth, é o retrato com o qual o autor demonstra a potência dos antagonismos que há em cada um de nós, o fosso que existe entre aquilo que acreditamos e muitas vezes pregamos e a forma com que agimos. À exceção do personagem O’Day, que tem absoluta consciência de que para não se perder de si é preciso estar num quarto “cela”, num quarto sem nenhum bem-estar além de uma dura cama para dormir e algo para ler e comer, todos os personagens de Casei com um comunista são feitos de complexidade e incoerência (esta a coerência humana). Mesmo nos personagens que mantêm uma conduta mais condizente com a sua crença, como o caso do professor Murray, por fim, o que vemos é a grave presença da sombra de um arrependimento. Roth chega à tensão de construir sua personagem Eve Frame, uma mulher invejada, infeliz na vida e no amor, uma judia antissemita.

Da página 288 em diante, o que o leitor tem é a riqueza da discussão sobre o fazer literário, a reflexão exposta do fazer artístico se imbricando na própria trama, o professor Leo Glucksman trazendo o paradoxismo no próprio discurso, pois que, como todos, acha sua verdade superior às outras. E, por fim, a magnitude de uma obra que pensa o ser humano e a humanidade, sem condescendência com qualquer grupo, e que se pergunta o que, afinal, fazemos com os nossos erros; qual o sentido de nossas próprias histórias, individuais e coletivas, diante da morte.

Um livro imprescindível, cujo compromisso é apenas com a literatura.

“ – Arte como arma? – disse ele, a palavra “arma” carregada de desprezo e ela mesma uma arma. – Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado da coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço “do povo”? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer se rebelar contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? Então não lute em favor da classe trabalhadora. Eles vão se dar muito bem na vida. Vão se empanturrar de carros Plymouth até seu coração se fartar. O trabalhador vai dominar todos nós – da estupidez deles, vai jorrar a lama que é o destino cultural deste país vulgar. Em breve teremos neste país algo muito pior do que o governo dos camponeses e operários. Você quer uma causa perdida para defender? Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América que você está do lado da palavra! Esta sua peça é um lixo. É medonha. É revoltante. É lixo grosseiro, primitivo, tosco e propagandista. Ela tolda o mundo com palavras. E esbraveja aos céus e terras as virtudes do autor. Nada produz um efeito mais sinistro na arte do que o desejo do artista de provar que ele é bom. A terrível tentação do idealismo! Você precisa alcançar o domínio sobre o seu idealismo, sobre a sua virtude, bem como sobre o seu vício, o domínio estético sobre tudo aquilo que o impele a escrever, em primeiro lugar – a sua indignação, a sua política, a sua dor, o seu amor! Comece a pregar e tomar posições, comece a ver a sua perspectiva como superior às outras, e você é inútil como artista, inútil e ridículo. Por que escreve essas proclamações? É porque olha o mundo em volta e fica “chocado”? É porque olha o mundo em volta e fica “comovido”? As pessoas sucumbem muito facilmente e fraudam os seus sentimentos. Elas querem ter sentimentos prontos, e então “chocar-se” e “comover-se” são os mais fáceis. Os mais burros. Exceto em casos raros, senhor Zuckerman, o choque é sempre falsidade. Proclamações. Na arte não há lugar para proclamações! Tire essa sua adorável merda do meu escritório, por favor.”

(Diálogo entre o professor de arte Leo Glucksman e seu aluno Nathan Zuckerman, p. 288 e 289)

***

Casei com um comunista

Philip Roth

Tradução Rubens Figueiredo

Cia das Letras

2000

Aulas de olhar de novo – Uma leitura de Fábulas portáteis

Por Adriane Garcia

Por esta semana, estive lendo o livro Fábulas portáteis (Patuá, 2016), de André Ricardo Aguiar. Minto, por esta semana, estive com um portal nas mãos, cujo formato era de livro, mas, na verdade, o que eu fazia era atravessá-lo, nos tempos intermitentes em que havia tempo para ler; atravessava-o e me dirigia (era dirigida?) para lugares, interior de objetos, e situações muito insólitas.

André Ricardo Aguiar, seja na sua poesia, seja na sua prosa (repleta de poesia), é um autor da imaginação. Seu cérebro, quando escreve, pensa na rotação infantil, mas utiliza todas as ferramentas que o adulto lendo (Cortázar, Kafka, Ionesco, Becket…), aprendeu. O resultado é um trabalho inventivo, lúdico, potente, que, parecendo brincar, revela as várias facetas da vida, e elas não são todas alegres.

Há um certo disfarce nos contos e crônicas de André Ricardo Aguiar, uma espécie de filtro sobre filtro, camadas. Por baixo delas, por baixo do espanto, Aguiar está nos dizendo que a vida é muito pouco se, como nos ensina Cecília Meireles, não for reinventada. Talvez seja mesmo insuportável.

O livro tem oito partes, intituladas Sofá, Despertador, Ovo, Cama, Chuveiro, Escada rolante, Tamanduá, Sombra. Mas o leitor não pense que o sofá, o despertador, o ovo, a cama, o chuveiro, a escada rolante, o tamanduá e a sombra são os nossos velhos inertes conhecidos assim nominados. Claro que não. Os contos que compõem cada parte revelam uma criatividade capaz de animar as coisas inanimadas e fazer cenários e objetos tornarem-se protagonistas de histórias.

“Despertador

Pequeno terremoto sonoro, estojo onde se guarda o susto acionado por hora marcada e violento enfarte de seu mecanismo lógico-neurótico que pode ser desativado por sistema de travamento ou súbito murro e palavrões.” (p.31)

Entre o insólito, o terrível, o humor, o trágico, o mistério e o sonho, Fábulas portáteis leva o leitor a olhar para a realidade com olhos de primeira vez; olhar que só é comum nas crianças e nos poetas. O livro de Aguiar é um convite ao mágico e, ao mesmo tempo, por oposição, a uma reflexão sobre a realidade e seu deserto. O que Aguiar faz neste livro, para além de nos divertir e assombrar, para além de nos transformar em projetores de filmes surrealistas que se passam dentro de nossa própria cabeça, é que nos perguntemos:

Quando foi que perdemos isso? Quando foi que, de modo tão infeliz, crescemos? Quantas vezes nos deixamos esquecer da nossa capacidade de ver através dos espelhos?

Um livro, sobretudo, delicioso.

Composição infantil

Eu capturava réstias de sol com vários espelhinhos; consegui guardar uma delas, sem o consentimento da lua, altas horas da noite. Em compensação, na manhã seguinte, vi uma réstia de sombra, de sol apagado.

Eu inventava doenças imaginárias. Uma vez peguei febre pelo cabelo. Causava arrepio e palavras que saíam de mim que ninguém entendia. Na verdade, causavam Intendimento, com i mesmo. De outra vez, fui buscar num quarto lotado de fotos antigas uma doença chamada Mnemonia. Lembrava de coisas da minha vida que não tiveram tempo de acontecer, mas que aconteceriam se eu tivesse mais tempo. Com doze anos, lembrei o suficiente para criar a história de três cidades, incluindo moradores, genealogia, etc. Mas a doença que mais me derrubou foi susto familiaris. Eu me contagiava de tios, primas, avós, tudo dos séculos de trás e em cada tosse ou espirro me nasciam mais parentescos.

As senhoras, ao fim da tarde, varriam folhas e formigueiros. Os moços varriam conversas e causos. O rio varria a água. A tarde varria o sol. Só eu vivia nos invernos da casa, contando quantas formigas, quantas gotas d’água fugiam para o indefinido. Minhas ocupações do ócio levavam horas. Pensava em sofás que sofriam de asma, almas do outro mundo dentro da cisterna, punhos de redes que esmurravam paredes.

Penso que adoeci de vida, quando nasci.”

(p. 105/106)

***

Fábulas portáteis

Contos

André Ricardo Aguiar

Ed. Patuá

2016

Caótico para retratar o caos – Uma leitura de Arame farpado

Por Adriane Garcia

(…)

É certo que nasci para nada e nascer para nada é libertador:

nascer para nada não me exige títulos,

não me assinala vencimentos,

não subtrai o que sou.

(…)” p. 38

Conheci o trabalho de Lisa Alves pela internet. Li alguns poemas da autora, espalhados por blogs e revistas deste infinito universo virtual. De um poema que lia, era levada a outro, motivo pelo qual, fui em busca da poeta e seu livro Arame farpado (Lug editora, 2015), cuja primeira crítica eu já havia lido no recomendado A nova crítica, de Sérgio Tavares.

O que havia me chamado a atenção no trabalho de Lisa era a linguagem tão contemporânea, direta, aliada a um vocabulário rico (sem ser, de forma alguma, anacrônico) e cheio de referências (literárias, históricas, geográficas, cinematográficas…). Ao mesmo tempo, uma rebeldia e uma coragem. A rebeldia de assumir o mundo que é o mundo e uma coragem de denúncia e de reflexão sobre o caos. Ao encontrar o livro, vi que essas características acompanhavam toda a sua coletânea de poemas.

Arame farpado, na própria forma, é um tanto irregular. Até mesmo o ritmo, a maneira de utilizar ou não estrofes, espaçamentos, leva, ora a momentos melódicos circulares, ora a momentos sincopados. No princípio, tive mesmo um incômodo, alguns de seus poemas, abertamente políticos, poderiam beirar o panfletário – mas ela sabe não atravessar a linha tênue – há algo que foge um tanto do que nos acostumamos (apesar de todas as vanguardas, hoje antigas) a considerar como “limpo”, “lírico”, na poesia “correta” e tantas vezes insossa. Mas a verdade é que Lisa Alves faz em Arame farpado um retrato, um grito, absolutamente coerente com o país onde escreve (a terra do sol de Glauber), com o mundo que chega à sua percepção, à nossa percepção, o mundo terrível dos atentos. Como a poesia, estando viva, não se sujaria com um mundo destes? Para que serve uma poesia que não tem consonância alguma com o tempo em que é escrita? Um bom livro nos faz perguntar muitas coisas.

Com inteligência e sensibilidade, Lisa Alves nos leva à viagem insólita de pensar e ver o planeta que habitamos; muitas vezes, faz isso de modo inesperado – sujo e exuberante. Sua liberdade de elaboração (aliás, liberdade é uma palavra-chave na poesia da autora), bem articulada ao seu/nosso tempo, pode tanto nos colocar nas Minas do Barroco, cheias de conservadorismo e tradição, quanto na Faixa de Gaza, onde crianças palestinas são assassinadas por Israel, com a mesma frieza e pragmatismo com que judeus foram assassinados pelo Nazismo.

Na geopolítica, sua crítica é direcionada ao capitalismo e seus tentáculos, como a manipulação midiática ou o uso político-social das religiões, não escapando orientações de esquerda ou de direita, ou mesmo a imundície de Brasília. O espírito em Arame farpado é anárquico. No mesmo cenário, Lisa utiliza-se de seus poemas mais confessionais para falar de amor e, por esta via, expressar-se quanto às questões de gênero, a condição da mulher e sua ancestralidade, a condição da mulher homossexual e o machismo em nossa sociedade. A vida e a morte não poderiam escapar à sua poesia. E não escapam.

Construída com um discurso farpado, agressivo, de resistência, há um tipo sutil de delicadeza nos versos de Lisa Alves, muito bem retratados pela capa de seu livro. Palavra de aço, vontade drummondiana de ir de “mãos dadas”.

[o descobrimento]

Eles caminhavam em busca de uma terra

com rios, lagos e água abundante.

Eles defendiam-se do sol com tecidos

especialmente feitos para proteger a pele da invasão ostensiva dos raios.

Eles construíam casas em qualquer local

propício para uma nova cerca.

Eles não cansavam, eram dromedários

capazes de seguir em frente até darem de cara com o final.

Eles não choravam, eram hienas, seus

lamentos pareciam risadas com o poder

de afastarem os inimigos de perto.

Eles não se machucavam, eram elefantes

capazes de segurarem um dos seus em

qualquer momento de dificuldade.

Eles não fugiam dos obstáculos, eram macacos,

pulavam e suportavam qualquer tipo de superfície.

Eles mergulhavam no mundo mais profundo,

eram peixes e desbravavam qualquer oceano

em busca de alimento e abrigo.

Eles nos descobriram e até hoje não encontramos

o antídoto certo para esse resfriado.

[o tear de gaza]

ATO I: A AGULHA

Contaram que

em Gaza duas crianças

brincavam de tabuleiro

quando a Estrela de Seis Pontas

expediu um míssil que emudeceu a casa inteira.

(vermelho, cinzas e fogo)

A mãe (em seu tear) acolheu

a notícia através do padeiro e logo após

cravou uma agulha no coração (repetidas vezes)

enquanto proferia uma maldição repleta de pranto:

Oh, filhos de Israel!

Não haverá espigões para resguardarem vossas rosas.

A agulha que me lança

nos braços dos meus antepassados

derramará veneno sobre

a ceifa futura e

teus filhos não terão mais mãos

para brincarem com tabuleiros de usura”

Dizem por aquelas trincheiras que

para cada filho assassinado em Gaza

há uma maldição professada contra os seus inimigos

até o ultimar de uma quinta geração.

ATO II: SILENCIADORES

Pelo cadáver lançado

a mais de cem metros.

Pela pegada de sangue

da mãe rebelada.

Pelos filhos escoltados

ao futuro orfanato.

Convocamos um minuto de revolta por Gaza,

pois o silêncio, até hoje, só serviu de munição.

ATO III: ANTROPOFAGIA

Dois foguetes

para cada “Não” inconfesso.

Devorarei os ossos de meus filhos

quando não sobrarem mais suprimentos e

para que não se tornem iguaria basilar do Inimigo.

Insurgente alma,

durma nessa carne

nomeada corpo

e não desperte mais pelas manhãs – nem labute

ao lado de nossos fantasmas.

Gaza, eu não desejo mais nenhuma noite.

[non cacare nec abieris rubus]

Ergo uma religião que sangra metáforas.

Tracejo a pele com a pena que pagas por viver.

Favoreço toda crença em figuras inertes e inanimadas.

Minha cabeça gira 360 graus e flutua em nuvens artificiais.

Silício reconstitui meu útero – menstruo alianças binárias.

Fluir é desastroso na passagem para o nível gasoso de ideias coletivas.

Permaneço então na base de uma pirâmide de palavras obsoletas que

não cagam e nem desocupam a moita.

***

Arame Farpado

Lisa Alves

Poesia

Lug Editora

2015