R E S E N H A

INVENTÁRIO DE UMA AUSÊNCIA

                 Ronaldo Cagiano

 

“A instrução da noite” (Ed. Rocco, 2016, 144 pgs, R$ 19,50), novo romance do premiado escritor Maurício de Oliveira, nascido em Campinas e radicado em Brasília, remete-nos àquela sensação catártica e dilacerante de “Carta ao Pai”, de Kafka, no qual, em clave autobiográfica, o autor tcheco faz um doloroso percurso pelo passado de silêncios e ausências na relação com um pai autoritário e que relegou o filho a uma vivência marcada pela frustração e pelo descrédito.

Ainda que aqui o autor paulista trate de matéria ficcional, seu personagem também guarda (in)tensa analogia com esse mesmo território penoso e dilacerante, porém alvejando uma convivência marcada por um espectro da ausência e silêncio tão torturante quanto uma presença totalitária e demolidora.

O enredo centra-se no retono de um pai após anos de abandono da família, quando retirou-se sem qualquer explicação, deixando como rastro o luto de uma escuridão abissal na alma dos filhos, uma sombra a camuflar a razão que teria provocado essa ruptura, desencadeando uma eterna incógnita para esse passivo afetivo.

Tão forte (e desconcertante) quando o desaparecimento foi a reaparição, ambos abruptos, deflagrando um estado eruptivo de sentimentos contraditórios, que emergiam no caudal de lembranças e recordações, em razão do fosso causado pelo isolamento.

O personagem central (não nomeado no romance) é um filho que tomou as rédeas da casa tão logo o pai defenestrou-se de suas vidas. Recorrendo ao fluxo de memória e consciência, ele vai deslindando, por meio de carta endereçada à sua irmã Teresa (que há pouco também fugiu de casa), as mágoas e a opressão interiores provocadas por essa falta paterna, responsável pelo imenso fosso em suas vidas, dilaceradas por esses anos de incorrigível vazio, em que a família se desconstruía sob a força imponderável de uma realidade sufocante.

Alternando tempos cronológicos com o viés psicológico, o autor construiu um poderoso relato centrado do reencontro entre pai e filho,  cuja carga sentimental é explorada com extremo rigor e com a destreza de linguagem fluente e densa. Há um desencadeando de reminiscências torturantes e recomposição doída de cenas, flashes e episódios da infância, quando o fantasma dessa orfandade em vida cada dia os assombrava mais e impingia de luto a casa, tutelado por outras ausências. De um lado, a da própria mãe, insularizada em sua própria apatia, abduzida pela televisão; por outro, a da esposa Alice, com as quais tentava compartilhar seus sofrimentos, porém,  alienadas dessa dor, mais ajudavam a projetar esse estado de incomunicabilidade e profunda melancolia.

A volta do pai não reduz as fundas cicatrizes esculpidas pelo golpe da sua partida e, ao colocá-los, ao final, frente a frente num encontro (ou ajuste) de contas numa mesa de bar, expõe, de forma visceral, as fragilidades íntimas de um e a penúria financeira e material de outro. Nesse ponto  a narrativa vai se amalgamando com peculiares recursos formais, quando o autor injeta períodos sem maiúsculas ou pontos finais, como numa visão fragmentária do próprio caos instalado, lembrando-nos o processo criativo peculiar de um Lobo Antunes.

Durante o desenrolar da história percebe-se um tom claustrofóbico, mas intrinsecamente humano, em que o autor explora com sutileza a severa angústia que perpassa aquelas vivências frustradas e sem volta, tentando juntar os cacos do espólio de uma unidade inconclusa. Trata-se de um romance que mergulha na brutalidade poética própria das circunstâncias vividas pelo protagonista, em que o caos interior atinge um momento de rara e trágica beleza. Algo que se assemelha aos romances de atmosfera, em que menos interessa o enredo e mais a força de uma linguagem que comunica o desassossego e o desconforto, assim como nos legaram uma Clarice Lispector, uma Virginia Woolf ou um Raduan Nassar que, como Mauricio de Almeida, chafurdam nos escuros labirintos existenciais com o facho luminoso e candente de uma ficção cirúrgica e penetrante, para inventariar as perdas e danos decorrentes dos tempestuosos conflitos e relações, de pequenos dramas ou de grandes dilemas em que personagens são condenados e um eterno naufrágio.

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Uma ideia sobre “R E S E N H A

  1. adrianegarcia2

    Fiquei com enorme vontade de ler. Parece muito bom mesmo o desconcerto todo desta situação descrita no livro. Obrigada, Cagiano. Excelente.

    Resposta

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