O VIZINHO

 

Antônio Mariano

 

Um palmo de parede apenas os separava. Tão pouco era suficiente para mantê-los distantes.

Ela bem que queria uma aproximação, mas ele agia como se esta não fizesse parte de seu universo. Os cumprimentos de bom dia, boa tarde e boa noite eram sempre autômatos, secos, num tom invariável, metálico mesmo, parecendo gravação. O que a intrigava toda vez que o encontrava.

Como ele parecesse indiferente a tudo em volta, aos poucos ela passou a observá-lo sem a menor discrição, de perto, nos seus pormenores. Ele não traía o mínimo desconforto com isso, permitindo que ela cada vez mais o investigasse, mas pouco descobrisse sobre a história daquele homem que chegou de um dia para o outro no apartamento vizinho. Tal era a forma silenciosa e invisível dele agir, que ninguém viu movimento de mudança e arrumação do imóvel para acomodá-lo.

Morava só, era certo, pois além dele ninguém nunca viu alma viva, anúncio de voz nos cômodos que ele ocupava. Nem mesmo ao telefone ele parecia falar porque barulho nenhum vinha do lado. Ninguém ouvia sons de passos, arrastar de cadeiras, coisas caindo e se quebrando tão comuns nessas habitações de nula privacidade. Ele não tinha empregada, faxineira. Não recebia ninguém.

Os demais vizinhos se acostumaram com os hábitos dele, a ponto de esquecerem da sua existência, retribuindo em igual moeda o que ele naturalmente fazia desde que ali viera morar. Ela, não.

Quando estava em casa sua mente era dominada por uma série de suposições a respeito do vizinho sinistro. Não parava de pensar nele, imaginar a matéria humana de que era feito aquele ser misterioso. Cada vez mais sua vida era ocupada por ele, assunto constante no trabalho, nas mensagens eletrônicas que enviava a amigos e parentes.

Quando dormia sonhava com ele se desarmando, amistoso, convidando-a para entrar, tomar um café, um drinque. Acordava no meio da noite, imaginando o que ele estaria fazendo naquele momento, se adormecido, se insone, lendo, ouvindo música com fones de ouvido. Nada. Era como se todos os cômodos estivessem desocupados.

Algumas vezes reinou nela uma vontade incontrolável de vazar de furadeira um buraco na parede que desse para olhar os gestos cotidianos dele, em trajes menores, despindo-se, fazendo refeições, deitado no sofá. Mas não levava a termo a intenção por alguma reserva moral que resistia nela.

Até que um dia encontrou a porta do apartamento dele aberta. Não escancarada, mas ligeiramente aberta, uns cinco centímetros apenas afastando a porta da forra. Era a oportunidade que se apresentava para de uma vez por todas acabar com o mito, quebrar as fronteiras de aço que impediam o acesso a ele.

Não titubeou, forçou a porta. Diria qualquer coisa, tinha vários pretextos na ponta da língua para uma oportunidade como aquela.

– Licença, disse.

Nada ouviu de volta. Mas ele estava na sala, sentado numa cadeira, a cabeça pendida, a testa descansando sobre a mesa.

– Senhor, me perdoe entrar assim, a porta estava aberta.

Aproximou-se dele. Pensou que dormisse. Mas não havia som de respiração.

Teria passado mal e estaria desacordado? pensou ela. Teria morrido? falou em voz alta, o desespero fazendo-a sacudi-lo, a mãos duplas, pelo ombro.

Ato seguinte foi ouvir um barulho de engrenagem retomando o funcionamento, o som agudo dos velhos relógios automáticos quando eram acionados com movimentos bruscos, e o vizinho levantando a cabeça, a voz metalina e mal coordenada, querendo falhar:

– Seja bem-vinda, senhora. Bem-vinda, senhora. Bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda, bem-vin…da!

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