R E S E N H A

O MITO DA IMPOTÊNCIA REVISITADO

Ronaldo Cagiano (*)

Autor revelação e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2012 (na categoria estreante com menos de 40 anos) com o romance “Antiterapias” (Ed. Scriptum, BH,), nessa obra Jacques Fux realizou um trânsito onírico entre a memória e a invenção, mapeando a cultura e os valores judaicos a partir de uma história em que a vida foi sendo deslindada com requintes de fantasia e ironia.

Nesse projeto, percebe-se o intenso flerte com a filosofia e o humor, dialogando com as ciências (entre elas, a matemática e a psicanálise) em meio as inquietações metafísicas, para falar da relação de um personagem com um mundo povoado de valores e mitologias, numa espécie de percurso crítico sobre questões intrigantes da própria vida individual, com reverberação do inconsciente pessoal e coletivo, na esteira de um profundo mergulho no passado e nas próprias lembranças, culminando num estranhamento para o leitor.

Em seu segundo livro, “Brochadas” (Ed. Rocco, Rio, 2015), Fux busca aprofunda, com a mesma agudeza seu senso cri(p)tico e escrutinatório, já em outro cenário, o da masculinidade afetada, o leitmotiv para uma viagem, também filosófica, crítica e bem-bumorada, a um tabu tão explorado explorado pela piada e raro num tratamento literário, o da brochada. Nesse particular, o autor utiliza-se de topônimo judaico para criar um protagonista que busca entender suas trepadas inglórias, o Jacozinho, ao qual dá vez e voz para elencar os episódios brochantes ocorridos nas suas relações amorosas.

Para amalgamar o relato, o autor usou o precioso recurso das analogias históricas, que vão da Bíblia à Tora, do mundos da arte ao da política, em que exuma casos de brochadas de célebres e antológicas, de personalidades de todos os tempos e lugares, numa tentativa de demonstrar que essa débâcle sexual e essa falência inexplicável do tesão é mais comum do que parece.

Como nomeia o autor logo de entrada, “No princípio era a brochada”, numa clara alusão aos primórdios dessa tão decantada (e detestada) falha de desempenho sexual, Fux delineia seu romance intercalando a troca de farta correspondência entre o personagem e suas namoradas (ou vítimas de suas brochadas), com referências históricas e acadêmicas sobre o assunto, discussão que, muitas vezes, culmina em troca de farpas entre os antigos parceiros.

Num fluxo candente de e-mails entre Jacozinho e as ex-namoradas, vão desfilando situações inusitadas, lembranças, reminiscências de encontros (e desencantos), oscilando entre o desabafo e a autorreferência, que, ao fim, incorre num encontre de contas entre as partes afetadas. No caso, Agnes, Alice, Carla, Deborah, Juliana, Jacqueline, Leah e Sarah são as coadjuvantes acionadas por esse escrutínio desesperado do fálico (e falível) Jacozinho, as quais sentindo-se vítimas das revelações do personagem, que lhes comunica a escritura de um romance em que abordará a questão com suas confissões sexuais, acaba desencadeando reações de variado grau de insatisfação ou de contundente repúdio, uma vez que sempre atribui a elas a parcela maior da culpa pelo fracasso da virilidade.

Entre a ironia e o escárnio, o autor empresta à sua obra um debate peculiar, na medida em que realiza uma simbiose entre a inflexão científica e a sutileza do deboche, para tratar de um assunto espinhoso até nos consultórios de psicanálise, mas tudo permeado de uma linguagem intrinsecamente literária, que carrega sopros ensaísticos e inegável nível estético. Dos gregos aos contemporâneos, de políticos a artistas, ninguém escapa a essa minuciosa prospecção de casos no imenso aluvião dos corpos cavernosos que deixaram o candidato ao prazer literalmente na frustrante condição de machos de bandeira arriada.

Transcendendo o humor, a caricatura e a gozação, Brochadas ultrapassa as fronteiras da fantasia e da realidade e transforma essas “confissões sexuais de um jovem escritor num livro para ser levado a sério tanto quanto o trauma da impotência, porque trata de um tema que atravessa todos os tempos e lugares, num espectro amplo, que vai do social ao cultural, do político ao econômico, mas que continua movimentando o imaginário geral, como um eterno desafio para o homem comum e os especialistas na relação com esse passivo erétil que tanto atormenta os homens (e mulheres) na iminência de um coito frustrado (a libido em baixa), que nenhum Viagra é capaz de reverter.

Se o autor adverte ao leitor que “Tudo aqui é verdade, exceto o que invento”, também não é mentira que brochar continua sendo o momento crucial que coloca em cheque a supremacia masculina dainte de uma compulsória negação peniana e alimenta a angústia também feminina, mas que, com boa dose de humor e compreensão das razões psicológicas que culminam nessa sensação desagradável da de um homem declarar que “isso nunca aconteceu antes comigo”, pode ser vencida e enfrentada com espírito , sem pudor e com discernimento e também com uma boa dose de leitura, como a de “Brochadas”, em tudo, estimulante.
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(*) Escritor, autor de “Dicionário de pequenas solidões” (Ed. Língua Geral, Rio, 2006), “O sol ans feridas” (Dobra, SP, 2012) e “Eles não moram mais aqui” (Ed. Patuá, SP, 2015), dentre outros, reside em São Paulo.

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Uma ideia sobre “R E S E N H A

  1. adrianegarcia2

    Estou com o Brochadas lá em casa para ler e ainda não li. Ah, tempo que só falta, mil distrações, tantas inúteis; mil afazeres necessários. Enfim, sua resenha me lembrou que ele me espera, tanto quanto seu último livro, Cagiano.

    Resposta

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