Dois poemas de Mauro Gama

GERADOR DE TRÊS FASES
A Mauro Villar

1

Lateja. Você sente que lateja
além do corpo – entre o ausente
e a escuridão –
algo que em cal ou sal se re-
compõe e paira: algo tecido
de vento e movimento de cambraia,
pulsação. Lateja. Você sente:
sob um fundo de alçapão
uma presença – ou concha
– de algodão que
ali espera que palpita aquém
e além da vida – meio bicho
e meio búzio mar em som e
mar em sombra com seu dente
seu desenho
no deserto sua lã e seu
lábio no ladrilho. Você sente:
faz-se uma ponte entre o porão
e o sol o gargalo
da garganta e
o oceano. Mas lateja. Mas vive

2

e desde então vêm a ser
embaraços
os grudes de mel e gula
de fel e sede que se acumulam
ou na goela ou na baço.
Vêm a ser excesso
de pressa e fardo
até esses músculos de molusco
essa cafua de lua esse capuz
de caramujo: Você,
poeta mouro – e mínimo –
debatendo-se
entre o útero e a urna o
rosto e o rótulo o relógio
e a relva (ou o verão
e a víscera):
ostra em ácido nós nos nervos
válvula visgo voz
no exercício – vão?
– da travessia. Para quê? Para
onde,

3

se lateja você sente que lateja
adiante mais adiante a
projeção
o ultra o salto o leque
se abre – máximo – em suas asas?
Pois lateja. Você sente que lateja
e vai além da chuva
ou dos cabelos
entre a pelúcia do amor – ou de
seu mofo –
e se faz luz muita luz muito acima
dos comboios e dos campos das aves
e dos estofos dobras debruns
do azul:
algo – ou alguém –
de compassos e espaços
sem limites: luz e éter luz e
rio luz-paixão
que se desdobra
se amplifica
reconcentra-se
espirala
faz-se ventre faz-se ovo
faz-se fala
verso
parto
(de um nosso novo universo)
MANDO MEDO
A Emmanuel O Araújo

Os monstrengos verdoengos – com suas
capas e carapaças – estão em todas
as ruas estão trepados pelos telhados têm
olhos múltiplos e máscaras de mosca: às
vezes passam com suas tenazes para o ar
voltadas e onde eles passam – verdoengos –
tudo se põe a secar ou se decompõe ou só
se indispõe e esconde-se na terra. Os
monstrengos não se perturbam e se masturbam
com suas bananas de guerra. É
forte então o ruído de seus bramidos:
e eles próprios parecem fortes parecem
feitos de pedra de um sempre forte rolar
de pedras e pretas farpas da morte. Tudo
isso porém é falho e não diz bastante
dos monstrengos verdoengos: nesse instante
seu gozo é velho e esponjoso. Um ouvido
mais atento verá em todo alarido desses
monstrengos verdoengos uma espécie
de lamento – fruto de mútuo segredo;
eles têm medo verdoengos medos que se
espicham e incham nos seus cachaços de
aço (aparente, apenas): têm medo de insetos
ventos crianças espetos talvez ocultos
naqueles vultos que desconhecem. E tecem
muros farpados onde os ventos se embaraçam
e se estraçalham os alentos de mudança. Mu-
dança ou dança mesmo, somente ou o
movimento do novo. Ante cada furo
onde se mova o futuro os monstrengos verdoengos
mascam cegos seu segredo ou o agouro de seu medo

Mauro Gama em “Expresso na noite”

 

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