[voga a luz no corpo…]

voga a luz no corpo visceral
descola-se nos órgãos internos
os órgãos mexem-se para os órgãos externos que voam
de dentro por fora numa queda a pique
dos órgãos a planar noutros órgãos na periferia sai uma substância
inocente crua grave
loucas imagens concentram-se no movimento velho
imagens panorâmicas a morrer
asfixiadas e côncavas no sangue que se afoga no corpo
corpo em chamas queima-se sobre os espelhos
um jardim de espelhos que sopram cada dia
cada osso cada carne cada ferida cada cicatriz cada órgão dormente
e os espelhos ferozes fotografam a carne a alma
a luz é lenta perde-se neste poema
o poema fura a luz da luz
todo o corpo como um dom não escapa ileso ao seu esquecimento
ilimitado genial: luz atómica a palpitar no poema
o poema como um golpe em pavor
se mexe no medo à massa do sangue rasgando as entranhas
ou o poema não se move não se toca
cose-se à força ao grito ao gemido à invisibilidade das coisas
o poema corporal como desordem poema delicado renasce no dom
mas o dom é esquecer o que nos escapa docemente ao corpo
qualquer perdão é inocência
ou voga neste esquecimento e a nossa luz corporal morre eterna

 

filipe marinheiro, «noutros rostos», chiado editora 2014

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