POEMA ISTO DE ANDRÉ LUIZ PINTO

Pensei no início, como o vídeo comprova, que não daria para pô-lo em texto. Mas deu. Foram só cem exemplares. E ainda acho que aquela experiência vale.

PINTO, André Luiz. Isto. Posfácio de Marcelo Diniz. Espectro Editorial: Belo Horizonte, 2005.

 

“Não pense, mas veja!”

Wittgenstein, Investigações Filosóficas

 

Sem saber por onde ir. Por onde vai dar. Fechado. Definiu-se. Sozinho.

 

O que poderia ser aquilo que deseja? E o que poderia se tem? Interrogações estouram sua cabeça mas não a fazem explodir. Assim era. Assim fora. Sozinho. Sem definição. Apenas isto.

 

Das lembranças que teve, nenhuma ficou. Não sabe de nada, não cheira a nada, não pensa em nada. Quando nasceu. Quando vai morrer. Um ponto em branco. Sem altitude ou medida. Pelo que definitivamente sempre esteve: aquilo que não sabe.

 

Assim era. Assim foi. Sempre será. Sozinho. Sem definições. Isto. Apenas Isto pousado na inobservância de gênero ou qualidade. Apenas isto. Sem distinção. Apenas isto. Sem valer. Apenas isto. Por ser isto e nada mais.

 

O que ele pensara, não se pensou. Algo brota e não tem a menor qualidade. As lições existem e não aprendemos. Talvez porque elas não chegassem a ser tornar verdadeiras lições. Se foi além do vento em busca do sol. Ser apenas o que foi e o que estiver ao lado. Ele frente ao espelho.

 

Não custa nada deixar de ser algo. Alguma coisa é sempre indefinida. Alguma coisa não se sabe. Como interrogar as mãos? E os pés? E o sentido da vida?

 

Há sentido? Pensa isto ser verdade? Não sabe e não mede. A vida é a vida e pronto. Fez-se coisa e coisa já é. A vida começa onde se deu e termina quando se for. A vida pousa no coração. O coração bate, o tempo escorre. Isto sabe e não pensa. Por si mesmo.

 

Por isso, o ato de escrever. Por isso, sem rumo ou direção, que atingisse parte alguma: Isto sabe e Isto é. O que pensa e o que chega. E o que for até lá.

 

Pisar chega-se perto. Perto a perto, chega-se longe. Não importam distâncias ou metros, o que é avançar de um plano até um plano, voltar de um ponto a outro. Tudo a um palmo do braço. Só ele existe. Só ele é. Isto.

 

Ao pisar tão longe, viu-se no mesmo lugar. Nele mesmo. Era o bastante. Tomado pela forma que não pensou. O dia começa termina noite. Que são duas faces senão a mesma moeda?

 

Isto sabe. Isto viu. Isto lê. Sabe que a medida não cabe na mão. O ventre chegou à luz. Quase chorando.

 

Agora sim. Sem ponto de partida. Estrada sem entrada. Dirigir-se a um lugar sem saber onde. Quem define os corpos é a prática do sexo. Dessa maneira se conhece a polaridade. O basal deixou de ser chão. Faça o que bem quiser. Os pontos se foram. Polos se furam. Quem está em cima foi por água abaixo.

 

Quem está embaixo foi por água acima. Ficou quem ficou. Isto. É o que sobra afinal.

 

Ele sabe perfeitamente o que é. Ele é isto. Um corpo na multidão. Silêncio no máximo volume. A diferença entre duas tonalidades é a tonalidade terceira. Não deveríamos chegar. Quando não chegar é o que deveríamos. Saber que pariu.

 

Antes da mãe.

 

Não veio porque chegou. As estradas cortam lentas, premeditando círculos. Circuito de uma festa. Você vai se tivermos que ir. Você já sentiu?

 

Isto não lhe interessa.

 

O fato de caminhar, não caminhou. De não se levar, não se levou. Ficou sentado vendo o dia. Deixou de ser se um dia fosse. Sonhar alto custa caro. Não era o que eu queria. As rosas não nasceram. Que fazem essas pétalas no chão?

 

Abrir os olhos e ver. Escorria pelas paredes. Doía saber que o caminho despencava pelos risos de um palhaço. Essa virgem viagem. É preciso chegar. Mas o pensamento, a própria vida, Deus meu, nada adianta.

 

Alcançar alguma coisa não permite. Como atingir algum lugar se o único lugar é aqui? Partir do ponto ao ponto mesmo?

 

Exceto quando escreve. Correr palavras, se as letras, substrato comum, não passam de vinte e três. Discurso vai, discurso vem na mesma angústia. Mesmo dia. Escrever é falar da mesmice da morte. Crianças matam.

 

Escrever diz a mesma coisa de maneira diferente. Olhar a pedra. Oi-pedra. Um ato isolado no centro da solidão. Quem não entende. Todos podem ver o sol apagando, concerne ao escrito ser mais do que sol, luz, fogo nuclear ao dia.

 

Isto é dito ou escrito? Ei-lo, sem compreensão. Indo, quem volta? Sair de um ponto quando esse ponto é o ponto seguinte. Por caminhadas, pontapés, sapatos no chão, soluções simples de uma vida congestionada de trânsito e vício. Ruas como escolha.

 

Isto não sabe. Pisa e questiona. Pisa e revela através de portas inabitáveis. Se tão importante que abra, bem mais importante que entre?! Necessidades são coisas que queremos. Pensamos alcançar. Isto quer. Isto procura. Isto age. Isto tem.

 

Descobrir não é a tarefa mais fácil. Nem a mais impossível. Não é tarefa nenhuma descobrir, isto não faz. Fazer o feito, repetir a fossa inócua.

 

Sujeito e objeto: produto de uma causa. De coisa sem coisa. Onde sempre esteve. Sozinho. Estar, condição do que é. Isto-consigo porque não pode se afastar dele. Alguém que nunca separa: nós mesmos. Isto questiona: devo me levar até onde?

 

Ou não devo me levar para nunca. Lugar-pensamento: chega-se onde quer. Montanha ou vale, cidade ou campo, pedra, arco-íris, pequenas brechas onde se escondem ratos, por onde os ratos fogem. Entre pedras, atrás dos armários, em autofalantes, pelo céu

 

onde as ondas batem e repousam. Alta velocidade. Na cadeira de balanço, rodeando flores, andando de bicicleta, pela cozinha, com baratas, pratos e talheres.

 

Na sala de estar, no dia do trabalho, televisão aberta, atrás dos rádios, cantando, dizendo, no sexo, enquanto alguém, que não sabemos, goza.

 

Onde for, no lugar-pensamento que chegamos. Se chegar lá, Lá existe. Só existe o que vemos. Ler no espelho algo invertido. Deus não soube encontrar. Só encontra nisto. Isto, isto mesmo. Assim é a vida, nela mesma. As coisas no que são. Sozinhas, começam a partilhar de outra natureza.

 

Isto se lembra, tem lembranças. Lembranças de uma terceira pessoa. Viver é lembrar-se depois.

 

Toda misericórdia. Morrer é uma memória profunda. Como haverá o além, se atinge um único ponto, senão ele mesmo? Deixar interrogações no eco? Qualquer coisa que não esteja sozinha. Isto sozinho. Solitude acarreta solidão. Umbigo do furacão, imenso nada a nada. Peixes nadam. Tudo passa pela cabeça. Se ela existir.

 

Isto não pode ser partido. Daí solidão. A mão precisa de outra para abraçar, olhos que se enxerguem vesgos. Unitário e sólido. Ele é porque foi. Tempo e abismo se perdem. A desimportância de lembrar. A lembrança que restou é o presente. Futuro e passado estão dissolvidos no emaranhado da teia.

 

Ele está sozinho. Sente falta de si, fechado em si mesmo. Veias trancadas, lábios mordidos. Fechado por estar fechado, toda dificuldade é abrir. Isto não abre nem fecha. Ovo sem gema; coisa trancada e propícia a novas experiências, se o melhor é abrir os olhos, se o que resta é aqui. Isto. Sozinho.

 

Isto não enxerga. Não olha nem podem lhe ver. Seu mundo é assim. Isto não existe. Silenciado pelo grito. Pensando sem raciocinar. Isto é suficiente. Sol tendo um planeta-sol de testemunha; indiscriminação de coisas; nada a dizer.

 

Isto é coisa que define. Eis a lógica.

 

Onde o passo não chega, a visita não aprova. Ouço a resposta: um grito oco. Cada coisa em seu lugar. Não pode ser outro. Criar é morrer. Caso a luz não incida, sei que está sozinho. A esperança de compartilhar algo que não seja o dele. Certeza de que entre ele e a origem, nada existe. De que alguém se fez eco. Eco de outro. Gesto cuja mensagem te chama.

 

Peço perdão por ontem, pela página anterior. Pela nódoa do corpo, pelo corpo-zero. Por ontem e por hoje, na boca de Isto. Isto não tem boca, não vai a Roma, prefere aqui.

 

Tudo é insuspeitável, o silêncio lhe roga. Entre eu e Isto, não há mais isto. Ele comigo não há, seria apenas um peito dizendo sim. Um Isto ao avesso.

 

Somos dois. Não demos conta disso. Não há de ser Isto. Não me quero com ele. Ele de fora sou inteiro, luso, só trabalho.

 

Mas Isto tem fôlego e viagem. Passou por boas. Consigo. Não grita nem foge. Não ceifa nem dorme, seu movimento não ressoa. Isto não pode ser assim. Se Isto ressoa, é suado.

 

Voltei sem ele, sem consolo. A praia exausta das ondas secou. É uma noite interminável, um desafeto urgente, um pânico, onde as respostas desgovernadas sobem pela cabeça, espantam moscas, alimentam rugas, é um nexo

 

de Isto para consigo, pervertendo-se no que não era: aquilo. Aquilo, quando Isto entra de férias. Cansado de existir. Existindo porque não precisava. Pedira emprestado.

 

Isto é só voar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s