[bateu em mim um caçador…]

bateu em mim um caçador por me atingir.
o caçador corria muito rápido as quentes tardes, as glaciais manhãs.
era treinado.
permanecia no olfacto dentro.
guiava o volante redondo de uma camioneta por todas as estradas como uma flecha a sair do arco em veloz ideia de me caçar.

batia-me o volante
nalgum interesse pelo movimento mecânico do objectivo.
furtava com as mãos o volante rodado,
rodando a caça:
– as presas com dor,
as cores do ar infantis como um caçador extasiado.
ternurento às vítimas que engolia. furava às escondidas.

e o caçador parava e observava a luz da inocência.
sentia que me caçavam.
perseguia-me o louco caçador. tinha medo.
escapulia-lhe às mãos negras e velhas.
não me atingira.
ninguém sabia quem era o caçador.
silencioso caçador a correr pelas tardes e manhãs dominantes.

era um caçador que adorara romper corpos pequenos,
a sua masculinidade era falsa,
despenhava-se nas grutas da carne.
sorria falsamente caminhando sobre a sua sombra da tristeza.
mostrava-se meigo. amigo. virtuoso. alegre.
e eu compreendia-o atentamente.
assombrado pensa neste caçador inteligente. astuto como uma criatura da selva. mordia sem estender-se nas consequências.
e morriam algumas presas.
presas ao batimento das ideias convincentes.
ideias batidas pelas palavras.
palavras de assédio sujo.

– eu nadava de uma água para outra água,
como o meu corpo se estendesse ou prolongasse,
mergulhando a barriga debaixo das forças perturbantes de todas as águas juntas a estremecerem a cabeça caçada.

– e o caçador furtivo inventava as técnicas do pensamento,
enquanto pensamento implorativo como se implorasse atingir as crianças indefesas.
dobrado corria amassando com as mãos fechadas os cacifos metálicos. e os barulhos dos cacifos estavam a ser caçados por vocação perversa do caçador.
os cacifos metiam-se dentro dos outros cacifos.
por fora deles, as fechaduras entortavam-se e o caçador caçava correndo aos tropeções por dentro das fechaduras.
entortava ou abatia as crianças.

tentou abater-me a mim pelo meio do chuveiros matinais que choviam medos, ansiedades, sobrevivência.
virei-me à pancada como se pega num machado e se emprega amplas pancadas contra a carne. esgaçando-a.
berros e socos que o esmagaram de tanto medo.
inundando-o.
afogando o caçador agiota de alerta.

pu-lo no lugar da presa
para ser caçado na ardência indecisa
de quem quer desaparecer na floresta densa,
donde as espessura dos passos de cortina deste caçador nato
no subsolo são extinguidos. quase extinto.
hoje saberia disto, da torrente de medos.

passou a ser a presa,
deixou a pele abrupta do caçador prudente.
teve que escapulir pelos balneários fora entre as paredes sucessivas, por sobre os espaldares rectos, escorregadios pelos
pingos de vapor de ar.
e por cima, favos de luzes autênticas, ingénuas,
derretiam o caçador assustado,

[tão assustado aonde uma lebre paralisa defronte às mandíbulas assustadoras de uma cobra pronta atacar, a ferir, a engolir,
a mastigar, comendo-a…],

como uma luz que não se acende no escuro e se espalha
ou ainda se acobarda quando se sente rodeado,
cercado de caçadores mais astutos.

eis um caçador que derrubava os cacifos, as fechaduras,
os chuveiros para em aflição caçar o que não deveria ser caçado.
poderia ser um caçador vivo ou morto.
caçava tomando as crianças nos braços
para as beijar e as amar.

escorria-lhe um calor, suor maléfico, intenso pelo rosto abaixo.
um bafo horrendo para se vomitar:
– a morte. a vida. a tarde. as manhãs.
todos os corpos trespassados pelas águas dos chuveiros.
e os pés abertos com as chaves dos cacifos da intimidade.
da matéria do coração enevoado.
ou os olhos empapados de sangue de tanto chorar o caçador continuava a caçar até eu o caçar.
caçaria.

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