O DESTINO TRÁGICO DE TODO HOMEM

Antônio Mariano

 

Esplendorosa manhã de sábado, disse em voz alta para quem pudesse ouvir, ele, admirador da língua dos bacharéis. O servidor público federal Otávio Lamartine Bezerra apreciava o tempo sentado num banco à sombra de uma acácia da tranquila pracinha, quando um pombo pousou aos seus pés. Havia um pequeno cilindro de alumínio preso a uma das pernas da ave. Portava uma mensagem. Ele não resistiu à curiosidade. Com muito jeito agarrou-o e, desenrolando a tirinha de papel, leu o que nele estava escrito:

 

O destino trágico de todo homem é a solidão.

 

Cercado por dúvidas, Otávio leu por muitas vezes essa frase curta e tão absoluta. De quem esse pássaro seria portador de algo que a princípio lhe pareceu tão cifrado? E por que coincidiu de ser exatamente ele, um senhor bem casado e bem amado, prestes a realizar bodas de ouro com sua Penélope? Por que foi ele a ler aquilo?

 

Uma pessoa cercada de parentes, amigos e vizinhos solidários em quaisquer momentos difíceis da vida, esta a definição que o servidor público federal Otávio Lamartine Bezerra, costumava dar de si mesmo.

 

O destino trágico de todo homem é a solidão.

 

Bom pai, bom filho, bom esposo, bom colega de trabalho, bom vizinho. Como um homem assim poderia ser atingido pelo pior dos estoicismos? Essa pergunta ele também se fez na manhã sombria da segunda-feira quando foi notificado da inclusão de seu nome em um dossiê sobre desvio de recursos do Programa contra a Fome e a Miséria do governo federal, seus dados pessoais declinados na imprensa falada, escrita e televisada, ele apontando nas ruas, sua casa apedrejada.

 

Mulher, prole, amigos e vizinhos eram bons demais para estar ao seu lado. Bons demais. Bons filhos da puta, gritou, para ninguém ouvir.

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* Primeiro parágrafo (com intervenções deste narrador) de Cláudio José Lopes Rodrigues, a partir de um exercício do Clube do Conto da Paraíba.

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