Arquivo do autor:profleitao

Sobre profleitao

Coordenador do LAPROL - Lab. de Processamento Linguístico da UFPB. Escritor e Poeta!

Poema (17) de Iara Maria Carvalho

arvore
Imagem: Pinterest.com
São as pequenas alegrias
e as grandes quedas
que fazem a árvore frondosa.
É a vida e seu irônico jeito
de nivelar por baixo
a felicidade.
Só pra gente se surpreender
e descobrir que vencer é uma
coisa pra todo mundo.
Abrir os olhos pras lonjuras,
plantar o mel nos risos e
sonhar o sonho dos pequenos.
Que, de pouco em pouco,
a árvore cresce milenar,
e, se tomba,
é pra nascer de novo.
Iara Maria Carvalho

ILHAS

ilhas

Imagem: Pinterst.com (Dyanne Williams)

 

 

Enquanto os gestos

engolem e travam o tempo

em mim

os restos de pão

continuam a desabar

do prato à pia

do ralo ao vão dos mundos

e dos canos

redes que interligam

toda a indiferença

 

Enquanto a noite

é única e individual

em mim

o coro dos carros

roem o pó e o piche

intermitentemente

 

ninguém mais enxerga

ou se cobre na mesma noite

que eu

só o meu casco é que interessa

o meu sorriso

só é riso e dor dentro de mim

nem o espelho cuida da minha

pele ou da minha tristeza

 

só há cada ilha que somos

invisíveis pro mar

pros navios

pros marujos

pras outras ilhas

e tudo que se passa dentro

do corpo e da carne ilhados

é só solidão e, ás vezes,

doçura.

 

Márcio Leitão

 

 

AVC

avc

Imagem: Pinterest.com

 

Gota a gota

o sangue sem vida

escorre encurvado

no labirinto ofegante

de uma luta sem preces

em que todos os cantos

são peixes esguios

e sem rumo

 

Células ludibriadas se perdem

devaneiam e morrem

no abismo sem lua

em que a esperança

depende de um sol

interno e silencioso

que ilumina onde ninguém

enxerga, que ilumina

onde os comboios

são rios e gritos

de ajuda

sem tom

sem acordes

 

No paradoxo,

o que vem de fora

é só voz, é só música

e súplica

moldadas em afeto

como teia tonta

esparramada

no ar quente e triste

das circunvoluções

que não sabem se partem

ou se renovam

a eletricidade

daquele único

olhar que se espera.

 

Márcio Leitão

 

 

Uma noite triste

noite só

Imagem: pinterest.com

 

Ruína que me acolhe

com unhas grandes

 

Concreto que embaça

o que seria sorriso e solidão

de uma noite

que só tenho eu

e uma dor sem costura

que é toda minha

indivisível

 

Perto do olhar

só tenho a outra solidão

materna

que dorme quieta

com estilhaços

em coro a lhe tornear

o sono

o vazio sem dono

 

Unidos pelo amor

ungido

nos anos quietos

sejam próximos

ou perpétuos

construção de afeto

que agora se contrai

e se rasga simultanemante

como se o mundo fosse

só esse pedaço de dor

caído nos olhos

e com cheiro de hospital.

 

Márcio Leitão

 

 

Poemas de Expedito Ferraz Jr.

folha morrendo

Imagem: Pinterest.com

 

NOTURNO

 

(

Desfolham-se os olhos.

Pousa no branco

o improvável outono.

)

Descansa,

logo virá o sono.

)

 

 

 

 

ETERNIDADE

 

De repente,

nada

acontece.

 

E depois,

é como se nada

tivesse acontecido.

 

 

 

DESCONCERTO

 

Um quarteto

de cordas.

 

Um arranjo

de flores.

 

Um solo

infinito.

 

 

VISTA AÉREA

 

a certa altura,

a vista de um cemitério

se afigura

como a visão

de uma única

sepultura

 

a certa altura,

já a toda uma cidade

se mistura

essa impressão,

e a arquitetura

de alamedas,

letreiros e ladrilhos

faz ver

canteiros,

lápides,

jazigos.

 

a certa altura,

impossível distinguir

entre ruína e criação;

entre o milagre

da civilização

e o terremoto:

tudo quer nos parecer

destroços.

 

a certa altura,

resta aprender

a carregar os mortos

na vala comum

dos nossos próprios

ossos.

 

Expedito Ferraz Jr.

Poema LVIII de Líria Porto

lua clarao

Imagem: Pinterest.com

 

EGO

 

eu de mim não me queria

minhas grandes inconstâncias

minhas tantas insolências

meu saltitar cansativo

e de mim quase abortei

 

então de mim fui ficando

fui gostando dessa mim

acomodando-me às beiras

e se eiras eu não tinha

agora tenho

 

eu de mim já muito quero

pus-me à frente em minha fila

mas porém sem holofote

dessa lua eu não preciso

tenho eu clarão de mim

 

Líria Porto

in: Cadela Prateada, Editora Penalux.

Poema (19) de Iara Carvalho

rezando

Imagem: Pinterest.com

 

POR QUE, DEUS?

 

Eu tenho inveja

dos que têm memória

e contam a infância

com requinte de detalhes

que me dão água na boca.

Por que, Deus?

O Senhor já sabia que eu iria

ser uma mulher prática,

ainda que poeta, ou que

facilmente eu trocaria

uma chuva por um passeio

de carro? Sabia que eu

não seria terna com

os bichos e que nem toda

criança entraria no meu reino

dos céus? Por acaso o

Senhor sabia, Deus, que eu

esqueceria de rezar por tantas noites,

ou que usaria sem pudor

temperos industrializados

no alimento que tão

esmeradamente nos ofertou?

Ah! decerto tinha ciência

de que eu seria o tipo de

pessoa que deixa todas

as luzes acesas, que ri do que

não tem graça, que esquece

a magia das canções.

Eu certamente não daria

memórias de infância, se Deus

eu fosse, pra alguém

que dobra a ponta dos livros

na página onde parou, muito menos

pra qualquer ser humano

capaz de não gostar do

sol nascendo entre passarinhos.

Jamais daria o dom de

lembrar das brincadeiras

com as irmãs, pra alguém

que se acha tão capaz de viver

só. Seria por que eu bebo

água gelada depois do café

quente, que o Senhor, Deus, tirou

-me a chance de lembrar

do bigode do meu pai?

Ou seria por que não demoro

tempo suficiente no banho

e não aproveito, com aquele

ardor de comercial de TV,

o sublime momento de lavar os cabelos?

Deus, que mistério eu não

me saber criança! Diga-me onde

errei, pra quando eu nascer

de novo, ter a chance de preencher

meus álbuns de instantes,

minhas conversas com mamãe

no batente da cozinha,

a briga pelos namorados

imaginários, as bonecas deixadas

de surpresa sob a cama,

o pé de seriguela pendendo

no quintal, olhar o mundo sobre

a cisterna e poder chorar

pelos ídolos que morreram.

De uma coisa eu sei, o Senhor

nem precisa dizer por que eu lembro

tão bem das quedas: é claro

que o Senhor já sabia do meu fracasso

lá de 2011, e quis me deixar

preparada para o tombo

que estava por vir depois dos meus

trinta: uma mulher sem rosto

nem lembranças, caindo

do alto da torre. Se olhava

pro céu ou pro chão, não pensava,

só caía com a alma fechada,

torcendo pra não lembrar

do impacto.

 

Iara Maria Carvalho

Poema (5) de Jennifer Trajano

henna

Imagem: Pinterest.com

henna

 

como o reflexo que passa

rápido no negro da pantera

assim teu desenho suporta

meu corpo – tão suporte

quanto uma abortada fuga

 

paro um instante como

param as pequenas tartarugas

levadas pelas águas, das que

preferem não voar, das que

querem tua mão, reflexo que

 

passa devagar no tigre branco

– luz confundida com a pele

assim desejo teus dedos do

lado de dentro: como quando

se sente levemente o mar bater

 

na altura da boca, sem a agonia

dos lagartos dançando para pular

do bico das aves que tiveram medo

de atacar algo maior, porque o voo

é leve, o cigarro acaba, a dose se perde

 

no corpo. quero que dose as mãos

com a tinta da dor inventada e comece

a riscar meus pés, primeiro passo

no mar. depois suba como sobe o sal

ao sol, ardente, bronzeando o pelo

 

da pantera na cor do tigre branco

mas quando chegar à boca não afogue

empurre o corpo na onda que dá espaço

para outra anatomia, por não poder

jamais tocar apenas uma única pele

 

Jennifer Trajano

Poema (1) de Mbate Pedro

feet

Imagem: Pinterest.com

 

os desertos

 

o barulho escutado quando uma flor cai lá do alto

numa noite sem o teu rosto

sem a tua luminosidade

para suster o peso da música

entre a escuridão do verso e a demora

 

porque eu sei

não há verso que abra a porta e entre nos olhos de um gato

e o silêncio é um rio que transborda

algures

sobre os teus pés nus

 

a cidade envergonhada

resvala para um domingo de facas

mas que importa?

 

um gato

agora

 

é como se dentro de mim alguém de repente

levantasse

a meia-

-haste

uma parede

 

Mbate Pedro

(In: Vácuos: Cavalo do Mar edições)