Poema (1) de Alexandre Pilati

 

janela mangueira
Imagem: Pinterest.com

 

[Com sorte]

A cadeira de leitura dá para uma janela.
A janela dá para o lado mais quente da tarde.
O que é bom, pois fica-se a salvo do sono.
O olhos às vezes precisam descansar. A mente
respirar. É preciso erguer o corpo do lodo que as letras vivem,
tão longe da vida. Quase tão longe quanto eu, esta cadeira, esta janela.
Sorte nossa que há essa mangueira que dá mangas grandes.
Sorte que há uma bulha do outro lado da janela, distante,
ao lado de mim e de você, e quase nos limites da tarde.
Não há porque chorar pitangas, e pelo leite derramado também não.
Sorte que as mangas grandes atraem as maritacas vespertinas.
Em sua sinfonia de pau rachado, a razão encontra algum alento.
Certas coisas – a poesia, o órgão do sexo, os instintos e alguns lugares
onde de repente estamos – encontram
a ruína devagar. E, com sorte, desaparecem sem tragédia.

 

Alexandre Pilati

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