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ANGÚSTIA (poesia para tempos de sangue)

não há luta
também não há vagas
empregos tampouco
a estática, a deriva
a massa, a medida coletiva
a mídia, a medida preventiva
as mesas ainda flutuam
na inatividade da vida
a vergonha pública
os corredores acesos
as portas trancadas
os carros, os mesmos
os rastros nos acessos
as fraudes de peso
os funcionários fantasmas
o dinheiro, este sim, não ectoplasma
desmaterializa-se com as matas
os borra-botas e cabotinos
atados às suas pastas
o poder desfaz-se dos tontos
o poder está pronto mas não
cabe nas mãos de todos
sobre os ombros de todos
resta dentro de todas as casas
o rastilho
o contido
seria grito
ou seria fome?

não há luta
alguém escuta
no silêncio?

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ENQUADRAMENTO (poesia para tempos de sangue)

acordei
o café era de ontem
minha fome também
varri a casa
com ela meu corpo
as dores da semana maiores que o colchão

outro dia
as mazelas de ontem
o ordenado não vem
esvaziei a lata
nem mais um grão
do arroz e sem o feijão

restou um trocado
no bolso de ontem
dá pra lotação
não tem pro varejo
não tenho pro pão
olha a hora de bater o cartão

ontem de novo
hoje também
amanhã é igualzinho
nas filas do trem
pra onde se olhe
as telas nas mãos

escapou-lhes pela janela
na moldura de aço das traves
o anil do dia de primavera
a formação das aves
que importa essa visão
se não estava na tela e não bate cartão

aquelas aves ainda voam na minha memória
e tornaram impossíveis todas as manhãs banais

COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

ATO PÚBLICO (poesia para tempos de sangue)

eu sei que se atravessasse a rua
atravessasse a faixa
abaixasse a cara
e deixasse a caminhada
minha mão encontraria a sua

eu sei que luta é longa
que a vantagem é pouca
que a boia falta
e ainda por cima a vida
é curta pra levar tanta porrada

eu sei que estamos cercados
que a cidade exuda fogo e esgoto
que as bombas surgem no lugar do diálogo
e que a esperança não vale o que pagam
vergonhosamente ao fim da jornada de trabalho

eu sei que quando atravessar a rua
rompendo a fúria descabida dessa guarda
driblando as botas como um santo de várzea
e surgir invicto de susto borracha e bala
minha vida encontrará a sua e de mãos dadas incendiaremos o país

a poesia explode a realidade

DEPOIS DO ALARME (poesia para tempos de sangue)

acendeu o fogo
o bule e a água pra esquentar
o coador e o pó de acordar
antes da luz a madrugada se cala
a brisa circula nos postes
e o trabalhador tem que se levantar
o corpo se curva à rotina
aos preços
à poeira dos cantos
ao ônibus lotado
o corpo é menor que o bule
o corpo também ferve
o corpo é feito de sono e se ergue
o corpo é o trabalhador sem pertencer ao trabalhador
assim como a vida é bela sem conseguir ser alegre
o que importa o fogo a vida imensa ou menor
ou parte que complete-se em arte

o sono do trabalhador não volta
ainda que se perca
a hora

CATADOR (poesia para tempos de sangue)

passou-se uma noite horrível
esta vida é contar desgraças
e contar os corpos
e cortar a carne
e contar os dias
até o sonho impossível

passou uma viatura pela rua
quando voltou veio com a peste
com tapa na cara costela quebrada
carteira rasgada e fome de guerra
de sangue de gente curvada
inerte deitada sem voz pras balas

os atentados consentidos
os braços do estado estendidos

sem perícia que contenha a realidade

BALEIA NO AQUÁRIO

meu peito se esforça como um pássaro
sobressalta de um poleiro a outro
não cabem as palavras
o equilíbrio impossível
na fronteira aérea me ultrapassa

a gaiola acima passa como cúpula
jamais fere a joia rubra
de lá se arrebenta o ar em forma pura
daqui descanso as asas na sombra dura
entre tudo isso que aniquila o voo

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