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AMAVIO

se pronuncio o seu nome
uma tempestade de avessos
anuncia-se no poente azul
do meu átrio

trilhas e escarpas
a distância correta
escapa entre os dedos
quando a língua risca
a palavra o ar molhado
carregando o seu nome

era quase manhã era busca
o vento soprava no jardim de vênus
era quase manhã era pausa
a respiração e a reparação
era quase manhã era cansaço
a vida exsudava no espaço

sei seu nome não é fardo
assim cuido que jamais suma
tanto mais pesado se parece à alma
é ainda mais leve quando dorme
leve brisa que floresce calma
leve rosto pousado na minha palma

ENCRUZAMENTO (poesia para tempos de sangue)

há ali uma esquina que arde
mesmo apagados os postes
mesmo sem eletricidade
mesmo sem nome marcante
mesmo sem uivos das carpideiras

as ruas se cruzam como rastilhos
os caminhos violentos se emendam

há tantas cruzes no chão da cidade
anjos atormentados rondam incansáveis
as lágrimas que não podem apagar

senta-se um menino como um espectro
ou espelho embaçado, um reflexo
despedaçado de gente
fome e espasmo

onde tudo se fez sufoco e sangue
essa solidão crivada arde
e ainda entrelaça caminhos
na alma

BANDOLEIRO (poesia para tempos de sangue)

meu coração é um coquetel molotov
que não posso acender, então explodo
a palavra, letra por letra até sobrarem
as tônicas abafadas, os objetos cortantes,
os desejos insones, os cacos, todo o lodo
da rua abafando a garganta e a liberdade.

meu coração no papel é vermelho rabiscado,
intragável, violento, azedo, uma bile
que trago enjaulada no peito, um aperto,
uma forma de desespero, sempre que eu vejo
a opressão embaixo de qualquer viaduto.
papelão, concreto, granito pontiagudo:
a real marca e presença dos nomeados ao estado.

meu coração é denso, rubro e maculado
uma tempestade, um combate sem céu,
que um dia sobre as escadas do palácio
acederá incendiário.

CANTO SECO (poesia para tempos de sangue)

hoje escreverei como quem volta do trabalho
sobremaneira, não direi nada
pois nunca se retorna do batente
nunca sairei do trem lotado
por isso o desgosto
o molho ansioso de suor
o desodorante enlatado
e as pessoas também

passam as estações
você pode estar tendo uma crise
passam as decepções
você pode sempre melhorar
passam as vidas inúteis
você pode estar dentro de um filme
se apenas você sumisse
esquecido além da velhice

estamos a trezentos dias sem acidentes
diz a placa na parede
estamos secos por dentro das mentes

sei que canto distante de casa
sei que o canto não resolve nada
sei que a fome às vezes passa
sei que a sopa na mesa é rala
sei que a voz é rouca e falha
sei que canso
sei que passo
sei que morro
sem abraço

O lançamento da CASA

Tenho paredes de vento e o telhado de versos, assim construí minha CASA.

Este mês a Editora Urutau lançará o meu livro de poemas. Acho que este deve ser o momento em que um autor mais está despido, ou despistado na confusão entre a pessoa que ele é e o autor que nele surgiu. Pelo menos eu sei que estou me sentindo assim. Para mim escrever sobre mim mesmo parece mais complexo do que uma resenha, uma crônica ou um poema. Assim, serei breve.

Inicialmente parece difícil sintetizar o que quero com este livro. E é preciso querer na verdade, pois o livro não surge simplesmente. Eu quero que este livro possa ser lido em voz alta e  nos silêncios de cada biblioteca pessoal. Com um livro, o poema que aconteceu em mim, agora poderá acontecer em cada leitor que assim o queira.

Há um lançamento no Rio de Janeiro. Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade. Há uma capa fantástica bolada pela editora. Será num domingo à tarde, para constar como o passeio da família e esticarmos numa conversa bem amigável. Fizeram um evento no Facebook. O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Verifiquem com os amigos e encontro todos lá para abraços e assinaturas. Abaixo segue uma degustação com a capa, o texto da orelha e um dos poemas.

a capa da casa

A orelha da CASA

Enfim um novo livro de Roberto Dutra, jr. Não que o autor tivesse ficado em silêncio, mas já se foram vinte anos desde que seus primeiros poemas surgiram, em uma edição remota, lançada no Rio de Janeiro, que está esgotada e desaparecida. Nesse ínterim, ele foi editor de revista acadêmica, resenhista, contista, cronista, revisor, tradutor, escreveu um monte de orelhas como esta, aconselhou outros tantos autores e até vendeu cerveja no carnaval carioca. Ele se diz orgulhoso de ter colaborado com o Panorama da Palavra, jornal literário que circulou pelos anos 2000 na cena carioca, que promovia leituras com poetas no teatro e foi dirigido pela jornalista Helena Ortiz. Roberto atuou como fotógrafo, escreveu matérias e foi considerado um dos poetas prata da casa nas leituras promovidas naquela época. Seus poemas aparecem nas antologias Escriptonita (Patuá, 2016) e Porremas (Mórula, 2018). Tenho certeza que neste momento ele está algo entre fulo e risonho com este texto, pois não é sujeito dado a retrospectivas. Não chame o amigo anárquico que pra escrever as orelhas, olha no que deu.

Roberto acredita na obra por si, sem apresentações. O que deve circular é palavra, se não repetirem o verso, ainda não está pronto pra boca do leitor. A ideia original de CASA também veio da amiga Helena Ortiz que o convocou anos atrás com uma quase ordem (com sotaque de gaúcha): “Não faças plano, não faça nada. Estás pronto e está tudo escrito. Pega o que tiver de melhor e coloque tudo junto. Alguns livros são assim. Coragem.” Pois é amigo, está feito. Um tanto de metalinguagem, introspecção e respeito pela palavra. Sei que só parou de consertar versos na véspera de entregar tudo pro Tiago Rendelli, da Urutau. Sei que isso deve ser a marca do autor que você se tornou. Esta orelha merece ser mais do que uma apreciação do seu texto, então se tornou uma brevíssima crônica da história deste livro.

Leitor, siga direto para o poema “Plano” e leia em voz alta. Declame até, se algo lhe fizer sentido. De que vale ter a sua CASA se não pode subverter a ordem de tudo?

Boa leitura a todos.

Com um abraço amigo do

Gregório dos Santos

(Eu não tenho um) PLANO

eu não tenho um plano para a vida além de viver.
não há metafísica nisso.
não espero vivas e ninguém me agradeceu flores ou favores.
devia vomitar, mas mantenho.
o que seria de mim se descobrissem?
carros parariam
leite azedo nas vacas
bug do milênio
mulheres correndo
homens trincando os dentes
ateariam fogo na cidade, ou um cataclismo varreria
a mediocridade dos hipócritas?
eu digo em voz alta,
não senhores, eu não tenho um plano para a vida além de viver.
há que ser ousado bastante
para o preço da cesta básica
há que ser longe o suficiente
para o outro lado da rua
há que ser o necessário
para riscar o chão com meus ossos e minha carne tão bem
guardados para o depois.
o mais que me ensinaram refutei como quem repele o veneno.
se tenho que morrer, que seja por minhas próprias palavras.
nada mais vivi além disso.
não dei doces,
não fui ao altar,
não sentei numa pedra ao pôr do sol,
não xinguei o juiz,
não bebi água do mar,
não beijei o chão que me sustenta,
não tive filhos,
mas no olho do furacão
ouviram meu nome como pedra vívida
pés e mãos
pele sem planos
e vivo
como um homem
vivo