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Solitários entre nós

Leo Barbosa

 (escritorleobarbosa@hotmail.com)

Solitários entre nós

   Parece contraditório: vivemos em um mundo onde prevalece o discurso da pluralidade, das múltiplas possibilidades e, ao mesmo tempo, nota-se que estamos cada vez mais reduzidos a nós mesmos. O individualismo nos consome na medida da globalização. Tantas oportunidades, tantos meios de comunicação. Há quem tenha três aparelhos celulares e ainda se sinta só. Por quê? Porque diante de tantos contatos virtuais restam nenhum ou quase nenhum convívio real.

   Vejo famílias à mesa. Elas dividem a comida, mas não se alimentam da presença um do outro. Elas dividem o mesmo teto, mas não as mesmas histórias. Estamos vivendo entre estranhos porque não damos mais espaço para reflexão. Esse mundo acelerado, com tudo instantâneo, faz com que vivamos numa sociedade pautada no que Zygmunt Bauman denominou de modernidade líquida. Isso significa que os laços humanos estão cada dia menos sólidos. Hoje, amigos. Amanhã não se sabe.

   Faça um teste: olhe a agenda do seu celular. Agora pense: para quais dessas pessoas você realmente poderá ligar diante de uma madrugada de choro? Com quem você poderá contar quando se sentir o mais frágil dos seres? Provavelmente com ninguém, até porque não quererá sair do seu status de forte. Sim, bancamos ser de aço, mas somos de flor. E, mesmo quando murchamos não admitimos a perda do vigor.

   Entretanto, “qualquer que seja a sua condição em matéria de dinheiro e crédito, você não vai encontrar num shopping o amor e a amizade, os prazeres da vida doméstica, a satisfação que vem de cuidar dos entes queridos ou de ajudar um vizinho em dificuldade, a autoestima proveniente do trabalho bem feito, a satisfação do “instinto de artífice” comum a todos nós, o reconhecimento, a simpatia e o respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas a quem nos associamos; você não encontrará lá proteção contra as ameaças de desrespeito, desprezo, afronta e humilhação”, palavras de Bauman.

   Estamos nos comportando como crianças que têm muitos brinquedos. Elas não se importam se um deles quebra, porque logo terá outro, talvez até melhor. Tem sido assim com relacionamentos amorosos. Hoje temos um(a) companheira(o), mas não fechamos os olhos para que venha outro(a) melhor. Só que, infelizmente, esse “melhor” não está pautado no essencial, mas no acidental. Não importa se será uma pessoa honesta, carinhosa, dedicada, mas se será mais alta, mais rica e bonita.

   Estamos solitários entre nós porque prosseguimos sem envolvimento. Músicas propagam a filosofia do “pega, mas não se apega”. Qual o problema em se “apegar”? Esta é a geração na qual o desconforto é inadmissível. É inaceitável sofrer, é inapropriado ser incomodado, ser chamado atenção. Não é permitido que os holofotes se virem para outro lugar que não para si. Amor não é descartável. Amar não é exclusividade como tantos proclamam. Amar é pluralidade; uma pluralidade entre nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta