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INACABADO

o amor é interno
um estado
um estranho
um fenômeno inacabado

perfeitamente impreciso
o amor

há solidões intransponíveis que não duram mais que segundos

que cessam em chamas
pelo nome
que agora passa
a ser
seu

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[solidões 4]

de repente passei a enumerar solidões, percebi que a pluralidade desse estado é invasiva. quando menos se espera, nada. nada acontece. acho que eu poderia estar matando.

a solidão do senhor anderson. de repente algo grita dentro mim. não gosto de estar sozinho, não quero pensar, não quero dormir. preciso dormir. súbito eu não mais vivo aqui. eu quero curar-me do que sinto. quero curar o caminho do mundo. certas vezes eu quero tomar o mundo de assalto. quero me desplugar. eu sigo o coelho branco.

a solidão da florista. cortar, selecionar, amarrar, despetalar. a beleza desgasta e suas mãos estão furadas e com um sangue perfumado. teria deus sofrido menos os espinhos fossem dessas rosas?

a solidão do ceifador. silencioso, cozendo calmamente a bainha do manto surrado pela eternidade. de vez em quando costurava um remendo. depois afiar a lâmina da foice. um capricho: lustrar o metal para que brilhe em noite de lua. complemento de cálcio em pílulas. nunca conversa. pouco fala, às vezes joga xadrez.

a solidão do astrônomo. bipes e chiados e um painel iluminado. papéis de cartografia cósmica espalhados por todos os cantos. uma breve modulação e ele dispara pro telescópio, derramando o café tropeçando em instrumentos, medições, notas, o coração saindo pela boca… e um pássaro pousa na lente…

a solidão do pastor. colina acima e colina abaixo ovelhas pastando  e os dias passando quietos na pasmaceira da relva. não está alegre, mas nunca está triste. o cão pastor dispara como um ricochete a tarde inteira, parece não ter volta, e quando o pastor força a vista pra encontrar a cauda, de trás surge o bicho espoleta como se estivesse na espreita. mas que dó quando o pastor volta pra cidade e no primeiro bar sob o olhar de todos balbucia frente a ela por que linguagem de gente esqueceu na algibeira, lá longe, na relva.

* * * * *

caro leitor:

encontre aqui os anteriores

[solidões 1]  https://zonadapalavra.wordpress.com/2013/06/24/solidoes/

[solidõe2]  https://zonadapalavra.wordpress.com/2013/07/22/solidoe2/

[solidões 3] https://zonadapalavra.wordpress.com/2013/09/02/solidoes-3/

[solidões 3]

de repente passei a enumerar solidões, percebi que a pluralidade desse estado é invasiva. quando menos se espera, nada. nada acontece. acho que eu poderia estar matando.

a solidão do hipocondríaco. mais uma bula pra coleção. uma a uma e por ordem alfabética guardadas embaixo do lençol. uma a uma, fecha as janelas do recinto e calça cuidadosamente um par de meias. a canja fica congelada em recipientes individuais e a sobremesa efervescente é a última esperança da noite de uma profilaxia. quando se enrola nas cobertas pede proteção.

bat-solidão. o cheiro de amônia. o constante murmúrio sem formas vindo do teto. já quase não se contém com a dor da clavícula deslocada.  a umidade parece intensificar o cansaço. o carro vaza óleo e a sopa servida esfria. cair pesado na cadeira, obscurecido e sem pensamentos.

a solidão da jukebox interna. ouve-se um barulhinho de mecanismo. o barulhinho sincroniza com seus passos. os mais puristas ouvem até o fritar de bolinhos que antecede a faixa. então, começa a tocar na sua cabeça aquela musica. simplesmente vem. no ponto do ônibus, na fila do banco, no volante, mesmo quando estamos rodeados de conversa. não é possível desligar. ela está lá. uma pontinha de alucinação que não cessa quando você fecha os olhos.

solidão da radialista. passa de três da manhã. ela repete a hora com precisão e solta a gravação dos anunciantes. depois da digitalização dos equipamentos, dispensaram o operador. o cara da pizza é sempre o mesmo, toca o interfone e a chama pelo nome. isso foi há horas atrás. já é a sétima vez que ela libera o bloco de notícias e o telefone não toca. há noites frias que nem os admiradores ouvem o que ela gostaria de dizer.

a solidão do relojoeiro. galeria comercial, em frente ao estande de vinhos e ao ao lado da recepção. ninguém entra ali há meses. ninguém mais usa máquinas de 12 diamantes ou rubis. o quartzo com sua ditadura barata. na mesma salinha de oitenta centímetros por três metros e meio de profundidade, há quarenta e sete anos. já passou por tardes mais movimentadas. talvez seja esta a grande mudança do mundo: vão-se os cliente e os relógios automáticos e ficam os grisalhos na meia calva. nunca fechou as portas. na prateleira do meio os números do resultado do bicho escritos na grossa camada de poeira.