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INACABADO

o amor é interno
um estado
um estranho
um fenômeno inacabado

perfeitamente impreciso
o amor

há solidões intransponíveis que não duram mais que segundos

que cessam em chamas
pelo nome
que agora passa
a ser
seu

O RASCUNHO E A MUSA

Desenhei você do meio da minha solidão. Primeiro, a curva do rosto. Angulei seu queixo com personalidade. Eu queria que assim se debruçasse em desafio e feminilidade, sombra e luz. Deslizei os olhos pelas linhas do seu nariz. Eu quis que sua respiração fosse um carinho morno, longe do pranto, invisível ligação. Muito cuidado lhe afeitando o sorriso, leve, brando, eu quis cada gesto milimétrico, ora contido, ora espanto. Eu a queria assim; o conforto do recanto e o reconhecimento do cigano coração que nunca para, perdendo vida e restando na estrada. Suas mãos surgiram, mais hábeis que as minhas em técnica e engenho. Eram capazes de criar vida delicada puxando a linha de uma poesia que você apenas dominava. Fechei os olhos ao tocar seus cabelos. Bastava apenas que meus dedos pudessem sentir-lhes no vento e então repousar em seus ombros. Ali ancorava meu sonho. Ambas as mãos em abraço, seu corpo preenchia o espaço e os dois restavam, no mesmo laço. Desenhei você com minhas palavras. Eu sou cego e meus dedos também carecem a sutileza da forma, da curva, da substância ou seu suspiro mágico invocando marés de sangue no meu corpo. Perdi assim meu nome, mas essa era uma casca de vento. Eu lhe inventei pra você inventar meu lado de dentro.

[solidões 4]

de repente passei a enumerar solidões, percebi que a pluralidade desse estado é invasiva. quando menos se espera, nada. nada acontece. acho que eu poderia estar matando.

a solidão do senhor anderson. de repente algo grita dentro mim. não gosto de estar sozinho, não quero pensar, não quero dormir. preciso dormir. súbito eu não mais vivo aqui. eu quero curar-me do que sinto. quero curar o caminho do mundo. certas vezes eu quero tomar o mundo de assalto. quero me desplugar. eu sigo o coelho branco.

a solidão da florista. cortar, selecionar, amarrar, despetalar. a beleza desgasta e suas mãos estão furadas e com um sangue perfumado. teria deus sofrido menos os espinhos fossem dessas rosas?

a solidão do ceifador. silencioso, cozendo calmamente a bainha do manto surrado pela eternidade. de vez em quando costurava um remendo. depois afiar a lâmina da foice. um capricho: lustrar o metal para que brilhe em noite de lua. complemento de cálcio em pílulas. nunca conversa. pouco fala, às vezes joga xadrez.

a solidão do astrônomo. bipes e chiados e um painel iluminado. papéis de cartografia cósmica espalhados por todos os cantos. uma breve modulação e ele dispara pro telescópio, derramando o café tropeçando em instrumentos, medições, notas, o coração saindo pela boca… e um pássaro pousa na lente…

a solidão do pastor. colina acima e colina abaixo ovelhas pastando  e os dias passando quietos na pasmaceira da relva. não está alegre, mas nunca está triste. o cão pastor dispara como um ricochete a tarde inteira, parece não ter volta, e quando o pastor força a vista pra encontrar a cauda, de trás surge o bicho espoleta como se estivesse na espreita. mas que dó quando o pastor volta pra cidade e no primeiro bar sob o olhar de todos balbucia frente a ela por que linguagem de gente esqueceu na algibeira, lá longe, na relva.

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caro leitor:

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[solidões 1]  https://zonadapalavra.wordpress.com/2013/06/24/solidoes/

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Menino do mundo

Menino do mundo

*Leo Barbosa

     Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com passos trôpegos insiste em caminhar. Para onde? Está escuro. De onde virá a luz? Mundo arregimentado por burburinhos, pela indiferença.

    Há um mundo em que a lágrima está desamparada e em cada lar os sorrisos são margeados. Quantos de nós não temos guarida para comportar dores… Essas bocas sem expressão. Esses ventres feito porão seco.Quando hão de pôr o feto?

   Ah, mundo. Um menino se hospeda em um talvez e não sabe reconhecer suas próprias necessidades. Anda nesse deserto chamado solidão e às vésperas natalinas não lhe é suscitada nenhuma alegria. Não haverá presentes, pressente. Comerá um modesto banquete com desgosto. Nessa estrada o que compensa são algumas lascas de poesia.

   É incrível como consegue nessa aridez ter a esperança de fruto. Serão oásis? Um dia a incerteza se transmutará e outros olhos a ele serão dados. Todo arcabouço tem data para acabar. Nesse fechar-e-abrir-se há contrapontos. A fronha suada. O sobressalto da noite.

   Esse mundo estrangeiro aqui e em qualquer lugar resguarda um pão que ele mesmo amassou. O tempo está a comer o seu miolo de cada dia. A morte nos despersonifica. Rompe as esperas e cria outras. Pra sempre um ontem e um amanhã e jamais um hoje.

    Que hombridade exercer se os ombros já não suportam o mundo? É apenas um menino, um menino – enfadado desde jovem. Seus dias tímidos estão declarando fim. Quer trégua. Agora vai e vão. É vã. É vã as lacunas que deixou. Seu legado é um vaso quebrado na sala de estar. Dorme, dorme. Estar não é ser.

   Não é um menino, é um homem no ócio, nutrindo-se da placenta que o abandonou. Amanhã haverá outro parto. Amanhã a partida será a grande solenidade.

[solidões 3]

de repente passei a enumerar solidões, percebi que a pluralidade desse estado é invasiva. quando menos se espera, nada. nada acontece. acho que eu poderia estar matando.

a solidão do hipocondríaco. mais uma bula pra coleção. uma a uma e por ordem alfabética guardadas embaixo do lençol. uma a uma, fecha as janelas do recinto e calça cuidadosamente um par de meias. a canja fica congelada em recipientes individuais e a sobremesa efervescente é a última esperança da noite de uma profilaxia. quando se enrola nas cobertas pede proteção.

bat-solidão. o cheiro de amônia. o constante murmúrio sem formas vindo do teto. já quase não se contém com a dor da clavícula deslocada.  a umidade parece intensificar o cansaço. o carro vaza óleo e a sopa servida esfria. cair pesado na cadeira, obscurecido e sem pensamentos.

a solidão da jukebox interna. ouve-se um barulhinho de mecanismo. o barulhinho sincroniza com seus passos. os mais puristas ouvem até o fritar de bolinhos que antecede a faixa. então, começa a tocar na sua cabeça aquela musica. simplesmente vem. no ponto do ônibus, na fila do banco, no volante, mesmo quando estamos rodeados de conversa. não é possível desligar. ela está lá. uma pontinha de alucinação que não cessa quando você fecha os olhos.

solidão da radialista. passa de três da manhã. ela repete a hora com precisão e solta a gravação dos anunciantes. depois da digitalização dos equipamentos, dispensaram o operador. o cara da pizza é sempre o mesmo, toca o interfone e a chama pelo nome. isso foi há horas atrás. já é a sétima vez que ela libera o bloco de notícias e o telefone não toca. há noites frias que nem os admiradores ouvem o que ela gostaria de dizer.

a solidão do relojoeiro. galeria comercial, em frente ao estande de vinhos e ao ao lado da recepção. ninguém entra ali há meses. ninguém mais usa máquinas de 12 diamantes ou rubis. o quartzo com sua ditadura barata. na mesma salinha de oitenta centímetros por três metros e meio de profundidade, há quarenta e sete anos. já passou por tardes mais movimentadas. talvez seja esta a grande mudança do mundo: vão-se os cliente e os relógios automáticos e ficam os grisalhos na meia calva. nunca fechou as portas. na prateleira do meio os números do resultado do bicho escritos na grossa camada de poeira.

[solidõe2]

de repente passei a enumerar solidões. percebi que a pluralidade desse estado é invasiva. quando menos se espera, nada. nada acontece. acho que eu poderia estar matando.

solidão da porta nunca tocada. você mora sozinho. depois de certo tempo passou a colocar uma cadeira junto a porta. você ouve a movimentação no seu corredor e durante as noite sempre espera que os passos se aproximem e batam na sua porta. cartas não chegam. o zelador nada comunica. ninguém lembra. você pensa em pedir uma pizza, mas perdeu o telefone. depois das três da manhã o silêncio do corredor invade a sua vida.

super-solidão. você olha em volta e tudo que vê é uma vastidão branca. os ventos bastariam pra matar qualquer ser humano. você não é humano. você é o último. você não tem nada a que se apegar, suas memórias não pertencem ao que você se tornou por que você nunca foi o que deveria. você está perdido em mundo que não é o seu.

solidão da exaustão. uma gota de chuva atinge uma formiga. lá se vai o inseto do galho para a terra. a terra absorve a gota e deixa a superfície húmida e pegajosa. apesar de ser capaz de erguer um objeto diversas vezes mais pesado que seu corpo, sua força não consegue romper o meio que a aprisiona como uma bolha. não há controle das pernas, não há entendimento da espera. repete e repete e tenta novamente livrar-se. como sísifo, só que finita, como a vida.

solidão do cinzeiro cheio. último cigarro. quase apocalipse. sem dinheiro pro próximo pacote. sem ter como sair pra comprar mais, além disso está tudo fechado mesmo. você se perde entre a tragada e constatação. entre guimba e o desespero. o vento espalha as cinzas na mesa, mas ninguém aparecerá pra reclamar. seu cabelo tem cheiro de fumaça, mas quem poderia reparar? são últimos três milímetros de brasa que duram horas. uma porta de encontro consigo mesmo que você não tem opção por manter fechada.

[solidões]

de repente passei a enumerar solidões. percebi que a pluralidade desse estado é invasiva. quando menos se espera, nada. nada acontece.

a solidão da cama vazia, noite após noite. seu corpo pede por um contato e o colchão duro nenhum afago tem pra você. seria pior com o suor das noites sufocantes do verão, ou com o frio da madrugada do inverno?

solidão do transporte coletivo. é como sentir sede no meio do oceano. todos em sua volta e a certeza de que nada é coletivo ou grupal. acho que deveria chamar-se transporte de individualidades. a monotonia do mesmo trajeto dia após dia. sua cabeça batendo contra a janela. esquecimento.

solidão da lanchonete. você é o último da noite. os olhares de reprovação dos funcionários fazem com que você se sinta um leproso ou o portador da praga. a fome faz com que você continue. o ânimo de todos faz com que sua comida azede no momento que você a coloca na boca.

solidão do telefone que não toca. era muito comum nos anos setenta. uma geração inteira de amores congelada pelo silêncio do telefone na beira da namoradeira. que é um móvel que as famílias tinham para que você se sentasse para atender a chamada. assim, passando as horas, ou definhando como suspiro deixado no parapeito em tarde de chuva.

solidão do ponto de ônibus na madrugada chuvosa. lembra-se do que chamam de “cheiro de cachorro molhado”? é quando você percebe que o cheiro emana das suas roupas. misto de suor, poeira e água. o tempo parece se arrastar ao som do asfalto molhado. intensifique se a rua ainda for pavimentada com paralelepípedos. o ônibus não vem e uma hora depois… passaram-se oito minutos… ! súbito a lâmpada do único poste emite um chiado e explode.

solidão da caixa de emails cheia de spam e propagandas. 257 mensagens não lidas. nenhuma de um remetente conhecido. todas conhecem seu nome. mais da metade você tem certeza de que não havia deixado com seu endereço eletrônico. você não está ponto com ponto nada.