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ENCRUZAMENTO (poesia para tempos de sangue)

há ali uma esquina que arde
mesmo apagados os postes
mesmo sem eletricidade
mesmo sem nome marcante
mesmo sem uivos das carpideiras

as ruas se cruzam como rastilhos
os caminhos violentos se emendam

há tantas cruzes no chão da cidade
anjos atormentados rondam incansáveis
as lágrimas que não podem apagar

senta-se um menino como um espectro
ou espelho embaçado, um reflexo
despedaçado de gente
fome e espasmo

onde tudo se fez sufoco e sangue
essa solidão crivada arde
e ainda entrelaça caminhos
na alma

LIBAÇÃO (poesia para tempos de sangue)

Logo será a terceira hora.
A penumbra da noite há muito alta.
Não me reúno. Encontro-me só
Na minha espera pela alba.

Os murmúrios da rua cessaram.
A vida está insuportável.
Não cabe no corpo, não sai no jornal diário
Que a morte está insuportável.

A espera e o peso da vida.
A espera é o peso da vida.

Dentro, o descontentamento ilumina
Distâncias obscuras como pesadelos, fome , olho seco.
Meu medo é pensar que se perde a vida
Mesmo apoiado no umbral da porta, a bala passa.

Sento-me para escrever sobre a vida na cidade.
A nova face do medo, ao longo da mesa, serve-se da minha mágoa.
Veio beber meus pensamentos e brindamos:
Aos santos esquecidos das encruzilhadas suburbanas.

A taça que não bebo,
Ainda assim me mata!

VOLTAMOS À PROGRAMAÇÃO NORMAL (poesia para tempos de sangue)

O mundo está ardendo
Está quente, muito quente
A esperança crepita
A terra estala sua pele
Carbonizada —
Nenhum chão sob os pés descalços.

O país está ardendo
Mente-se muito, sabe-se menos
Quem dera um mestre
Fizesse passar essa dor
Desumana —
Ninguém acode descamisados

A cidade está ardendo
As armas e os barões já dispararam
As mães gritam suas crianças caídas
Em pedaços lado a lado ao inefável
Descaso —
Não há vida além deste mandato.

Voltamos à programação normal:
É impossível ser feliz
E informado.

COMO UMA VELA QUE SE CALA (poesia para tempos de sangue)

todos os dias passam iguais
os talheres dispostos na posição
aguardam as mesmas pessoas

todos os dias passam iguais
os assentos da composição
soam ruidosamente nos trilhos

todos os dias passam iguais
palavras que surgem em vão
acumulam-se na gaveta

passa um vento entre as janelas
uma lembrança calada
passa um vento entre as escadas
ela era pouco notada
algo assim
pensava

assim vai-se morrendo
sem saberem-lhe os sonhos

há sangue e saias
as pernas reviradas
maria é todas as santas
que o amor atirou nas calçadas

maria de todos os dias
mesmo fria
amai por nós esta vida

A JANTA (poesia para tempos de sangue)

Vinte e duas horas. Os grilos conversam a cada árvore que restou na rua. Retiraram as árvores. Há barricadas nos cruzamentos. Um silêncio pesado nos desvãos dos muros. O estômago caminha junto com as pernas e os olhos, sempre adiante, já estão no portão depois do último poste. Depois do portão o cansaço. Depois do portão o abraço, o feijão, o arroz no prato e um trago. Prato raso e a TV com retrato do mundo. Diverso de tudo, o retrato mudo do rosto. O corpo trinca cãibras, antecipa a manhã. A esperança parece descer pela pia.

Vem mãe, ver as luzes.
Vem mãe, ver o céu.
Respingos de fogo
As luzes no céu.

Incêndio de aço e lágrimas distantes
poesia para tempos de sangue

CORTEJO (poesia para tempos de sangue)

Nada mais aqui lhe cabe. Nenhuma fala bela
acompanha a procissão. O baile em velas parte.
Palavras mudas em um sonho, veio abaixo com um tombo,
balbuciou na calçada o corpo.

O beijo da bala e o coice do abate não fazem
jus ao estrago: faltou-lhe sorte. O impacto de um
segundo é todo o impacto do mundo. Diga-se que
nasceu ao contrário. Uns vem à vida e outros, nem tanto.

Receba esta terra, construa em si, como um manto,
a cobertura da pele, da madeira e do pranto.
A morte no baile de fogo dançando do alto e o coro
da liturgia metálica que nunca para de exterminar o povo.