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E se o assassino for o romancista?

Por Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

ó curvas ó delícias
concede-me essa ruivinha que aí vai
a doce boquinha suplicando beijo
ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem

(Dalton Trevisan, “Balada do Vampiro”, in Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 1992, p.23)

Há uma velha anedota brasileira sobre um motorista de caminhão, em cujo para-choque se lia: “Eu quero é rosetar”. Aquilo incomodava os bons costumes da cidadezinha, então o padre, o prefeito e as beatas exigiram que o engraçadinho excluísse a legenda libertina. Dias depois, o caminhão aparece com os elípticos dizeres: “Continuo querendo…” Evoco isso para fazer um comentário sobre o livro E se Deus for um de nós, de Tadeu Sarmento, editado pela editora fluminense Confraria do Vento, em 2016. Meu comentário não é análise, não é resenha, eu quero mesmo é rosetar sobre o texto desse autor pernambucano, agora radicado em Belo Horizonte, já na casa dos quarent’anos, poeta e romancista premiado nos últimos tempos.

Divertir, brincar, folgar, pagodear são os termos da área semântica de rosetar. E como fazer isso após a leitura de um romance cuja trama está repleta de crimes cometidos por um serial killer obcecado em perseguir ruivas virgens? É por isso que peço emprestado, à guisa de epígrafe, o trecho do vampiro de Curitiba, o nosso velho contista Dalton Trevisan, dono de uma linguagem concisa, com imagens precisas, amalgamando humor e tragédia ao captar o inconsciente coletivo encarnado em seus personagens suburbanos. E, por contraste, Tadeu Sarmento cria um narrador que é mais chegado a encher linguiça do que a elaborar uma narrativa contida: “E se conto em um livro longo é porque não tive tempo suficiente para escrever um curto. Pois cortar exige mais trabalho que encher linguiça. Enchendo linguiça escondemos melhor os defeitos do texto. Quem é capaz de identificar um erro ortográfico ou de concordância na grande Comédia humana de Balzac? Acredito que ninguém.”(p.376)

Ao encher a linguiça do texto, o romancista é o principal assassino, pois mata o nosso tempo, e, por muitas vezes, também ameaça a matar o leitor, matar de rir, bem entendido. Porque é o humor a principal arma desse autor, criando situações hilariantes com personagens que trabalham num Call Center repleto de funcionários digamos assim fora do esquadro, tratados sob perspectiva nada politicamente correta, como se lê na p.38: “E nossa empresa saiu na frente para cumprir o sistema social de cotas de vagas de emprego para deficientes. Por isso gagos, portadores de síndromes de Tourette. Além deles temos a equipe dos anões, dos cegos, dos albinos fosforescentes, dos esquizofrênicos controlados, dos autistas e dos tetraplégicos.

O narrador já havia esclarecido: “Somos supervisores de Call Center, Gomes e eu. Cada qual cuida de uma equipe de atendentes em um setor diferente, específico, da empresa. Minha equipe é composta por vinte e três operadores receptivos, os quais batizei de ‘garotos de Tourette’. Gomes pegou a equipe dos gagos. A de Gomes fica localizada no setor de cancelamento de serviços; a minha, em um setor obscuro, conhecido como NID, que recebe todas as ligações não classificadas pelo atendimento eletrônico inicial. Em geral, operadores de Call Center são cooptados nas fileiras dos perdedores, dos desgraçados, entre mães solteiras, estúpidos, prostitutas arrependidas, adolescentes estupradas e arrimos de família. […] Resumindo: operadores de Call Center jamais chegarão à realidade, são apenas promessas, casulos, presságios de uma infância duradoura.” (p.36)

Desse núcleo de “comunicação” há boas passagens humorísticas no livro, e faço questão de transcrever algumas. Por exemplo, na p.43 há uma situação que é a caricatura viva de um de nossos dramas cotidianos: “Não é possível cancelar por cancelar […] Depois, o motivo do cancelamento deve estar parametrizado no sistema e, caso não esteja, o operador gago lerá para o cliente todas as duzentas e sessenta e seis opções de cancelamento disponíveis.” Na p.50, o narrador evoca o nome de um cantor brega que se notabilizou por atirar calcinhas para seu público feminino: “Os trotes caem mais que caspa pelo NID. Os tarados também. Tem um que até já apelidamos de ‘Wando’: sempre liga mais ou menos no mesmo horário, para perguntar a cor da roupa de baixo dos rapazes.” Outro cantor, agora norte-americano, é evocado na p.53: “Sua voz era límpida, clara e segura, ainda que bastante grave e com sotaque inglês, como se fosse o próprio Tom Waits sentado sobre um caixote de engraxate, dublando Deus nos filmes bíblicos.” Até a grande obra épica lusitana se presta a um componente hilário na arte de encher linguiça: “[…] é comum recebermos ligações de suicidas e de estranhos admiradores de Camões, que varam a noite se revezando na leitura ao telefone de Os Lusíadas, no intuito de concluírem o sarau com o longo poema antes de o dia amanhecer.” (p.52)

Se Os lusíadas é uma obra real, há, ao longo do romance, referências a obras que só existem nesse universo ficcional salpicadas de humor erótico: “[…] além do catálogo da Taschen, meu seleto amigo levou os livros “Memórias de um rapaz subentendido”, de Melo Rego de Leite; “Morrer à sombra das cerejeiras”, de Paula Noku; “Quando a pomba gira mais que o carrossel”, de Dengoso Caminha; “100 sonetos de uma noite agropastoril”, do poeta soropositivo Florindo Saltita; “Laranjas, laranjais e ereções”, de Armando Vergalho; “A fotografia de meu antigo bofe sambando merengue”, de Pablo Potira, além dos clássicos “A noite dos bocais iluminados” e “O desenvolvimento da pederastia nas regiões montanhosas, de Almejo Pinto.” (p.17);  “[…] cofiando o longo bigode prussiano que cultivava desde que lera um livro chamado O Bigode e a Ostra: manual prático de cunilíngua para barbudos, de Nietzsche a Leminski, Vol.I, do escritor, filósofo e homem bem casado Silvério Lanugem.” (p.94)

Outras referências estéticas são acompanhadas por jocosos comentários: “Só que o que mais Magela apreciava no Conrad de sua adolescência era a ideia de se poder tomar qualquer navio daqueles e avançar sem rumo sobre o mar azulado sem correr o risco de o velho Roberto Carlos estar cantando em algum deles.” (p.162); “[…] casara com um pintor norte-americano da escola de Cézanne chamado Vulgo Angelis, um especialista persistente em retratar guarda-chuvas azuis ao fundo de confusas chuvas de granizo.” (p.319)

Nomes risíveis e figuras e situações excêntricas ocorrem a rodo na obra: “O próximo a ser detido para averiguação foi Energúmeno Souza, vigia do rinque de patinação onde Eveline Vegas foi encontrada morta.”(p.98); “[…] um Pinto grave, circunspecto, e próximo de uma espécie de altar de mármore coberto por um manto de veludo vermelho com pompons macios nas pontas e detalhes em crochê de elefantinhos falsamente felizes.”(p.367);  “ […] viu adentrar no salão a jovem Mica Basso, acompanhada de seu inseparável poeta russo e das duas ruivas albinas congolesas, as quais traziam no braço, cada uma, o cadáver embalsamado das pequenas e misteriosas ruivas gêmeas desaparecidas, embaladas como bonecas nas mãos das duas, talvez, improváveis damas de honra, de um improvável casamento.” (p.368)

Episódios bíblicos são inesperadamente deslocados, ganhando dimensões de nonsense ou de caráter de metalinguagem irônica: “[…] um paraíso no qual o leão pastará ao lado do cordeiro e o urso de pelúcia ao lado do cavalo de carrossel.”(p.67); “Falo da escrita desse livro. Ele, Magela, tem a fluidez musical dos ótimos escritores e eu tenho a história toda na cabeça, logo, estamos no caminho certo, ainda que tropecemos algumas vezes. Mas se até Cristo tropeçou no caminho a caminho do Gólgota, quem somos nós para exigir a própria perfeição?” (p.374)

A irreverência em relação ao sagrado não são poucas: “[…] o que viria a seguir seria algo diverso do prometido no próprio nome da seita (Cristãs pelo Anal)” (p.295); “Seria preciso manter a fé e a ereção. E se a fé hoje em dia não remova mais montanhas é só porque os ambientalistas protestariam.” (p.368). Deus, que está presente no título do livro, é trazido na fala da protagonista Yves, a bela ruiva irlandesa: “– Se Deus fosse um de nós, o que faria  – perguntou novamente, solfejando a música com seu sotaque irresistível: What if god was one uf us.”(p.29). A canção é de Eric Bazilian, da banda The Hooters, que ganhou notoriedade na voz de Joan Osborne.

Humor negro, escatologia, símiles inusitados (como aquele, da p.160: “Tem o olhar infantil e melancólico de boxeadores aposentados.”) são ingredientes que tornam a narrativa saborosa. Personagens secundários entram na intriga para que o derramamento de sangue não faça cessar o fluir do riso: “[…] O barbeiro Pedro Silva era mais surdo que uma porta bem trancada, o que lhe garantia um número cada vez maior de clientes, sobretudo depois que Firmino Patusco, seu desleal colega de profissão, cortou a carótida de um pobre coitado após se assustar com o estouro de escapamento de um carro, provavelmente ocasionado por cabos de vela presos que faiscaram um no outro, o que lhe valeu um processo por homicídio culposo, que corre atualmente em segredo de justiça.” (p.281) Há outra figura que ninguém deseja cumprimentar: “Gostava de fazer origamis com papel higiênico usado e não costuma lavar as mãos.” (p.25)

No que diz respeito às imagens, principalmente quanto ao uso de símiles, chama-nos atenção certa obsessão pelo Sol, como se o autor, em meio aos intencionais disparates na obra, fizesse questão de buscar a lucidez. Vejamos alguns exemplos:
Seu olhar é de desprezo gelado, o jeito que um lagarto secando ao Sol olha para outro lagarto secando ao Sol.” (p.132)

 “Nunca viu nada parecido com o que viu e, ao mesmo tempo, sentia-se leve depois de ver, igual a um condor que se livra da presa durante o voo para chegar mais rápido ao Sol.” (p.281)

“[…] não gosta de lugares apertados. E que ali estava bem apertado, um ônibus espacial de médio porte com mil leprosos rumo ao Sol.” (p.319)

Em uma digressão sobre o filme de Pasolini sobre a obra de Sade, há essa crítica, também acompanhada pelo Sol: “ […] transpostas para o cinema suas imagens são indigestas ou tediosamente ridículas. Algumas são alergicamente teatrais. Parafraseando o teólogo Bataille: é o mesmo que querer olhar o Sol diretamente e, sem poder, contentar-se com as manchas de luz que espocam nas retinas ao forçar o fechamento dos olhos diante dele.” (p.300)

No que concerne aos disparates, vejam uma passagem impagável, envolvendo o cômico “Jeca” Mazzaropi, que foi sepultado numa cidade paulista, abruptamente deslocada para o Norte brasileiro: “E já que retomamos personagens, quero dizer que Plínio Parula fechou o sebo e prestou concurso público para coveiro em Pindamonhangaba, um cidade belíssima, capital do Acre, célebre por dar abrigo aos restos mortais do ator de pornochanchada Mazzaropi.”(p.378)

O assassino de John Lennon também entra no jogo dos disparates: “[…] Que foi visitá-la  ano passado, quando se inscreveu no ‘II Concurso Anual para Sósias do Mark Chapman do Município de Alden’.”(p.319). Ainda no quesito de sósias, eis uma passagem marcante, na p.54: “Clara Rosa, uma anã com vitiligo avançado […] casou escondido em Las Vegas com um sósia do Elvis Presley da fase decadente dos shows dos cassinos.

E há outros disparates associados a aspectos sexuais: Era natural de Buenos Aires, onde trabalhara de prostituta e descobrira que, quando depilava a boceta, os pelos pubianos caídos no chão formavam frases (em espanhol) que prediziam o futuro.” (p.128). A própria terra do autor é motivo de chacota: “– Morar no Recife hoje em dia me faz sentir como um absorvente. – Não entendi.– O lugar é bom, mas o momento é crítico.” (p.78)

A sexualidade, que é o motor da ação do serial killer, é tratada com humor e ironia, expondo os personagens com seus preconceitos, como é o caso de um homossexual enrustido, que age como homofóbico: “Gomes já deu provas suficientes de ser homofóbico e a homofobia, convenhamos, é fruto de um amor homossexual traumatizado, a soma de desejos reprimidos que permanecem latentes, pressionando de dentro a personalidade de Dúbio Gomes, empurrando-a em direção  da neurose, quiçá do fascismo (já que o fascista é só um neurótico que cumpriu suas ambições.” (p.42)

As cartilhas com conteúdo sexual, assunto polêmico na atual campanha presidencial, é abordado também com tintas da ironia: “Já no carro, durante o trajeto, escuta no rádio que, ano que vem, o governo vacinará contra o HPV, prioritariamente, meninas entre dez e onze anos de idade. Esse mundo está todo fodido mesmo, pensa Gonçalo Magela […] logo teremos cartilhas  de educação sexual nas escolas, orientando o que se deve fazer caso o dente de leite caia durante o sexo oral. Fato: não sei de que modo o assassino ainda consegue achar virgens nessa cidade sórdida, ainda por cima ruivas, ele completa. Se Raymond Chandler estivesse vivo, com certeza, escreveria um livro sobre o assassino de ruivas.” (p.161)

Dizer que se se trata de um romance lúdico ainda é muito pouco: a narrativa de E se Deus for um de nós é um grande desconcerto, no sentido de provocar constantemente o leitor, deixando-o literalmente zonzo, como se lê na p.352: “[…] Que não sobreviveu ninguém para contar a história. Que a história, aliás, era muito feia para ser contada. […] Parecia zonza com tanta informação despejada de uma só vez.” A presença de um personagem como Brum, mais onomatopeia do que nome, ajuda na construção barulhenta de figuras insólitas, como exibem as passagens: “Brum era um homem obsessivo e ciumento, que piorou bastante nas últimas semanas, sobretudo depois de a empresa que representava ter recusado sua ideia de montar uma linha de bichinhos de pelúcia com problemas mentais, os quis, segundo Brum, ajudariam a ensinar, de uma forma lúdica e finalmente, crianças a conviverem com as diferenças.”(p.164); “Brum foi detido no Aeroporto Internacional dos Guararapes […] levando na mala cinco protótipos dos seus brinquedos, com os quais esperava negociar a patente em Amsterdã. Entre eles: Durva, a tartaruga com síndrome de pânico; Lilith, a cobra anoréxica; Poliana, a ovelha com múltiplas personalidades; Troto, um crocodilo com fobia à água; e Sandrine, um hipopótamo albino com compulsão por comida.” (p.165)

Para quem desejar trechos, digamos assim, mais sérios, é só colher passagens que parecem um pouco aforismáticas: “Quem viaja é impelido para o futuro.” (p.25); “– […] deveríamos ter escutado nossas mães e estudado. Desde que o mundo é mundo que o livro é mais leve que a enxada.” (p.238); “[…] nenhum objeto é capaz de atiçar ou produzir um desejo. Ao contrário: é o desejo que, em seu movimento de dispêndio, torna desejado um objeto, como uma flecha que só procura um alvo depois de lançada.” (p.342); “[…] quem está cheio de si fica vazio de todo resto.” (p.362).

Quanto a mim, prefiro imagens assim, hilariantes, hiperbólicas, encharcadas de humor: “[…] parecia excessivamente sério, mas era a seriedade de um javali mijando sob a luz fosforescente.” (p.238); “[…] o álcool ajudava a destravar sua língua e até ali já bebera cerveja suficiente para inundar a Mongólia, isso sem contar a parte que Mulligan bebeu, a qual daria para alagar, senão o Vietnã, ao menos a região norte do Vietnã.” (p.272)

O leitor, afinal, mesmo morrendo de tanto rir, deverá reconhecer que está nas mãos de um bom assassino, ou “assassigno”. como diria o poeta Márcio Almeida. Tadeu Sarmento não se furta de, à maneira dos pós-modernistas, dar sua pitada metalinguística, como na p.214: “Não existe relação hierárquica entre leitor e escritor, Belino pensava, já que ambos caminham inseguros sobre o mesmo campo minado. Só que em horários diferentes, Belino completou para si mesmo e, ainda que se sentisse perdido, pois, a literatura só atrai os nostálgicos, os exilados, os que não se sentem bem em lugar algum, salvo no rio irreal dos parágrafos de um livro, Belino e Graham Greene se encontravam na mesma página, dançando desprotegidos, de patins, sobre pistas de gelo, ou atravessando, vendados, numa corda bamba em dia de vento, cada qual com seu salto quinze, pontudo.” E, mais adiante, quase no apagar das luzes de sua lúcida obra, ainda vem com esta: “Pois não estamos escrevendo ficção. Tudo o que descrevemos aqui aconteceu, só que mais ou menos. Mas mais para mais que para menos, segundo a escola Kurt Vonnegut para picaretagem & piano. O problema é que tudo que aconteceu tem um tempo e memorizar, no limite, é de fato polir. A imaginação é uma memória polida, aparada em suas arestas, pronta para ser recontada.” (p.376)

Queria rosetar mais ou menos assim. E, depois de vampirizar o texto do Tadeu Sarmento, volto aos versos da balada do vampiro curitibano: “ó curvas ó delícias/concede-me/ essa ruivinha que aí vai/a doce boquinha suplicando beijo/ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem”.

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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A literatura imprescindível de Philip Roth – Leitura de Casei com um comunista

Por Adriane Garcia

O romance Casei com um comunista, de Philip Roth (Cia das Letras, 2000), tradução de Rubens Figueiredo, conta a história de Ira Ringold, narrada pelo conhecido alter-ego de Roth, Nathan Zuckerman. Nathan conhecera Ira na adolescência, quando Ira já era um militante comunista linha dura. Décadas depois, ao se encontrar com o professor Murray, irmão de Ira, Nathan toma conhecimento do fim da história de seu ídolo nos anos de juventude. É essa história que Philip Roth nos trará em 422 páginas.

Para além da trama que se passa nos anos de macarthismo, da perseguição política aos comunistas, a “caça às bruxas” dos anos 50, nos Estados Unidos da América, Philip Roth traz ao leitor, neste livro, um verdadeiro tratado sobre política e literatura, sobre liberdade e disciplina, liberdade e desapego e sobre ideologia e morte. Sobretudo, do que Roth falará e deixará claro, na composição de seus próprios personagens, será sobre a complexidade individual, o antagonismo humano.

Ira (um astro de rádio em ascenção) é o comunista ferrenho que se casará com uma atriz de sucesso, a rica e famosa Eve Frame, escravizada emocionalmente pela filha Sylphid. Entre a ideologia comunista e a prática burguesa, a vida de Ira Ringold e daqueles que orbitam em torno de sua história, habilmente mostrada por Roth, é o retrato com o qual o autor demonstra a potência dos antagonismos que há em cada um de nós, o fosso que existe entre aquilo que acreditamos e muitas vezes pregamos e a forma com que agimos. À exceção do personagem O’Day, que tem absoluta consciência de que para não se perder de si é preciso estar num quarto “cela”, num quarto sem nenhum bem-estar além de uma dura cama para dormir e algo para ler e comer, todos os personagens de Casei com um comunista são feitos de complexidade e incoerência (esta a coerência humana). Mesmo nos personagens que mantêm uma conduta mais condizente com a sua crença, como o caso do professor Murray, por fim, o que vemos é a grave presença da sombra de um arrependimento. Roth chega à tensão de construir sua personagem Eve Frame, uma mulher invejada, infeliz na vida e no amor, uma judia antissemita.

Da página 288 em diante, o que o leitor tem é a riqueza da discussão sobre o fazer literário, a reflexão exposta do fazer artístico se imbricando na própria trama, o professor Leo Glucksman trazendo o paradoxismo no próprio discurso, pois que, como todos, acha sua verdade superior às outras. E, por fim, a magnitude de uma obra que pensa o ser humano e a humanidade, sem condescendência com qualquer grupo, e que se pergunta o que, afinal, fazemos com os nossos erros; qual o sentido de nossas próprias histórias, individuais e coletivas, diante da morte.

Um livro imprescindível, cujo compromisso é apenas com a literatura.

“ – Arte como arma? – disse ele, a palavra “arma” carregada de desprezo e ela mesma uma arma. – Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado da coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço “do povo”? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer se rebelar contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? Então não lute em favor da classe trabalhadora. Eles vão se dar muito bem na vida. Vão se empanturrar de carros Plymouth até seu coração se fartar. O trabalhador vai dominar todos nós – da estupidez deles, vai jorrar a lama que é o destino cultural deste país vulgar. Em breve teremos neste país algo muito pior do que o governo dos camponeses e operários. Você quer uma causa perdida para defender? Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América que você está do lado da palavra! Esta sua peça é um lixo. É medonha. É revoltante. É lixo grosseiro, primitivo, tosco e propagandista. Ela tolda o mundo com palavras. E esbraveja aos céus e terras as virtudes do autor. Nada produz um efeito mais sinistro na arte do que o desejo do artista de provar que ele é bom. A terrível tentação do idealismo! Você precisa alcançar o domínio sobre o seu idealismo, sobre a sua virtude, bem como sobre o seu vício, o domínio estético sobre tudo aquilo que o impele a escrever, em primeiro lugar – a sua indignação, a sua política, a sua dor, o seu amor! Comece a pregar e tomar posições, comece a ver a sua perspectiva como superior às outras, e você é inútil como artista, inútil e ridículo. Por que escreve essas proclamações? É porque olha o mundo em volta e fica “chocado”? É porque olha o mundo em volta e fica “comovido”? As pessoas sucumbem muito facilmente e fraudam os seus sentimentos. Elas querem ter sentimentos prontos, e então “chocar-se” e “comover-se” são os mais fáceis. Os mais burros. Exceto em casos raros, senhor Zuckerman, o choque é sempre falsidade. Proclamações. Na arte não há lugar para proclamações! Tire essa sua adorável merda do meu escritório, por favor.”

(Diálogo entre o professor de arte Leo Glucksman e seu aluno Nathan Zuckerman, p. 288 e 289)

***

Casei com um comunista

Philip Roth

Tradução Rubens Figueiredo

Cia das Letras

2000

Associação Robert Walser para sósias anônimos – Memória, identidade e desencanto na literatura de Tadeu Sarmento

Por Adriane Garcia

“Outro dia vi na TV um sujeito ser preso por passar um cheque sem fundo de cento e vinte mil, fazes-me-rir. Disse que o teria assinado por ser o sósia de Bill Gates. A polícia não engoliu muito bem a história. A fatalidade deve ser carregada de ironia, caso queira ser mais bem assimilada por mentes estreitas.

De minha parte, acredito sim que, para ser um sósia, sem dúvida é necessário atingir este grau de convicção.”

***

Termino a leitura de Associação Robert Walser para sósias anônimos, de Tadeu Sarmento. Acrescento-o a alguns outros romances excelentes que tenho conhecido nos últimos tempos, destes escritores contemporâneos nossos que vêm somando boas histórias a um trabalho criativo, fluido e rico.

Ganhador do Prêmio Pernambuco de Literatura, quem o lê compreende as qualidades que se juntam neste livro e que chamam a atenção.

O Associação Robert Walser para sósias anônimos é uma história interessante, curiosa; mas é mais que isso: é uma boa história contada com a habilidade das narrativas policiais e a criatividade dos que abrem mão da linearidade, da facilidade e que fazem do caminho labiríntico um meio de encantamento para que o leitor penetre no livro como quem está num jogo. E jogamos imersos num cenário que lembra muito o teatro do absurdo de Ionesco ou Arrabal, penetramos “surdamente no reino das palavras”. De repente, vemos, e é isto mesmo, o livro de Tadeu Sarmento é um convite a ver, enxergar, imaginar, tal sua facilidade em nos desenhar a imagem dos personagens e sua geografia. Estamos olhando para Imannuel Kant – sim! – o filósofo, reproduzido numa espécie de clonagem proposital, na cidade paraguaia de Nueva Königsberg – um reduto de nazistas foragidos da caça pós Segunda Guerra?! Na flutuação de tempo e espaço, o prédio da Associação, frequentado por Yeshua, Lennon, Mark Chapman, Sílvio, Woody, Elvis, Van Gogh, Yoko, Hussein, Robert Walser… e, na verdade, todos os duplos, todos os que se cansaram da própria identidade ou que nela viram a grande dificuldade de ser, ser si mesmo, a ponto de esquecerem seus verdadeiros nomes. Estão lá para recuperar este nome, mas não se sabe bem, no decorrer da leitura se este é mesmo um desejo, afinal “ser você mesmo é patinar constantemente sobre o gelo”. Ser sósia é fugir.

“O sósia é como a sombra de um boxeador, entendem? Ela está lá, a sombra, atrelada aos mesmos movimentos e combatendo a mesma luta, só que ela, a sombra, não se machuca.”

Com pitadas de muito humor (o autor é excelente frasista), de um humor irônico, refinado e inteligente, Associação Robert Walser para sósias anônimos é um livro sério e divertido, que toca profundamente questões com as quais dificilmente um leitor não se identifica, pois quem já não desejou um dia esquecer todo o passado e poder começar tudo em outro papel? Mas este romance vai além – noutro papel ainda seria você –, quer-se então vivenciar não a própria vida, mas a vida do outro, ser sua sombra, estar à deriva do talento e sucesso alheio, não haver nada da responsabilidade pela conquista deste brilho genuíno ou do sofrimento de construir o original. Paradoxalmente, o sósia almeja a cópia mais perfeita e nisto consiste o seu esforço de duplo. Na impossibilidade do aplauso, imaginar que são para si.

“ De qualquer modo nós sobreviveremos, mas não por sermos fortes, e sim porque seremos os mais rápidos a esquecer.”

Um círculo vicioso dos dias, feito de melancolia, monotonia e desesperança frequentam este mundo onde nada pode vibrar, pois o que vibra não é a cópia, o que vibra exige movimento rumo ao novo. Assim, tanto a cidade de Nueva Königsberg – que procura copiar a suposta e discutida abstinência sexual de Kant – quanto o prédio da Associação evitam as crianças. Crianças e suor. A vida é algo que já se fora e do qual se quis livrar-se. A vida constantemente frequentada pelo anticlímax. A beleza constantemente ferida, em um mundo em decadência, onde nenhum objeto ou ícone sobrevive sem as “trincas” que o autor denuncia, na admissão de todo desencantamento.

Um livro que não pode ser lido de forma distraída, ou perde-se lances incríveis; um livro que deve ser relido para descobrir que há ainda mais do que já se viu. Um livro sobre identidade, memória, amor e, sobretudo, fracasso. Um diálogo com a impotência que temos em comum uns com os outros.

“Não lembro bem há quanto tempo decidi ser um sósia. Sei que, desde cedo, sempre achei difícil ser eu mesmo. Daí, para a decisão de esquecer a senha de acesso que me traria de volta para mim, não sei bem se demorou. Foi preciso abraçar a oportunidade. Como aquele conquistador que, ao pisar pela primeira vez o solo de Cartago tropeçou e, sem perder a chance nem a pose, abriu os braços o máximo que pode e caiu exclamando: esta terra me pertencerá. Existe algo de muito singelo nesta cena contada por Walter Benjamin, que, aliás, é sósia de Charles Chaplin.”

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Tadeu Sarmento nasceu no Recife em 1977. É autor dos livros Breves Fraturas Portáteis (Fina Flor Editora, 2005) e Paisagens com ideias fixas (Bartlebee, 2012). Associação Robert Walser para sósias anônimos (2015) é seu romance premiado pelo Prêmio Pernambuco de Literatura e publicado pela editora Cepe. Em breve lançando o romance E se Deus for um de nós, editora Confraria do Vento.