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Notícias lá de CASA

Veio domingo, veio a tarde e fui caminhando sozinho pro bar onde foi o meu open house. Quando você termina um livro chamado CASA o que acontece é um open house, não é? Caminhei pela zona portuária do Rio prestando atenção no entardecer, nas folhas, nos galhos que dobravam e faziam as árvores sussurrarem o testemunho dos anos. Sons apenas para os transeuntes atentos. Um instante eu era um passageiro no bonde elétrico que corta a região, no outro eu era um escritor perdido em pensamentos pelas calçadas em busca de um bar. Seria o clichê perfeito para a crônica se o resultado fosse um copo, um traçado, uma pinga, mas o bar entra como cenário do lançamento de um livro.

Meu livro nasceu no bar, eu estava no balcão, meu lugar preferido para beber e oferecer autógrafos modestos e abraços sinceros. Meu livro nasceu amparado por uma casa editorial movida por uma paixão pela literatura. Obrigado Editora Urutau. Recebi escritores que considero maiores do que eu, recebi alunos, recebi desconhecidos e amigos de infância, recebi meus melhores amigos e recebi meu amor. Abri as portas da CASA e todos entraram radiantes de sorrisos e lembranças, colorindo as paredes da CASA como um arco-íris perfeito em uma tarde amena de inverno. Eu ofereço as páginas e cada leitor suas cores. O mais fascinante de tudo isto é que não se trata de um registro lírico de um poeta, e sim um registro biográfico e jornalístico de como a tarde realmente foi. A CASA é um sopro na voz dos leitores.

Tenho paredes de vento
Telhado de versos
Assim construí minha CASA

Não são tempos fáceis para a arte. Toda a poesia, por definição tornou-se “poesia para tempos de sangue”. Cada verso é resistir com inteligência num país que abjura sua ciência e estrangula sua cultura. Resta a página; a cada página uma vida e esperança que um dia todos poderão ler sem fome no país. Resistir é do homem. Lembrar é da História. Gritar a verdade, já e poesia.

Deixarei aqui apenas algumas fotos. Aqueles que quiserem mais, eu postarei na minha página de autor naquela rede social, o link é esse:
https://www.facebook.com/robertodutrajr/

Evoeh!

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A TRAMA INVISÍVEL

Segunda-feira, ah… Entra pelas narinas o cheiro da manhã, as marcas do campo urbano, fuligem, monóxido de carbono e pólvora. Claro, a selva de desodorantes dentro dos ônibus e, sim, o inigualável cheiro da pólvora dos cartuchos de fuzil utilizados na noite anterior. A vida na cidade é incomparável.

Valer-se da segunda-feira para observar o Rio é algo peculiar. Já cedinho subir pela Avenida Rio Branco. Vá pelas cinco da manhã, pois nos próximos três quartos de hora tudo mudará tão drasticamente que você terá vontade de correr. Mas antes que uma multidão tome a calçada você chega perto de uma banca e lê as notícias frescas sendo estiradas pelos jornaleiros. Quem sabe passa pelo Largo de São Francisco e se deixa levar pelo cheiro da gordura de centenas de hambúrgueres que começam a ser preparados, para que na hora do almoço tenham atingido aquele ponto ressecado como uma sandália Havaiana que ficou no sol, para então serem servidos a todo tipo de gente faminta. Merece o refrigerante Pakera ou Tobi para descer. Azia estranha é certa e não faz distinção de classe.

Depois, ir caminhando pela Praça XV e deslumbrar-se com a multidão despejada de uma só vez pelas barcas. Experimente ficar parado. Todos caminham de uma maneira diferente, mas ninguém nota você parado na calçada. Por exemplo, ao lado do sinal de trânsito em frente à Assembléia (pode ser a rua homônima também, que é pertinho) observando, como que furtivo nas próprias roupas, os tornozelos das mulheres que passam. “Ah… eu amo a mulher que passa”. Obrigado Vinícius. Mas que bom se você pudesse beber comigo uma branquinha para distrair a garganta enquanto os olhos se ocupam dos tornozelos da mulher que passa. As curvas, as pernas torneadas e o calcanhar pressionado pelo salto. Que vontade de morder. Ai, se me adivinhassem o sorriso escondido. Que diriam elas caso se soubessem admiradas? Uma orquídea ou um beija-flor, tatuados, colorindo a panturrilha, quase passam despercebidos. Vamos morder os calcanhares da mulher que passa porque naquela saia vai meu coração despedaçado do final de semana.

De tarde, ir à Saens Peña, olhar para o céu. Sempre chove primeiro na floresta e as nuvens sempre querendo ficar mais, seguram-se no cume das serras. Cheiro de pipoca doce ou salgada traz também a saudade do Cine América. Bando de pulhas, vocês sabem, deixaram o cinema acabar, bando de carniceiros do pós-vida, isso sim. Odeio essa cidade enfeiada pelos assassinos do Cine América.

Eu vou voltar para casa. Quase me esqueço dos tornozelos da mulher que passa. A cobradora do ônibus berra comigo. Passo rápido e procuro onde me sentar. Um passageiro chama a atenção em voz alta e eu atento para a polícia distribuindo porrada e colocando gente na traseira do camburão, quando passamos pela Leopoldina. Cena igualmente carioca. Tento relaxar no banco e penso que a cidade, na verdade, é um conjunto de cenas que se repetem, aparentemente sem propósito, mas encadeadas. A cidade é uma trama invisível de pessoas. O motorista do ônibus acelera.

TELHADO [tríptico, ou três águas]

Noite
      quase
noite
      quase
meia
      quase
noite


fresca
       brisa
da noite
       brisa
no ombro
       brisa
no colo
      da vida

as cores não importam
não tecem mistério
escondem o sincero
sorriso do sonho acordado
dois jovens – nada sério –
o movimento da terra é tenro
o sopro da brisa na blusa
a órbita opaca da prata
luna
tão leve que menos que pluma, baila
menos... flutua
               gentil
ardente e toda
sua
               quando clareia a noite
meia
     quase noite
quase beijo
quase queira
o sonho prolongado na beira
da rede
balanço de braço
esticado
no horizonte
telhado de abraços.

Riso
     menos
menos que suspiro
mais
mais que o caminho tortuoso do rio nilo
místico, ainda assim inteiro
contido
       na terceira margem do feitiço índio
de um amazonas inteiro de iaras fugidas em igarapês ungidos
ainda o maior de todos os rios sussurrando um ruído
suspiro
riso
       seu sorriso é um um rio
bruxuleando e tremeluzindo
o efeito astral de um signo planetário
calor e graça surgindo lambendo
a terra
        a boca
                leito da vida
nascendo no sopro da letra na língua do outro.

Noite
     cega
noite
     cega
vida cega
     noite adentro
sempre sinto que me fendo, ora sério, ora sendo a linha que sustenta a fina vila de    alegria que atravessa o riso e margeia a vida
essa brisa que alisa a calma
a noite alada que não crê que vaga
enseada que envolve a alma
e todo gesto de gente querida assoprando a brisa
que afaga a água
que reflete o mel da chama que sozinha ainda vibra
na escuridão que nunca sonha
lembra ainda
e repita em uma marola comprida
nada veja
mas me siga
seja chama
sob o céu de sempre
e nesta vida.