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A literatura imprescindível de Philip Roth – Leitura de Casei com um comunista

Por Adriane Garcia

O romance Casei com um comunista, de Philip Roth (Cia das Letras, 2000), tradução de Rubens Figueiredo, conta a história de Ira Ringold, narrada pelo conhecido alter-ego de Roth, Nathan Zuckerman. Nathan conhecera Ira na adolescência, quando Ira já era um militante comunista linha dura. Décadas depois, ao se encontrar com o professor Murray, irmão de Ira, Nathan toma conhecimento do fim da história de seu ídolo nos anos de juventude. É essa história que Philip Roth nos trará em 422 páginas.

Para além da trama que se passa nos anos de macarthismo, da perseguição política aos comunistas, a “caça às bruxas” dos anos 50, nos Estados Unidos da América, Philip Roth traz ao leitor, neste livro, um verdadeiro tratado sobre política e literatura, sobre liberdade e disciplina, liberdade e desapego e sobre ideologia e morte. Sobretudo, do que Roth falará e deixará claro, na composição de seus próprios personagens, será sobre a complexidade individual, o antagonismo humano.

Ira (um astro de rádio em ascenção) é o comunista ferrenho que se casará com uma atriz de sucesso, a rica e famosa Eve Frame, escravizada emocionalmente pela filha Sylphid. Entre a ideologia comunista e a prática burguesa, a vida de Ira Ringold e daqueles que orbitam em torno de sua história, habilmente mostrada por Roth, é o retrato com o qual o autor demonstra a potência dos antagonismos que há em cada um de nós, o fosso que existe entre aquilo que acreditamos e muitas vezes pregamos e a forma com que agimos. À exceção do personagem O’Day, que tem absoluta consciência de que para não se perder de si é preciso estar num quarto “cela”, num quarto sem nenhum bem-estar além de uma dura cama para dormir e algo para ler e comer, todos os personagens de Casei com um comunista são feitos de complexidade e incoerência (esta a coerência humana). Mesmo nos personagens que mantêm uma conduta mais condizente com a sua crença, como o caso do professor Murray, por fim, o que vemos é a grave presença da sombra de um arrependimento. Roth chega à tensão de construir sua personagem Eve Frame, uma mulher invejada, infeliz na vida e no amor, uma judia antissemita.

Da página 288 em diante, o que o leitor tem é a riqueza da discussão sobre o fazer literário, a reflexão exposta do fazer artístico se imbricando na própria trama, o professor Leo Glucksman trazendo o paradoxismo no próprio discurso, pois que, como todos, acha sua verdade superior às outras. E, por fim, a magnitude de uma obra que pensa o ser humano e a humanidade, sem condescendência com qualquer grupo, e que se pergunta o que, afinal, fazemos com os nossos erros; qual o sentido de nossas próprias histórias, individuais e coletivas, diante da morte.

Um livro imprescindível, cujo compromisso é apenas com a literatura.

“ – Arte como arma? – disse ele, a palavra “arma” carregada de desprezo e ela mesma uma arma. – Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado da coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço “do povo”? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer se rebelar contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? Então não lute em favor da classe trabalhadora. Eles vão se dar muito bem na vida. Vão se empanturrar de carros Plymouth até seu coração se fartar. O trabalhador vai dominar todos nós – da estupidez deles, vai jorrar a lama que é o destino cultural deste país vulgar. Em breve teremos neste país algo muito pior do que o governo dos camponeses e operários. Você quer uma causa perdida para defender? Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América que você está do lado da palavra! Esta sua peça é um lixo. É medonha. É revoltante. É lixo grosseiro, primitivo, tosco e propagandista. Ela tolda o mundo com palavras. E esbraveja aos céus e terras as virtudes do autor. Nada produz um efeito mais sinistro na arte do que o desejo do artista de provar que ele é bom. A terrível tentação do idealismo! Você precisa alcançar o domínio sobre o seu idealismo, sobre a sua virtude, bem como sobre o seu vício, o domínio estético sobre tudo aquilo que o impele a escrever, em primeiro lugar – a sua indignação, a sua política, a sua dor, o seu amor! Comece a pregar e tomar posições, comece a ver a sua perspectiva como superior às outras, e você é inútil como artista, inútil e ridículo. Por que escreve essas proclamações? É porque olha o mundo em volta e fica “chocado”? É porque olha o mundo em volta e fica “comovido”? As pessoas sucumbem muito facilmente e fraudam os seus sentimentos. Elas querem ter sentimentos prontos, e então “chocar-se” e “comover-se” são os mais fáceis. Os mais burros. Exceto em casos raros, senhor Zuckerman, o choque é sempre falsidade. Proclamações. Na arte não há lugar para proclamações! Tire essa sua adorável merda do meu escritório, por favor.”

(Diálogo entre o professor de arte Leo Glucksman e seu aluno Nathan Zuckerman, p. 288 e 289)

***

Casei com um comunista

Philip Roth

Tradução Rubens Figueiredo

Cia das Letras

2000

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RESENHA DE APRENDIZAGEM CINZA, PELO JORNALISTA JESSE NAVARRO

POESIA

São Paulo a sangue frio na estreia de Leandro Rodrigues

Por Jesse Navarro, jornalista

“Aprendizagem Cinza” (Editora Patuá, 2016) é o livro de estreia do poeta paulista Leandro Rodrigues. Trata-se de um conjunto de poesias que mostram o lado realista e denso da capital de São Paulo. Uma verdadeira viagem sangrenta e real pelos cantos da cidade mais rica do Brasil. O livro já começa com o misterioso título “São Paulo IX”, Concretismo puro.
Em “São Paulo IX”, Leandro Rodrigues roteiriza o que nunca seria dito por um apresentador de programas policialescos, apesar de o assunto ser um crime passional. É mostrada uma visão de quem está atrás das lentes em ritmo de cinema noir.
Em “Astraçã”, vemos um show de vogais que não são apenas vegetativas. São vogais que mostram aquela capital do turista (francês, será?), aquele que usa uma bússola e morre. Em cada verso se faz presente a arquitetura pós-moderna que só São Paulo tem. Prédios triangulares, assimétricos, ruas escuras onde o cotidiano mostra sua face: decomposta, criminosa, real como só o sangue de um poeta pode ser.

É uma São Paulo onde até Bukowski aparece. Ele mesmo, o norte-americano velhaco, o famoso poeta das mil garrafas de Bourbon. Na poesia, o gênio vomita e enfrenta o aço de Sampa. Temos aqui uma linguagem não-linear, onde o cinza do título mancha todas as ruas da cidade em pleno século XXVIII. Vira chumbo, lixo, miséria, uma realidade cinzenta como nem o mais pessimista poderia imaginar. A chacina prossegue em “São Paulo V”: aquele mesmo sangue que os mais velhos espremeram nas antigas páginas do jornal Notícias Populares. O poeta se indigna diante um crime passional e entrega o que chama de linguagem publicitária. Os números vão crescendo ao mesmo passo do lixo, da miséria, da hecatombe visionária. O poeta insatisfeito aumenta o caráter da letra, dando o efeito visual que desconstrói o sangue reciclado. Os rios Pinheiros e Tietê são desmascarados como desova de defuntos, um cenário onde o velho Buk, o bêbado escritor, certamente pensaria em se jogar, bradando: “preciso resgatar minha garrafa!”.

A poesia que puxa para a antiga forma de Literatura é justamente onde o poeta se enterra: “Soneto à cidade de São Paulo”. Não satisfeito na condição de morto, ele dança com defuntos numa perigosa valsa que não perdoa nem Mário de Andrade. E quem será o Urubu-Rei que voa entre escombros, farpas e estilhaços? A cidade dos travestis que têm faca entre os dentes, cortando a noite em mil palavras. Então temos mais do que a modernidade, temos os primórdios do século XX em São Paulo de 1937, 1910, 1915 (a melhor peça do livro, que dá voz aos cavalos), até o sangue impiedoso nas roupas do varal de 1918.
Não se trata de obra recomendável para deprimidos: é veneno que escorre pela boca, sangue que esparrama até no poema da tarde, um caleidoscópio onde podemos ver Lorde Byron, Zé do Caixão, Buñuel, todos esqueletos nas ondas do mar. Hilda Hilst aprovaria esse livro, certamente colocaria na sua estante entre os favoritos. Eis uma poesia gótica, misteriosa, profunda, enigmática, sangrenta, terrível. Rara na atual geração.

Até Drummond é revisitado, sempre gauche. O anjo é o próprio poeta que não dá a mão para si mesmo no espelho, apenas franze a testa. Tão surreal quanto o barulho de um jasmineiro que, pasmem, “no seu barulho aponta um cifrão”. Não falta também o lado musical de Leandro: a letra “Memória dissoluta” fez parte da sua passagem por bandas importantes nos anos 90, como Onírico e Redator S/A.

Difícil escolher a melhor poesia, mas certamente “Semiótica” vai além do conceito de Marshall McLuhan. Não temos aqui nem o meio, nem a mensagem. Temos um par de olhos dentro do mais surreal dos copos da Língua Portuguesa. O livro que ficou na estante passa a assombrar o “homem de papel”. O habitante da bruta capital, perdido em becos, uma hora vai até os rios. E até lá acha a morbidez de mortos afogados que continuam nadando. Há também espaço para pássaros, raras figuras que não sangram em “Aprendizagem Cinza”. O poeta, que é um professor da Língua Portuguesa, mostra habilidade verbal em “Vapor Barato”, título que alude à famosa música de Jards Macalé e Waly Salomão: “Lentas horas / só meu coração / e va po ra”.
“A golpes de martelo” ficou consagrada no programa “Estúdio Blen Blen Entrevista” na internet. Um piano segue o compasso da narração, a poesia concreta se assume no estilo que consagrou os irmãos Campos e Décio Pignatari nos anos 50. “Aprendizagem Cinza”, o livro, é uma estreia pesada, realista, sem gracejos ou romantismos. Além de ser boa leitura, é também uma aula para novos poetas. Que venha o novo.

Cardume, de Carlos Moreira, por Adriane Garcia

Estou com as mãos em Cardume. Reservei esta semana que passou para lê-lo. O livro já está comigo há muito tempo e eu que só o tinha folheado, aguardava o instante exato. Acredito que os livros têm o seu momento em nós. Então foi isso, durante a semana eu andava de viagem com Carlos Moreira em seu cardume de palavras, enquanto refletia com ele sobre o cardume em que e com o qual vivemos.

Mas se um cardume age sem vontades individuais, pois a vontade de um cardume é sempre coletiva, o que nos leva à indagação de se há mesmo algo que se possa chamar vontade num cardume, Carlos Moreira mostra-nos que o seu é subversivo. Suas palavras se juntam para formas variadas, como se se tratasse, na verdade, de um cardume mutante, um cardume a serviço da vontade da palavra. Um cardume para fugir do cardume. Vários poemas. Vários cardumes.

Já de entrada, a epígrafe de Wislawa Szymorska: “O abismo não nos separa/O abismo nos cerca.” Sim, esta viagem, se você for um futuro leitor de Cardume, é bom que se saiba, será uma viagem nos abismos. Mas o abismo amparado pela palavra. A palavra que em Carlos Moreira é ser. A palavra é sua saída para poder ser. Da condição humana, trabalhada em Heidegger e, posteriormente, em Sartre, que vai da reflexão do tempo do homem até a sua impossibilidade de ser, Carlos Moreira faz o seu ponto de indagação e crítica, pensamento e criação. Paradoxalmente ao não ser, ele é. É poeta. E isto tem função também, em sociedade. E esta a inexorabilidade colocada:

a palavra

esta lepra

entranha

na minha pele

sua lavra

não quero saber

e digo

gosto do silêncio

da água

no fundo da piscina

a maldita

ignora meu pedido

e assina em mim

pelo avesso

o sim do seu signo

Em versos curtos e de precisão, em sua maioria, mas de maneira alguma presa numa única forma, a poesia de Carlos Moreira só obedece ao poema.  Notaremos que ele se amparou na tradição de nossa literatura poética para possuir todas as ferramentas. Se um poema pede versos longos, rimas ou não, aliterações, metáforas (e como são belas as metáforas em Carlos Moreira!) neologismos por aglutinação, se pede a forma de uma poema visual lá está. Mas longe de ser uma miscelânea, encontraremos a voz absolutamente reconhecível deste poeta, unindo tudo, numa imagética rica e muitas vezes de espanto, um ritmo que não falha nunca, este o seu fio, a densidade, a irreverência, a seriedade mesmo quando brinca, há humor suave, amargo, o tema amplo, o poeta que em muitos versos nos fará também lembrar Nietzsche e seu olhar por cima da manada. Cardume.

o porco fuça fareja

esfrega o focinho

contra raiz e terra

o corpo todo do porco

emprega a si na tarefa

de encontrar a trufa perfeita

aquela que ele mesmo

jamais comerá

porque a entrega

o porco é um poeta

Seus temas são os de um poeta solitário e solidário: Condição humana, indagação ontológica e metafísica, morte, saudade, memória, tempo, crítica à sociedade num desmascaramento do mundo, amor, existir, a relação leitor/poeta, o espanto infantil diante da mágica da natureza e, ao mesmo tempo, a natureza como um anti-idílio, o silêncio e o paradoxo que é o silêncio transmutado em palavras do poeta, a solidão, o tédio, o vazio, o uno, a destrutividade humana, a denúncia de uma convivência desastrosa, a indagação ética.

nenhuma coluna

sustentará o templo

que não construímos

deus nenhum repousará

sobre o altar

plantado no escuro

não restam deuses

nem templos

por derrubar

derrubaremos

uns aos  outros

Não há nenhuma ingenuidade em Cardume, lá estão a dificuldade de ser, a proibição de ser, a subversão de ainda assim ser, quando ser é fazer sentido, possuir e poder exercer palavra, linguagem, expressão; ser um homem-verbo, pois toda renúncia é possível, exceto a renúncia à palavra. Ser como encontro com alguma dignidade e com a beleza. Como a beleza deste poema, este mar inesquecível onde só o Cardume de Carlos Moreira foi. Enfim, um livro adorável. Brilhante.

o mar

me recebe

lambendo

meus pés

salta

em meus

joelhos

pousa

no meu peito

sua pequena

pata úmida

pede

que me deite

mais suave

que a chuva

e tudo

que somos

é bonito

simples

e antigo

o mar

é o meu cão

favorito

Um poeta necessário de sua geração.

Cardume, Carlos Moreira, editora Valer, 2013. Os exemplares podem ser adquiridos também com o autor, via facebook.

Resenha originalmente publicada em setembro de 2014, no blog Os livros que eu li. http://www.adrianegarcialiteratura.blogspot.com.br

Bruce Wayne na estação – Uma leitura de Sem passagem para Barcelona, de Alberto Bresciani

Por Adriane Garcia

    Entre o passado e o presente, carregando um futuro que não haverá, um homem caminha parado. Uma esteira rolante combinaria bem com este personagem “eu lírico” do livro de Alberto Bresciani. A vida o leva – como a esteira –, não para Barcelona.

    Este personagem está a nos falar da falta, em suas nuances várias, da incomunicabilidade, presença de fulcro na mitologia pessoal que move os trabalhos deste autor e em um de seus autores prediletos, Paol Keineg. Se em Incompleto Movimento (José Olympio – 2011) o exílio era uma das forças temáticas do discurso, aqui em Sem passagem para Barcelona ele se adensa, pois que é impossível outro asilo que não o próprio esconderijo interno, esconderijo insuficiente, já que a consciência o atinge todo o tempo, esta de não possuir controle algum sobre o destino, de não poder, nem mesmo o herói, impedir as tragédias e, ao contrário, advir delas. Não por acaso, falando de heróis e tragédias, inevitavelmente nos lembramos dos gregos antigos.

    Como antídotos, que jamais resolvem os problemas do cenário, mas permitem ao homem continuar, o autor traz dois grandes elementos de redenção: a fé e a poesia. Na verdade, em Sem passagem para Barcelona há um terceiro elemento, mas deste falaremos mais tarde. A visão panorâmica de desencanto de Alberto Bresciani é nietzschiana, mas o poema não concede ao filósofo:

O Deus que conheço

não morreu

Está

Entre a fome e fama

em meio ao que explode ou afaga

flor e moeda

Terras que escorrem

matam crianças

cavalos

a última ave

Mas sim

está

II

Depois do grito do riso

restam farpa tarefa burla

atalho algum que me

engane ou salve?

III

No encalço da crença

um céu branco

estanca”

    O embate citadino – pois o habitante deste poeta é sempre urbano no cinza – se dá inúmeras vezes entre a estética (poesia) e a necessidade e, no caso de vencer o belo, esta vitória deve estar no âmbito do secreto, visto que a beleza não é admitida:

Lá em cima

sobra andar de um lado ao outro

comer pedaços de azul e esperar

a voz dos cortes fechados”

    Não há lugar para uma natureza feliz. Eis um homem civilizado, é o que nos diz Alberto Bresciani.

    Desconforto, sofrimento crônico, Eros aprisionado, anjos caídos, o amor diversas vezes apresentado como um paraíso, mas um paraíso de expulsão; solidão, insuficiência da linguagem, aprisionamento em si, efemeridade, paralisia.

    Onde se esconderá o herói? Na identidade secreta, no alter ego. Todos querem ser amigos de Bruce Wayne, mas ninguém conhece as sombras de Batman. Havia que se esconder na memória, nos tempos de antes, quando a alegria cheirava a lavanda: “A despeito da sufocação/na memória/um perfume/resistia”. Mesmo a memória doerá.

    A terceira redenção é a morte: “Como agora/arriscar as veias?/Onde se apaga/o vazio?// Soube de búfalos/que trocam o cansaço/pela própria morte”.

    O herói não tem armas de fogo, o herói apenas possui armas humanas e, neste sentido, é o anti-herói. Bruce Wayne não pode ser, não pode “não participar” e Batman desistiu. Esta é sua resistência:

Nesta manhã

Gotham não será salva

Estarei mudo e surdo

às súplicas e ranhuras

E além disso

claro protesto –

sequer cortarei

as unhas”

    Já na capa de Sem passagem para Barcelona, este homem, melhor dizendo, este vulto dentro do trem (do ônibus?) parte. Engana-se quem pensa que ele comprou algum bilhete e segue. Não. Ele volta. Em Bresciani não há passagem para o futuro. Barcelona é apenas um sonho avesso à claustrofobia de Gotham.


Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Publicou, em 2011 , Incompleto movimento (José Olympio). Integra antologias e tem poemas e contos em portais da internet, revistas e jornais especializados.

Adriane Garcia é escritora, autora de Fábulas para adulto perder o sono (obra vencedora do Concurso Nacional de Literatura do Paraná 2013), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura) e Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015).

O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

                                                                                Leo Barbosa

Image                  (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                 O psicolirismo cotidiano de Rita Moutinho

     Não há atividade que ponha o subconsciente mais à tona que o ato de fazer literatura. Se houver, talvez se estabeleça através dos sonhos. Então aqui se instaura a semelhança entre a literatura e a psicanálise: “Já que a literatura carrega nos seus flancos o não-consciente e já que a psicanálise traz uma teoria daquilo que escapa ao consciente, somos tentados a aproximá-las até confundi-las”, nas palavras do psicanalista  Jean Bellemin-Noel. Afinal, ambas as ciências trabalham com a fala e tendem a revelar mais do que as linhas aparentam carregar.

   Podemos inferir isso da leitura de “Psicolirismo da terapia cotidiana”, (Ateliê Editorial, 2013), de Rita Moutinho. Após anos de terapia, a autora segue em catarse, ainda que guiada pelo rigor formal dos seus versos, para aprender a conviver com suas incertezas, medos, pensamentos fúnebres, efemeridades e temor da finitude. Mas a esperança segue firme: “Minhas asas estão atrofiadas/ no meu céu são opacas as estrelas,/ mas todas as desgraças, vou prendê-las,/ para as horas não serem tão coitadas. […] Pra azul destino quero um passaporte./ A ave quer voar, não quer a morte!” (P64)

   Nesse processo de transferência a cura pela palavra faz-se imprescindível. O eu-lírico necessita encontrar-se com o passado diante do terapeuta para que haja êxito em seu processo de superação. A psique da paciente responde com psicolirismo de forma condensada e derramada.

  A obra é dividida em quatro estágios: “Tempo nublado”, “Tempo instável”, “Tempo parcialmente nublado, passando a límpido” e “Céu quase limpo com Clarões no Horizonte” e por estes vai interrogando por via da filosofia e de conhecimentos mitológicos. O eu-lírico sabe que agora é preciso caminhar sozinho. É hora de sair do divã e retomar a rotina que tanto foi marcada por chuvas de perdas, por céus nublados enquanto desejava um cotidiano ensolarado.

   Rita Moutinho mostra-se uma poeta madura, conhecedora dos recursos de linguagem, do manejo dos versos, da forma, e consciente do estranhamento provocado pelas metáforas. Todavia, inevitavelmente, ao abusar do soneto, por vezes esbarra em rimas pobres como podemos conferir na página 93 da obra em questão. Peca em combinações do tipo: poucos/loucos, sangria/melancolia, ventosas/dolorosas, cura/alvura, artístico/místico etc.

   Uma das marcas de Moutinho é o frequente uso de antíteses: “Venho disposta ao forte e ao frágil,/ extremar-me firme e também volátil./ Chego tão vida quanto morte,/ me faço aqui, como exilada./ Articulo a fala, me defino muda/ e penso, nas raias da filosofia:/ somos dois multiplicados ao nunca.” (P 91).

   A última parte do livro assume tom de despedida como se o cotidiano se encerrasse, como uma rotina fosse quebrada pela desilusão de viver. Mas também assume novas perspectivas a partir da rebobinação de suas memórias como forma de fazer um balanço para poder prosseguir.

   A poeta tem estilo próprio ainda que caminhe pela tradição. Narra com paixão seus dramas e tramas. A cada final dos seus poemas ouve-se um estampido. É a vida saindo. É a vida entrando. Aqui ela faz seu registro, convida-nos a “uma viagem interna, tendo a alma como lanterna”. Afinal, onde podemos encontrar verdade maior senão explorando a nossa realidade secreta que melhor se exprime em nosso cotidiano?

                                                                                          Leo Barbosa é professor e poeta

NO AUGE DA QUEDA

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Leo Barbosa

(escritorleobarbosa@hotmail.com)

No auge da queda

      Conflitos familiares. Silêncios. Inconformidade com o ser e o estar. Inquietação. Deslocamento. Desassossego e a certeza de que todos nós estamos suscetíveis à queda e que toda ela pode ser fatal.

  Em “Queda da própria altura” (Confraria do vento, 2012), de Sérgio Tavares, segundo livro da carreira do escritor, conferimos isso. Em oito narrativas eivadas de poesia, um rigoroso trabalho com a linguagem, utilizando recursos tais como a analogia, metáfora e comparações, Tavares prolonga o mistério que envolve o cotidiano.

    Personagens solitários retornam ao passado sem se desligarem do presente. Em “Evolam-se os barcos” a introspecção do narrador é reforçada pela ausência de diálogos, ou melhor, da marcação que formalmente se dá através dos sinais de pontuação; travessão e dois-pontos, como se nem consigo fosse possível conversar.

   Tavares tem domínio da forma e, por isso, bem sabe subvertê-la,a exemplo do que já fizeram José Saramago, Hilda Hilst, Valter Hugo Mae e José Luís Peixoto. Além disso, o uso do fluxo de consciência, intensifica as reflexões do narrador-personagem, que aparenta estar desesperançoso, porém ainda guarda um fio de esperança no seu mundo interior marcado por uma claustrofobia que é fruto de sua própria natureza.

    Sérgio Tavares revela-se um autor maduro e ousado porque não teme experimentar a linguagem que se realiza sem truncamentos e hermetismo. É elaborada, mas sem malabarismo, risco iminente até para os escritores veteranos.

   O livro é dividido em três partes: “Impulso”, “Voo”, “Queda”. Nota-se a iminência de um “pouso”, pois é o que se espera de uma ave. É o que sugere a semântica da palavra voo, que nos remete a essa espécie animal. Entretanto, não estamos falando de aves, mas de protagonistas humanos atormentados por seus dramas e limitações.

   No conto “Sono”, há uma atmosfera onírica que espelha as reflexões de um homem que acorda para os conflitos que assolam seu casamento. Um transitar poético sobre o tempo revestido de romantismo sem cair na pieguice. A história é reatada, de forma breve, em “Sono (post scriptum)” como se fosse uma recaída, mas, na verdade, seus sentimentos chegaram ao termo.

   Em “Cerimônia”, uma mãe rememora sua vida ao lado de filho – um tocante relato aos moldes de Chico Buarque para quem, na voz de uma mulher, “ a saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto. Do filho que já morreu.”

   “Queda da própria altura” nos convida para um salto. Descristaliza nossos sentimentos. É um mergulho em nossas mazelas. Nos (des)conserta com seus questionamentos. É denso, intimista e preciso. Qualidades essas que só podem ser dignas de um escritor de alto porte literário.

                                                                      Leo Barbosa é professor e poeta

A sina de adiar os dias

capa_MAdiadas_wResenha “Manhãs adiadas”, de Eltânia André

*Leo Barbosa

     Manhãs adiadas. Dias adiados, vidas adiadas, entrecruzando-se entre o querer e o poder ser. Personagens dotadas de desejos que se camuflam nas suas rotineiras atividades. Linguagem poética. Ações rápidas. O feminino assolado pelo caos que o cotidiano impõe. Essas são as impressões iniciais que nos invade durante a leitura de “Manhãs adiadas” (Dobra editorial,2012), de Eltânia André, que tanto protelei ler porque sabia que estava diante de uma obra complexa, com fortes construções psicológicas, e que meu pragmatismo diário não me permitiria absorvê-la se por ele estivesse sendo consumido.

   Por isso estou aqui, ainda ruminando os signos e os símbolos que encontramos nesta obra. A começar pela primeira narrativa, “Parábola de Olgamaria”, que é concluída com um anagrama em forma de palavra-cruzada, revelando a ousadia que a autora tem ao explorar as várias manifestações linguísticas.

   O 2º conto, “Sem atalhos nem desvios”, inicia-se com uma vírgula, recurso semelhante ao que Clarice Lispector utilizou na obra “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, sugerindo a interrupção antes dos fatos a serem discorridos.

    Outro recurso de que se vale Eltânia é de intercalar versos entre parágrafos, rompendo a formalidade tão cara a muitos escritores canonizados. Mais uma vez é audaciosa em romper com a construção da narrativa, lembrando que os gêneros não são estáveis (ainda mais em se tratando de literatura).

  Em “Cortejo das Marias”, 3º conto, a nostalgia é a grande protagonista: “presente e passado numa estreita sintonia cavalgam sem cronologia sobre nossa história, na tentativa de preencher silêncios”. Nessa tentativa (certeira), a escritora dialoga com Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Bandeiriana, esta narrativa nos remete ao poema “Profundamente”. Não vou me delongar – o leitor interessado, procure o conto e o poema.

  Em “Fascínio” a narrativa se desenrola aos moldes hitchcokianos através de uma “Janela indiscreta”, mas aqui não se trata de observar um suspeito assassino, mas de uma adúltera a qual é vigiada por uma vizinha invejosa. Ela não suporta o fato de a outra possuir mais juventude e beleza, vivendo seus dias numa neurose alimentada por uma fresta na janela.

   Em “Cogito Ergo sum” notamos a presença da comida, que, por sinal, está presente em várias dessas histórias, a saber: “Parábola de Olgamaria”, “Fascínio” e “A solidão de Alzira”. Iguarias gastronômicas que não são meros acessórios, mas que, de fato, cumprem um papel importante na construção do clima narrativo.

   Nessas histórias, Eltânia retrata o quotidiano rural e urbano com a mesma propriedade. Ao primeiro não confere o estigma do matuto e, ao segundo, o de megalomaníaco – risco iminente de quem trabalha com esses cenários.

 Chama-nos atenção os signos ligados ao tempo – “a parábola”, “atalho”, “pássaros”, “cigarra”, “esperas”, “rodoviária”, “águas”, “borboletas”, “estações” – que conferem coerência e coesão à obra e nos relembram o quão transitória é a vida.

    “Os ponteiros são as inclementes vértebras do tempo, resíduo de amarguras no latifúndio de amarguras da existência, essa inesgotável e mecânica espiral do espírito rendido às inutilidades”.

  Creio que o grande mérito de Eltânia André, nesta obra, seja a construção das personagens que, em sua maioria, são seres que carregam a sina de viver suas vidinhas sem grandes novidades, adiam manhãs, dias, anos e a própria vida para ter a segurança que a rotina lhes dá. Quando um sentido às vinculam à vida, o clímax das estórias consiste em retirar-lhes o fio que as atam a seus dia-a-dia.

  Ademais, os contos são predominantemente memorialísticos e nostálgicos o que reforça a ideia de que “o passado, esse animal hibernado, que intermitente, mas feroz, acorda e não sossega dentro da gente, urrando, urrando…”