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Educação amorosa

Para suportar a leveza
Do amor
É preciso
Um alicerce fundo
Com calhaus de pedra
Brita cimento areia
E água na medida certa

Trincado
O amor leve pesa.

 

.

Adriane Garcia

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ANTIFÁBULAS

ANTIFÁBULA Nº 1

Cavas com as mãos
úmidas pedras do aquário
Limbos profundos onde peixes se encantam
com suas próprias sombras

Cores escorrem neutras entre os dedos

Não verificas o precipício da tarde guardada.

ANTIFÁBULA Nº 2

Alguns rios gritam descendem
duas verticais penas invisíveis
Águas furtas/ mudas formas
Olhos estrangeiros postados
num leito vazio
de mortos que acenam destros
disformes aguapés de abismos

Da margem esquerda
réstias de limbo traduzem
O cão velho que sangra cinza à beira

Do nada ao centro,
na profundidade da tarde extinta

Emaranhadas vozes,
palavras despidas de silêncios e silêncio.

ANTIFÁBULA Nº 3

O meu silêncio pode ser medido pela tarde
& suas múltiplas ausências
Texturas disformes de um retalho sem cor
Súbita sinfonia inacabada
A cortar as horas com sua fria lâmina

Estendo-a (colcha de abismos)
por sobre os olhos da cidade
gritos adormecem nos cemitérios
de lápides quebradas
incendiados ciprestes se movem
restos de escombros guardados
da minha voz morta.

Leandro Rodrigues

Caótico para retratar o caos – Uma leitura de Arame farpado

Por Adriane Garcia

(…)

É certo que nasci para nada e nascer para nada é libertador:

nascer para nada não me exige títulos,

não me assinala vencimentos,

não subtrai o que sou.

(…)” p. 38

Conheci o trabalho de Lisa Alves pela internet. Li alguns poemas da autora, espalhados por blogs e revistas deste infinito universo virtual. De um poema que lia, era levada a outro, motivo pelo qual, fui em busca da poeta e seu livro Arame farpado (Lug editora, 2015), cuja primeira crítica eu já havia lido no recomendado A nova crítica, de Sérgio Tavares.

O que havia me chamado a atenção no trabalho de Lisa era a linguagem tão contemporânea, direta, aliada a um vocabulário rico (sem ser, de forma alguma, anacrônico) e cheio de referências (literárias, históricas, geográficas, cinematográficas…). Ao mesmo tempo, uma rebeldia e uma coragem. A rebeldia de assumir o mundo que é o mundo e uma coragem de denúncia e de reflexão sobre o caos. Ao encontrar o livro, vi que essas características acompanhavam toda a sua coletânea de poemas.

Arame farpado, na própria forma, é um tanto irregular. Até mesmo o ritmo, a maneira de utilizar ou não estrofes, espaçamentos, leva, ora a momentos melódicos circulares, ora a momentos sincopados. No princípio, tive mesmo um incômodo, alguns de seus poemas, abertamente políticos, poderiam beirar o panfletário – mas ela sabe não atravessar a linha tênue – há algo que foge um tanto do que nos acostumamos (apesar de todas as vanguardas, hoje antigas) a considerar como “limpo”, “lírico”, na poesia “correta” e tantas vezes insossa. Mas a verdade é que Lisa Alves faz em Arame farpado um retrato, um grito, absolutamente coerente com o país onde escreve (a terra do sol de Glauber), com o mundo que chega à sua percepção, à nossa percepção, o mundo terrível dos atentos. Como a poesia, estando viva, não se sujaria com um mundo destes? Para que serve uma poesia que não tem consonância alguma com o tempo em que é escrita? Um bom livro nos faz perguntar muitas coisas.

Com inteligência e sensibilidade, Lisa Alves nos leva à viagem insólita de pensar e ver o planeta que habitamos; muitas vezes, faz isso de modo inesperado – sujo e exuberante. Sua liberdade de elaboração (aliás, liberdade é uma palavra-chave na poesia da autora), bem articulada ao seu/nosso tempo, pode tanto nos colocar nas Minas do Barroco, cheias de conservadorismo e tradição, quanto na Faixa de Gaza, onde crianças palestinas são assassinadas por Israel, com a mesma frieza e pragmatismo com que judeus foram assassinados pelo Nazismo.

Na geopolítica, sua crítica é direcionada ao capitalismo e seus tentáculos, como a manipulação midiática ou o uso político-social das religiões, não escapando orientações de esquerda ou de direita, ou mesmo a imundície de Brasília. O espírito em Arame farpado é anárquico. No mesmo cenário, Lisa utiliza-se de seus poemas mais confessionais para falar de amor e, por esta via, expressar-se quanto às questões de gênero, a condição da mulher e sua ancestralidade, a condição da mulher homossexual e o machismo em nossa sociedade. A vida e a morte não poderiam escapar à sua poesia. E não escapam.

Construída com um discurso farpado, agressivo, de resistência, há um tipo sutil de delicadeza nos versos de Lisa Alves, muito bem retratados pela capa de seu livro. Palavra de aço, vontade drummondiana de ir de “mãos dadas”.

[o descobrimento]

Eles caminhavam em busca de uma terra

com rios, lagos e água abundante.

Eles defendiam-se do sol com tecidos

especialmente feitos para proteger a pele da invasão ostensiva dos raios.

Eles construíam casas em qualquer local

propício para uma nova cerca.

Eles não cansavam, eram dromedários

capazes de seguir em frente até darem de cara com o final.

Eles não choravam, eram hienas, seus

lamentos pareciam risadas com o poder

de afastarem os inimigos de perto.

Eles não se machucavam, eram elefantes

capazes de segurarem um dos seus em

qualquer momento de dificuldade.

Eles não fugiam dos obstáculos, eram macacos,

pulavam e suportavam qualquer tipo de superfície.

Eles mergulhavam no mundo mais profundo,

eram peixes e desbravavam qualquer oceano

em busca de alimento e abrigo.

Eles nos descobriram e até hoje não encontramos

o antídoto certo para esse resfriado.

[o tear de gaza]

ATO I: A AGULHA

Contaram que

em Gaza duas crianças

brincavam de tabuleiro

quando a Estrela de Seis Pontas

expediu um míssil que emudeceu a casa inteira.

(vermelho, cinzas e fogo)

A mãe (em seu tear) acolheu

a notícia através do padeiro e logo após

cravou uma agulha no coração (repetidas vezes)

enquanto proferia uma maldição repleta de pranto:

Oh, filhos de Israel!

Não haverá espigões para resguardarem vossas rosas.

A agulha que me lança

nos braços dos meus antepassados

derramará veneno sobre

a ceifa futura e

teus filhos não terão mais mãos

para brincarem com tabuleiros de usura”

Dizem por aquelas trincheiras que

para cada filho assassinado em Gaza

há uma maldição professada contra os seus inimigos

até o ultimar de uma quinta geração.

ATO II: SILENCIADORES

Pelo cadáver lançado

a mais de cem metros.

Pela pegada de sangue

da mãe rebelada.

Pelos filhos escoltados

ao futuro orfanato.

Convocamos um minuto de revolta por Gaza,

pois o silêncio, até hoje, só serviu de munição.

ATO III: ANTROPOFAGIA

Dois foguetes

para cada “Não” inconfesso.

Devorarei os ossos de meus filhos

quando não sobrarem mais suprimentos e

para que não se tornem iguaria basilar do Inimigo.

Insurgente alma,

durma nessa carne

nomeada corpo

e não desperte mais pelas manhãs – nem labute

ao lado de nossos fantasmas.

Gaza, eu não desejo mais nenhuma noite.

[non cacare nec abieris rubus]

Ergo uma religião que sangra metáforas.

Tracejo a pele com a pena que pagas por viver.

Favoreço toda crença em figuras inertes e inanimadas.

Minha cabeça gira 360 graus e flutua em nuvens artificiais.

Silício reconstitui meu útero – menstruo alianças binárias.

Fluir é desastroso na passagem para o nível gasoso de ideias coletivas.

Permaneço então na base de uma pirâmide de palavras obsoletas que

não cagam e nem desocupam a moita.

***

Arame Farpado

Lisa Alves

Poesia

Lug Editora

2015

O exercício da distração – De Kátia Borges

Por Adriane Garcia

 

O livro que me acompanhou durante esta semana foi O exercício da distração, da poeta Kátia Borges (ed. Penalux, 2017). Li-o duas vezes, para melhor ficar distraída. A distração que Kátia oferece é aquela que nos faz sair do mundo ordinário. Não à toa, a capa traz acrobatas em equilíbrio no topo do Empire State, uma fotografia de 1934. Mas que diabos fazem três pessoas numa performance arriscada e inútil? Que diabos faz Kátia, construindo um livro de poemas (antes: lançando um olhar para a poesia das coisas), recusando-se a ser simples engrenagem neste sistema que apenas quer nos consumir o tempo de vida, apertando seus parafusos?

 

O exercício da distração é uma resposta rebelde. Uma resposta rebelde silenciosa, visto que a poesia é capaz de se comunicar no silêncio do outro. É rebelde porque se insere no mundo do cansaço, e teima: “Dizer do medo, a coragem/com a qual dançamos a vida/sem descalçar os sapatos”.

 

Dividido em três partes, Como se fosse o órgão vivo, Fugas extraordinárias e As pequenas vilanias da cidade, o livro se comunica o tempo todo com seu título. A distração, a inadaptação, o mundo como um não-lugar para os sensíveis, para a sensibilidade. A máquina do capital a massacrar as pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e o amor.

O amor, em O exercício da distração, é a “caça inútil”, a busca difícil, mas a busca da qual não se pode fugir, a busca necessária. O amor “arrasta os astros/pros lugares certos” e dá sentido ao que não tem. É o grande consolo, é a mão próxima, a possibilidade da dor compartilhada: “estou cansada de sentir este aperto no peito//amo esta mulher que diz que passa”. Ao mesmo tempo, não há ingenuidades, há uma maturidade nos versos de Katia Borges que não permite ilusões. A fantasia é proposital, a fantasia é um mecanismo de quem escolheu dar conta do mundo pelo seu avesso, mas com total consciência do processo. Este poema, que me lembrou dos momentos finais de Lorca, dá a dimensão do conflito tão presente neste trabalho:

 

Teu movimento

 

Antes que te chame

o pelotão de fuizilamento

repara o pássaro

apara o dia.

 

Há um olhar que se derrama

lento sobre a vigia

e graciosidade no andar

do carcereiro.

 

Antes, sim, que chamem

o teu nome, anota

num papel ou na parede

certo verso de cimento.

 

Na argamassa firme

teu movimento.

 

 

A distração é o exercício da liberdade, exercício cerceado, que só pode acontecer como desobediência, estranheza ou mesmo loucura, como a poesia. Já nos títulos de alguns poemas, a poeta brinca riscando palavras: Anotações para um poema sobre pássaros (sapos) flores. É assim, nas brechas, que se vai criando possibilidades de escolha para se inventar a própria autonomia. A poeta anda presentemente em sua cidade, indaga o mistério das perdas e sabe da resignação quanto a essas fugas, observa o mundo para além do que ele quer mostrar – falávamos sobre a distração como ato de rebeldia, a poesia como recusa à cegueira imposta.

 

Os poemas são de grande musicalidade, e há imagens imperdíveis, como em Hashi: “tão tristes os três tigres/do I Ching/espreitam o amor, a caça inútil// seria bom se descansassem/o peso das pernas,/seria bom se repousassem/o rosto nas patas”.

 

Por fim, O exercício da distração é um livro que traz paradoxos. Se por um lado, a distração parece que aliena, Kátia vem mostrar que, ao contrário, a distração é o que nos mantém vivos e acordados. E, obviamente, ela não está falando da distração permitida, da distração de massa, que quer fechar os olhos, banalizar até o ponto de não mais se poder perceber. A distração de que Kátia fala é aquela que nos abre ao desejo de molhar a planta que avistamos na varanda do vizinho, tão próxima ao nosso apartamento, afinal

 

“A vida é esse verde entre nós.

 

Talvez os biólogos nos expliquem

a fluidez do amor, a essa altura.

Serei melhor se lançar água

e, dessa distância que penso segura,

salvar uma begônia.”

 

Um livro lindíssimo. Para ler e reler.

OS PRÊMIOS

Eu – um fracasso contínuo
fraco demasiado
sem grito, sem dor,
sem lamento ou rascunho
me atiro num livro de poemas
como um náufrago a um galho esmo
:
me encolho a cada palavra dita ou não dita,
ambas latejam
[
sangro em cortes profundos feitos de rimas
e âncoras
com voos abortados,
asas tolhidas para dentro
§
longas espirais de fotos antigas
com rostos marcados
pálidos sorrisos ao vento
/
observo de longe os vitoriosos
e abaixo a cabeça
pobres idiotas
]
as misérias me causam comoção.

OSSOS DA NOITE

Rasgam as noites
como papéis
de uma maleta velha encontrada
daquele parente morto –
documentos que já se fazem
inúteis

a planta da casa
que já não existe,
as cartas de amor e recomendação
esfareladas,
contas pagas de empresas
que viraram pó

Um ou outro pequeno retrato 3×4
com pose de seriedade e calma
(prontamente enfiados naquela pasta cinzenta
dentro de uma outra gaveta mais baixa
quase inacessível)

por nos encarar
por nos encarar de frente

feito ossos dissecados.

Leandro Rodrigues