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BAILAMAR

diz-se que ao atravessar o mar todo homem paira
diz-se que ao levitar todo homem baila
na jangada a ponte do ar
encosta na malha e os cabelos
guiam a vela assoprando a parelha do nada
a madeira parece alada
mil anáguas volteiam
o céu desce
continua
a rainha
n’água

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INVENTÁRIO DE ONDAS

planar sobre as ondas
feito estilhaço
meu barco
meus braços
peso amargo
minha terra nos bolsos
o pensamento ancorado

em cada porto que passo
vou deixando um pedaço
certas vezes doce
outras salgado

vênus nas velas
vontade nua
a pele em charque
visto a fúria
o sol não me abate
calada ventura

conto noites
embalando as sombras
assombro a saudade
inventário de ondas

A PAIXÃO

Dobra o vento urrando no abismo. Há espuma e sal e o ar invade os corpos como uma maldição invisível. Uma procissão de olhos espelhando profundezas. Vagos, inertes, enormes orbes cheios de maré e vertigem, enormes orbes alagados de incompreensão. A carne rasgada em postas, perfeitas, inertes e brilhantes. As margens no costado, o mar sendo lavado. O momento é constante e as ondas são surdas. O tempo é um hiato na vida. Rubro mar ruivo, os olhos salgados no mar ruivo. Sangue escuro, alma clara, mil velas encharcadas brilhando no silêncio da carne aquática e amniótica, postas enfileiradas, eis a procissão professando o mar ruivo. Lado a lado mil orbes de fado encomendando cada vida neste barco. Enormes orbes de maré e vertigem, o solavanco da água, como um malho. A carne das costas tem marcas dispostas, olhos mareados e o mar ruivo de espesso passado. Sal no cálice rubro, ressaca e maresia borbulham flores de azia, o mar ruivo não é amparo, a morte invade o faro. O espelho vermelho das almas claras. Uma vez peixe, outra vez nada. A carne em postas, as marcas nas costas, o ruivo sangue ruivo, os olhos salgados do mar ruivo. Abismo, abismo, somos todos seus filhos.

Sangue, 2015. Foto do autor.

Sangue, 2015. Foto do autor.

A FIBRA DOS OSSOS

[leia devagar, sussurrando, o sentido repousa em algum canto.]

Na fibra dos ossos,
no caule das árvores
Escrito –

Flui pelas veias um fio de prata,
múltiplos caminhos findam
o mesmo lugar.

Sereno dormir
esquecer de viver
constante memória do outro lado
um Espelho –

Naufraga o sonho
de aves marinhas.
Mar revolto nas rochas
estrelas caídas sem desejo.

O céu enrugado
– ruge em fúria –
o deus constipado.

Frio
Coletor de algas
O largo de agulhas
Cobertor de almas
Frio compasso, ou lance de dados.

Tudo mais volte à terra
com sabor melananto e perene
eterno em luz.
Preencha este momento
essa Falha em silêncio
no solo
Outra Falha
no Sol
Sem Momento

Abre-se o rosto corrugado,
a escritura do passado
sedimenta a sagração de Vazios.
Em cada esquina um ser cansado
deixa de ser sapo.

Notas de uma escala menor corrompem o momento.
Um nome escrito no livro
Mil nomes escritos no livro.

A pontuação do silêncio
mede-se por Corvos.
Essas aves acentuam a sintaxe
da madeira e mergulham
no líquido negro do sema
do nunca
respingando levantes e
desdizendo a voz do tempo do homem,
que é o tempo do nome.

Só que nunca mais,
Nunca Mais
bater de Asas no espelho da alma.

senhor, senhor, a tormenta em volta, a nau em vaga

eu quis conter entre a moldura
uma ruptura, seu impronunciável nome

[a tormenta em volta a nau em vaga]

onda após onda a maré rompeu meus ossos
no mar aberto, onde todos os nomes em mim perdem-se.

viver, desviver, esquecer de morrerde
joelhos, despi-me dos braços,

[a tormenta em volta a nau em vaga]

inúteis! não sabem o que pescam.
adeus pernas! não entendem, não correm.

a tormenta em volta a nau em vaga
água, água o ar me faz falta!
vácuo, entre, quase
a boca entreaberta seca de vida
o corpo salgado, fome, o estrago
a tormenta em volta a nau em vaga

senhor, senhor, do topo do mastro ao ponto mais baixo
somos um, somos mar, somos soçobro e naufrágio!
a tormenta em volta e a nau em vaga
perdemos a alma, calamos a fala
nossos pedaços não serão encontrados
em tempo algum em nenhuma praia.

eu grito meu nome acima dos ventos
jamais me esqueço meu nome é desterro!

[a tormenta em volta a nau em vaga]

meus ossos abertos meu peito deserto
minha carne inútil o fim bem mais perto

o sol afogado na proa, como um covarde foi-se
no primeiro ribombar do salgado inferno

[a tormenta em volta a nau em vaga]

resta essa fúria, resta o kraken que urra
resta essa nau, que nunca afunda.