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A lojinha da CASA

Agora a CASA está na lojinha da Editora Urutau para todos os leitores encomendarem o seu exemplar. Passe lá e confira, além do meu livro o catálogo da editora abriga uma rica parcela da literatura brasileira contemporânea em edições belíssimas.

Você pode acessar e adquirir seu exemplar aqui.

Para fechar a coluna hoje, que não há o que dizer que o livro em si já não esteja dizendo por si, o poema homônimo.
Pode entrar, que a casa é sua. Não repare não, as paredes de vento, o telhado de versos (infinito). Achegue-se, que há espaço para todos.

CASA

Eu te recebo
E como nada temo que venha de ti
Mantenho abertos os braços
Os abraços restaram sozinhos
Desta cama eu nunca parti
Os momentos e a memória amanhecem
Com sono juvenil dos que não têm rumo
Os que pouco conhecem a névoa do corpo
Esquinas e quebradas com derradeiro fogo
Que cidades esquecidas arderam em plena vida
Nunca descansamos
A boca e o mar nunca afastamos da borda
E nossas próprias rochas arrefeceram
Na maré, no lençol e na despedida

Guardamos no peito os lobos
As noites sedentas e o frio imenso na pele
Mansa silenciam guerras passadas
E o desejo em cada pessoa –
Uma casa

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Crédito da foto: Débora Rendelli

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Notícias lá de CASA

Veio domingo, veio a tarde e fui caminhando sozinho pro bar onde foi o meu open house. Quando você termina um livro chamado CASA o que acontece é um open house, não é? Caminhei pela zona portuária do Rio prestando atenção no entardecer, nas folhas, nos galhos que dobravam e faziam as árvores sussurrarem o testemunho dos anos. Sons apenas para os transeuntes atentos. Um instante eu era um passageiro no bonde elétrico que corta a região, no outro eu era um escritor perdido em pensamentos pelas calçadas em busca de um bar. Seria o clichê perfeito para a crônica se o resultado fosse um copo, um traçado, uma pinga, mas o bar entra como cenário do lançamento de um livro.

Meu livro nasceu no bar, eu estava no balcão, meu lugar preferido para beber e oferecer autógrafos modestos e abraços sinceros. Meu livro nasceu amparado por uma casa editorial movida por uma paixão pela literatura. Obrigado Editora Urutau. Recebi escritores que considero maiores do que eu, recebi alunos, recebi desconhecidos e amigos de infância, recebi meus melhores amigos e recebi meu amor. Abri as portas da CASA e todos entraram radiantes de sorrisos e lembranças, colorindo as paredes da CASA como um arco-íris perfeito em uma tarde amena de inverno. Eu ofereço as páginas e cada leitor suas cores. O mais fascinante de tudo isto é que não se trata de um registro lírico de um poeta, e sim um registro biográfico e jornalístico de como a tarde realmente foi. A CASA é um sopro na voz dos leitores.

Tenho paredes de vento
Telhado de versos
Assim construí minha CASA

Não são tempos fáceis para a arte. Toda a poesia, por definição tornou-se “poesia para tempos de sangue”. Cada verso é resistir com inteligência num país que abjura sua ciência e estrangula sua cultura. Resta a página; a cada página uma vida e esperança que um dia todos poderão ler sem fome no país. Resistir é do homem. Lembrar é da História. Gritar a verdade, já e poesia.

Deixarei aqui apenas algumas fotos. Aqueles que quiserem mais, eu postarei na minha página de autor naquela rede social, o link é esse:
https://www.facebook.com/robertodutrajr/

Evoeh!

FOSSE VOCÊ UM LIVRO

Fosse você um livro, ávido, eu leria as letras que cada uma de suas páginas me mostraria. Eu teria seus segredos e a ninguém mais os confiaria. Nada de nós escaparia. Fosse você um livro, eu encheria meus pulmões tentando capturar o perfume que a tinta deixou na sua pele. As suas páginas teriam flores, incensos, água de cheiro, colônia, o ar que respiramos e um bom sonho. Assim, eu abriria o meu sorriso, que também é o seu sorriso, e seríamos um sorriso. Bastaria escrever perfume, fragrância, brisa, folha ou banho. A impressão registrada na tinta seria você, seria encontro, seria fonte, fosse você um livro.
Fosse você um livro, eu me perderia ao debruçar-me nas suas margens. Entre elas, as línguas convergem em apenas uma, que está escrita e se toca sempre que a palavra encontro surge. Qualquer língua é a mesma língua, que sendo sua, minha também seria, sussurrada e entre palavras, basorexia, fixação e alegria. Você só respira ao marulho da leitura. Fosse você um livro, eu deixaria a sua trama me levar, como um rio; eu não me importaria se o caminho fosse tortuoso. Fosse você um livro, eu lhe encontraria novamente em cada esquina, cada curva e cada rua. O caminho, eu saberia sempre onde encontrar, pois sua história me diria que as curvas da minha vida encontram as suas, na próxima linha.
Fosse você meu livro, eu lhe abriria, como um novo alvorecer, e todos os dias em você eu poderia nascer.
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LIVRO E SUSHI

LIVRO E SUSHI

Késia Mota

Naquele dia ela acordou cedo, levantou e saiu. Exame de sangue, o médico prescreveu. Detestava aquilo, mas não demoraria muito. Não tinha comido desde as dezoito horas, estava com fome. Esses laboratórios servem apenas um biscoitinho salgado e um café tão fraco! Nenhuma fila, tudo muito rápido. A agulha foi enfiada, o sangue foi colhido, algodãozinho, cozinha, cream-cracker, café fraco e terminou. Voltou para casa pronta para atacar a geladeira. Frutas, leite, pão, margarina, liquidificador, vitamina, torradas, café da manhã. Finalmente! Aquele não seria um dia ruim, afinal. Voltou para a cama, dormiu mais um pouco, lembrou que precisava lavar a roupa, que estava acumulada, trocar os lençóis e as cortinas, limpar a estante. Não tinha jeito, os livros nunca estavam organizados, pensava; mas a partir de então seria mais cuidadosa. Que nada, no dia seguinte já tinha um volume da coleção de Júlio Verne fora do lugar.

Saiu do carro, apressadamente. Passou no laboratório, pegou o resultado do exame, que estava em um envelope de plástico transparente. Jogou dentro da bolsa e foi embora, sem preocupação. Essas bolsas grandes que estão na moda são boas por isso, dá para colocar tudo dentro. Precisava ir buscar um livro que havia encomendado na livraria do shopping. Não faria mais nada enquanto não terminasse aquela leitura. Aproveitou para comer sushi, que adorava, já era hora do almoço.

Lia enquanto comia. Não percebia o mundo ao redor, a não ser o livro e o sushi. O celular tocou, que susto! Era ele. Não teve certeza se deveria atender. Olhou para o visor, um toque, dois toques, três e atendeu. Ele falava como se não tivessem terminado o relacionamento de quatro anos no último encontro que tiveram. Queria vê-la. “Não sei”, silêncio e “está bem”. Droga! Sempre fazia isso, dizia sim com essa facilidade! Agora que já tinha conseguido romper, por que dizer sim mais uma vez? Ele sorria aquele mesmo sorriso pelo qual se apaixonou. O pior é que nunca desapaixonou. Fizeram amor naquela tarde e ele agiu com a doçura que estava perdida fazia meses, pareceu que tudo era novo. E houve mesmo algo novo. Foi desastrado ou foi inconsequente? Só sei que passaram na farmácia, pílula do dia seguinte.

Algum tempo depois, que coisa estranha. Um mal estar diferente – deve ter sido aquela canjica – enjoo, vômito, olfato super aguçado, seios enormes, mamilos escurecidos, “não é possível!”, nenhum sangramento. Lembrou-se daquele resultado de exame abandonado e da nota fiscal do livro. Essas bolsas grandes que estão na moda são ruins por isso, perde-se tudo o que se coloca dentro. Data: exatamente um mês atrás. Imagina só, saberia para sempre o momento exato em que um ser humano invadiu a sua vida.

Resenha do livro Queda da Própria Altura, de Sérgio Tavares

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TÍTULO: QUEDA DA PROPRIA ALTURA
ISBN: 9788560676590
IDIOMA: Português
ENCADERNAÇÃO: Brochura
FORMATO: 12 x 18
PÁGINAS: 244
ANO DE EDIÇÃO: 2012
PREÇO: R$ 41

Náufragos do vazio

Ronaldo Cagiano (*)

O jovem escritor carioca Sérgio Tavares, que estreou na literatura com o volume de contos “Cavala” (Ed. Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2010, acaba de lançar “Queda da própria altura”, em caprichada publicação da  editora carioca Confraria do Vento, responsável por revelar e lançar no mercado novos e talentosos autores. O livro reúne oito histórias, que mapeiam personagens atormentados, experimentando situações limite, em que o sentimento de incompletude e solidão diante das perdas e dilemas afeta suas vidas.

Nos capítulos, sugestivamente nomeados de “Impulso”, “Voo” e “Queda”, as diversas histórias são precedidas de pequenos relatos, que funcionam como um entrecho antecipatório do clímax narrativo, recurso que prepara o leitor para um salto maior nesse universo povoado de tensão, mistério e densidade.

A queda insinuada pelo título coloca em questão a fragilidade de criaturas em permanente desassossego, enfrentando seus abismos, declínios e outras realidades permeadas de ausências e perdas. Entre passivos psicológicos e materiais, reside a encruzilhada que leva à escuridão do desconhecido ou ao anúncio de uma tragédia.

O premiado “Cavala” traz apenas quatro contos em que o autor transita pelos territórios conturbados e obsessivos da sexualidade de dois personagens, percebendo-se uma nítida preocupação com uma linguagem direta e contundente. Nesse novo trabalho, ainda que as histórias guardem o mesmo tom de inquietação e exponham outras situações igualmente desconcertantes, a atmosfera retratada é amortecida por um influxo poético, vislumbrando-se ainda um sentido de reflexão e questionamento.

Nesses dois percursos ficcionais Tavares destaca-se por um profunda intimidade com a palavra, um esteta cioso do poder de comunicação de sua obra; não apenas detido no contar uma história, mas numa meticulosa construção, que persegue a depuração e elegância. Ganha o leitor ao fruir textos de  elevado potencial semântico e delicada carga metafórica, pois enriquecidos por um vocabulário robusto e sem hermetismo, algo raro na maioria dos escritores da novíssima geração, que pecam não só pela pobreza de palavras e imagens como pela carência de recursos e argumentação.

Cada história do nosso livro fala de quedas íntimas e explora, em mergulhos tão filosóficos quanto metafísicos, os universos psicológico e interior em contraponto ao cenário social, urbano e histórico em que as angústias humanas emergem e se exacerbam. São personagens que migram de um a outro conto, traduzindo o vigor e a versatilidade do autor em tornar universal as experiências rotineiras do homem contemporâneo, segmentado por perdas & danos, por conflitos, delitos & pelo terror diante do insondável, como se fossem capítulos de um romance polifônico, um mosaico de nossa solitária e indesviável condição.

A diversidade dos dramas recompostos por Sérgio Tavares, tratados com intensidade e refinamento, fazem de “A queda da própria altura” um livro instigante e devastador. Trata-se de uma alegoria sobre o ser & o nada, sobre os silêncios & ausências, sobre nossa própria incompletude. Enfim, a porosidade do existir está presente nessa experiência do autor de espelhar o naufrágio individual e coletivo nesse imenso vazio existencial, pois após tantas quedas no oceano de nossos paradoxos e impossibilidades, tudo é mistério e isso se converte em uma sofisticada expressão estética. Num dos contos simbólicos do livro, habitantes de uma cidade qualquer desaparecem se motivo, enterrando-se m periodicamente. Essa fuga do tempo, da memória e da vida banal flerta com o realismo mágico, estabelecendo um trânsito onírico com a ficção de um Cortázar, de um Borges, de um Rubião e de um J. J. Veiga, autores que exploraram o insólito como metáfora do quotidiano e seus absurdos.

É entre o real e o imaginário, ultrapassando a tênue fronteira entre o onírico e o tangível, que o autor situa o núcleo de suas tensões, onde redemunham a aspereza do quotidiano e a inviabilidade das re(l)ações afetivas e sociais, fonte primeira de todas as loucuras, devaneios e obsessões, o mosaico do insondável. Com isso, Tavares realiza uma competente e provocadora leitura da dilaceração, do desconforto e do deslocamento enfrentados pelo homem numa época coisificada e fragmentária em um mundo em que – todos vivendo o equilíbrio precário – a única coisa que não tem limite nem fim é a própria queda queda.

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(*) Autor de “Dicionário de pequenas solidões” (contos) e “O sol nas feridas” (poesia), dentre outros, reside em São Paulo

parabibliofilia

[um prólogo]

aproveitou a manhã sem responsabilidades complicadas para uma breve incursão nas livrarias de sua preferência. havia se afastado do prazer solitário das estantes há algum tempo. talvez ainda estivesse afastado. por outro lado, não suportava quando não podia comprar um novo livro. era um fetiche torturante quando não realizado. foi por isso que se afastou. não sofre o coração aquilo que a mente não registra sensação.
além disso, conectar-se com um livro podia assumir uma dimensão paranormal. claro que não literalmente, o que seria ridículo, tinha que ser sensato isso, mas lhe faltavam palavras. paranormal é uma palavra estranha por si, mas não buscou substituí-la. em breve, quem sabe. sempre teve a impressão de ser guiado ao livro que era preciso. o livro descansava em seu lugar. o livro o chamava quando o momento tivesse chegado. alguém chegou a dizer que era uma intuição para a informação. ele fugiu do rótulo. esqueceu-se de quem e qual situação isso veio à tona. tornou seu suposto fetiche um charme secreto.
o sobressalto da aventura quando sentia o cheiro das páginas novas, adentrando a floresta literária. um caçador farejando a tinta nova em meio às caixas recém abertas de páginas não lidas. o que precisava neste dia? suspense? fechava os olhos e pensava numa folha branca, quero me alumbrar, pensava. abria em seguida os olhos e avançava entre as prateleiras. quando fixava os olhos, um volume de poe acenava com a lombada abaulada. um abraço. muito prazer. uma primeira edição esquecida por todos. coincidência? quem saberia? de todos os livros do mundo por que surge este, certeiro como uma flechada. entre os braços, caminhava para o balcão. estava fechado o acordo. foi assim com a mar e melville. foi assim com o sombrio e stoker, e conrad. seu segredo. seu sorriso contido embora sincero de realização.

i need my conscious to keep watching over me / to me protect me from myself

[prenúncio de desastre, ou capítulo]

este prazer de estar cercado de livros sucede uma volúpia de mergulhar no conteúdo. essa voracidade. aproveitou a manhã sem responsabilidades complicadas para uma breve incursão nas livrarias de sua preferência. havia se afastado do prazer solitário das estantes há algum tempo. talvez ainda estivesse afastado. por outro lado, não suportava quando não podia comprar um novo livro. era um fetiche torturante quando não realizado. foi por isso que se afastou. era mais fácil manter o foco em um objetivo apenas. agora, o momento da indulgência.
cruzou a soleira com um sobressalto de alegria. respirou fundo e seguiu com um sorriso quase interior. as estantes têm lombadas multicoloridas como em uma festa junina. esta livraria em particular tinha estantes até o teto. imaginou os fogos, as bandeirinhas e deixou a respiração acalmar, aliviado. depois era cruzar o corredor como um navio, lento, preciso, cheio de histórias e pronto para aportar em novas narrativas. mar ou luxúria, pensava. há os que definem como o passeio da criança interior. permita que ela durma, não que entre em coma.
assim, calmamente sucediam as imagens. os livros de viagem eram desinteressantes. os lugares estavam lá. eram viagens para serem feitas com amigos, família, representavam um outro tempo, tangível. os dicionários, como velhos colegas, sempre a chave dos segredos. os livros de filosofia estranhamente também vinham com uma necessidade de cumprimentar seus autores. para isso precisava ao menos que estes contivessem uma foto de seu autor. ler sobre os redemoinhos do pensamento carecia sempre de acrescentar um rosto ao questionamento. talvez para imaginar como seria aquela pessoa na vida real. o que compraria no supermercado enquanto questionava a ética dos semelhantes. qual a cor da sua camisa, já que definimos a todo o momento quem queremos ser através de nossas escolhas?
passo ante passo. este era um ritual da calma, paciência. tranquilidade interior realizada com sabor de possibilidade. aquilo que não carece de nome e que é a mania que nos define, mesmo que se tenha uma certa reserva a respeito. deslizava pelas pessoas, o burburinho, o teto alto, uma música ao fundo e o odor da cafeteria pra segurar os clientes que preferiam ler longe das sua poltronas preferidas. pintava essa cena lentamente para saborear o momento. esse alívio imenso de ter sido resgatado da mesa do escritório e das burocracias alheias. o ser humano só está feliz quando pode ser ele mesmo. agora, o que é preciso para aceitar quem se realmente é, isso pode ser árduo e ingrato e não estava escrito em livro algum. tudo mais seria solidão.
parou um pouco e brevemente pensou onde estariam os outros. existiriam outros igualmente motivados? além do presenteador estiloso? do presenteador por desencargo da culpa? do presenteador que bajula? do cérebro que quer se apropriar de todo o conhecimento humano? dos estudantes encurralados que desesperadamente compram os livros sem entender que o que está dentro dele não tem preço.
ora, nem toda solidão é triste, muito menos solitária. uma poltrona, bem no meio da livraria. sentou-se. que maravilha. respirou fundo novamente e preparou-se para se conectar com os livros em sua volta. não tinha pressa pro mergulho.

[continuará.]