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Poemas XIII de Líria Porto

roda-viva

a rotina – pata de elefante

amassa-nos a alma

precisamos sair do casulo

buscar a cor das nossas asas

quando a lida me tortura

tem a dureza do jugo

cato alegria no bolso

a roda do mundo gira

e nada fica parado

passam o sol o vento a chuva

a lua o rio a estrada

eu era moço outro dia

fiquei velho num piscar

danças comigo?

e quanto mais

soo insólito

necessitado

dum canto

(sólido

como pétalas

pasto-as

de_vagar)

*

lasso

o corpo a corda o laço

o pescoço o passo

o impacto

(no paço

a solidão)

*

boca a boca

quando meu amor falou

tenho carunchos no pulmão

não consegui nem chorar

:

pensei

não há de ser nada

respiro por nós

Líria Porto

Poemas XII de Líria Porto

(pretérito imperfeito) 

se eu vestisse o mar tal qual um manto

e nele me abrigasse para sempre

coberta de azul verde ou cinzento

conforme fosse um dia diferente

e ouvisses o canto da sereia

e viesses e entrasses água adentro

beberias dos meus seios

*

 

como água

mato sede apago fogo acomodo-me

mas se achar um furo

pingo fora

*

 

desperdiçado de cor

o que mais tenho vontade

é rasgar ao meio a tarde

pra guardar o azul

no bolso

*

 

descartável

a moça rosada

sem véu sem grinalda

tal qual mariposa

em torno da luz

nas tardes nas noites

no céu desses homens

que amassam seu corpo

e pagam-lhe os favores

com o troco

de outras vítimas

Líria Porto

Poemas XI de Líria Porto

patroa

a poesia me exige
quer de mim tempo integral
dedicação exclusiva
que eu vista e sue a camisa
e defenda a sua cáustica

 

pálpebras

 à noite 

despenco 
de mim 

içar-me 
é aquela 
peleja

careço
dois paus 
de fósforo

 

*

 acima de qualquer suspeita

acorrentava-me

mordia-me os mamilos
enfiava farpas alfinetes agulhas
sob minhas unhas

depois ia à padaria 
comprar leite

 

*

fadas e fados

tenho doença incurável
sofro de irrealidade

 

 

Líria Porto

 

Poemas X de Líria Porto

cerrado

não chora não ri como se esperasse
a chuva que não virá

resiste

*

dois

um queria o seu corpo – o outro
dado a desvendar-lhe a alma
pedia mais um pouco

*

alívio

o vento seca-me os olhos

o vento sopra minha dor
o vento faz-me esquecer

que a morte é questão

de tempo

a vida é para os fortes

sussurra-me 
o vento

Líria Porto

Poemas IX de Líria Porto

rua pouso alto

a serra que eu relo
aquela
onde ralo o cotovelo
é tão bela
que o vento
o sol
a lua
as estrelas
não arredam pé

*

lágrima

despi-me de tudo
só o manto do olhar ainda me veste
dessa bruma não consigo me livrar

*

envelhecer

caem-me as folhas as pétalas
às vezes fico triste outras rio
:
escorro para a foz

*

transpassada

dorme pouco
às vezes cochila
recosta na nuvem
num colo de estrela
porém nesta noite
tão cheia tão crua
a insônia da lua
foi filha da puta

 

Líria Porto

Poemas VIII de Líria Porto

bashô em mim

todas as manhãs
os sapos beliscam o lago
cantam para as rãs

 

*

 

feio

 

quem partiu a lua ao meio

colocou freio e arreio

no meu devaneio

*

 

dilemas

entre a cruz e a espada
inda que mal comparando
um violão atuava
tangia a batina do padre
e a farda do soldado

maria nome de santa
rosa nome de flor
maria rosa mundana
seguia assim sua sina
dois amores na surdina

o padre gostava do acorde
o soldado do compasso
entre um altar e um catre
as cordas daquele corpo
emitiam belos sons

os bemóis na sacristia
sustenidos no quartel
dois fortes a moça invadia
de um queria o céu
ao outro impunha a guerra

o padre deixou a igreja
o soldado desertou
rosa perdeu o interesse
foi fincar os seus espinhos
no evangelho do pastor

 

*

 

aflição

 

um tanto quanto de espanto

um certo desassossego

alguma porção de abismo

e muita (des)ilusão

 

*

 

a coitada

 

fui ali ouvir a chuva

escutar a sua história

ela clama ela sussurra

ai meu deus a chuva chora

mais parece uma viúva

xale cinza

 

rima pobre

 

Líria Porto

Poemas VII de Líria Porto

atrelados

fui ao porto ao cais
de bar em bar
perguntei ao mar à areia
a todas as ondas
precisava reencontrar-te
destrocar as nossas sombras
ao partires a minha te seguiu
e teu vulto insistente
ainda me ronda

*

descompasso

a alma vai veloz em disparada
o corpo passo a passo não a alcança

caminhávamos felizes – de mãos dadas
naqueles velhos tempos da infância

*

in_segurança

para controlar o descontrole
cercou-se de espelhos
de retrovisores
:
viu fantasmas com mil olhos

*

iguarias

a vida passa vou dentro
enquanto nela eu couber
um dia para eu apeio
volto pra terra e sem jeito
serei banquete pros vermes

(tu também)

*

a poesia

insinua-se depois some
não sei onde nem por quê
quem me mata é esta fulana
que se esfrega num e noutro
oferece as suas tetas
a qualquer morto de fome
mas a mim raro se entrega
mesmo que eu sofra
ou rasteje

Líria Porto

 

Poemas VI de Líria Porto

irreconhecível

eu tinha uma canoa – minha
boa
com ela atravessava o rio
ria
ia
beirava o horizonte
e debaixo do arco-íris
virava homem
:
a barba crescia eu voltava
bebia com os pescadores
contava vantagem

*

 

sa_fada

flor delicada recebe um por vez
então meus amores por favor
organizem a fila

*

 

fiapo

um amor cheio de nós
esgarçou-se por inteiro
e depois se emaranhou
desfiou embaraçado
era amor só por um fio
desconfio amo(r)finado
amor sem trilho
sem brilho
sem nós
a sós
d
e
s
a
m
o
r

*

 

a casa

nós somos nossa morada
e conforme estejamos
um palácio um casebre
pequena água-furtada
sentimo-nos bem ou mal
rodeados de nós mesmos
protegidos confiantes
ou tão somente e apenas

desabitados

Líria Porto

 

Poemas V de Líria Porto

botequim

na quina da rua
a tonta da lua
fazia ponto

igual uma puta
naquela disputa
de homens

*

natureza

quando o ipê floriu só pude dizer
puta que o pariu filho da mãe

*

fósseis

paixões e amores perecem

acabam-se evaporam-se

muita vez não sobra coalho
nenhuma atitude dócil

lembramo-nos dos que amávamos
somente em detalhes sórdidos

e sequer consideramos
quão fomos intolerantes

inóspitos
ignóbeis

*

álibi

andei atrás da minha sombra
e se alguém deixou pegadas não fui eu

como se fora a sombra da sombra
eu não fazia nem sentia nada

caminhava contra o sol

Líria Porto

Poemas IV de Líria Porto

corpo mole


no firmamento
tinha uma nuvem

dentro da nuvem
chuva encravada

em terra seca
muita penúria

e a pirracenta
não desaguava

não libertava
uma gota

não soltava uma
descarga

*

sujeição


lá vai o trem igual cobra
carrega pobres no lombo

lavai a roupa senhora
essa fuligem é de ontem

a vida passa e os pobres
sentem a dureza do jugo

sem ouro prata ou vitórias
o que lhes sobra

ferrugem

*

prenhez


esta doida de sentires e de pedras
de nublares de viveres e de luas
de sonhares de tornados de dilúvios

esta insana das noites seculares
dos falares dos silêncios dos transtornos
das tempestades desaguares e de lama

esta louca dos amores impossíveis
das demências dos pulsares dos entornos
das claridades dos escuros e dos vãos

esta mulher como tant(r)as
habita-me

*

dissimulação


no tanto da boca
espanto

no quanto do olho
pranto

no canto de tudo
marulho

e no entanto
rio

Líria Porto