Arquivo da tag: Leo Barbosa

NÓS ENTRE O TEMPO

                                                   Leo Barbosa

                                  (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                  Nós entre o tempo

     Rostos, nomes, vultos que se esquivam do meu olhar. É o tempo incidente na materialidade que busco. Preciso do palpável para não entrar numa bússola quebrada. O relógio é um norte, embora precise de todas as direções da rosa. Quero todas as dimensões do vento. Estamos presos nessa engrenagem chamada tempo. Acorrentados pela memória e a metódica agenda.

      Já não consigo mensurar quanto de mim já foi e ficou. Terei voltado ao mesmo ponto? Antes de ser eu mesmo, vivia no esconde-esconde, pulava a corda das horas. Meus fantasmas apenas se encontravam no escuro da cronologia. Hoje, na claridade das madrugadas, encontro-me com traças a corroer meus pensamentos.

      Quiseram as dúvidas me alcançar no momento em que pensei estar na madureza? Eu manchei meu rosto para me sentir mais, porém retrocedi. Ah, a gente não muda, só se ausenta. Nas escolhas nos reinventamos, entre enganos e sofrimentos e, diante disso, ainda julgamos ser autênticos.

    Atrás da porta do trivial nossa existência vai se maquinando. Queríamos nos administrar como se fôssemos uma empresa, mas já estamos falidos. Quase em extinção. Construímos uma memória na qual os troféus encontram-se empoeirados, mas ainda contamos vitórias.

   Vitórias regidas por uma alegria que abre e fecha elos. É nesse instante em que viramos o rosto. Porém, amadurecer é distinguir a alma do corpo. Não que sejam antagônicos, mas não há unicidade. Depois de ir ao mais recôndito, descobrir que o sonho não era mais que ideia e reconhecer que a trilha era feita por espelhos, passamos a pisar com cuidado.

   Horizonte não deixa de o ser se olhado na vertical. Talvez estejamos olhando algo grande por uma pequena fresta ou, quem sabe, a festa seja grande para algo tão pequeno. Não sei. E é por não saber que ainda me restam esperanças.

   Mas, se estamos sós, não é culpa de ninguém. É de todos. É de si. É descida. Se a nossa vida não estiver calcada predominantemente pelas vontades próprias, então sucumbiremos como zumbis e nos restará o lamento. O que fomos, somos, não se deriva de meras circunstâncias – nosso querer não é poder, mas só o poder ganha estatura por meio das lutas diárias.

   É por isso que esse texto traz a mistura de vozes. É feito por um “eu” até chegar ao “nós”. E se o nós se desata, ficará essa marca indelével a que chamamos ruga. É por isso que as crianças não têm rugas. O tempo não passou por elas, pois ainda não construíram o “nós”. E sua agenda interior não está condicionada ao pragmatismo. Há muito espaço para contemplar. O tempo é um templo, é o natural escultor, que pode ser feio ou bonito. Depende dos ornamentos…

                                                                      Leo Barbosa é professor e poeta

MITOS SEPARADOS

                                                  Leo Barbosa

                                   (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                               Mitos separados

       É ilusório acreditar que o amor não acaba. Todos sabem que este não se exprime a todo momento. Como todo sentimento, o amor também é efêmero. Para que se perdure, é preciso cuidar, senão se debilita até desaparecer. O amor muda de forma, deforma.

    Elisabeth Badinter, socióloga francesa, reconhece em “Um amor conquistado – o mito do amor materno” – que o amor materno existe desde os tempos remotos, mas não necessariamente em todas as mulheres. Também este não é condição primordial para sobrevivência da espécie. Para Badinter, qualquer pessoa pode “maternar” uma criança (o pai, tia, etc…). E mais: não é apenas pelo amor que a mulher cumpre seus “deveres maternais”. A moral, os costumes sociais, ou religiosos podem ser um fator tão determinante quanto o desejo da mãe.

     Eu sei que é difícil assimilar tais afirmações quando se é ou se tem uma mãe maternal, mas estamos tratando de um sentimento humano e nós somos incertos, frágeis e imperfeitos.

    À primeira vista de uma mãe enamorada, um filho é um retrato da perfeição que ela tanto almeja. É a oportunidade de se retratar consigo e com a própria mãe. Basta ter nascido para sentir-se dotada de poder. Mas que ilusão! Nunca se atinge um modelo ideal de filho que corresponda a todas as nossas expectativas.

    É até intrigante quando presenciamos mães que parecem amar mais os filhos viciosos e negligentes mais do que os cheios de honra, modestos, de boa procedência… parece que o mais querido é geralmente o pior. Por quê? Será que a mãe busca se redimir, sente-se fracassada e deseja uma auto-conciliação?

    Os filhos não são mais o fruto de uma convenção social. Ainda que muitos pensem assim. Procriar não se resume em dar continuidade à espécie. Se ainda persiste, essa motivação é de caráter romântico, logo egocêntrico. O casal quer manifestar o seu amor de forma física. É tentativa de perdurar o amor que entre eles existe. Por isso que algumas mulheres aplicam o “golpe da barriga”, não apenas por questões financeiras, mas pela necessidade que têm de sentirem-se desejadas.

    E por que os filhos tanto sofrem com a separação dos pais? Porque eles se percebem objetos falidos desse relacionamento. Nesse momento os descendentes precisarão encontrar um novo horizonte de sentido. Rompeu-se a rede. Alguém pode dizer que mãe sempre será mãe e pai sempre será pai, que o casal se separou, mas os filhos, não. Enganam-se…

     Por outro lado, quando a casa perde “a liga legítima”, quando não há mais harmonia entre os casais, quando eles já perderam sua essência; não é a separação que causará sofrimento nos filhos. Um lar sem amor, sem admiração mútua, sem reciprocidade gerará prejuízo maior. Os pais não têm direito de dar uma herança nefasta aos filhos ainda que eles também sejam vítimas de uma família desestruturada.

     Se o desejo que deu origem aos filhos exauriu, outros desejos devem ser inseridos. Do contrário será a família também um mito…?

                                                                                            Leo Barbosa é professor e poeta

ANTES, SER HOMEM E MULHER

Leo Barbosa

(escritorleobarbosa@hotmail.com)

Antes, ser homem e mulher

        As mulheres enfrentam um desafio maior neste século. Se antes algumas eram mais procriadoras do que mães, se desinteressavam do filho logo depois do desmame. Agora, precisam duelar entre a carreira profissional, visando à autonomia financeira e a uma certa afirmação pessoal. Afinal, o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e exigente e não lhes cabe mais a dependência material imposta pela cultura machista.

    Mas será que uma mulher precisa dar à luz para sentir-se de fato feminina? Segundo a psicanalista Helene Deutsch, não, porque a tendência maternal pode também se voltar para objetos indiretos. Sabemos que muitas crianças são postas no mundo para suprimir uma falta da mãe, como compensação, joguete ou acessório de manipulação.

    Entretanto, a mulher que não tem filhos sofre o estigma da censura ou é vítima da pena. Não procriar é “fugir à ordem natural da vida”. Isso alimenta alguns estereótipos negativos, como por exemplo o de que essas mulheres são egoístas, incompletas, carreiristas, insatisfeitas.

    Uma pesquisa feita pela socióloga Pascale Donati concluiu: “Quando não se tem filhos, quando poderia tê-los, é melhor ser homem do que mulher, viver sozinha do que com companheiro e não demonstrar demais que se é uma mulher realizada. Nessa gradação, ser mulher casada que optou por não ter filhos é mais suspeito […]”.

    É preciso compreender que cada filho é uma “caixinha de surpresas”, um devir. A sociedade não consegue conviver com a existência de pais felizes ou de outros amargos, que se pudessem voltariam atrás… Esse amargor nasce das expectativas fragmentadas ao longo dos anos. O que se espera de um filho é a reciprocidade, um sentimento de gratidão e até cumplicidade. Quem vai admitir que visava obter afetividade? Se confessar, dirão que “está passando na cara os favores feitos”.

    A vida não é feita apenas de sonhos. Quem quiser ter filhos deve saber que após o devaneio da paternidade vem o pesadelo. Esse indivíduo que está em seu ventre ou em seus braços terá vida própria. E um dia nos daremos conta de que as dores do parto não são nada se comparadas às partidas diárias.

    A maternidade/paternidade dar-se-á a partir de nossa herança moral e ética, seja para que nela nos posicionemos contrários, ou primando por postura semelhante. Isso significa revisitar o passado, os amores, os ódios gerados na nossa infância e adolescência.“

O segredo” talvez seja os pais se comunicarem mais com os filhos do que com as próprias expectativas. Então estaremos lidando com um ser humano, não com as extensões do nosso ser, como se fôssemos uma parte e não um todo. Caso contrário, sempre seremos estrangeiros entre nós. Desatados nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

MATERNIDADE DE PAPEL

                                                 Leo Barbosa

                                      (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Maternidade de papel

      Ainda que estejamos no século XXI e tanto se alardeia o discurso de que avançamos bastante, suscita-nos perplexidade o fato de homens e mulheres optarem por não ter filhos. Passados mais de 50 anos desde a revolução sexual, com o advento da pílula que proporcionou à mulher o controle (parcial) sobre o seu corpo, ainda discute-se a maternidade e o dever da procriação como se fosse cláusula pétrea na vida dos casais .

   Os que renunciam a essa “a ordem natural da vida” são vistos como egoístas ou vivem o estigma de terem a sua sexualidade colocada em dúvida como se só ela fosse a condição determinante para a afirmação da feminilidade ou da masculinidade, a reboque do conceito de casamento e relação afetiva atrelado à necessidade de (re)produção sexual.

    Os discursos são muitos e a retórica abundante em torno do tema não falta, como por exemplo: “ter filhos nos faz ser melhores”, é um dos principais. Será? Todo casal que teve filhos realmente o decidiu por uma escolha espontânea?

    O mito ou os estereótipos do amor materno são propagados há séculos na história da civilização – “as mulheres nascem com um instinto maternal” e “mãe é mãe e pai encontra-se em qualquer esquina”, diante de um argumento extremamente preconceituoso em torno da figura paterna. Argumentação, geralmente, de gente alheia aos noticiários (não raros) sobre homens que lutam pela guarda de seus filhos.

    Há quem diga que a opção por ter filhos reside na necessidade de dar sentido à própria vida ou não “amargar” a solidão na velhice. Entretanto, a vida deve ter sentido antes da gestação porque faz parte do processo de amorização. Afinal, embora muitos pensem que o amor é inerente à condição humana, na verdade, “amar se aprende amando”, como diria o poeta. E quem garante que os filhos nos acolherão quando a fragilidade, a velhice e o asilo nos chegarem? E aquele velho bordão de que “criamos os filhos para o mundo”?

     Pôr um filho no mundo é um compromisso de longo prazo e implica uma série de renúncias. É uma das decisões mais sérias que o ser humano deve tomar. É preciso refletir que o desejo de ter filhos não é universal tampouco que todos nasceram dispostos a tal compromisso. Algumas os querem, outras não querem mais, outras nunca quererão. Há quem encontre uma felicidade imensurável e quem jamais admita o arrependimento de tê-los porque isso constituiria uma espécie de “genitor(a) desnaturado(a)”, uma aberração perante a sociedade porque não obteve a satisfação difundida nas propagandas de margarina.

     Há tantos “órfãos de pais vivos”, crianças mal-amadas e mal criadas em todas as classes da sociedade – reflexo de um tempo em que o individualismo rege os relacionamentos e que, contraditoriamente, falta amor próprio e, ainda que isso soe como clichê, sem amor próprio não há amor ao próximo porque senão o outro será um reduto de nossas carências; uma imagem e semelhança com a qual não saberemos conviver.

                                                                                   Leo Barbosa é professor e poeta

DISTANTES DA EDUCAÇÃO

                                              Leo Barbosa

                               (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Distantes da educação

     Não é novidade que a profissão de professor é desvalorizada. Mas nem sempre foi assim. Era comum nos espelharmos na figura do educador, com sua postura firme, seus conselhos e, principalmente, por sua esperança de que este podia fazer o melhor para a sociedade. Um educador deve ter como base o ideal de promover o bem a partir da sua vivência, que vai além dos conhecimentos teóricos.

   Talvez por isso ainda haja pessoas interessadas na docência – porque se por um lado é uma profissão que “é mal remunerada”, “é estressante”, “há desinteresse dos alunos” – há dentre essas ingratidões a troca de experiências de vida que comportamos ao longo dos anos. Afinal estamos lidando com vários mundos, com seres humanos das mais diversas construções familiares. Todo mundo é dotado de um “horizonte de sentido”; são costumes, leituras, afetos e desafetos que nos formam enquanto pessoas.

   A satisfação que o professor tem quando se faz entendido, quando o estudante obtém uma vitória com o seu auxílio, nos enaltece como pessoas. Nós devemos ser norteadores, embora existam professores que nos retiram do caminho ao desprezar o aluno, duvidar de sua capacidade, e sentir-se o “dono do saber”.

   Ainda que exista o prazer em contribuir para a formação desses seres humanos concentrados nas escolas, não faço o discurso reducionista de que para ser professor é preciso “amar a profissão”, “ter vocação”, “dom”. Para atuar em qualquer área é necessário esses elementos, e muito mais. O que adianta amor se não houver quem queria recebê-lo? O que adianta ter vocação se não há meios para desenvolvê-la? O que vale o dom se não houver investimento?

   O Brasil em breve sentirá de maneira abrupta o desinteresse pela docência porque pouco avançamos nas últimas décadas, pois a categoria é desunida. Quem está a favor do professor? Tivemos melhorias em vários setores, a exemplo da conquista das domésticas, que pelas novas leis, não raro, ganharão salários melhores que muitos professores neste país. Depois de 11 anos de Educação Básica, 5 anos de Universidade, enfim, muita dedicação, estaremos fadados a ganhar menos que muitos profissionais que não tiveram estudo universitário?

   Dados emitidos pelo Ministério do trabalho e do emprego (MTE) de 2006 apontam que os profissionais de ensino é a terceira carreira de maior ocupação (8,4%), abaixo apenas de duas áreas tidas como grandes absorvedoras de mão de obra: os escriturários (15,2%) e os trabalhadores do setor de serviços (14,9). Haverá pessoas suficientes para cobrir essa demanda? Mais: com qualidade? Duvido. Quais medidas tomaremos?

   Imagino o Brasil dentro de cinco anos alarmado com a falta de profissionais de educação, tendo como recurso uma “Educação Básica à distância”. O problema é que crianças e adolescentes não têm maturidade para assumir essa tarefa. Eles precisam de alguém que os guiem pela mão. Entretanto os pais modernos estão “à distância”. Mas isso já é outra conversa…

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

POR UMA DOCÊNCIA DECENTE

                                                Leo Barbosa

                                (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                        Por uma docência decente

     No Brasil os professores só serão respeitados no dia em que começar a escassez de forma alarmante. Esse respeito não se resume apenas a questões salariais, mas também à consideração pelo ser humano que se faz presente no propósito de contribuir para o desenvolvimento intelectual da sociedade. Tarefa árdua, de grande responsabilidade, tendo em vista que os docentes não trabalham apenas com conhecimentos adquiridos através de livros – é com matéria humana que estamos lidando. E, mesmo com muita vivência, é sempre novidade.

    Dentro de uns cinco anos serão poucas as pessoas dispostas a seguir uma carreira docente. O governo terá que ser mais incisivo em programas de incentivo à docência. Hoje existem vários programas, entre eles, o Mais educação, PROMEB – (Programa de melhoria da educação básica) e PIBID – (Programa institucional de bolsa de iniciação à docência). Estes já têm obtido resultados consideráveis na promoção de novos professores. Entretanto, não suprem a demanda escolar porque menos de 10% das escolas são atendidas em todo o país.

    Com a crise da autoridade do professor, muitas escolas mal estruturadas, o desinteresse dos pais e, consequentemente, dos alunos, poucos estão dispostos a ingressar em licenciaturas. Uma pesquisa realizada em 2011 pela Fundação Carlos Chagas divulgou que apenas 2% dos jovens querem cursar Pedagogia ou outra licenciatura. Não bastasse um número tão irrisório dos candidatos à docência, mais de 50% desistem quando ainda estão em curso.  

    Já virou lugar-comum o consenso de que para haver mudanças no quadro da educação nacional precisamos de aumento salarial e melhorar condições de trabalho – que vai desde a infraestrutura das instituições até o tempo disponível para planejamento das aulas. Como ter uma educação de qualidade se não investimos? Uma tríade precisa estar em sintonia: Governo, gestão escolar e estudantes.

   Uma das primeiras implementações que poderíamos fazer é o aproveitamento do histórico escolar do aluno – desde o Fundamental I até o Ensino Médio – como forma de ingresso às Universidades. Isso geraria (teoricamente) maior conscientização da parte dos alunos e de seus responsáveis para com o compromisso desde cedo com os estudos.

    Sabemos que muitos discentes passam sua vida escolar “sem levá-la a sério”. E, quando se veem às vésperas de vestibulares, do Enem, tendem a se dedicar apenas para o ingresso nas instituições de nível superior, ou seja, a Educação Básica está reduzida à admissão universitária.

   Onze anos de escola para um único propósito: passar no vestibular. Onze anos pouco aproveitáveis, a maioria inúteis para uma vida pragmática, e os alunos ainda saem sem domínio das matérias escolares. Isso fica evidente quando lemos redações que parecem ter sido escritas por semialfabetos, mas são de alunos da 3ª série do Ensino Médio. O que eles fizeram esse tempo todo? Passado mais de uma década, os estudantes deveriam produzir um texto de qualidade. 

   Ou mudamos nossa postura diante da Educação brasileira ou seremos sempre o “país do futuro”. Temo que esse “futuro” nunca seja passado a limpo.

 

                                                                           Leo Barbosa é professor e poeta

PARTIR PARA FICAR

Leo Barbosa

                            (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Partir para ficar

     Tenho diante de mim dúvidas que pululam. São incabíveis em qualquer verso que hoje possa produzir. Não quero uma autoconfissão sobre os temores que me assolam ou as fraquezas que me atingem. Então visto essa armadura que evidencia ainda mais minhas fragilidades. Mas é meu direito calar tanto quanto é de rugir. Meu nome inscreve meu destino, no qual anseio não ser pouca coisa. Você que não me conhece tem o direito de discordar. Prefiro pensar assim para que o avanço se dê na crença. Creio-me.

    Essa angústia se dá por não dispor de todos os artifícios. Não sou futurista, cubista, dadaísta. Digam-me que sou egoísta se acreditaram que não dar aos outros o que não detém é digno de assim ser adjetivado. Digam-me que sou porque quis viver minha vida, ainda que a meu modo tenha desagradado.

   Parece que a mudança deu-se aos poucos,mas, na verdade, ela sempre ocorreu, emoldurando-se nos meus motivos pra lutar. Quando esmoreço, recordo-os. Não é fuga, não é tentativa de provar aos outros. É a própria autoprovação. Estou apenas indo em busca de mim. Para tanto, parto, parto para me sentir inteiro.

   Sobre minhas mãos sonhos repousam. Todos os dias eu os afago. Feito pássaros libertos mas que anseiam permanecer. Certamente você também tem algo que almeja intimamente. É uma luta diária que você deve travar, mas receia que os obstáculos interditem sua voz. Não. O que nos retira a voz são as ausências. Mas essas às vezes são bem fáceis de resolver. Veja: eu, por exemplo, estou a escrever esse texto como forma paliativa. É uma terapia que faço para que a trajetória não me enfarte.

   Nunca quis aparentar ingratidão. Não nego que há verdadeiro amor, mas ele se mostra nas entrelinhas enquanto espero transparência. E à tona o que fica é um vazio. Um amor que se preserva pelo discurso metafórico. Mas é só um disfarce. Por isso, vez em quando, preciso gritar, chorar, pedir colo e retroceder. Se estou saindo desse casulo é só para que eu me conserve mais belo e possa retornar com um jeito mais brando de amar.

  Agora o domínio é meu. Essa proclamação não se construiu da noite para o dia. Ela foi se erguendo no decurso de muitas lágrimas. Hoje sei do seu valor. Agradeço o fomento dessa salutar agressividade edificada pelo desgosto. A luta já não pode mais ser adiada. Quando as diferenças se tornam fardos, o melhor a se fazer é retirar do campo os instrumentos que tolhem o crescimento.

  Sei do seu desejo de ser melhor, mas os laços já chegaram ao seu termo. Você fez o seu melhor. Desculpe-me por não poder mais ficar, mas espero que permaneça o melhor de mim porque nesse desamparo existencial, reciclo o que de mim não sei mais. Estou aqui. E não estou mais.

                                                                       Leo Barbosa é professor e poeta