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Sobre refugiados e cometas, por Eduardo Sabino

Por Eduardo Sabino

Pense num livrinho potente, a melhor coisa que li neste ano na literatura nacional: “O cometa é um sol que não deu certo”, do meu amigo Tadeu Sarmento, vencedor, merecidamente, do Barco a Vapor 2017.

É um pequeno romance sobre crianças sírias em um campo de refugiados; seus medos, distrações e descobertas. Crianças que tentam se manter crianças quando sua liberdade de brincar está todo o tempo ameaçada, quando suas casas e escolas foram tomadas, quando o mundo desaba à sua volta e elas não entendem muito bem o que está acontecendo.

Com um tema tão denso, imaginei que leria algo que se enveredasse em algum nível pelos caminhos de um “Feras de lugar nenhum”, de Uzodinma Iweala, um romance que, embora seja narrado pelo ponto de vista infantil, é um soco que deve ser recebido/compreendido pelo leitor adulto, que entende as coisas não muito claras para o menino soldado de Iweala e que está mais preparado que a criança leitora ou o jovem leitor para lidar com os trechos mais pesados do livro.

Entretanto, e essa para mim é a maior façanha do “Cometa”, não é esse o caso. Encontramos na verdade uma narrativa aberta a leitores de diferentes faixas etárias, isso porque Tadeu sabe que uma história também pode conter uma segunda e uma terceira histórias que pontencializam umas às outras: seu livro também é uma ode à amizade, capaz de nascer nos desertos mais improváveis, e essa camada da narrativa é tratada com graça e leveza. Leveza que em nenhum momento banaliza o drama dos refugiados, mas que contrapõe a infância, sua poesia e sua imaginação, ao horror do mundo adulto, mostrando que a primeira, apesar de tudo, sairá triunfante.

Outro bom achado é a associação do movimento do cometa no universo com o dos refugiados no planeta e toda a metáfora mais abrangente de sua formação e trajeto, mas quanto a isso é melhor não entrar em detalhes: leiam o livro.

Um adendo:

As descrições físicas dos personagens, sob os olhos de Emanuel, o protagonista, um menino curioso e observador, são um espetáculo à parte. Sempre encontram algum estranhamento cômico que já é uma marca da ficção de Tadeu:

O velho sobe tão lentamente que parece nem se mexer. Enquanto anda, bate o cajado no chão, como se procurasse água entre as pedras. Ao chegar mais próximo, Emanuel percebe que metade de seus cabelos é branca, e a outra, preta, dando a impressão de só ter envelhecido do lado que arrasta a perna. O mesmo acontece com o seu bigode. A diferença é que a sua ponta branca está do lado preto dos cabelos, e a preta, do lado branco. Isso confunde Emanuel um pouco.”

***

O cometa é um sol que não deu certo

Edições SM

120 páginas

Fábula padrão Fifa, texto de EDUARDO SABINO

Fábula padrão Fifa

Sonhei que o mundo inteiro tinha virado porquinho. Até mesmo eu, mamãe e papai. Não lembro de quem a gente fugia. Será que era do lobo?

Mamãe disse que fiquei impressionado com a história da professora. Ela falou dos três porquinhos na sala de aula. Fiquei com medo do lobo. Nem o furacão da tevê consegue ganhar dele. Ele derruba casa de palha com um sopro. E casa de madeira também.

Papai não fica em casa. Mamãe passa roupa de noite e fica irritada quando falo muito. Me manda ir dormir. Um dia ela se queimou no ferro e colocou sabonete no machucado, pra sarar. Um dia ela estava chorando quando cheguei da escola.

Ontem eu trepei na janela e vi papai na rua. Ele estava lá, junto com todo mundo do bairro, falando no microfone. Mamãe estava lá também. Queria estar com eles. Gritar, fazer torcida, bater no tambor, soprar o apito. Mas falaram para eu ficar aqui, quietinho, porque era perigoso.

Hoje vi um número na parede. Em cima da porta, lá fora. Mamãe não responde minhas perguntas. Fica calada e triste. Então começo a chorar, fazer pirraça, até ela dizer que eles querem tirar a gente daqui. “Eles quem? Eles quem?”. Mas ela me carrega, me põe na cama, me beija na testa e diz: vai ficar tudo bem.

Mas eu sei de quem ela estava falando. Já vi eles muitas vezes no bairro. Os lobos. Nada a ver com o livro. Usam todos a mesma roupa. Gostam de andar com escudo, pedaço de pau e soltam bombas na gente.

Quando descobri que mamãe estava assustada, eu dei um abraço nela e disse para ela não ficar com medo. Lobo não derruba casa de tijolo.

ImagemEduardo Sabino é mineiro de Nova Lima. Escritor, jornalista, revisor, editor, roteirista, presta serviços na área de Comunicação. Autor do livro de contos Ideias noturnas: sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009) e da publicação acadêmica A comunicação em tempos de consumo (Faculdade Salesiana do Espírito Santo, 2010). Foi editor da revista de literatura Caos e Letras entre os anos de 2009 e 2011. Tem publicações em revistas on-line e impressas como a Pesquisa Fapesp, Plurale, Balaio de notícias, Blecaute, Capitu, Cronópios, Observatório da Imprensa, entre outras. Mantém um blog no endereço www.eduardosabino.com.