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PASSARINHO QUE COME PEDRA

Havia na rua aquele sujeito entrão, que gostava de se inserir na conversa e sorrateiro acabava filando uma birita, uma batata, um salaminho. Aliás, filão tem em toda rua e todo bar. Figura fácil do folclore carioca, não dorme no ponto, ri pra todo mundo, anuncia quando chega, diz o resultado do bicho em voz alta pro dono do bar e então encontra o alvo.
– Você tá aí atrás, Neneto? Rapaz, tá sumido. Como vai sua mãe? As crianças? Já está sabendo o resultado do mengão?
Sejamos muito francos, Neneto era Naldonir (filho do Seu Naldo e da Dona Irenir) e ficava uma onça quando o chamavam por esse nome. Sumido, só estava mesmo da vista do cunhado, que lhe devia uns cobres. Cá pra nós, ele evitava falar da mãe porque ela odiava a mulher dele e pra completar, sobre saber resultado, nem da pelada de domingo
– Opa! Deixeu brindar aqui com meu camarada.
O copo surgia como mágica e na distribuição de apertos de mão e tapinhas sonoros no ombro o danado já estava inserido no assunto que nem abajur em casa de vó. Primeiro, dizem que trazia um copo americano no bolso da bermuda e como um prestidigitador de boteco, nem pedia no balcão, era o cumprimento numa mão e pimba, o copo aparecia na outra. O abajur, olha, esse tava lá na sala da minha velha, imóvel, decorativo e ninguém sabia quem tinha colocado ali – nem ela – e mesmo assim ninguém tirava o treco de lá. Eu sei que a história é esquisita, mas a minha avó também era e eu não estou aqui pra enfeitar o entrão da rua melhor do que isso. Como o abajur da minha avó, ninguém sabe de onde surge um encosto desses, então prossegue a história.
Devia ser um domingo de tarde, daqueles de final de mês, Pará e eu batíamos perna pra terminar de gastar o pouco que tínhamos e resolvemos mudar de ponto de pileque, justamente pra evitar o tipo. Note que nem nome eu faço questão de dar pro fulano. Estou pouco ligando se o péla-saco pode ler isso um dia, não dou o nome porque só me interessa o caso, não o chupim.
– Porra, Pará, você só atrasa a vida mesmo.
– Ah, não mete essa! A cabocla já tinha endereço marcado e você sabe. Na verdade, eu te livrei de um embaraço, isso sim.
– Porra nenhuma! Isso quem tinha que decidir era ela. Doidinha, perdida, do jeito que eu gosto.
– Oxi, to dizendo que já tinha boto na área e ia ficar feio pra você.
– Isso ninguém tinha como saber.
– Eu conheço.
– Conhece nada. Além disso, o que se come nessa birosca? Vamos ficar de cerveja e cachaça o dia todo?
Fome e birosca nem sempre é uma combinação vencedora numa tarde de domingo. Descansando no berço esplêndido da vitrine lambuzada do balcão da birosca, naquelas baixelas de aço que deviam ser patrimônio cultural da baixa gastronomia carioca, o jiló triste, pastel mole, ovo rosa e umas batatinhas douradas com lingüiça. Não tivemos dúvida:
– Ô meu bom, serve essas aqui pra gente.
– Ih, rapaz…
Pronto, tinha que ter uma pegadinha.
– Seguinte, deixaram cair uma pimenta nessas batatas e nessa lingüiça e ninguém quis. Vou avisando que tá pra macho, essa aí.
Isso tava fácil, que Pará e eu não recusávamos uma pimenta. Traz a baixela, duas pingas e uma cerveja que o resto, deixe que resolvemos aqui entre nós.
Pra ser bem sincero, as batatas estavam meio ardidas, mas desciam alegres gogó abaixo com cerveja ou pinga. Energético melhor não há, desde os tempos de J. Cristo. Ainda tinha um pãozinho pra agarrar o molhinho vermelho. Ia embora a tristeza, a sinusite, a coriza, as cordas vocais e as tripas dos desavisados. Estava perfeito o grude.
Pará e eu estávamos rindo um da cara do outro quando o chupim chega pela porta todo alegre e cheio de graça, distribuindo apertos de mão e tapinhas no ombro para chegados e desconhecidos. Um verdadeiro louvor de puxa-saquismo emoldurado em azulejos encardidos. Não deu pra escapar, porque no fundo do bar ninguém escapa e sabíamos que aquilo iria acabar ancorando ali na nossa cola. De onde aquele boçal tirava o raio do copo?
– Fala Pará, Fala Betão.
Fuzilei o cretino com meus olhos já vermelhos. Odeio que me chamem de Betão. Betão é… é… deixa, que todo mundo sabe completar a frase.
– E a patroa Pará? Espero que esteja bem. Seu pai, vi hoje mesmo. Estava lá na esquina, na birosca do Santos.
De repente, não mais que de repente, Pará, que sempre gostava de sair como sujeito bacana pra todos, estava partilhando a cerveja. Daí pro garfinho chegar na lingüiça e na batata, foi na mesma hora.
– Upa! Valeu mesmo rapaziada, vou provar um pouquinho.
Pouquinho foram logo umas quatro rodelas de lingüiça, mastigadas rapidamente pra caber mais na mala e logo ele tava com a segunda batata entre os dentes. Pará me olhava sério, e fazia que prestava atenção. Estava como que em uma pausa dramática, pela mastigação do recém-chegado.
O chupim terminou de engolir e já tava com os olhinhos cheios d’água. Tentou pegar mais ar, passou a mão no peito, mas a blusa já estava desabotoada, que malandro não abotoa blusa nem em velório.
– Eita rapá! Que pimenta! Não gosto assim não. Me ajuda aí, padrinho, onde vocês colocaram pimenta pra eu pegar um naco sem e cortar um pouco o ardido?
– Em tudo! – Respondemos, com os olhos esbugalhados diante da erupção do Vesúvio que acontecia na nossa frente.
Olhei pro Pará e ainda disse:
– Eita, porra! Falamos ao mesmo tempo.
Pará, muito solícito:
– Calma que já passa, não bebe água, que piora.
– Ai, padrinho, calma nada, acho que vou… vou precisar da chave. Meu chefe, adianta a chave do banheiro aí, meu chefe, que a situação não vai prestar.
Ele se dirigiu ao fundão do bar. Banheiro fica sempre no extremo sombrio da birosca. Estava vermelho, o suor descia pela testa em gotas brilhantes, tinha passos calculados, se arriscasse uma corrida o derrame acontecia ali mesmo, diante de todos. Assim, certo como o destino de toda cerveja é o fundão do bar, aquela erupção, aquela morte súbita, foi devastar a louça de Pompéia. Esta última, surgiu na história com propósito ilustrativo, de final menos digno, mas que sucumbiria soterrada como a cidade da antiguidade. Por outro lado, se bem me recordo, aquele banheiro era como se fosse uma peça de antiguidade também. A verdade é que “deu merda” tornou-se eufemismo naquela tarde.
Quando ele voltou, Pará descascou, com uma malícia diabólica:
– Se a beiçola não agüenta a ardência, não pode comer fogo, porra!
– Comer fogo? Eu cuspi fogo!
Daí, o resto virou lenda. Não teve perdão. Era Beiçola e ficou pra história das bocas de álcool da redondeza. Beiçola dobrava a esquina e alguém dava o alerta. Preparar contramedidas, garrafas a postos para reposição e até quem não era de pimenta pedia uma pra deixar por perto. Demorou pra deixar de ser motivo de gargalhada no meio dos pinguços e ser apenas o Beiçola. Pará pediu pros parentes enviarem umas pimentas da terra dele e fez uma mistura especial, que chamou de beiçola e ganhou até rótulo, com uma das letras em chamas, que sugeria uma rosquinha ardendo. Ambigüidade igualmente diabólica para os que conheciam os fatos inglórios daquela tarde. Ele e o pai venderam pros bares e deu pra levantar uma graninha. O Beiçola continuou sendo o mesmo, mas nunca mais petiscou de espertinho com Pará, nem comigo.

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O BAR DO BEIJO

Todo cronista entende de memórias de bar. Sentado sozinho na mesa, quantas vezes, quem nunca? Destino certo daquele que não suporta nem a própria companhia. A noite é uma mera sucessão de horas indistintas, pois se parecem e passam inexoráveis, mas também sozinhas.

Em certas noites há o violeiro, o cantador do sereno, do amor, seja ele correspondido ou não. Ele sempre fica no fundo do bar. A luz sempre falha ali e às vezes ele perde a letra. Fundamental é não deixar de se envolver pela noite. A bossa soa como se a noite emanasse do violão. As pessoas movem-se lentas, escorregam pelo balcão. O cachorro chega sonolento, como que em câmera lenta – poderia ser também efeito de alguma luz estroboscópica – , e cheira as pernas de todos. Neste momento, o violeiro está tão intimista que o cachorro se chega como se ali houvesse um tapete. O lugar era dele, sob o calor das luzes, que nem acendem mais. O cachorro se deita no lugar onde se iluminaria, caso as luzes funcionassem – sabedoria animal, certamente. O cachorro é o cliente mais antigo dali.

Nos bares mais sofisticados há mesas para fregueses espaçosos e estes, são chamados de clientes. Não é deste lugar que estou falando. Embora exista uma mesa e meia no salão. Há uma mesa e mais quatro cadeiras extra, estas contam como meia mesa. É tecnicamente a mesma coisa, só que sem a mesa. Há uma televisão, que quando não habitada por poltergeists, exibe imagens em vermelho e verde fora de sintonia. Não dura muito. Ninguém ousa desligar esse aparelho. Ninguém menciona que o bar foi erguido com o suor de descendentes de escravos que ainda eram praticamente escravos. Morreram ali, mas não se sabe a história. Eles nunca veriam um aparelho de televisão. O dono do bar diz que por isso não permitem que as imagens fiquem nítidas. Algo como suas freqüências serem próximas. Coisas da ciência inexplorada dos ectoplasmas.

O bar é um ecossistema não estudado. Os estudantes de biologia esqueceram aquele habitat. Alguns cronistas apenas observam, outros não conseguem erguer a cabeça do balcão. O violeiro anterior a este, maledicente, dizia que chutava rato morto enquanto tocava. O dono não gostou. Os fregueses, se conseguissem levantar a cabeça das bordas das catuabas, quinados, traçados e afins, também concordariam com o dono. Maledicente o rapaz, o rato, que era vivo e atuante, antes de dormir fazia o serviço do cachorro espantando os gatos da casa. O dono sente falta do rato. O dono não sabe o nome do cachorro, mas o rato era quase da idade do filho dele.

O filho do dono do bar ficava no caixa e ria com mais dentes que um pacote de pastilhas de hortelã aberto. Nas noites de violeiro, a namorada senta com ele no caixa e pede músicas. Ela gosta de digitar os números e ri quando a calculadora faz um barulhinho calculador. A tecnologia é porreta, ela ria.

A televisão funcionou quando as Torres Gêmeas foram alvo. Alguém levantou a cabeça e pensou que fossem fogos de fim de ano – adiantados, claro. De certa forma, foi mesmo um fim. Quando o presidente negro assumiu o aparelho transmitiu em três cores. Os funcionários passaram a achar que o poltergeist de escravos expressava sua opinião assim.

Uma vez alguém entrou acompanhado. Os bebuns ombreando o balcão levantaram a cabeça. Eles sentaram na mesa, na única mesa. Ela não quis colocar os braços na mesa, era grudenta. O dono passou um pano. Ficou grudenta e molhada e ela fez nojinho. Ele pediu um quinado. Ela disse que era quente. O quê? O lugar, a bebida ou a atitude? Ele disse que o beijasse que ele também estava quente. Foi um beijo pensado, sem abraço, mas sentido, sem língua, mas com entrega, e sincera. O violeiro parou, o cachorro latiu, a televisão funcionou (o filme da sessão coruja era uma pornochanchada, e o filho do dono riu). Os cronistas acordaram e o dono achou que era um gol do América que era comemorado.

Desde então, o bar dos maus companheiros de si mesmo chama-se Bar do beijo.

A VOZ DO BAR

Todas as noites ele se arruma, pensa na camisa correta, se vai usar um chapéu ou se pentear, repassa detalhes e então pega o violão. Ninguém vê este esmero, mas existe, no fundo do bar, em consonância com a voz que faz a trilha da noite. Há uma solidão silenciosa na atitude impassível do violeiro do bar.

Sozinho, na frente de todos, mas nem tão visível, ele continua com um acorde menor. Segue-se uma bossa. Alguém apregoa em voz alta o nome do compositor. Ouvem-se palmas solitárias, que logo silenciam. Ninguém para de falar para ouvir a nota preciosa, o intervalo da harmonia, a flexão correta dos dedos.  As cordas dançam suaves no corpo do violão. Um burburinho, como uma revoada de gafanhotos, alastra-se por todas as mesas do recinto. A voz estridente da gorda explode em uma gargalhada acima do teto. Há cheiro de alho e gordura, frango a passarinho poderia ser a colônia da estação. Um casal há duas mesas dele estava em uma clara crise conjugal. Ela estava furiosa porque ele nunca passava as camisas que usava. Todos gesticulavam, um claro ritual de atenção a ser cumprido. Um grupo estava de pé, todos com um copo em uma das mãos e com os queixos caídos diante da televisão. O choque geral com o time, que aos quarenta e quatro do segundo tempo, baixara as defesas e o adversário invertia o rumo da partida a seu favor, selando o destino do favorito com uma quase goleada e a eliminação certa do campeonato.

Pausa para virar a página das cifras das músicas que apresenta todas as noites, então reinicia. Diz uma vida que não é a sua. Cada canção um personagem diferente assume a sua voz. Um palco mínimo com uma tempestade de personagens amalgamados na expressão do violeiro. Tranquilo, distante e ao mesmo tempo envolto em si. Poderia ser comparado a um poderoso iogue, nada desviava-lhe a atenção da sua meditação. No caso, da canção que interpretava. No meio da algazarra, a indiferença das crianças ao menos era sincera. Alguém lhe entrega um papelzinho com um pedido. A caligrafia desafiava um professor experiente. Não sabia se era algo sobre uma piña colada ou o primeiro verso do Caymmi. Poderia ser algo sobre uma rede em Itapoã com uma piña colada. Há sempre mistérios da música popular brasileira circulando entre as mesas de bar.

Olhe bem, amor, preste atenção, de cada amor tu herdarás só o cinismo. Entre tudo mais, cada momento, entre cada gole a voz dele lhe marcará. Cada uma das centenas de vidas invadirá suas memórias entre a desilusão amorosa e a eliminação do campeonato, o lamento do violeiro que entende todos, a verdadeira voz do bar. Há uma solidão silenciosa na atitude impassível do violeiro do bar e ela comunga com todos.

ENCONTRANDO SOUZALOPES

Foi uns anos atrás. Gregório tinha confiança, bem antes de começar a escrever pra essas revistas de porcaria que hoje lhe garantem o aluguel. Fazia pesquisas, contatos, gostava de se comunicar e muitas vezes conversava com outros artistas pra tentar ampliar sua visão. Gregório já foi considerado um bom escritor.

Era uma noite morna e as pessoas se movimentavam rápido pela rua depois de cumprirem suas rotinas laborais. Gregório sempre usava esse termo por que achava o rótulo mais idiota pra coisa mais idiotizante de todos os tempos. “Quem inventou o trabalho definitivamente não tinha nada pra fazer”, dizia. Um dia ainda ia escrever essa frase, dava um efeito, mas como estava numa boa com seu emprego, soava hipócrita naquele momento. Anos atrás Gregório achava que escritores eram algo diferente de hipócritas galantes. Acendeu um cigarro e apressou o passo, o combinado era justamente na próxima esquina. O segundo no Largo do Paissandu, ao lado da São João.

O bar arrumadinho, cheio de gente, só não escapava da toalha quadriculada nas mesas e dos azulejos brancos por todas as paredes. Clichê de boteco. Vozerio animado e jalecos brancos no balcão. A cerveja saía sem demora. Era uma boca de álcool melhorada, sejamos francos. Alguém até ganha dinheiro se conseguir aturar todos os pirados bebuns noite após noite. Sentado no fundo aquele homem sozinho, sem chamar a menor atenção. Uns livrinhos na mesa denunciavam a inclinação para a escrita, não podia estar errado.

Aproximou-se, animado. Tinha a sensação de estar no caminho, também nessa
noite a vida lhe revelaria seus segredos ao conversar com um suposto poeta. Havia sido um colega, também escritor, que havia lhe dito pra tirar uma noite e conversar com o cara, ele entendia das coisas e certamente teria algo que se tirar de proveito na conversa. “Grande Lonza, pena que você não possa vir nessa noite”, pensou.

Apresentações, aperto de mão. O primeiro assunto sempre o amigo em comum.

– Furio não vem?
– Tá enrolado Souza. Precisa finalizar umas coisas pra revista, você
entende. Mandou um abraço.
– Cartunistas…
– … é, os cartunistas.

Antes que o jaleco do boteco escapasse, Gregório interpela de sopetão:

– Um chopps, dois pastéis. Não, melhor dois chopps!

A noite morna e as pessoas passando parece que fez a conversa apressar, mas na verdade foram expurgando assuntos. Curioso como é da natureza urbana reclamar de absolutamente tudo que oprime minimamente nas capitais
de concreto: ônibus, carros, o preço do pão, fumaça, luz, água, o cretino do vizinho, a ex-mulher, trabalho pra cacete, a porra da cerveja quente, advogados sanguessugas…

– Porra, cara, desconta que eu sou advogado, porra!
– Po! Foi mal eu não…
– Deixa. Eu não disse nada a respeito mesmo. Furio me disse que você tem um bom coração.
– Os que me acusam de ter um bom coração não entendem porra nenhuma de anatomia. Eles encontraram um outro órgão.
– Você flerta com a poesia. Eu tô sacando.
– Eu não sei direito se …
– O caralho, porra!

O Souza parecia irritado, na verdade sua visão de arte estava sempre em jogo e não era dado a concessões, para isso interpelava a fala dos outros como se fizesse ali mesmo seu manifesto.

– Olha, que poesia nada cara, larga essa pompa. Só falar em poesia já é pompa. Tudo escrita, tudo arte e mesmo assim quase nunca alguma coisa que
preste. Se presta alguém logo quer alterar. Não tem sossego, não fica original.
– Mas como sei o que presta? Eu sei que não tenho prestígio…
– Que prestígio o caralho, escuta. Você lê, você aprende com o que lê e desenvolve um sensor de merda, que quando você escreve merda, o papel só
serve mesmo pra limpar a bunda.

Gregório acompanhando, com a cara de bocó, pasmo com a certeza com que Souzalopes falava.

– Assim. Você escreve e deixa pra lá. Depois de um tempo você lê de novo e se pergunta: é melhor que Dostoievski? Então publique.
– E se não for melhor que Dostoievski?
– Então não publique porra!

Bateu na mesa, caso encerrado, e quase derramou a tulipa de Gregório.

– Porra… salvei o chopp, mas acho que deixei meu foco cair no chão…
– Por isso que essa porra tá toda emporcalhada aqui…!

Os dois se olham, e vociferam uma série de palavrões, finalmente
quebrando o gelo e desatando a rir da situação.

Porra!

Chopps, pastéis, chopps, filezinho. Publicar ou não publicar, eis a
questão. Há mais porcaria pintada no papel que nossa vã vaidade nos permite argumentar. Poeta bom nunca sai por cima, ou da prateleira, ou do prelo. A vida rodando louca nessa cidade em que nada acontece e tudo acontece é muito maior que a palavra.

– Eu não escrevo poesia! Escrevo do que entendo e por causa disso eu prefiro eu mesmo fazer meus livros. Olha eu vou te dizer uma coisa, não… vou te dizer duas coisas que você pode querer guardar contigo. Vou te falar, olha:

Fez uma pausa, como se livrasse dos chopps e quisesse uma voz mais anunciativa, ou cordelística, queria ser despoesia. Olhou bem pro Gregório e disparou:

as mulheres são amadas na exata
terra da palavra água seu sol e
sua fala rio mais veloz o fo
go mais voraz a fera mais fera
garras de areia e dentes
de maré-cheia: chão

Não é diferente disso, nem mais ou menos. Sem Nietzsche nem Marx ou
ideologias. Essas porras… vai acabar tudo. Aqui nesse livrinho eu escolhi tudo eu sou eu, fazedor, escrevensador, escrinventor, poesenhista.
Prestenção:

o morte um coiso surdo
vírus de tudo esquisito
esquécido úrubu só

Isso mesmo. Isso por que morte é masculino, coiso. Vem, vai toma sem
permissão pingafogo e furafígado. Tudo vulto do desmundo que nos atravessa as mesas e as salas. Aqui mesmo, nessa cidade velha, concretaço sobre concretaço.

Sabe de uma coisa cara? É despoesia. O mais importante é: beije a mulher, beije os filhos e abrace.

O Gregório estatelado, não sabia o que ocorrera. Souzalopes ergue novamente o copo. Ainda ficaram mais uma hora ali. Terminaram novamente falando dos amigos em comum. Olharam profundamente o concretaço em volta e se despediram com um abraço. Abraços e lembranças pros amigos, na mulher, nos filhos. Amanhã quem sabe marcamos de novo, quando o Furio puder vir também.

Garoa na paulicéia. Certo como o coiso… sempre retornava com a garganta ruim. Seria hora de voltar pro Rio? A vida afinal havia lhe reservado uma revelação. Grande ou não, agora era com ele. Não tenha ilusões a respeito do que envolve a criação.

Poeta bom é despoeta, afinal. Que a vida engole tudo, desumana roda.

* * *

Nota:

Souzalopes completaria sessenta anos, se estivesse vivo, nesta terça-feira, dia 12. Sua obra é curta e artesanal, seu valor artístico é imenso.

leia e conheça mais o autor aqui:

TODO FOGO
http://issuu.com/alexandreguarnieri/docs/todofogo_souzalopes

HÃGUA

http://issuu.com/alexandreguarnieri/docs/h__gua_souzalopes

r.