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ENQUADRAMENTO (poesia para tempos de sangue)

acordei
o café era de ontem
minha fome também
varri a casa
com ela meu corpo
as dores da semana maiores que o colchão

outro dia
as mazelas de ontem
o ordenado não vem
esvaziei a lata
nem mais um grão
do arroz e sem o feijão

restou um trocado
no bolso de ontem
dá pra lotação
não tem pro varejo
não tenho pro pão
olha a hora de bater o cartão

ontem de novo
hoje também
amanhã é igualzinho
nas filas do trem
pra onde se olhe
as telas nas mãos

escapou-lhes pela janela
na moldura de aço das traves
o anil do dia de primavera
a formação das aves
que importa essa visão
se não estava na tela e não bate cartão

aquelas aves ainda voam na minha memória
e tornaram impossíveis todas as manhãs banais

A FIBRA DOS OSSOS

[leia devagar, sussurrando, o sentido repousa em algum canto.]

Na fibra dos ossos,
no caule das árvores
Escrito –

Flui pelas veias um fio de prata,
múltiplos caminhos findam
o mesmo lugar.

Sereno dormir
esquecer de viver
constante memória do outro lado
um Espelho –

Naufraga o sonho
de aves marinhas.
Mar revolto nas rochas
estrelas caídas sem desejo.

O céu enrugado
– ruge em fúria –
o deus constipado.

Frio
Coletor de algas
O largo de agulhas
Cobertor de almas
Frio compasso, ou lance de dados.

Tudo mais volte à terra
com sabor melananto e perene
eterno em luz.
Preencha este momento
essa Falha em silêncio
no solo
Outra Falha
no Sol
Sem Momento

Abre-se o rosto corrugado,
a escritura do passado
sedimenta a sagração de Vazios.
Em cada esquina um ser cansado
deixa de ser sapo.

Notas de uma escala menor corrompem o momento.
Um nome escrito no livro
Mil nomes escritos no livro.

A pontuação do silêncio
mede-se por Corvos.
Essas aves acentuam a sintaxe
da madeira e mergulham
no líquido negro do sema
do nunca
respingando levantes e
desdizendo a voz do tempo do homem,
que é o tempo do nome.

Só que nunca mais,
Nunca Mais
bater de Asas no espelho da alma.