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GRAMÁTICA CONTEXTUALIZADA

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                                                        Leo Barbosa

                                           (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                        Gramática contextualizada

         Não é de agora que presenciamos um ensino de Língua Portuguesa pautado numa gramática obsoleta, marcada por discursos preconceituosos, desconhecendo a língua como construção social. Prega-se uma fala e uma escrita que é utilizada por uma minoria – aqueles que tiveram acesso à escola e dela extraíram proveito suficiente para falar e escrever um português culto.

   É lamentável e pouco produtivo reduzir o ensino de língua à Gramática Normativa, que dita construções sintáticas que são rarissimamente utilizadas até pelos falantes mais cultos, a exemplo de: “assistir ao filme” “namorar alguém”. Além disso, não são nomenclaturas que aumentarão a nossa performance linguística, mas a reflexão e o uso da língua. É proveitoso saber o que é uma “oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo” se eu não confiro a essa construção uma prática, marcada por um contexto e, logo, por uma semântica?

  Ainda que tenha sido acordado que devemos nos pautar por gramática contextualizada, o que vemos são as mesmas práticas de estudo de gramática. Grande parte dos livros didáticos ainda insistem em exigir do aluno que “retire os substantivos do texto”.

  Segundo Irandé Antunes, em “Gramática contextualizada” (Parábola, 2014) falar em gramática contextualizada é um tanto redundante porque a linguagem nunca ocorre de maneira isolada, fora de um contexto – linguagem é interação e só ocorre se houver um objetivo de comunicação.

   Nós, na condição de professores de Língua, precisamos refletir sobre nossas propostas de ensino, questionando o que concebemos como gramática quando visamos ensiná-la. Essa se aplica a qual contexto? Oral, escrito, formal, informal? E a qual gênero textual? Quais são os usos?

    O essencial é garantir aos nossos alunos o acesso constante aos vários tipos e gêneros textuais, para que os discentes sejam capazes de interpretar qualquer texto e de lograr êxito nas variadas situações de comunicação. Infelizmente, são raros os profissionais que inserem o texto como protagonista da aula de Língua Portuguesa. Geralmente, o tempo é ocupado com análises sintáticas e morfológicas de frases descontextualizadas, sem que ao menos reflitam sobre a tradição, sem fazer paralelo entre a norma e o uso. E mais (ou menos?): quase nada de escrita de textos – raramente considerando-se a delimitação temática e o gênero textual a ser desenvolvido, pouco exercício da oralidade formal, quase nenhuma atividade voltada à ampliação do repertório vocabular (à exceção dos ditados).

      Sem práticas como essas, continuará a se perpetuar a falsa ideia de que os alunos não sabem falar português, desconsiderando o que eles já dominam. Suas variantes linguísticas estão repletas de complexidades que podem e devem ser exploradas. Enfatize-se que não se defende a abolição da norma culta, mas que essa deve se pautar na observação dos usos orais e escritos da atualidade, nos vários âmbitos da cultura letrada brasileira.

   Inadmissível é exigir que alguém fale ou escreva como um Machado de Assis, um Guimarães Rosa, um Graciliano Ramos. Ninguém se expressa literariamente o tempo todo, tampouco é uma Gramática Normativa ambulante. Até os falantes mais cultos seguem uma norma mais flexível, por muitas vezes perde-se a referenciação dos pronomes, cometendo “erros” de concordância verbal e nominal.

   A língua está em constante mudança, e desconsiderar isso é ser retrógrado, contrariar o princípio de que a nossa experiência de linguagem está ancorada na vontade de inserção em um grupo social. Também vale lembrar o que disse Mário de Andrade (no início do século XX!) – é o povo que faz a língua, ou, como disse Marcuschi – “São os usos que fundam a língua e não o contrário”.

                                                                         Leo Barbosa é professor e poeta

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Solitários entre nós

Leo Barbosa

 (escritorleobarbosa@hotmail.com)

Solitários entre nós

   Parece contraditório: vivemos em um mundo onde prevalece o discurso da pluralidade, das múltiplas possibilidades e, ao mesmo tempo, nota-se que estamos cada vez mais reduzidos a nós mesmos. O individualismo nos consome na medida da globalização. Tantas oportunidades, tantos meios de comunicação. Há quem tenha três aparelhos celulares e ainda se sinta só. Por quê? Porque diante de tantos contatos virtuais restam nenhum ou quase nenhum convívio real.

   Vejo famílias à mesa. Elas dividem a comida, mas não se alimentam da presença um do outro. Elas dividem o mesmo teto, mas não as mesmas histórias. Estamos vivendo entre estranhos porque não damos mais espaço para reflexão. Esse mundo acelerado, com tudo instantâneo, faz com que vivamos numa sociedade pautada no que Zygmunt Bauman denominou de modernidade líquida. Isso significa que os laços humanos estão cada dia menos sólidos. Hoje, amigos. Amanhã não se sabe.

   Faça um teste: olhe a agenda do seu celular. Agora pense: para quais dessas pessoas você realmente poderá ligar diante de uma madrugada de choro? Com quem você poderá contar quando se sentir o mais frágil dos seres? Provavelmente com ninguém, até porque não quererá sair do seu status de forte. Sim, bancamos ser de aço, mas somos de flor. E, mesmo quando murchamos não admitimos a perda do vigor.

   Entretanto, “qualquer que seja a sua condição em matéria de dinheiro e crédito, você não vai encontrar num shopping o amor e a amizade, os prazeres da vida doméstica, a satisfação que vem de cuidar dos entes queridos ou de ajudar um vizinho em dificuldade, a autoestima proveniente do trabalho bem feito, a satisfação do “instinto de artífice” comum a todos nós, o reconhecimento, a simpatia e o respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas a quem nos associamos; você não encontrará lá proteção contra as ameaças de desrespeito, desprezo, afronta e humilhação”, palavras de Bauman.

   Estamos nos comportando como crianças que têm muitos brinquedos. Elas não se importam se um deles quebra, porque logo terá outro, talvez até melhor. Tem sido assim com relacionamentos amorosos. Hoje temos um(a) companheira(o), mas não fechamos os olhos para que venha outro(a) melhor. Só que, infelizmente, esse “melhor” não está pautado no essencial, mas no acidental. Não importa se será uma pessoa honesta, carinhosa, dedicada, mas se será mais alta, mais rica e bonita.

   Estamos solitários entre nós porque prosseguimos sem envolvimento. Músicas propagam a filosofia do “pega, mas não se apega”. Qual o problema em se “apegar”? Esta é a geração na qual o desconforto é inadmissível. É inaceitável sofrer, é inapropriado ser incomodado, ser chamado atenção. Não é permitido que os holofotes se virem para outro lugar que não para si. Amor não é descartável. Amar não é exclusividade como tantos proclamam. Amar é pluralidade; uma pluralidade entre nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

Aproveite seu professor

                                                       Leo Barbosa

                                      (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                Aproveite seu professor

     Apesar de cada vez mais desrespeitada, a figura do professor ainda suscita idealizações. Aquele que é detentor de um saber, que inspira por ser mais experiente. Por vezes, espera-se que o docente seja perfeito, sem nenhum desvio de caráter, sempre cordial, gênio, semideus. Esquecem os alunos que se trata de um ser humano como outro qualquer – com defeitos, fraquezas.

    Assim como todo mundo, todo professor terá suas qualidades e defeitos. Mas, uma coisa que sempre recordo aos meus alunos: não confunda não gostar da matéria com não gostar do professor e vice-versa. É necessário um bom preparo emocional para separar isso. E mais: a coisa piora quando não há simpatia entre a disciplina e o ministrante desta. Cabe ao estudante ter a sabedoria de não depender apenas do professor.

   O estudante precisa participar ativamente do processo de aprendizagem, ou seja, ser autodidata. Não superestimar o professor nem tampouco o subestimar. É possível indagar o docente sem ofendê-lo. É necessário que o discente se liberte do medo/vergonha de questionar sempre que um assunto não for compreendido.

   Às vezes o professor tem domínio da matéria, mas tem dificuldade em transmiti-la. A turma com a qual o mestre trabalha possui forte influência sobre a motivação dele. Quando a classe se mostra interessada, isso contribui para que a vontade de ensinar do professor aumente, logo o fluxo de conhecimento armazenado por ele virá à tona com maior facilidade.

   Evite julgar o professor ou tirar conclusões a partir do que os outros falam. Há quem sem conhecer a matéria, por dar vazão aos que os outros falam, começam a desconsiderar o professor porque outra pessoa o “crucificou”.

   Entre na sala disposto a aprender, independentemente de você gostar ou não do professor. Até porque o que ele vem transmitir não o prejudicará se você ignorá-lo. Mas, não se pode dizer o mesmo de você. Ele está disposto a ensinar. Você está disposto a aprender?

   Há outra tolice evidente: o aluno que faz perguntas das quais já sabe a resposta apenas para testar o professor. Indubitavelmente, é mais interessante perguntar o que não sabe. Não há lógica na competição entre categorias distintas. Se quiser aparecer, então que se mostre nas provas.

  Um bom professor é aquele que consegue ser flexível – atende a alunos com dificuldades sem considerá-lo inferior e, também, aos superdotados de forma que não os castrem. Tanto quanto o docente, cabe aos discentes a sensibilidade para lidar com os colegas menos dotados. O escárnio acontece de ambos os lados. Ou quando alguém entende bem um assunto ou quando sente dificuldade. De um lado, a inveja. Doutro lado, a arrogância.

  Se sua palavra vai agregar valor a alguém, fale. Se não, cale-se. Entre na sala de aula disposto a aprender e não a julgar. Faça jus ao tempo gasto nesta atividade. E lembre-se que o professor tem o direito de errar tanto quanto você tem de acertar.

Órfãos de pais vivos

Leo Barbosa 

(escritorleobarbosa@hotmail.com

                                                   Órfãos de pais vivos

       Viver não é fácil. Isso já não constitui uma novidade para muito de nós. E ser adolescente? Nem se fala! Essa fase de ruptura, entremeada pela infância e pela fase adulta, é aterrorizante. Mas, os pais não devem perder o pulso. Tampouco a pulsação dos olhos diante de seus filhos, que por causa do corrido cotidiano, suas crias têm passado como vulto. Nossos meninos cresceram e ganharam outros horizontes de sentido. Hoje, com tantos meios de comunicação, com tantos meios de transporte, ultrapassar a mesa de jantar tem sido uma tarefa hercúlea. Além da tanta informação que, se não bem administrada, gerará um desmantelo na ordem ética. São vastas as possibilidades as quais tendem a se tornar irresponsabilidades. Porém, “quebrar a cara” é característica inevitável da adolescência.

      Se rebelar contra os limites postos pelos pais é natural. O preocupante é quando a rebeldia resulta em ódio. Quando, por excesso de repreensões ou até mesmo por grande imaturidade emocional do adolescente. A rebeldia pode ser, na verdade, um clamor por mais atenção. O cuidado também se expressa pelo limite. Pais que deixam os filhos fazerem o que querem não estão comprometidos com a formação moral de suas crias.

     É bem provável que os que não aprenderam a lidar com as próprias dificuldades, não terão sabedoria para encarar os problemas de sua prole. E é bom lembrar: limite não é tolhimento. Precisamos olhar com calma. Saber que soluções velhas não funcionam em fases novas. Os “meninos” entraram na puberdade e querem liberdade. O que fazer? Se sentir um fracassado, porque seu filho manifestou rebeldia? Entregar o filho a familiares? Chamar a TV babá? Passar a bola para a escola? Mas… a escola informa, a vida forma.

     Calma. O adolescente está apenas querendo conquistar o seu espaço no mundo, está em busca de autonomia. O inaceitável é quando você não orienta o seu filho contra os perigos e malícias do mundo. Ou quando se contradiz por meio de suas ações. Ao pedir para que o seu filho não beba, mas todos os finais de semana “enche a cara” ou que não fume, sendo fumante.

    Quando é negligenciado o tratamento de questões básicas e complexas: manifestação sexual, uso de drogas e perspectivas profissionais. É assim que nascem os órfãos de pais vivos. Nascem quando uma palavra é negada; quando um ouvido é recusado; quando não se educa o filho para verdade; quando toda vez em que ele erra, você o pune. Na falta de autoridade – nas vezes em que os filhos fazem birra e os pais cedem aos caprichos.  

     Os adolescentes devem aprender desde cedo o que o mundo espera deles. Eles só aprenderão quando a eles for dada a simples autonomia de pagar uma conta, de fazer supermercado (mesmo que junto aos pais), a cozinhar, entre outras atividades rotineiras. Devemos dar voz aos nossos filhos para que eles não queiram nos silenciar. Devemos dar ouvidos se quisermos ser escutados. Ressuscite seu olhar de pai/mãe, pois já bastam as outras orfandades da vida.