Arquivo da categoria: Poesia

BOLETIM (poesia para tempos de sangue)

a vida está tão cansada
precisa de uma boa noite de sono
uma boa noite de sono
uma boa noite
uma noite
quando lhe resta uma noite

a área conflagrada
o veículo visto circulando
a munição deflagrada
a apreensão
sem opção de socorro
os artefatos explosivos
a vida está tão cansada
que os jornais lhe caem das mãos
marcadas

busca o essencial na barraca da feira
sem saber o que quer
subjugada com pés e mãos nas prateleiras
não se move além da faixa amarela
no chão de onde estiver
nos elevadores e semáforos entre os carros engasgados
a vida está ali mas não se reconhece
sem documentos que a enumerem
debaixo dos postes
seu rosto apagado de encontro aos muros
a vida é negra e traz marcas na pele
sem resistência nem ato
de joelhos ela desce

a vida está tão cansada
precisa de cama melhor que a calçada

eu não queria dizer mas
a vida não dorme
nem vive mais

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A JANTA (poesia para tempos de sangue)

Vinte e duas horas. Os grilos conversam a cada árvore que restou na rua. Retiraram as árvores. Há barricadas nos cruzamentos. Um silêncio pesado nos desvãos dos muros. O estômago caminha junto com as pernas e os olhos, sempre adiante, já estão no portão depois do último poste. Depois do portão o cansaço. Depois do portão o abraço, o feijão, o arroz no prato e um trago. Prato raso e a TV com retrato do mundo. Diverso de tudo, o retrato mudo do rosto. O corpo trinca cãibras, antecipa a manhã. A esperança parece descer pela pia.

Vem mãe, ver as luzes.
Vem mãe, ver o céu.
Respingos de fogo
As luzes no céu.

Incêndio de aço e lágrimas distantes
poesia para tempos de sangue

DEPOIS DO ALARME (poesia para tempos de sangue)

acendeu o fogo
o bule e a água pra esquentar
o coador e o pó de acordar
antes da luz a madrugada se cala
a brisa circula nos postes
e o trabalhador tem que se levantar
o corpo se curva à rotina
aos preços
à poeira dos cantos
ao ônibus lotado
o corpo é menor que o bule
o corpo também ferve
o corpo é feito de sono e se ergue
o corpo é o trabalhador sem pertencer ao trabalhador
assim como a vida é bela sem conseguir ser alegre
o que importa o fogo a vida imensa ou menor
ou parte que complete-se em arte

o sono do trabalhador não volta
ainda que se perca
a hora

CATADOR (poesia para tempos de sangue)

passou-se uma noite horrível
esta vida é contar desgraças
e contar os corpos
e cortar a carne
e contar os dias
até o sonho impossível

passou uma viatura pela rua
quando voltou veio com a peste
com tapa na cara costela quebrada
carteira rasgada e fome de guerra
de sangue de gente curvada
inerte deitada sem voz pras balas

os atentados consentidos
os braços do estado estendidos

sem perícia que contenha a realidade

CORTEJO (poesia para tempos de sangue)

Nada mais aqui lhe cabe. Nenhuma fala bela
acompanha a procissão. O baile em velas parte.
Palavras mudas em um sonho, veio abaixo com um tombo,
balbuciou na calçada o corpo.

O beijo da bala e o coice do abate não fazem
jus ao estrago: faltou-lhe sorte. O impacto de um
segundo é todo o impacto do mundo. Diga-se que
nasceu ao contrário. Uns vem à vida e outros, nem tanto.

Receba esta terra, construa em si, como um manto,
a cobertura da pele, da madeira e do pranto.
A morte no baile de fogo dançando do alto e o coro
da liturgia metálica que nunca para de exterminar o povo.