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FILME CLASSE B

Dizem que noites de lua cheia são propensas a acontecimentos estranhos. O contrário também serve. Na verdade, sei lá. Eu não me lembro de tudo. Quem se preocupa em lembrar? Em todo caso, tentarei.

Entrei no bar e lá estava ela. Tinha aqueles olhos que perseguem você. Travam em cima, desejo recalcado, algo que atrai, magnéticos. Pensei em alguém como uma clarividente. Alguém que desvendaria toda a minha vida ali, na minha frente, se ousasse me aproximar. Alguém que me viraria pelo avesso, esfolando moralmente cada palavra minha, como se a língua fosse um chicote. Acho que foi isso mesmo que eu quis que acontecesse.

Corta. Preciso sair da minha cabeça e tentar contar isso mais naturalmente.

Fomos apresentados na mesa, ela já estava sentada e eu cheguei. Havia sido convidado por amigos em comum. Acho que a curiosidade mútua foi tão intensa que minutos depois procurávamos disfarçar, alternando a conversa entre nossos amigos. A conversa circulava, a bebida chegava e os lubrificantes sociais agiam naturalmente. Havia a inevitabilidade do eterno retorno. Inventei isso agora para dizer que sempre encontrávamos um ao outro no rolar da conversa fiada e nossa história recomeçava do mesmo ponto. Ela me olhava bem nos olhos e ordenou de repente que passasse minha perna na dela. Estava quente, esqueci de dizer. Mesmo assim, o que senti foi anormal. Minha perna deslizou pela dela, que estava encharcada de suor. Nunca sentira algo como aquilo. Ela me assegurou que era apenas o calor. Cansei das esquivas e disse a ela que poderia esquentar mais.

Corta. Eu não sei o que eu disse naquela noite. Algo idiota talvez. Algo pensado logo acima do joelho. Algo que foi o mínimo sensível de encontro com o joelho dela.

Estranho foi que no final da noite saímos para lados opostos. Fui numa festa —chatíssima — e retornei ao meu apartamento certo de que não deveria ter saído naquela noite. Moro num daqueles condomínios bunda suja onde tudo é mesmo uma bagunça e os moradores não dão a mínima para porra nenhuma. Dei dois passos no corredor rumo à escada e as luzes apagaram. Fiquei puto e resmunguei algo comigo mesmo que nem cheguei a terminar, minha boca foi tomada de assalto e meu corpo lembrou imediatamente do corpo dela quando as pernas suadas dela molharam os pelos da minha perna. Não estava mais sentindo minhas pernas, esqueci de mencionar. Ela sussurrou tranquila no meu ouvido:

— Estou logo acima de você.

Eu congelei, um mergulho em apneia na escuridão. O mistério mais excitante da minha vida desvendado. Ela morava no andar de cima, era isso?

Corta. Foda-se. Não ordenei os pensamentos de modo claro assim. A adrenalina lembra que a vida é um relâmpago.

Línguas invasoras num corredor escuro. Sei que parece nome de filme classe b. Imaginem como isso impede qualquer um de manter a menor coerência dos fatos. Talvez eu tivesse até revirado os olhos quando ela quis morder-me o peito, bem no meio, era o plexo, o alvo. Arranhava-me com os dentes. Tapei-lhe a boca mais de uma vez pois ela ficava escandalosa quando eu segurava seu rosto com as duas mãos, quase prendendo-lhe pelo pescoço.

— O corrimão tá gelado.
— Em pé mesmo.

Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Respiração, respiração. Respiração. Ar, ar, sem ar.

Sentamos no chão. Nada a dizer. Ficamos ali parados até o dia apontar. Levantei e abri a porta. Entramos e passei um café. Um gole, os ombros se soltaram, só aí um olhar de carinho mútuo, aquele sorrisinho enigmático que todos temos quando acordamos pela primeira vez com alguém.

Corta. Nem dormimos.

Depois do gole, dos ombros, sorriso, as primeiras palavras de nexo(?):

— Toda a minha vida…
— Huuum!
— Você primeiro!
— Não, você!
— Vai fala!
— Ah, foda-se!

Bocas furiosamente confundidas. Sei que parece nome de filme classe b. Não lembro mais nada. O que eu me esqueci não é mais da sua conta.

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TEATRINHO CARIOCA [título provisório]

 

Cena 1

Bar…

Ela demora pacas pra sair.

Ele:
Então, vamos? Você não acha que podemos nos pegar em um lugar mais próprio?

Ela:
Péra. Já vamos. Eu só vou ali cumprimentar umas pessoas

 

Cena 2

Motel…

Ela pira com a hora de sair, a hora dela chegar em casa, cheiro de bom ar deixado no quarto… E as cortinas!

Ela:
Ai, porra. Eu não sei, como vou voltar pra casa de madrugada? Mas que droga. Mas que lugar é esse? Olha, o cheiro desse quarto é horrível. Eu mesma uso um outro spray em casa, esse me dá dor de cabeça. Mas que cortinas vermelhas horríveis

Ele, calado, achando tudo um filme de Almodóvar acontecendo na sua frente. Agora, ela havia ficado horrível. Na verdade, as cortinas eram perfeitamente aceitáveis, feitas sob medida pra janela, sem manchas, talvez até novas.

Ele ficou com vontade de pedir um vale-fodinha pro motel e sair correndo daquela cena de filme…

 

Cena 3

Fornicação…

Em que ele desempenha seu papel por… 50 min. Uma hora-aula, pensou. Ela atua mal até para uma atriz de vídeos adultos. Rasgava-se em berros estridentes de prazer nada convincentes. Ele já começava a olhar para ela com certa desconfiança. Por vezes ela olhava fixo para ele e fazia uma linguinha fina de lado a lado pela boca. Ele precisou se segurar para não rir da cena. O que essa mulher pensa estar fazendo?

Ela dorme pelas quatro horas restantes

 

Ato 2

Cena única.

Monologo mental.

Desempenhado por horas olhando o teto do motel. Ele revê toda a sua vida.

Pensa no fim, na eficácia da psicanálise, na reprodução dos pandas na China, camada de ozônio, na chuva lá fora, no dilúvio bíblico que poderia varrer o lugar e permitiria que  morresse feliz pois lavaria também essas memórias…

Ela ressona. Ela estava cansada. Ele sabe identificar pelo tipo de respiração.

 

Ato 3

Cena única.

Ela quer esperar os ônibus voltarem a circular. Ele quer se atirar no mar e voltar à nado pra África. Que pessoa sabe que vai para um motel e não separa grana pro táxi depois? Ah sim, claro. Uma indireta para que ele pagasse o táxi para ela. Ele paga. Ela diz que quer mais, muito mais e boceja antes de entrar no táxi.

A chuva parou. Ele poderia pegar um táxi para retornar. Prefere ficar sentindo a brisa gelada do inverno no rosto. Ouve o mar bater suave. Não há ninguém na rua e o sol ainda não nasceu. Vai demorar, está nublado. Que alívio, o silêncio, a brisa realmente gélida.

Ele retorna para o seu apartamento, come todos os doces que estavam esquecidos pelos quartos e pela despensa. Pensa que se estivesse com um sorvete agora, este seria o final de um episódio ruim de alguma série enlatada norte-americana.

Misantropia parece fazer mais sentido que nunca, agora.

SORTE DE BODE

Aquele havia sido um ano de merda. Perdera o emprego, o carro foi roubado, o pai enfartou e a diabetes da mãe acabou por subtrair-lhe a poupança, a esperança, a pouca fé e o humor.
Agora caminhava por três bairros para procurar emprego. Nem sempre tomava o café da manhã e à noite repartia a sopa de pedra com os velhos.
Compadecido, no balcão do bar, o Bedecildo lhe oferece uma branquinha:
– Por conta da casa. Essa tristeza um dia passa.
Acedeu com a cabeça enfiada nos ombros pesados, agradecendo em silêncio a cortesia. O álcool desceu quente na garganta e o sorriso se esboçou no rosto. Olhou em volta, o estabelecimento ainda era o mesmo há décadas. O Bedecildo parecia conhecer todos pelo nome, parecia que nunca fechava.
– Não aguento mais.
– Isso passa – responde o Bedecildo.
– Tudo passa.
– “Tudo passa” é receita de panetone ruim. Nem tudo, mas estamos aqui, não é mesmo?
– Nunca pensei em você como otimista.
– Anos de balcão, sabe? A vida se repete, como louça.
– … E acaba no ralo.
– Não. Os restos vão para o ralo, a louça fica limpa e recomeça o ciclo.
Refaz o sorriso e agradece. A curta conversa restaura o seu ânimo (mais provável ter sido a pinga).
– Pois pra provar, vou tirar você do prego. Olha aqui.
Dito isso, o Bedecildo pegou todas as notas e entregou sem hesitar. O outro levantou-se, emocionado como gesto, e profetizou:
– Pois vou lhe pagar com esta conta!
Uma semana depois, o Bedecildo quase perdeu o queixo. O outrora desesperado havia saído dali e usado os valores das notas no prego como dezenas do jogo do bicho. Então, comprou a sociedade no bar pelo dobro do que valia e colocou os pais pra trabalhar juntos no caixa. Era o fim de um ano de merda.
Os dois sócios nunca discutiram e o velho Bedecildo, a cada semana encontrava outro a quem servir da mesma garrafa que nunca tirava do armário – nunca havia mostrado nem ao sócio – com uma ferradura de bode dentro.

HISTÓRIA DE SAMSARA

De tanto olhar o teto, começou a divisar os mapas inscritos invisivelmente pelos sonhos anteriores aos dela. Há pouco mais de um ano naquele quarto, finalmente entendia o motivo do seu sono sempre tão agitado.
Naquele continente alado à sua frente, ela desceu montanhas e caminhou por vales, indo encontrar ocupação em uma cidade portuária na costa de Samsara. Todos os dias (que no mundo da sua cama, na verdade eram noites) ela partia em seu pesqueiro, com sua tripulação, buscando o sustento da cidade na linha marítima do horizonte. Retornavam com as redes cheias ou com pôr do Sol. Havia cantoria para recolher as redes. A capitã sempre sabia onde levar o barco para que as redes retornassem cheias de lazulatuns e celacantos. Predadores eram atraídos pela pulsação da rede cheia de vida e a promessa de uma refeição fácil. Por esse motivo, um bote auxiliar era posto nas ondas, com homens e arpões, tentando evitar que qualquer peixe fosse perdido ou que alguma fera ficasse presa na rede.
Numa tarde, a cantoria do recolhimento foi interrompida por gritos:
– Homem ao mar!
– Nade! Nade pela sua vida, marujo!
– Lancem as cordas!
Sem hesitar, a capitã se atirou ao mar com sua faca, certa de ferir mortalmente a fera, salvar seu marinheiro e ainda salvar a si mesma.
A luta, que deve ter sido dramática e sanguinolenta, não ficou na sua memória. Ela acordou sobressaltada e sentou-se na calma, ofegante. Respirou fundo e fez um esforço para trazer à mente toda a história e quem ela havia sido. O dia amanhecia e ela aos poucos se recompôs. Abriu as cortinas e deixou a luz inundar o que prometia ser mais um dia
… não fosse o tubarão em cima da escrivaninha do quarto.

O HOMEM DA RUA 23

Aquele gosto de noite na boca. A escuridão molha minha pele. Eu vejo os carros, eles passam. Meus olhos atravessam a janela, quase vitrine, vidro. Não há tensão nenhuma em passarem, sempre passam. Não há novidade nenhuma nas pessoas, sempre passam na calçada. O que as move? Em que tempo ficam? Voltariam na clara manhã? Por que eu me perco em retóricas inúteis?
A vontade de fluir nas veias amargas desta cidade. Saio em um impulso. Cada passo desconfiado, narinas inundadas de absurdos odores. Os sentidos confusos, a alma em um blecaute que me impede de ver além de vultos, sombras que se movem em sombras de muros. Caminho incerto, uma trajetória errônea.
Não entro logo em qualquer lugar. Escolho, acalmo, pressinto. Sou um predador indeciso, uma sobra da extinção. A busca, a caça, a senda. A noite obscura, obsidiana na vista. As horas e os joelhos contam o tempo. Esta é a busca do homem da Rua 23. Este sou eu.
Ficou tarde. Passou muito tempo desde que comecei a andar. A noite pintou o chão de preto, as esquinas de preto. Tenho as sombras embebidas na pele como um mineiro, um carvoeiro, ou apenas um vulto indefinido em uma noite idem. Não sei dizer a diferença entre um indivíduo e um vulto.
Uma luz no canto do olho surge, algo muda em mim, um clique e basta de andar a esmo. Entro, está claro. Uma livraria, um café, poucas pessoas. Um desses estabelecimentos dessa cidade que funciona vinte e quatro horas, uma rodoviária de insones. Passo completamente despercebido, sou outra ave, outro réptil, outra quimera na selva de impressos. Há estantes por todos os lados e algumas pessoas realmente leem os volumes que retiram ao alcance dos braços. Romances, novelas, crônicas, enciclopédias, fotos, arte – gosto das fotos – design, cinema e teatro, viagens, portos – gosto das fotos – cidades, sonhos e poesia. A vegetação me confunde e as folhas letradas exalam o inconfundível desabrochar de variáveis vazias. Viagens interiores. Hoje não. Esta noite não.
Estou confuso. Pensamentos desordenados e íngremes. Minha cabeça é uma montanha russa de sentidos desconexos. Um tanto pornográfico, em volta há fotos de coxas, bicos de seios e mãos convulsas – o ópio gozoso. Sou um bicho preguiça, uma face da lascívia sem lençóis. O macchiato esfria sob meu nariz.
Até que ela entra.
Virei a página, abriu-se a porta, e o destino das personagens desliza pelas palavras diante de seus olhos. Não era um livro.
Até que ela entra.
Ela entrou pela porta e veio caminhando. Reconhece o ambiente revirando a cabeça. Sussurra entre os lábios os nomes das seções demarcadas nas prateleiras, história, romance, poesia, sociologia. Não sei ler lábios, mas aprendo rápido. Café, tenho certeza que ela diz café para si. Segura um livro grande nas mãos e seus olhos mergulham pelas páginas. Tem dedos longos, unhas brancas, que sobressaem na camisa preta. Sentou-se numa mesinha, como a que eu estava. Cruzou as pernas. A pele branca, roupa preta, unhas brancas, isso eu já disse. Fitei por segundos cada dedo, buscando detalhes.
Deviam me prender por pensar assim. Eu acho que deveria ser preso por pensar assim. Ela deveria me prender por pensar assim.
Eu deveria prender você por pensar assim.
Hackers mentais são proibidos nesta parte da cidade, pare.
Nenhum de nós dois quer saber disso essa noite.
Eu deveria algemar você por invadir meus pensamentos assim.
Eu gostaria, seu cretino.
Saímos depois da bebida. Um logo após o outro. Diálogos não são necessários, hackers mentais podem se conectar ou se bloquear até inconscientemente, em caso de perigo. Não precisamos disso esta noite.

SONHOS DE PADARIA

Manhã de domingo e os primeiros sons da rua chegam entre as cortinas. O mundo acorda, só que mais lentamente. Mesmo o sol, não apressa tanto as pessoas nessa cidade. Há os que vão para a praia, estes sim, são vozes apressadas tentando arrumar-se em um carro, sons de cadeiras metálicas, há crianças, mas logo partem. Um vento quente sopra pela janela e incomoda no rosto. Hora de levantar.
A rotina de escovar os dentes e tentar reconhecer no espelho quem é aquele que olha, cansado, de volta. Parece tão perplexo quanto entediado com a visão. Arrasta o corpo pra cozinha e a realidade cruel se revela, a geladeira vazia oferece luz e um refrescante ventinho que lhe toca os pés. Hora de se compor e ir pra selva urbana caçar o desjejum em uma padaria.
Chamou-lhe a atenção um comunicado aos condôminos. Estavam proibidos atos de conversa entre grupos, animais, fumo, crianças correndo, bicicletas, skates, assim como pessoas estranhas desacompanhadas. Contavam com a colaboração de todos no sentido da tolerância construir um melhor lugar para todos residirem em paz. O síndico era realmente um imbecil e só faltava decretar um toque de recolher. Pegou uma caneta vermelha que sempre trazia no bolso e escreveu no topo do papel: “A natureza humana é ser tolerante, desde que todos tenham a mesma opinião.” Acrescentou uma suástica ao lado do nome do síndico.
Chegou na calçada mais leve, certo de o pequeno ato iria gerar nada mais do que um ataque de raiva no fascista enrustido. A maioria dos vizinhos não se importava em ter sua liberdade tolhida e até declara o conteúdo das bolsas de compras “para que a segurança dos demais condôminos não seja comprometida por vândalos e outros arruaceiros que possam estar escondidos no prédio”. Colocou as mãos nos bolsos e seguiu. Agradeceu internamente essa singela oportunidade de ainda poder dar combate ao reizinho mandão. Seria essa a única forma de luta ainda possível nessa cidade?
Balcão da padaria, o ventilador espalha o ar quente democraticamente pelo ambiente. Apesar disso, todos bebiam uma média fumegante, vinda da antiga máquina que mantinha o café, o leite e a água sempre aquecidos. Em uma padaria, quase tudo tinha um apelido, consagrado pelo uso popular, a média, por exemplo, com partes quase iguais de café e leite, misturados na xícara. O pretinho, o pingado, os nomes às vezes mudavam de padaria para padaria. Disco voador, ou pão com ovo e a popular canoa, que é um pão francês cortado ao meio com manteiga nas metades. Os nomes mudam, mas as preferências raramente. Um pingado e duas canoas, nadando na manteiga.
Enquanto comia, andava pelas vitrines e via a criatividade do padeiro. A vitrine da padaria parecia a vitrine de uma joalheria com doces, tranças, croisants, brioches, e muito creme dourado em cima de pães de massa doce de diversos tamanhos. Sorriu diante das possibilidades, escolher era divino. Sorriu pensando no padeiro, nem todo herói usa capa afinal. Chamou a atenção uma travessa vazia, salpicada com açúcar de confeiteiro e canela. Percebeu o creme nas bordas e teve certeza de que ali havia antes o que ele procura. Seu doce predileto, o sonho, generosamente recheado com creme e coberto com uma fina camada branca de açúcar de confeiteiro misturado com canela. Buscou um atendente menos ocupado, para lhe dirigir a palavra:
– Por favor, vocês tinham sonhos aqui? Pode perguntar se o padeiro ainda vai fazer mais?
O atendente pegou a travessa vazia e acenando com cabeça, saiu em direção à cozinha.
No lado oposto do balcão, onde ficavam os bancos e as pessoas sentavam para beber seus cafés, chamou-lhe a atenção um homem que falava mais alto que os demais. Não havia como não ouvir o assunto, mesmo do outro lado e a uma certa distância. O homem se gabava de ser o mantenedor da paz, o zelador do bem do prédio em que morava, com ele não havia baderna, silêncio total depois das 22h ou multa na próxima conta. Obras eram sempre essenciais e com taxas extras o capital do prédio nunca se esgotava. Parou pra comentar que não havia nada mais digno do que mármore rosa para decorar e mesmo um prédio de segunda, como o que ele morava, merecia o melhor, mesmo que só ele apreciasse. Sem dúvida aquele era o síndico do prédio onde morava. Passou a prestar atenção no que o homem dizia e afinal ele contou que fez os porteiros revistarem as bolsas de compras dos moradores para se certificar que o prédio não era frequentado por baderneiros, como esses que se infiltravam em passeatas para depredar bens públicos, saquear e denegrir a imagem das forças da ordem. Foi duro, mas era a ação que tinha que ter sido feita para assegurar o bem geral dos condôminos, era uma obscenidade a ação dos vândalos.
Indignado, ele apontou o dedo para o homem e largou em bom tom para todos ouvirem:
– A maior obscenidade que já presenciei é a falta de liberdade!
Todos se calaram, os que ouviam fizeram um olhar de surpresa, como que esperando retaliação do síndico falador. O atendente retorna e se coloca diretamente no campo de visão, bloqueando o contato visual entre os dois debatedores.
– Acabou.
– Como?
– O sonho, senhor, o padeiro não vai fazer mais porque o açúcar acabou, há pouca canela e precisa usar o creme em outros pães para não estragar. Os sonhos devem sempre ser frescos para ele.
– Ah, sim, obrigado. Acabou.
Deu a volta e saiu. Parou na calçada, na frente da padaria e acendeu um cigarro. Tragou fundo disse para si, com ironia de um clown: “O sonho acabou, mas que droga.” Terminou o cigarro e caminhou convicto de volta ao prédio. Não tinha um plano, mas primeiro ia fumar o resto do maço na portaria, lendo um livro e depois faria uma lista de coisas que faria antes que houvesse um toque de recolher no prédio, datilografaria e colocaria em cada portaria.
– A droga do sonho acabou, mas eu estou começando.

Arte de Kaiena Ferreira. intagram.com/kai_dvioleta

Arte de Kaiena Ferreira. intagram.com/kai_dvioleta

COMO TEM QUE SER

Fazia frio numa manhã como qualquer outra em que se possa acordar preguiçosamente com a certeza de que depois da mijada, há que se retornar para o quentinho da cama. Parecia que não mais se lembrava de como levantar. O corpo não obedecia e o sono o abraçava como a própria gravidade. O planeta agora se opunha ao movimento ingrato pra fora da cama. Coragem, contagem regressiva… ascender. Está de pé, resmungando baixinho, outro passo.

Calma, cálculo, caminho, cautela, calibre, cuidado… Terminou a pintura na porcelana e se aconchegou novamente na cama. Pronto, nada poderia lhe atingir agora. Não mais vulnerável, resta um sorriso de conforto. O cobertor como um abraço apertado. O sol percorre imperceptível a vida, desatando a manhã e estendendo a memória, como roupas no varal.

Ele não queria saber de memória. O passado estava feito. Se a brisa gelada desta manhã não apagasse, o tempo o faria. O melhor exercício é tentar não pensar em nada. Uma mente livre pode vagar burlescamente por toda a memória residual de uma noite e pinçar o melhor do fluxo intermitente de passado que assola a ressaca moderada que culmina em ondas pela manhã. Assim é como tem que ser. Caso houvesse um espelho perto da cabeceira perceberia seu sorriso tranquilo no rosto. Felicidade e desgraça são bem parecidas quando se tem em mente que ambas não têm hora de chegar. Acontece que uma está sempre atrasada e a outra nunca perde o almoço, mesmo no dia em que falta bife.

Havia chovido a noite toda. O barulho da chuva parecia vir do tornozelo dela. Na verdade, o efeito sonoro da correntinha no tornozelo dela. Artefato delicado, estilo indiano, que tilintava graciosamente. Os penduricalhos em forma de gotas eram pequenos instrumentos musicais. Porém, ela era muito mais. Ela inteira era musical. Apesar do vento gelado da chuva ela calçava uma leve sandália e toda hora levantava a saia, que tocava o chão molhado. Conversa não houve, porque essa formalidade demanda algo mais demorado do que a velocidade do desejo. Fluência é quando você descobre o atalho das palavras e chega direto nos olhos. E olha-se tão diretamente, tão profundamente que em átimos de suspiro, da surpresa ao reconhecimento, ao sorriso, às faces rubras, aos balbucios e da adolescência ainda que aos trinta anos, tudo se passa em nada mais que um átimo. Exatamente assim. Ele estava imerso nesse mergulho, sem sentir nada, sem perceber nada, sem perceber mais nada além dos olhos dela dentro dos seus.

Um caleidoscópio de nuances, cada tonalidade daqueles olhos atordoou suas palavras de tal forma que o mundo lhe pareceu mais simples. Perseguir, perder, permitir. Agora, tudo restava dentro de outra compreensão. Mergulhando na mulher mais linda que já havia visto, descobriu que dentro dela desaparecia sua imagem, estava perdido dele mesmo. Entretanto, como um dentro sem fora, o reflexo dela em seus olhos havia chegado tão fundo que sua alma poderia jamais deixar de ser criança de novo. Não teria adjetivos ou denominação. Seria o agora. Assim é como tem que ser. Foi, foram.

Da memória à cama, porém, uma longa estrada, separada agora por aquela manhã. Palavras de três sílabas começadas por “s” sempre têm eco na distância até o travesseiro. Caso houvesse um travesseiro e você esticasse o braço, perderia seu nome nele tantas vezes fossem para cada sete manhãs.

Cessa a memória. Acontece que não havia travesseiro, mas a branda respiração dela que como outra música parecia vibrar com a manhã dizendo: “sempre”. Isso mesmo. Acontece que nem toda história tem que ter final pesado e nem toda memória tem que ser sempre passado. Hoje, ninguém vai chegar naquela casa e nem naquele quarto. Ninguém vai abrir a porta e todo movimento além de abraços será ignorado. Não existe ninguém mais além daquela fronteira. Assim é como tem que ser. Foi, foram.

como tem que ser