Arquivo da categoria: Artigo de opinião

SEM SELO DE GARANTIA

                                                 Leo Barbosa

                                  (escritorleobarbosa@hotmail.com)

 

                                            Sem selo de garantia

 

     Uma das muitas coisas que o ofício de professor permite é o da observação. Estamos o tempo todo em contato direto com múltiplos pensamentos. É a oportunidade de nos certificarmos o quanto o mundo é plural. Tenho vivido sobretudo com jovens. Percebo que são pessoas inquietas, cheias de possibilidades, de informações, mas, muito mais angustiadas. Angustiadas pelo deslocamento que a condição de jovem os coloca. Não são adultos. Não são crianças.

    Há tantas formas de adquirir conhecimento, mas a sabedoria está em filtrar as informações que nos chegam. Há muito barro entre os diamantes. Quanto tempo é desperdiçado em conversas infrutíferas, em programas de TV fúteis e em troca de mensagens via whatsapp, sms, facebook, etc. Mesmo que intuitivamente saibam do desafio que é passar em uma universidade e se consolidar no mercado de trabalho, eles preferem acreditar que terão as mesmas condições financeiras dos pais sem que para isso tenham que investir em força de trabalho, na garra cotidiana.

    Não raramente me deparo com um grande grupo de estudantes que, embora estejam em cursinhos preparatórios, ainda não decidiram qual profissão querem assumir. Estarão subestimando o tempo ou crendo que há sempre um plano B que os farão ter êxito?

    Geralmente, são esses filhos da classe média que estudaram em bons colégios, aprenderam outros idiomas, têm celulares modernos, tablets, videogames e toda a parafernália tecnológica. Entretanto, a eles faltaram o essencial: aprender a lidar com a frustração. Não raro são esses que quase nunca receberam um não. São esses que quando quebravam os brinquedos os pais imediatamente repunham (às vezes até por um melhor). Esses jovens não aprenderam a perder. Esses assimilaram que os pais são empregados prontos a servi-los.

    Só que, lamentavelmente, o mercado de trabalho não será assim tão complacente. Não adiantará fazer birra, gritar, espernear. A felicidade não se conquistará com o choro. O chefe não será um pai que concederá bens mesmo quando não houver mérito. Os pais precisam entender que há duas premissas básicas na educação: ensinar que há frustração, e que o esforço são exercícios do amor. Hoje limitamos nossos filhos para depois não fiquem estacionados.

    Genialidade não é um dom. Ninguém se orgulhe de um filho que passou noites nas baladas e mesmo assim passou na particular de medicina. Suar é digno – não é coisa para a classe C. Deixemos o culto à mediocridade de quem acha que ser bem-sucedido é “cruzar os braços e aproveitar a vida enquanto é jovem”. Felicidade não é um direito, é um dever que devemos cumprir diariamente. É uma conquista que se consolida através da labuta.

   Ser bem-sucedido não é estar sempre sorridente, nunca falar sobre os medos, nunca pedir perdão. Mais vale aguentar alguns minutos de choro a uma vida inteira de lamentações. Só será “rei” quem aprender a ter autonomia. E isso não se adquire em lojas de brinquedos. E a vida não vem com selo de garantia.

 

                                                                              Leo Barbosa é professor e poeta

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POR PROFESSORES QUE LEIAM

                                                Leo Barbosa

                                    (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                       Por professores que leiam

      Por que será que nossos alunos passam onze anos na Educação Básica e chegam aos 18 anos de idade sem saber ler, escrever, ouvir e falar de maneira satisfatória? Cansados estamos de ver os elevados índices de reprovação dos discentes brasileiros.

    Sem exagero: não raro analfabetos ingressam em Universidades, e semianalfabetos estão ministrando aulas pelo país afora. Já me deparei com professores que dizem que não gostam de ler e que são incapazes de produzir um texto coerente e coeso. Então, como esses profissionais, independentemente em qual matéria curricular atuem, podem convencer os alunos da importância do ato de estudar e ler se eles mesmos não o fazem?

    Ninguém me argumente que a falta de tempo ocorre por causa da enorme carga-horária que os docentes assumem para que (sobre)vivam, como forma de justificar a renúncia à própria capacitação. Tampouco me digam que os baixos salários impedem a aquisição de livros. E as bibliotecas? Não existem ou estão defasadas? E o que dizer de pessoas próximas que possam emprestá-los para leitura?

    O ofício de professor deve ser para pessoas inquietas. Muitos teóricos, que não ficam apenas na teoria, já disseram que o professor deve ser aquele que desperta a curiosidade, que “provoca a fome pelo conhecimento”. E mais: o profissional da Educação deve mostrar convencimento naquilo que prega.

   Não devemos nos acomodar a essas justificativas para camuflar nosso fracasso, mas em alternativas que nos conduzam ao aperfeiçoamento da nossa profissão e, consequentemente, da nossa postura de cidadão. Se você é professor e não está nada satisfeito, então, por favor, faça a cortesia de desistir o quanto antes, porque provavelmente cederá à mediocridade, o que naturalmente ocorre com quem não tem apreço pelo que faz.

    Corre-se o risco de ao invés de professores nos tornarmos meros reprodutores de um saber sem sabor, de um conhecimento estanque e silenciador tanto para com os docentes quanto para os estudantes. É preciso refletir sobre as práticas educativas, questionar-se, duvidar do que os livros didáticos oferecem. Como ser um bom professor se nem o livro didático, material muitas vezes imposto pela instituição de ensino, o mediador do conhecimento não sabe analisar?

     Esse texto não tem como objetivo culpar os professores pelos altos índices de analfabetismo do país, mas promover uma reflexão sobre nossa postura perante nossas práticas.

    Muitas urgências marcam nossa vida pessoal e escolar : entregar notas, cuidar de um parente,  ministrar aulas em outra escola para aumentar a renda. Com tantas tribulações, resta pouco tempo para olhar com calma para nós e para os nossos alunos. Resta também quase nenhuma iniciativa coletiva dos docentes, porque quase não há disposição individual. Não queiramos ser mais um no meio da multidão.

      Interesse-se por si, pela profissão, pelos alunos. Amor não pagará nossas contas? Pagará sim, porque com amor nós lutamos, avançamos, nos destacamos, vencemos as lutas e os lutos diários de qualquer profissão.

                                                                       Leo Barbosa é professor e poeta

MITOS SEPARADOS

                                                  Leo Barbosa

                                   (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                               Mitos separados

       É ilusório acreditar que o amor não acaba. Todos sabem que este não se exprime a todo momento. Como todo sentimento, o amor também é efêmero. Para que se perdure, é preciso cuidar, senão se debilita até desaparecer. O amor muda de forma, deforma.

    Elisabeth Badinter, socióloga francesa, reconhece em “Um amor conquistado – o mito do amor materno” – que o amor materno existe desde os tempos remotos, mas não necessariamente em todas as mulheres. Também este não é condição primordial para sobrevivência da espécie. Para Badinter, qualquer pessoa pode “maternar” uma criança (o pai, tia, etc…). E mais: não é apenas pelo amor que a mulher cumpre seus “deveres maternais”. A moral, os costumes sociais, ou religiosos podem ser um fator tão determinante quanto o desejo da mãe.

     Eu sei que é difícil assimilar tais afirmações quando se é ou se tem uma mãe maternal, mas estamos tratando de um sentimento humano e nós somos incertos, frágeis e imperfeitos.

    À primeira vista de uma mãe enamorada, um filho é um retrato da perfeição que ela tanto almeja. É a oportunidade de se retratar consigo e com a própria mãe. Basta ter nascido para sentir-se dotada de poder. Mas que ilusão! Nunca se atinge um modelo ideal de filho que corresponda a todas as nossas expectativas.

    É até intrigante quando presenciamos mães que parecem amar mais os filhos viciosos e negligentes mais do que os cheios de honra, modestos, de boa procedência… parece que o mais querido é geralmente o pior. Por quê? Será que a mãe busca se redimir, sente-se fracassada e deseja uma auto-conciliação?

    Os filhos não são mais o fruto de uma convenção social. Ainda que muitos pensem assim. Procriar não se resume em dar continuidade à espécie. Se ainda persiste, essa motivação é de caráter romântico, logo egocêntrico. O casal quer manifestar o seu amor de forma física. É tentativa de perdurar o amor que entre eles existe. Por isso que algumas mulheres aplicam o “golpe da barriga”, não apenas por questões financeiras, mas pela necessidade que têm de sentirem-se desejadas.

    E por que os filhos tanto sofrem com a separação dos pais? Porque eles se percebem objetos falidos desse relacionamento. Nesse momento os descendentes precisarão encontrar um novo horizonte de sentido. Rompeu-se a rede. Alguém pode dizer que mãe sempre será mãe e pai sempre será pai, que o casal se separou, mas os filhos, não. Enganam-se…

     Por outro lado, quando a casa perde “a liga legítima”, quando não há mais harmonia entre os casais, quando eles já perderam sua essência; não é a separação que causará sofrimento nos filhos. Um lar sem amor, sem admiração mútua, sem reciprocidade gerará prejuízo maior. Os pais não têm direito de dar uma herança nefasta aos filhos ainda que eles também sejam vítimas de uma família desestruturada.

     Se o desejo que deu origem aos filhos exauriu, outros desejos devem ser inseridos. Do contrário será a família também um mito…?

                                                                                            Leo Barbosa é professor e poeta

A LITERATURA COMO FATOR DE INCLUSÃO

                                     [ Ronaldo Cagiano ]

            Tema recorrente e abordado não apenas nas rodas acadêmicas ou nas discussões políticas, a inclusão social vem se manifestando de diversas formas. Seja nos processos didático-pedagógicos, que buscam a diminuição do analfabetismo em nosso País; seja no acesso à tecnologia digital para comunidades carentes, em que crianças e adolescentes em estado de risco social – e também a terceira idade – em que muitos são alcançados pelos seus benefícios, há um mundo de alternativas que buscam a plena afirmação da cidadania.

            A literatura vem se constituindo, também, num trabalho de resgate e recuperação de uma parcela de pessoas que, por razões diversas, perderam seu vínculo social e humano e amargam um “apartheid” existencial. Nos presídios e hospitais voltados ao tratamento de doença mental, deparamos com trabalhos cuja semeadura vem dando resultados práticos e até emocionais, que contribuem para a um novo processo de ressocialização ou recuperação do indivíduo.

            Um dos bons, entre os inúmeros exemplos espalhados pelo Brasil, é a ação desenvolvida pelo escritor Joilson Portocalvo a partir das oficinas literárias que ministrou em Brasília, particularmente aos órgãos de apoio ao menor infrator ou aos detentos do Núcleo de Custódia, do Presídio da Papuda. Nessas e em outras frentes, esse autor alagoano, pioneiro da Capital da República, não apenas desperta o talento e a criatividade hibernados desses jovens e adultos excluídos da vida civil e produtiva, como faz renascer neles o sentido de comunidade há tanto perdido. Além disso, dissemina uma nova percepção sobre o destinos desses seres alijados e as reais possibilidades de se redimensionarem individual e coletivamente, fora das grades ou das tutelas estatais, tão logo possam conquistas novamente seu estatuto civil e humano pela liberdade.

            Portocalvo, com esse esforço pela restauração completa de jovens e adultos, homens e mulheres que por diversas razões foram proibidos da convivência com os seus iguais, contribui – como fez a sua conterrânea, a saudosa Dra. Nise da Silveira com os doentes mentais em sua Chácara das Palmeiras – para retirar do limbo, por meio da arte, da livre expressão do pensamento e dos sentimentos, aqueles que um dia, por força e obra das circunstâncias, constituíram-se em ameaça e foram sumariamente deletados da vida pública.

            Por meio da criatividade desses cidadãos apartados, sejam os excluídos legais ou psiquiátricos, Joilson revelou-lhes uma dimensão desconhecida, mas possível de ser garimpada no fundo de seus sonhos. Basta conferir os textos, poemas, crônicas, diálogos e pensamentos registrados em duas obras: “Confissões em cadeia”, “Interseção entre dois mundos” (a experiência carcerária de Manoel Gomes Barbosa e seu despertar literário) e “Cadeia de sentimentos”, obras coletivas, que revelam, além do potencial estético, a carga onírica daqueles que, por via da manifestação literária, são capazes de comunicar um universo e uma atmosfera que ultrapassam os muros e os preconceitos e provam que eles estão tão vivos e capazes de (re)tomar o fio de suas vidas.

            A abnegação quixotesca, altruísta e chapliniana de Joilson Albuquerque de Gusmão não conhece fronteiras e agora mesmo, em nova e vitoriosa empreitada, juntamente com Antônio de Pádua e a Ensinamento Editora, começam um fabuloso mapeamento da arte de cordel, com a intenção de valorizar, difundir e despertar o leitor para uma das manifestações mais autênticas e sensíveis da cultura popular. Por meio do reconhecimento da importância de uma literatura da oralidade com seu potencial aglutinador, Portocalvo e Pádua mapeiam temas e situações da sociedade contemporânea. Inaugurando uma coleção de títulos infanto-juvenis, levarão ao leitor, por meio de uma linguagem e de uma narrativa muito peculiares, mas povoadas de sentido humano, histórico e filosófico, questões ligadas ao nosso dia a dia, à nossa ancestralidade e à história viva do nosso povo. São os frutos que começam a colher de “A história de Zé Luando – o homem que virou mulher”, “O viajante e o sábio”, “O jumento que Jesus montou”, “Os dois soldados”, “O advogado, o diabo e a bengala”, “Atitudes que constroem”, “O homem de Nazaré”, “Osvaldo Cruz – o cientista da saúde”, “Mamãe, deletaram a vovó” (explicação do Alzheimer para crianças) , “A cartomante” (adaptação do antológico conto de Machado de Assis), dentre outros.

                        Essas e outras formas de empreendedorismo solidário (e solitário), resultado de um esforço pessoal para valorizar o ser humano desacreditado pelo sistema que o relegou, utilizando a literatura e suas possibilidades como âncora para a uma nova vida, verdadeiro atalho por meio da uma explosão de talento pessoal e emancipatória; ou trabalhando para a difusão da genuína arte que nasce nas feiras do interior, como o cordel, com sua sabedoria e ciência empíricas, mas enraizadas na experiência com a vida e com a natureza – são exemplos desse Brasil que dá certo. Ainda que vivamos sob o rotundo império da mídia avassaladora, com sua patética overdose de mediocridade, como o Big Brother Brasil; em que em tudo, principalmente na cultura, há o nivelamento por baixo, como já nos disse o saudoso professor Cassiano N unes, da UnB; num tempo de banalização perversa e massificante (a exemplo da proliferação das duplas de música sertaNOJO,  do estelionato espiritual que toma conta das redes de tevês por meio de pregações histriônicas de pastores de aluguel e do futebol mercantilista que viceja por aí),  há aidna ilhas de excelência nesse deserto de miserável que pulula nos meios culturais, há os que fazem a diferença.

ANTES, SER HOMEM E MULHER

Leo Barbosa

(escritorleobarbosa@hotmail.com)

Antes, ser homem e mulher

        As mulheres enfrentam um desafio maior neste século. Se antes algumas eram mais procriadoras do que mães, se desinteressavam do filho logo depois do desmame. Agora, precisam duelar entre a carreira profissional, visando à autonomia financeira e a uma certa afirmação pessoal. Afinal, o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e exigente e não lhes cabe mais a dependência material imposta pela cultura machista.

    Mas será que uma mulher precisa dar à luz para sentir-se de fato feminina? Segundo a psicanalista Helene Deutsch, não, porque a tendência maternal pode também se voltar para objetos indiretos. Sabemos que muitas crianças são postas no mundo para suprimir uma falta da mãe, como compensação, joguete ou acessório de manipulação.

    Entretanto, a mulher que não tem filhos sofre o estigma da censura ou é vítima da pena. Não procriar é “fugir à ordem natural da vida”. Isso alimenta alguns estereótipos negativos, como por exemplo o de que essas mulheres são egoístas, incompletas, carreiristas, insatisfeitas.

    Uma pesquisa feita pela socióloga Pascale Donati concluiu: “Quando não se tem filhos, quando poderia tê-los, é melhor ser homem do que mulher, viver sozinha do que com companheiro e não demonstrar demais que se é uma mulher realizada. Nessa gradação, ser mulher casada que optou por não ter filhos é mais suspeito […]”.

    É preciso compreender que cada filho é uma “caixinha de surpresas”, um devir. A sociedade não consegue conviver com a existência de pais felizes ou de outros amargos, que se pudessem voltariam atrás… Esse amargor nasce das expectativas fragmentadas ao longo dos anos. O que se espera de um filho é a reciprocidade, um sentimento de gratidão e até cumplicidade. Quem vai admitir que visava obter afetividade? Se confessar, dirão que “está passando na cara os favores feitos”.

    A vida não é feita apenas de sonhos. Quem quiser ter filhos deve saber que após o devaneio da paternidade vem o pesadelo. Esse indivíduo que está em seu ventre ou em seus braços terá vida própria. E um dia nos daremos conta de que as dores do parto não são nada se comparadas às partidas diárias.

    A maternidade/paternidade dar-se-á a partir de nossa herança moral e ética, seja para que nela nos posicionemos contrários, ou primando por postura semelhante. Isso significa revisitar o passado, os amores, os ódios gerados na nossa infância e adolescência.“

O segredo” talvez seja os pais se comunicarem mais com os filhos do que com as próprias expectativas. Então estaremos lidando com um ser humano, não com as extensões do nosso ser, como se fôssemos uma parte e não um todo. Caso contrário, sempre seremos estrangeiros entre nós. Desatados nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

MATERNIDADE DE PAPEL

                                                 Leo Barbosa

                                      (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Maternidade de papel

      Ainda que estejamos no século XXI e tanto se alardeia o discurso de que avançamos bastante, suscita-nos perplexidade o fato de homens e mulheres optarem por não ter filhos. Passados mais de 50 anos desde a revolução sexual, com o advento da pílula que proporcionou à mulher o controle (parcial) sobre o seu corpo, ainda discute-se a maternidade e o dever da procriação como se fosse cláusula pétrea na vida dos casais .

   Os que renunciam a essa “a ordem natural da vida” são vistos como egoístas ou vivem o estigma de terem a sua sexualidade colocada em dúvida como se só ela fosse a condição determinante para a afirmação da feminilidade ou da masculinidade, a reboque do conceito de casamento e relação afetiva atrelado à necessidade de (re)produção sexual.

    Os discursos são muitos e a retórica abundante em torno do tema não falta, como por exemplo: “ter filhos nos faz ser melhores”, é um dos principais. Será? Todo casal que teve filhos realmente o decidiu por uma escolha espontânea?

    O mito ou os estereótipos do amor materno são propagados há séculos na história da civilização – “as mulheres nascem com um instinto maternal” e “mãe é mãe e pai encontra-se em qualquer esquina”, diante de um argumento extremamente preconceituoso em torno da figura paterna. Argumentação, geralmente, de gente alheia aos noticiários (não raros) sobre homens que lutam pela guarda de seus filhos.

    Há quem diga que a opção por ter filhos reside na necessidade de dar sentido à própria vida ou não “amargar” a solidão na velhice. Entretanto, a vida deve ter sentido antes da gestação porque faz parte do processo de amorização. Afinal, embora muitos pensem que o amor é inerente à condição humana, na verdade, “amar se aprende amando”, como diria o poeta. E quem garante que os filhos nos acolherão quando a fragilidade, a velhice e o asilo nos chegarem? E aquele velho bordão de que “criamos os filhos para o mundo”?

     Pôr um filho no mundo é um compromisso de longo prazo e implica uma série de renúncias. É uma das decisões mais sérias que o ser humano deve tomar. É preciso refletir que o desejo de ter filhos não é universal tampouco que todos nasceram dispostos a tal compromisso. Algumas os querem, outras não querem mais, outras nunca quererão. Há quem encontre uma felicidade imensurável e quem jamais admita o arrependimento de tê-los porque isso constituiria uma espécie de “genitor(a) desnaturado(a)”, uma aberração perante a sociedade porque não obteve a satisfação difundida nas propagandas de margarina.

     Há tantos “órfãos de pais vivos”, crianças mal-amadas e mal criadas em todas as classes da sociedade – reflexo de um tempo em que o individualismo rege os relacionamentos e que, contraditoriamente, falta amor próprio e, ainda que isso soe como clichê, sem amor próprio não há amor ao próximo porque senão o outro será um reduto de nossas carências; uma imagem e semelhança com a qual não saberemos conviver.

                                                                                   Leo Barbosa é professor e poeta

DISTANTES DA EDUCAÇÃO

                                              Leo Barbosa

                               (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Distantes da educação

     Não é novidade que a profissão de professor é desvalorizada. Mas nem sempre foi assim. Era comum nos espelharmos na figura do educador, com sua postura firme, seus conselhos e, principalmente, por sua esperança de que este podia fazer o melhor para a sociedade. Um educador deve ter como base o ideal de promover o bem a partir da sua vivência, que vai além dos conhecimentos teóricos.

   Talvez por isso ainda haja pessoas interessadas na docência – porque se por um lado é uma profissão que “é mal remunerada”, “é estressante”, “há desinteresse dos alunos” – há dentre essas ingratidões a troca de experiências de vida que comportamos ao longo dos anos. Afinal estamos lidando com vários mundos, com seres humanos das mais diversas construções familiares. Todo mundo é dotado de um “horizonte de sentido”; são costumes, leituras, afetos e desafetos que nos formam enquanto pessoas.

   A satisfação que o professor tem quando se faz entendido, quando o estudante obtém uma vitória com o seu auxílio, nos enaltece como pessoas. Nós devemos ser norteadores, embora existam professores que nos retiram do caminho ao desprezar o aluno, duvidar de sua capacidade, e sentir-se o “dono do saber”.

   Ainda que exista o prazer em contribuir para a formação desses seres humanos concentrados nas escolas, não faço o discurso reducionista de que para ser professor é preciso “amar a profissão”, “ter vocação”, “dom”. Para atuar em qualquer área é necessário esses elementos, e muito mais. O que adianta amor se não houver quem queria recebê-lo? O que adianta ter vocação se não há meios para desenvolvê-la? O que vale o dom se não houver investimento?

   O Brasil em breve sentirá de maneira abrupta o desinteresse pela docência porque pouco avançamos nas últimas décadas, pois a categoria é desunida. Quem está a favor do professor? Tivemos melhorias em vários setores, a exemplo da conquista das domésticas, que pelas novas leis, não raro, ganharão salários melhores que muitos professores neste país. Depois de 11 anos de Educação Básica, 5 anos de Universidade, enfim, muita dedicação, estaremos fadados a ganhar menos que muitos profissionais que não tiveram estudo universitário?

   Dados emitidos pelo Ministério do trabalho e do emprego (MTE) de 2006 apontam que os profissionais de ensino é a terceira carreira de maior ocupação (8,4%), abaixo apenas de duas áreas tidas como grandes absorvedoras de mão de obra: os escriturários (15,2%) e os trabalhadores do setor de serviços (14,9). Haverá pessoas suficientes para cobrir essa demanda? Mais: com qualidade? Duvido. Quais medidas tomaremos?

   Imagino o Brasil dentro de cinco anos alarmado com a falta de profissionais de educação, tendo como recurso uma “Educação Básica à distância”. O problema é que crianças e adolescentes não têm maturidade para assumir essa tarefa. Eles precisam de alguém que os guiem pela mão. Entretanto os pais modernos estão “à distância”. Mas isso já é outra conversa…

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta