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A LITERATURA COMO FATOR DE INCLUSÃO

                                     [ Ronaldo Cagiano ]

            Tema recorrente e abordado não apenas nas rodas acadêmicas ou nas discussões políticas, a inclusão social vem se manifestando de diversas formas. Seja nos processos didático-pedagógicos, que buscam a diminuição do analfabetismo em nosso País; seja no acesso à tecnologia digital para comunidades carentes, em que crianças e adolescentes em estado de risco social – e também a terceira idade – em que muitos são alcançados pelos seus benefícios, há um mundo de alternativas que buscam a plena afirmação da cidadania.

            A literatura vem se constituindo, também, num trabalho de resgate e recuperação de uma parcela de pessoas que, por razões diversas, perderam seu vínculo social e humano e amargam um “apartheid” existencial. Nos presídios e hospitais voltados ao tratamento de doença mental, deparamos com trabalhos cuja semeadura vem dando resultados práticos e até emocionais, que contribuem para a um novo processo de ressocialização ou recuperação do indivíduo.

            Um dos bons, entre os inúmeros exemplos espalhados pelo Brasil, é a ação desenvolvida pelo escritor Joilson Portocalvo a partir das oficinas literárias que ministrou em Brasília, particularmente aos órgãos de apoio ao menor infrator ou aos detentos do Núcleo de Custódia, do Presídio da Papuda. Nessas e em outras frentes, esse autor alagoano, pioneiro da Capital da República, não apenas desperta o talento e a criatividade hibernados desses jovens e adultos excluídos da vida civil e produtiva, como faz renascer neles o sentido de comunidade há tanto perdido. Além disso, dissemina uma nova percepção sobre o destinos desses seres alijados e as reais possibilidades de se redimensionarem individual e coletivamente, fora das grades ou das tutelas estatais, tão logo possam conquistas novamente seu estatuto civil e humano pela liberdade.

            Portocalvo, com esse esforço pela restauração completa de jovens e adultos, homens e mulheres que por diversas razões foram proibidos da convivência com os seus iguais, contribui – como fez a sua conterrânea, a saudosa Dra. Nise da Silveira com os doentes mentais em sua Chácara das Palmeiras – para retirar do limbo, por meio da arte, da livre expressão do pensamento e dos sentimentos, aqueles que um dia, por força e obra das circunstâncias, constituíram-se em ameaça e foram sumariamente deletados da vida pública.

            Por meio da criatividade desses cidadãos apartados, sejam os excluídos legais ou psiquiátricos, Joilson revelou-lhes uma dimensão desconhecida, mas possível de ser garimpada no fundo de seus sonhos. Basta conferir os textos, poemas, crônicas, diálogos e pensamentos registrados em duas obras: “Confissões em cadeia”, “Interseção entre dois mundos” (a experiência carcerária de Manoel Gomes Barbosa e seu despertar literário) e “Cadeia de sentimentos”, obras coletivas, que revelam, além do potencial estético, a carga onírica daqueles que, por via da manifestação literária, são capazes de comunicar um universo e uma atmosfera que ultrapassam os muros e os preconceitos e provam que eles estão tão vivos e capazes de (re)tomar o fio de suas vidas.

            A abnegação quixotesca, altruísta e chapliniana de Joilson Albuquerque de Gusmão não conhece fronteiras e agora mesmo, em nova e vitoriosa empreitada, juntamente com Antônio de Pádua e a Ensinamento Editora, começam um fabuloso mapeamento da arte de cordel, com a intenção de valorizar, difundir e despertar o leitor para uma das manifestações mais autênticas e sensíveis da cultura popular. Por meio do reconhecimento da importância de uma literatura da oralidade com seu potencial aglutinador, Portocalvo e Pádua mapeiam temas e situações da sociedade contemporânea. Inaugurando uma coleção de títulos infanto-juvenis, levarão ao leitor, por meio de uma linguagem e de uma narrativa muito peculiares, mas povoadas de sentido humano, histórico e filosófico, questões ligadas ao nosso dia a dia, à nossa ancestralidade e à história viva do nosso povo. São os frutos que começam a colher de “A história de Zé Luando – o homem que virou mulher”, “O viajante e o sábio”, “O jumento que Jesus montou”, “Os dois soldados”, “O advogado, o diabo e a bengala”, “Atitudes que constroem”, “O homem de Nazaré”, “Osvaldo Cruz – o cientista da saúde”, “Mamãe, deletaram a vovó” (explicação do Alzheimer para crianças) , “A cartomante” (adaptação do antológico conto de Machado de Assis), dentre outros.

                        Essas e outras formas de empreendedorismo solidário (e solitário), resultado de um esforço pessoal para valorizar o ser humano desacreditado pelo sistema que o relegou, utilizando a literatura e suas possibilidades como âncora para a uma nova vida, verdadeiro atalho por meio da uma explosão de talento pessoal e emancipatória; ou trabalhando para a difusão da genuína arte que nasce nas feiras do interior, como o cordel, com sua sabedoria e ciência empíricas, mas enraizadas na experiência com a vida e com a natureza – são exemplos desse Brasil que dá certo. Ainda que vivamos sob o rotundo império da mídia avassaladora, com sua patética overdose de mediocridade, como o Big Brother Brasil; em que em tudo, principalmente na cultura, há o nivelamento por baixo, como já nos disse o saudoso professor Cassiano N unes, da UnB; num tempo de banalização perversa e massificante (a exemplo da proliferação das duplas de música sertaNOJO,  do estelionato espiritual que toma conta das redes de tevês por meio de pregações histriônicas de pastores de aluguel e do futebol mercantilista que viceja por aí),  há aidna ilhas de excelência nesse deserto de miserável que pulula nos meios culturais, há os que fazem a diferença.

ANTES, SER HOMEM E MULHER

Leo Barbosa

(escritorleobarbosa@hotmail.com)

Antes, ser homem e mulher

        As mulheres enfrentam um desafio maior neste século. Se antes algumas eram mais procriadoras do que mães, se desinteressavam do filho logo depois do desmame. Agora, precisam duelar entre a carreira profissional, visando à autonomia financeira e a uma certa afirmação pessoal. Afinal, o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo e exigente e não lhes cabe mais a dependência material imposta pela cultura machista.

    Mas será que uma mulher precisa dar à luz para sentir-se de fato feminina? Segundo a psicanalista Helene Deutsch, não, porque a tendência maternal pode também se voltar para objetos indiretos. Sabemos que muitas crianças são postas no mundo para suprimir uma falta da mãe, como compensação, joguete ou acessório de manipulação.

    Entretanto, a mulher que não tem filhos sofre o estigma da censura ou é vítima da pena. Não procriar é “fugir à ordem natural da vida”. Isso alimenta alguns estereótipos negativos, como por exemplo o de que essas mulheres são egoístas, incompletas, carreiristas, insatisfeitas.

    Uma pesquisa feita pela socióloga Pascale Donati concluiu: “Quando não se tem filhos, quando poderia tê-los, é melhor ser homem do que mulher, viver sozinha do que com companheiro e não demonstrar demais que se é uma mulher realizada. Nessa gradação, ser mulher casada que optou por não ter filhos é mais suspeito […]”.

    É preciso compreender que cada filho é uma “caixinha de surpresas”, um devir. A sociedade não consegue conviver com a existência de pais felizes ou de outros amargos, que se pudessem voltariam atrás… Esse amargor nasce das expectativas fragmentadas ao longo dos anos. O que se espera de um filho é a reciprocidade, um sentimento de gratidão e até cumplicidade. Quem vai admitir que visava obter afetividade? Se confessar, dirão que “está passando na cara os favores feitos”.

    A vida não é feita apenas de sonhos. Quem quiser ter filhos deve saber que após o devaneio da paternidade vem o pesadelo. Esse indivíduo que está em seu ventre ou em seus braços terá vida própria. E um dia nos daremos conta de que as dores do parto não são nada se comparadas às partidas diárias.

    A maternidade/paternidade dar-se-á a partir de nossa herança moral e ética, seja para que nela nos posicionemos contrários, ou primando por postura semelhante. Isso significa revisitar o passado, os amores, os ódios gerados na nossa infância e adolescência.“

O segredo” talvez seja os pais se comunicarem mais com os filhos do que com as próprias expectativas. Então estaremos lidando com um ser humano, não com as extensões do nosso ser, como se fôssemos uma parte e não um todo. Caso contrário, sempre seremos estrangeiros entre nós. Desatados nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

MATERNIDADE DE PAPEL

                                                 Leo Barbosa

                                      (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Maternidade de papel

      Ainda que estejamos no século XXI e tanto se alardeia o discurso de que avançamos bastante, suscita-nos perplexidade o fato de homens e mulheres optarem por não ter filhos. Passados mais de 50 anos desde a revolução sexual, com o advento da pílula que proporcionou à mulher o controle (parcial) sobre o seu corpo, ainda discute-se a maternidade e o dever da procriação como se fosse cláusula pétrea na vida dos casais .

   Os que renunciam a essa “a ordem natural da vida” são vistos como egoístas ou vivem o estigma de terem a sua sexualidade colocada em dúvida como se só ela fosse a condição determinante para a afirmação da feminilidade ou da masculinidade, a reboque do conceito de casamento e relação afetiva atrelado à necessidade de (re)produção sexual.

    Os discursos são muitos e a retórica abundante em torno do tema não falta, como por exemplo: “ter filhos nos faz ser melhores”, é um dos principais. Será? Todo casal que teve filhos realmente o decidiu por uma escolha espontânea?

    O mito ou os estereótipos do amor materno são propagados há séculos na história da civilização – “as mulheres nascem com um instinto maternal” e “mãe é mãe e pai encontra-se em qualquer esquina”, diante de um argumento extremamente preconceituoso em torno da figura paterna. Argumentação, geralmente, de gente alheia aos noticiários (não raros) sobre homens que lutam pela guarda de seus filhos.

    Há quem diga que a opção por ter filhos reside na necessidade de dar sentido à própria vida ou não “amargar” a solidão na velhice. Entretanto, a vida deve ter sentido antes da gestação porque faz parte do processo de amorização. Afinal, embora muitos pensem que o amor é inerente à condição humana, na verdade, “amar se aprende amando”, como diria o poeta. E quem garante que os filhos nos acolherão quando a fragilidade, a velhice e o asilo nos chegarem? E aquele velho bordão de que “criamos os filhos para o mundo”?

     Pôr um filho no mundo é um compromisso de longo prazo e implica uma série de renúncias. É uma das decisões mais sérias que o ser humano deve tomar. É preciso refletir que o desejo de ter filhos não é universal tampouco que todos nasceram dispostos a tal compromisso. Algumas os querem, outras não querem mais, outras nunca quererão. Há quem encontre uma felicidade imensurável e quem jamais admita o arrependimento de tê-los porque isso constituiria uma espécie de “genitor(a) desnaturado(a)”, uma aberração perante a sociedade porque não obteve a satisfação difundida nas propagandas de margarina.

     Há tantos “órfãos de pais vivos”, crianças mal-amadas e mal criadas em todas as classes da sociedade – reflexo de um tempo em que o individualismo rege os relacionamentos e que, contraditoriamente, falta amor próprio e, ainda que isso soe como clichê, sem amor próprio não há amor ao próximo porque senão o outro será um reduto de nossas carências; uma imagem e semelhança com a qual não saberemos conviver.

                                                                                   Leo Barbosa é professor e poeta

DISTANTES DA EDUCAÇÃO

                                              Leo Barbosa

                               (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                            Distantes da educação

     Não é novidade que a profissão de professor é desvalorizada. Mas nem sempre foi assim. Era comum nos espelharmos na figura do educador, com sua postura firme, seus conselhos e, principalmente, por sua esperança de que este podia fazer o melhor para a sociedade. Um educador deve ter como base o ideal de promover o bem a partir da sua vivência, que vai além dos conhecimentos teóricos.

   Talvez por isso ainda haja pessoas interessadas na docência – porque se por um lado é uma profissão que “é mal remunerada”, “é estressante”, “há desinteresse dos alunos” – há dentre essas ingratidões a troca de experiências de vida que comportamos ao longo dos anos. Afinal estamos lidando com vários mundos, com seres humanos das mais diversas construções familiares. Todo mundo é dotado de um “horizonte de sentido”; são costumes, leituras, afetos e desafetos que nos formam enquanto pessoas.

   A satisfação que o professor tem quando se faz entendido, quando o estudante obtém uma vitória com o seu auxílio, nos enaltece como pessoas. Nós devemos ser norteadores, embora existam professores que nos retiram do caminho ao desprezar o aluno, duvidar de sua capacidade, e sentir-se o “dono do saber”.

   Ainda que exista o prazer em contribuir para a formação desses seres humanos concentrados nas escolas, não faço o discurso reducionista de que para ser professor é preciso “amar a profissão”, “ter vocação”, “dom”. Para atuar em qualquer área é necessário esses elementos, e muito mais. O que adianta amor se não houver quem queria recebê-lo? O que adianta ter vocação se não há meios para desenvolvê-la? O que vale o dom se não houver investimento?

   O Brasil em breve sentirá de maneira abrupta o desinteresse pela docência porque pouco avançamos nas últimas décadas, pois a categoria é desunida. Quem está a favor do professor? Tivemos melhorias em vários setores, a exemplo da conquista das domésticas, que pelas novas leis, não raro, ganharão salários melhores que muitos professores neste país. Depois de 11 anos de Educação Básica, 5 anos de Universidade, enfim, muita dedicação, estaremos fadados a ganhar menos que muitos profissionais que não tiveram estudo universitário?

   Dados emitidos pelo Ministério do trabalho e do emprego (MTE) de 2006 apontam que os profissionais de ensino é a terceira carreira de maior ocupação (8,4%), abaixo apenas de duas áreas tidas como grandes absorvedoras de mão de obra: os escriturários (15,2%) e os trabalhadores do setor de serviços (14,9). Haverá pessoas suficientes para cobrir essa demanda? Mais: com qualidade? Duvido. Quais medidas tomaremos?

   Imagino o Brasil dentro de cinco anos alarmado com a falta de profissionais de educação, tendo como recurso uma “Educação Básica à distância”. O problema é que crianças e adolescentes não têm maturidade para assumir essa tarefa. Eles precisam de alguém que os guiem pela mão. Entretanto os pais modernos estão “à distância”. Mas isso já é outra conversa…

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

TEMPO PARA LER

                                                Leo Barbosa

                                   (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                 Tempo para ler

       Muitas pessoas alegam que a falta de espaço do livro em suas vidas é devido à ausência de tempo.  Essa é a constatação da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2012. Na verdade, isso revela uma forma sutil de mostrar desinteresse pela leitura, pois tempo é uma questão de perspectiva. Vejamos.

   Durante nossas atividades rotineiras temos um considerável número de “horas mortas”. Essas horas referem-se aos momentos: fila de banco, espera num consultório médico, o percurso que o ônibus demora para chegar ao trabalho/casa, entre outros. O que você faz nessas situações? Assiste TV? Escuta música? Se distrai com o celular (jogos, internet, sms)? Bem, enquanto isso você poderia ler um livro.

   Os livros editados no Brasil têm em média 200 páginas. Levamos em média 15 minutos para ler 10 páginas. Isso quer dizer que em 10 dias leríamos cerca de 100 páginas e, a cada 20 dias, um livro, o que totalizaria 18 livros por ano! Será que você não dispõe de 15 minutos por dia para essa atividade?

   Se é verdade que os brasileiros leem pouco, leem menos ainda literatura. A maioria dos livros lidos são didáticos, seja por uma atividade escolar, seja por estudos que visem passar em um concurso. Quando muito, leem Best-sellers. O livro mais lido é a Bíblia.

   Se a desculpa para não ler é “os livros são caros” – há bibliotecas e sebos! Se “não há bibliotecas” – há pessoas dispostas a emprestar livros. Se não há ninguém – existem vários livros para baixar de graça pela internet!

  Em qualquer centro urbano é fácil observar que há muitas pessoas (adolescentes, adultos e idosos) que estão constantemente conectados a outros veículos de informação; fones de ouvido, trocando mensagens, navegando de várias formas na internet. Tanta informação! Pena que a maioria tenha um valor irrisório para a vida prática e para o crescimento intelectual e espiritual.

  Com tanta dispersão fica realmente difícil encontrar tempo e concentração para ler. Tanta avidez por novidades eletrônicas e demais produtos culturais contemporâneos, para os quais há quem disponha mais de 4 horas diárias…

   Vivemos numa sociedade que mal possui tempo para contemplar a natureza, para conversar com a família, que prima pelo “fast”, que descarta o artesanal e idolatra produtos em série, instantâneos. Cada vez mais visuais, menos auditivos, menos degustadores. Esquecemos que a imagem também é um texto. Entretanto, nossos olhares apressados não enxergam para além das aparências.

   Ler é produzir sentidos, é compartilhar experiências. É viver passado, presente e futuro numa única atmosfera. A literatura é sinônimo de matéria humana. Com a palavra podemos ser um outro e sermos nós mesmos. É a pá que lavra nossa vida.  “Literaturizar-se” é nadar contra a corrente de informações que nos aprisionam e nos afundam na superficialidade e na pressa que assola o essencial.

                                                                  Leo Barbosa é professor e poeta

Solitários entre nós

Leo Barbosa

 (escritorleobarbosa@hotmail.com)

Solitários entre nós

   Parece contraditório: vivemos em um mundo onde prevalece o discurso da pluralidade, das múltiplas possibilidades e, ao mesmo tempo, nota-se que estamos cada vez mais reduzidos a nós mesmos. O individualismo nos consome na medida da globalização. Tantas oportunidades, tantos meios de comunicação. Há quem tenha três aparelhos celulares e ainda se sinta só. Por quê? Porque diante de tantos contatos virtuais restam nenhum ou quase nenhum convívio real.

   Vejo famílias à mesa. Elas dividem a comida, mas não se alimentam da presença um do outro. Elas dividem o mesmo teto, mas não as mesmas histórias. Estamos vivendo entre estranhos porque não damos mais espaço para reflexão. Esse mundo acelerado, com tudo instantâneo, faz com que vivamos numa sociedade pautada no que Zygmunt Bauman denominou de modernidade líquida. Isso significa que os laços humanos estão cada dia menos sólidos. Hoje, amigos. Amanhã não se sabe.

   Faça um teste: olhe a agenda do seu celular. Agora pense: para quais dessas pessoas você realmente poderá ligar diante de uma madrugada de choro? Com quem você poderá contar quando se sentir o mais frágil dos seres? Provavelmente com ninguém, até porque não quererá sair do seu status de forte. Sim, bancamos ser de aço, mas somos de flor. E, mesmo quando murchamos não admitimos a perda do vigor.

   Entretanto, “qualquer que seja a sua condição em matéria de dinheiro e crédito, você não vai encontrar num shopping o amor e a amizade, os prazeres da vida doméstica, a satisfação que vem de cuidar dos entes queridos ou de ajudar um vizinho em dificuldade, a autoestima proveniente do trabalho bem feito, a satisfação do “instinto de artífice” comum a todos nós, o reconhecimento, a simpatia e o respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas a quem nos associamos; você não encontrará lá proteção contra as ameaças de desrespeito, desprezo, afronta e humilhação”, palavras de Bauman.

   Estamos nos comportando como crianças que têm muitos brinquedos. Elas não se importam se um deles quebra, porque logo terá outro, talvez até melhor. Tem sido assim com relacionamentos amorosos. Hoje temos um(a) companheira(o), mas não fechamos os olhos para que venha outro(a) melhor. Só que, infelizmente, esse “melhor” não está pautado no essencial, mas no acidental. Não importa se será uma pessoa honesta, carinhosa, dedicada, mas se será mais alta, mais rica e bonita.

   Estamos solitários entre nós porque prosseguimos sem envolvimento. Músicas propagam a filosofia do “pega, mas não se apega”. Qual o problema em se “apegar”? Esta é a geração na qual o desconforto é inadmissível. É inaceitável sofrer, é inapropriado ser incomodado, ser chamado atenção. Não é permitido que os holofotes se virem para outro lugar que não para si. Amor não é descartável. Amar não é exclusividade como tantos proclamam. Amar é pluralidade; uma pluralidade entre nós.

                                                                             Leo Barbosa é professor e poeta

Docência no Brasil

                                                            Leo Barbosa

                                               (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                               Docência no Brasil

    Somente 25% dos brasileiros entre 15 e 64 anos dominam a leitura e a escrita, de acordo com o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF). O País deve ainda se vangloriar de que, nessas condições, ainda haja pessoas dispostas a encarar o desafio de ser professor. O desprestígio tem levado a uma queda drástica de pessoas interessadas em seguir essa profissão. E o perfil desses candidatos é distinto daqueles que concorrem aos cursos de Medicina, Direito, Engenharia.

   Pesquisas mostram que os candidatos aos cursos de Letras, Pedagogia e Jornalismo são os que menos sabem escrever. Cometem erros crassos de ortografia, pontuação, sintaxe e vocabulário, além de ficar evidente a pouca carga de leitura pela falta de uma argumentação consistente. Como ensinarão aos seus alunos o valor da leitura se eles mesmos não a usufruem?  Como ensinarão a fala urbana de prestígio se não são falantes desta?

   Não se trata de exigir do docente que leia toda a obra de Machado de Assis, José de Alencar, Proust, Dostoiévski, entre outros. Mas é necessário pelo menos um vasto conhecimento das principais obras dos autores mais estudados.

   Essas pessoas concluem a graduação e prosseguem no Mestrado e no Doutorado com dissertações e teses que, se tivessem uma análise séria e profunda, não serviriam nem como trabalho de disciplina de graduação.

   O problema é que caímos de paraquedas na Universidade, não temos iniciação científica durante a vida escolar. De qual forma nos preparam para a academia? Somos preparados para fazer a prova vestibular e nada mais.

   O professor Marcos Bagno fez uma pesquisa para averiguar como escrevem os professores de português do Distrito Federal, a unidade federativa com os melhores salários para docentes. Coletou centenas de textos escritos por eles. Bagno constatou que mais de 80% destes textos são incompreensíveis, sem coesão e coerência, repletos de erros ortográficos e tal e tal. Se assim escrevem os professores, que moral teremos para cobrar uma escrita regular dos alunos?

   O Brasil, que é considerada a 7ª economia do mundo, por outro lado, mantém o contraste tendo o posto de 65º no índice de qualidade de educação estabelecido pelas Nações Unidas. Atrás de países economicamente mais pobres como Argentina, Chile e Bolívia.

      Parece que a categoria docente só receberá o seu devido valor quando esta estiver praticamente extinta. Mas, não adianta haver incentivos financeiros se não houver um compromisso de cada um dos professores.

   Educação para todos, inclusive para com os docentes. O índice de analfabetismo funcional não é reduzido há mais de dez anos: 75% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais! Ninguém espere, de braços cruzados, nada do Governo. Se está revoltado com sua situação como docente, então se queixe fora da sala de aula. No momento em que estiver ministrando sua aula, dê o seu melhor. Depois, lute, lute, professe a sua sina.

Aproveite seu professor

                                                       Leo Barbosa

                                      (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                Aproveite seu professor

     Apesar de cada vez mais desrespeitada, a figura do professor ainda suscita idealizações. Aquele que é detentor de um saber, que inspira por ser mais experiente. Por vezes, espera-se que o docente seja perfeito, sem nenhum desvio de caráter, sempre cordial, gênio, semideus. Esquecem os alunos que se trata de um ser humano como outro qualquer – com defeitos, fraquezas.

    Assim como todo mundo, todo professor terá suas qualidades e defeitos. Mas, uma coisa que sempre recordo aos meus alunos: não confunda não gostar da matéria com não gostar do professor e vice-versa. É necessário um bom preparo emocional para separar isso. E mais: a coisa piora quando não há simpatia entre a disciplina e o ministrante desta. Cabe ao estudante ter a sabedoria de não depender apenas do professor.

   O estudante precisa participar ativamente do processo de aprendizagem, ou seja, ser autodidata. Não superestimar o professor nem tampouco o subestimar. É possível indagar o docente sem ofendê-lo. É necessário que o discente se liberte do medo/vergonha de questionar sempre que um assunto não for compreendido.

   Às vezes o professor tem domínio da matéria, mas tem dificuldade em transmiti-la. A turma com a qual o mestre trabalha possui forte influência sobre a motivação dele. Quando a classe se mostra interessada, isso contribui para que a vontade de ensinar do professor aumente, logo o fluxo de conhecimento armazenado por ele virá à tona com maior facilidade.

   Evite julgar o professor ou tirar conclusões a partir do que os outros falam. Há quem sem conhecer a matéria, por dar vazão aos que os outros falam, começam a desconsiderar o professor porque outra pessoa o “crucificou”.

   Entre na sala disposto a aprender, independentemente de você gostar ou não do professor. Até porque o que ele vem transmitir não o prejudicará se você ignorá-lo. Mas, não se pode dizer o mesmo de você. Ele está disposto a ensinar. Você está disposto a aprender?

   Há outra tolice evidente: o aluno que faz perguntas das quais já sabe a resposta apenas para testar o professor. Indubitavelmente, é mais interessante perguntar o que não sabe. Não há lógica na competição entre categorias distintas. Se quiser aparecer, então que se mostre nas provas.

  Um bom professor é aquele que consegue ser flexível – atende a alunos com dificuldades sem considerá-lo inferior e, também, aos superdotados de forma que não os castrem. Tanto quanto o docente, cabe aos discentes a sensibilidade para lidar com os colegas menos dotados. O escárnio acontece de ambos os lados. Ou quando alguém entende bem um assunto ou quando sente dificuldade. De um lado, a inveja. Doutro lado, a arrogância.

  Se sua palavra vai agregar valor a alguém, fale. Se não, cale-se. Entre na sala de aula disposto a aprender e não a julgar. Faça jus ao tempo gasto nesta atividade. E lembre-se que o professor tem o direito de errar tanto quanto você tem de acertar.

Deseducação sexual

                                                                 Leo Barbosa

                                                (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                                              Deseducação sexual

   Tenho notado as nossas “crianças” muito sexuais. Estão cada vez mais adentrando em um mundo sexualizado pela TV, pela internet e, principalmente, pela influência de outros jovens que acreditam que iniciação sexual é sinônimo de maturidade. Uma garota de 16 anos se vangloria de suas aventuras sexuais para uma menina de 12 anos e, geralmente, aquela nem as teve. Então, a menina de 12 anos, para não se sentir excluída ou diminuída diante do grupo das “maduras”, vai viver o sexo num momento de total despreparo. Provavelmente, vai se relacionar com um garoto tão imaturo quanto, que a utilizará para suprir uma vontade momentânea, irresponsável. Correndo o risco de pegar uma doença e/ou engravidar. É o corpo sendo instrumento. É a relação objetal se instaurando.

   Estou tomando como exemplo as meninas, mas o argumento é válido para os meninos, pois eles sempre tiveram a iniciação sexual começada mais precocemente que as mulheres. Em pleno século XXI ainda é propagada a ideia de que as mulheres devem se casar virgens. Entretanto, ninguém fala das consequências de levar os garotos a encontros sexuais quando ainda não estão preparados para essa experiência. Eles mal se descobriram e já querem explorar o corpo alheio.

   Parece que há um instinto animalesco e competitivo que instiga os jovens a jogos de quem transa mais. Os feromônios sendo ativados. Crianças sendo transmutadas em macho e fêmea. O que os fazem pensar que ter muitas experiências sexuais é ter maturidade? É para mostrar que é homem/mulher? Saber dizer não aos próprios e alheios impulsos não é assumir uma postura madura? Esquecem-se princípios. O respeito. As consequências dos atos. A pessoa a quem se submete. O prazer do gozo valerá o provável desgosto? Gravidez. Dsts. Sonhos interrompidos.

    Qual a parcela de contribuição dada pela família, escola, televisão e igrejas na educação sexual do indivíduo? Diante de tantas abordagens da mídia, de tanta informatividade, parece não cessarem os casos de sexualização precoce. Por quê? Porque há um contrabalanceamento – enquanto é difundida a conscientização de um exercício da sexualidade de forma responsável, saudável, músicas do tipo “beijo na boca é coisa do passado, a moda agora é, é namorar pelado” e “a nossa primeira vez não pode ser no carro…” são tocadas nas baladas juvenis.

    Não há mais sedução. Tampouco conquista. Os corpos estão entregues e grafados pelo pornô. Crianças maquiadas, de salto alto, criam atalhos para pedófilos. O amor não tem idade e parece que o sexo também não. Os hormônios em ebulição não devem se tornar promiscuidade velada.

    Tudo tem seu tempo; quem pega os atalhos corre o risco de se prostituir socialmente e nem se dar conta da perda identitária que é desvirginada por um encontro genuinamente ingênuo. A sexualidade exercida antes da hora trará cansaços na alma e tão logo o indivíduo iniciado começará a estacionar e notar que está na hora de descer da roda-gigante da libido. São seres que estarão jovens na cronologia, mas já impotentes para exercer um amor (e)terno.

Poucos passarão, muitos passarinhos

Poucos passarão, muitos passarinhos

*Sérgio Tavares

O poeta argentino Roberto Juarroz é autor de uma das frases mais pitorescas da literatura latino-americana, acomodada no desfecho do poema Detener la palabra…:

La palabra es el único pájaro que puede ser igual a su ausencia.

O que pode ser mais idílico que isso? A concepção de uma ideia, talvez?

A ideia é o único pássaro que, depois de romper a casca, só consegue ser livre. Portanto, o único modo de se capturar uma ideia é dar a esse pássaro o seu nome. O engenhoso Juarroz construiu o alçapão perfeito, pois, ao capturar a ideia, ele capturou um pássaro que terá o seu nome para sempre. O pássaro resiste, mesmo quando se completam quase duas décadas da ausência do autor. Um jogo de sugestão, um sofisma exemplar. Todos os pássaros nascem livres, ele nos diz. O que importa são os nomes, em todo o caso.

O escritor Nelson de Oliveira capturou uma ideia, mas o pássaro não tinha o seu nome. Ao deter a palavra, ele se deparou com a obra Livro demais!, do poeta mexicano Gabriel Zaid, um ensaio plumoso que aponta que a leitura de livros está crescendo aritmeticamente, enquanto a escrita de livros, exponencialmente. Oliveira, então, engaiolou o pássaro e começou a compor uma história, publicada no formato de folhetim entre os anos 2006 e 2008, no jornal literário Rascunho.

A trama versa sobre um mundo onde as bibliotecas, as casas, as ruas e até os banheiros estão gravemente abarrotados de livros, que os governos decretam a proibição de novas publicações. O pássaro que atraiu a atenção do escritor paulista pipiava o seguinte alarde:

Se a nossa paixão por escrever não for controlada, no futuro próximo haverá mais pessoas escrevendo livros do que lendo.

Mas como assim num futuro próximo? Isso acontece faz muito tempo, acontece no exato momento em que você lê esse texto num país um tanto familiar para Juarroz, Zaid e, principalmente, Oliveira, um lugar encravado na zona intermediária do globo terrestre chamado Brasil.

Nesse país, aproximadamente sessenta mil livros são lançados por ano. Contudo, com cerca de 200 milhões de habitantes, de acordo com estudo publicado pelo instituto Pró-Livro, a média de leitura anual é de quatro livros, sendo apenas 2,1 lidos até o fim. Faça uma conta rápida. Será que o pássaro que Zaid deu o nome não era um pássaro brasileiro? Um jaburu?

O que mais me intriga, no entanto, é o fato de Oliveira agrupar os episódios do folhetim e lançá-los depois num formato compresso intitulado Poeira: demônios e maldições. Para um autor que acha que o mundo já está lotado de livros, lançar mais um título não seria um contrassenso? Embora que, justiça seja feita, o pássaro não tenha o seu nome.

Ocupar a ausência desse pássaro com um livro, aliás, foi uma ideia ruim do escritor. Certamente sua história de um mundo super literário, ainda que distópico, seria mais bem-sucedida, caso evoluísse no formato folhetim. Brasileiro não gosta de livro, gosta de folhetim, de roteiro de telenovela filmado.

No ano passado, segundo informações do Ibope, a liderança do acumulado da audiência da tevê aberta se deu, com larga folga, às novelas da tevê Globo. A média de leitura no Brasil é de quatro livros por ano, enquanto cerca de 50 milhões de pessoas assistem diariamente telenovelas. Um país onde as bibliotecas, as casas, as ruas e até os banheiros estão gravemente abarrotados de televisores não provoca qualquer espécie de intervenção do governo. Pelo contrário. Passarinho preso no tubo de imagem canta o canto de quem lhe deu o nome.

No Brasil, as únicas palavras que podem ser iguais a ausência da novela é o reality show. De acordo com a mesma pesquisa, quando milhões de pessoas cansam do folhetim ficcional partem para o folhetim real. É mais ou menos como a epidemia que incide sobre a trama de Oliveira, um realismo mágico onde o desinteresse pela leitura é o problema. No México, onde estão Zaid e a Televisa, uma das maiores cadeias produtoras e exportadoras de telenovelas do mundo, a realidade sobre o comportamento do leitor tampouco prima pela magia. Estima-se que, em média, 2,9 livros são lidos por ano. Dadas as proporções populacionais, há uma sutil vantagem mexicana. Se o pássaro brasileiro é um jaburu, o mexicano é uma espécie de rapinante.

O radioso Juan José Arreola, autor do polifônico Confabulário Total, já tinha capturado esse pássaro em 1959. Na seção intitulada Bestiário, ele descreve as aves de rapina conforme uma ação sociobiológica de poder:

Fiéis ao espírito da aristocracia dogmática, os rapinantes observam o protocolo do cercado até o último grau de degradação. Na escolha dos poleiros noturnos, cada qual ocupa o seu lugar em rigorosa hierarquia. E os grandes de cima injuriam sucessivamente o timbre dos de baixo.

A pesquisa publicada no Pró-Livro indica uma intensa correlação entre os níveis de ensino e de renda com a leitura de livros, principalmente no que se refere às políticas públicas que não viabilizam condições indispensáveis como entrega de livros escolares sem custo, dotação de bibliotecas e comercialização de livros por baixo custo. Com isso, aqueles que estão nos poleiros de cima seguem injuriando e calando os que estão no poleiro de baixo. E pássaro que não canta não consegue se igualar a nada, nem mesmo a ausência.

Enquanto a leitura no Brasil segue sendo uma ave rara, escritores se ocupam de fazer o papel também de leitores. Um mundo onde as bibliotecas, as casas, as ruas e até os banheiros estão gravemente abarrotados de livros não seria um problema para um escritor. O escritor é o único pássaro que pode ser igual a ausência do leitor.

*Saiba mais sobre o autor em “Colaboradores da zona”