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O lançamento da CASA

Tenho paredes de vento e o telhado de versos, assim construí minha CASA.

Este mês a Editora Urutau lançará o meu livro de poemas. Acho que este deve ser o momento em que um autor mais está despido, ou despistado na confusão entre a pessoa que ele é e o autor que nele surgiu. Pelo menos eu sei que estou me sentindo assim. Para mim escrever sobre mim mesmo parece mais complexo do que uma resenha, uma crônica ou um poema. Assim, serei breve.

Inicialmente parece difícil sintetizar o que quero com este livro. E é preciso querer na verdade, pois o livro não surge simplesmente. Eu quero que este livro possa ser lido em voz alta e  nos silêncios de cada biblioteca pessoal. Com um livro, o poema que aconteceu em mim, agora poderá acontecer em cada leitor que assim o queira.

Há um lançamento no Rio de Janeiro. Será um local musical, um bar de blues, no coração da cidade. Há uma capa fantástica bolada pela editora. Será num domingo à tarde, para constar como o passeio da família e esticarmos numa conversa bem amigável. Fizeram um evento no Facebook. O link está aqui:

https://www.facebook.com/events/463138334485438/?notif_t=event_description_mention&notif_id=1563200925289996

Lançamento da CASA
Domingo, 28/07/2019, 16h
Mississippi Delta Blues Bar RJ
Rua Pedro Ernesto, 89 – Gamboa

Verifiquem com os amigos e encontro todos lá para abraços e assinaturas. Abaixo segue uma degustação com a capa, o texto da orelha e um dos poemas.

a capa da casa

A orelha da CASA

Enfim um novo livro de Roberto Dutra, jr. Não que o autor tivesse ficado em silêncio, mas já se foram vinte anos desde que seus primeiros poemas surgiram, em uma edição remota, lançada no Rio de Janeiro, que está esgotada e desaparecida. Nesse ínterim, ele foi editor de revista acadêmica, resenhista, contista, cronista, revisor, tradutor, escreveu um monte de orelhas como esta, aconselhou outros tantos autores e até vendeu cerveja no carnaval carioca. Ele se diz orgulhoso de ter colaborado com o Panorama da Palavra, jornal literário que circulou pelos anos 2000 na cena carioca, que promovia leituras com poetas no teatro e foi dirigido pela jornalista Helena Ortiz. Roberto atuou como fotógrafo, escreveu matérias e foi considerado um dos poetas prata da casa nas leituras promovidas naquela época. Seus poemas aparecem nas antologias Escriptonita (Patuá, 2016) e Porremas (Mórula, 2018). Tenho certeza que neste momento ele está algo entre fulo e risonho com este texto, pois não é sujeito dado a retrospectivas. Não chame o amigo anárquico que pra escrever as orelhas, olha no que deu.

Roberto acredita na obra por si, sem apresentações. O que deve circular é palavra, se não repetirem o verso, ainda não está pronto pra boca do leitor. A ideia original de CASA também veio da amiga Helena Ortiz que o convocou anos atrás com uma quase ordem (com sotaque de gaúcha): “Não faças plano, não faça nada. Estás pronto e está tudo escrito. Pega o que tiver de melhor e coloque tudo junto. Alguns livros são assim. Coragem.” Pois é amigo, está feito. Um tanto de metalinguagem, introspecção e respeito pela palavra. Sei que só parou de consertar versos na véspera de entregar tudo pro Tiago Rendelli, da Urutau. Sei que isso deve ser a marca do autor que você se tornou. Esta orelha merece ser mais do que uma apreciação do seu texto, então se tornou uma brevíssima crônica da história deste livro.

Leitor, siga direto para o poema “Plano” e leia em voz alta. Declame até, se algo lhe fizer sentido. De que vale ter a sua CASA se não pode subverter a ordem de tudo?

Boa leitura a todos.

Com um abraço amigo do

Gregório dos Santos

(Eu não tenho um) PLANO

eu não tenho um plano para a vida além de viver.
não há metafísica nisso.
não espero vivas e ninguém me agradeceu flores ou favores.
devia vomitar, mas mantenho.
o que seria de mim se descobrissem?
carros parariam
leite azedo nas vacas
bug do milênio
mulheres correndo
homens trincando os dentes
ateariam fogo na cidade, ou um cataclismo varreria
a mediocridade dos hipócritas?
eu digo em voz alta,
não senhores, eu não tenho um plano para a vida além de viver.
há que ser ousado bastante
para o preço da cesta básica
há que ser longe o suficiente
para o outro lado da rua
há que ser o necessário
para riscar o chão com meus ossos e minha carne tão bem
guardados para o depois.
o mais que me ensinaram refutei como quem repele o veneno.
se tenho que morrer, que seja por minhas próprias palavras.
nada mais vivi além disso.
não dei doces,
não fui ao altar,
não sentei numa pedra ao pôr do sol,
não xinguei o juiz,
não bebi água do mar,
não beijei o chão que me sustenta,
não tive filhos,
mas no olho do furacão
ouviram meu nome como pedra vívida
pés e mãos
pele sem planos
e vivo
como um homem
vivo

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Sobre refugiados e cometas, por Eduardo Sabino

Por Eduardo Sabino

Pense num livrinho potente, a melhor coisa que li neste ano na literatura nacional: “O cometa é um sol que não deu certo”, do meu amigo Tadeu Sarmento, vencedor, merecidamente, do Barco a Vapor 2017.

É um pequeno romance sobre crianças sírias em um campo de refugiados; seus medos, distrações e descobertas. Crianças que tentam se manter crianças quando sua liberdade de brincar está todo o tempo ameaçada, quando suas casas e escolas foram tomadas, quando o mundo desaba à sua volta e elas não entendem muito bem o que está acontecendo.

Com um tema tão denso, imaginei que leria algo que se enveredasse em algum nível pelos caminhos de um “Feras de lugar nenhum”, de Uzodinma Iweala, um romance que, embora seja narrado pelo ponto de vista infantil, é um soco que deve ser recebido/compreendido pelo leitor adulto, que entende as coisas não muito claras para o menino soldado de Iweala e que está mais preparado que a criança leitora ou o jovem leitor para lidar com os trechos mais pesados do livro.

Entretanto, e essa para mim é a maior façanha do “Cometa”, não é esse o caso. Encontramos na verdade uma narrativa aberta a leitores de diferentes faixas etárias, isso porque Tadeu sabe que uma história também pode conter uma segunda e uma terceira histórias que pontencializam umas às outras: seu livro também é uma ode à amizade, capaz de nascer nos desertos mais improváveis, e essa camada da narrativa é tratada com graça e leveza. Leveza que em nenhum momento banaliza o drama dos refugiados, mas que contrapõe a infância, sua poesia e sua imaginação, ao horror do mundo adulto, mostrando que a primeira, apesar de tudo, sairá triunfante.

Outro bom achado é a associação do movimento do cometa no universo com o dos refugiados no planeta e toda a metáfora mais abrangente de sua formação e trajeto, mas quanto a isso é melhor não entrar em detalhes: leiam o livro.

Um adendo:

As descrições físicas dos personagens, sob os olhos de Emanuel, o protagonista, um menino curioso e observador, são um espetáculo à parte. Sempre encontram algum estranhamento cômico que já é uma marca da ficção de Tadeu:

O velho sobe tão lentamente que parece nem se mexer. Enquanto anda, bate o cajado no chão, como se procurasse água entre as pedras. Ao chegar mais próximo, Emanuel percebe que metade de seus cabelos é branca, e a outra, preta, dando a impressão de só ter envelhecido do lado que arrasta a perna. O mesmo acontece com o seu bigode. A diferença é que a sua ponta branca está do lado preto dos cabelos, e a preta, do lado branco. Isso confunde Emanuel um pouco.”

***

O cometa é um sol que não deu certo

Edições SM

120 páginas

E se o assassino for o romancista?

Por Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

ó curvas ó delícias
concede-me essa ruivinha que aí vai
a doce boquinha suplicando beijo
ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem

(Dalton Trevisan, “Balada do Vampiro”, in Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 1992, p.23)

Há uma velha anedota brasileira sobre um motorista de caminhão, em cujo para-choque se lia: “Eu quero é rosetar”. Aquilo incomodava os bons costumes da cidadezinha, então o padre, o prefeito e as beatas exigiram que o engraçadinho excluísse a legenda libertina. Dias depois, o caminhão aparece com os elípticos dizeres: “Continuo querendo…” Evoco isso para fazer um comentário sobre o livro E se Deus for um de nós, de Tadeu Sarmento, editado pela editora fluminense Confraria do Vento, em 2016. Meu comentário não é análise, não é resenha, eu quero mesmo é rosetar sobre o texto desse autor pernambucano, agora radicado em Belo Horizonte, já na casa dos quarent’anos, poeta e romancista premiado nos últimos tempos.

Divertir, brincar, folgar, pagodear são os termos da área semântica de rosetar. E como fazer isso após a leitura de um romance cuja trama está repleta de crimes cometidos por um serial killer obcecado em perseguir ruivas virgens? É por isso que peço emprestado, à guisa de epígrafe, o trecho do vampiro de Curitiba, o nosso velho contista Dalton Trevisan, dono de uma linguagem concisa, com imagens precisas, amalgamando humor e tragédia ao captar o inconsciente coletivo encarnado em seus personagens suburbanos. E, por contraste, Tadeu Sarmento cria um narrador que é mais chegado a encher linguiça do que a elaborar uma narrativa contida: “E se conto em um livro longo é porque não tive tempo suficiente para escrever um curto. Pois cortar exige mais trabalho que encher linguiça. Enchendo linguiça escondemos melhor os defeitos do texto. Quem é capaz de identificar um erro ortográfico ou de concordância na grande Comédia humana de Balzac? Acredito que ninguém.”(p.376)

Ao encher a linguiça do texto, o romancista é o principal assassino, pois mata o nosso tempo, e, por muitas vezes, também ameaça a matar o leitor, matar de rir, bem entendido. Porque é o humor a principal arma desse autor, criando situações hilariantes com personagens que trabalham num Call Center repleto de funcionários digamos assim fora do esquadro, tratados sob perspectiva nada politicamente correta, como se lê na p.38: “E nossa empresa saiu na frente para cumprir o sistema social de cotas de vagas de emprego para deficientes. Por isso gagos, portadores de síndromes de Tourette. Além deles temos a equipe dos anões, dos cegos, dos albinos fosforescentes, dos esquizofrênicos controlados, dos autistas e dos tetraplégicos.

O narrador já havia esclarecido: “Somos supervisores de Call Center, Gomes e eu. Cada qual cuida de uma equipe de atendentes em um setor diferente, específico, da empresa. Minha equipe é composta por vinte e três operadores receptivos, os quais batizei de ‘garotos de Tourette’. Gomes pegou a equipe dos gagos. A de Gomes fica localizada no setor de cancelamento de serviços; a minha, em um setor obscuro, conhecido como NID, que recebe todas as ligações não classificadas pelo atendimento eletrônico inicial. Em geral, operadores de Call Center são cooptados nas fileiras dos perdedores, dos desgraçados, entre mães solteiras, estúpidos, prostitutas arrependidas, adolescentes estupradas e arrimos de família. […] Resumindo: operadores de Call Center jamais chegarão à realidade, são apenas promessas, casulos, presságios de uma infância duradoura.” (p.36)

Desse núcleo de “comunicação” há boas passagens humorísticas no livro, e faço questão de transcrever algumas. Por exemplo, na p.43 há uma situação que é a caricatura viva de um de nossos dramas cotidianos: “Não é possível cancelar por cancelar […] Depois, o motivo do cancelamento deve estar parametrizado no sistema e, caso não esteja, o operador gago lerá para o cliente todas as duzentas e sessenta e seis opções de cancelamento disponíveis.” Na p.50, o narrador evoca o nome de um cantor brega que se notabilizou por atirar calcinhas para seu público feminino: “Os trotes caem mais que caspa pelo NID. Os tarados também. Tem um que até já apelidamos de ‘Wando’: sempre liga mais ou menos no mesmo horário, para perguntar a cor da roupa de baixo dos rapazes.” Outro cantor, agora norte-americano, é evocado na p.53: “Sua voz era límpida, clara e segura, ainda que bastante grave e com sotaque inglês, como se fosse o próprio Tom Waits sentado sobre um caixote de engraxate, dublando Deus nos filmes bíblicos.” Até a grande obra épica lusitana se presta a um componente hilário na arte de encher linguiça: “[…] é comum recebermos ligações de suicidas e de estranhos admiradores de Camões, que varam a noite se revezando na leitura ao telefone de Os Lusíadas, no intuito de concluírem o sarau com o longo poema antes de o dia amanhecer.” (p.52)

Se Os lusíadas é uma obra real, há, ao longo do romance, referências a obras que só existem nesse universo ficcional salpicadas de humor erótico: “[…] além do catálogo da Taschen, meu seleto amigo levou os livros “Memórias de um rapaz subentendido”, de Melo Rego de Leite; “Morrer à sombra das cerejeiras”, de Paula Noku; “Quando a pomba gira mais que o carrossel”, de Dengoso Caminha; “100 sonetos de uma noite agropastoril”, do poeta soropositivo Florindo Saltita; “Laranjas, laranjais e ereções”, de Armando Vergalho; “A fotografia de meu antigo bofe sambando merengue”, de Pablo Potira, além dos clássicos “A noite dos bocais iluminados” e “O desenvolvimento da pederastia nas regiões montanhosas, de Almejo Pinto.” (p.17);  “[…] cofiando o longo bigode prussiano que cultivava desde que lera um livro chamado O Bigode e a Ostra: manual prático de cunilíngua para barbudos, de Nietzsche a Leminski, Vol.I, do escritor, filósofo e homem bem casado Silvério Lanugem.” (p.94)

Outras referências estéticas são acompanhadas por jocosos comentários: “Só que o que mais Magela apreciava no Conrad de sua adolescência era a ideia de se poder tomar qualquer navio daqueles e avançar sem rumo sobre o mar azulado sem correr o risco de o velho Roberto Carlos estar cantando em algum deles.” (p.162); “[…] casara com um pintor norte-americano da escola de Cézanne chamado Vulgo Angelis, um especialista persistente em retratar guarda-chuvas azuis ao fundo de confusas chuvas de granizo.” (p.319)

Nomes risíveis e figuras e situações excêntricas ocorrem a rodo na obra: “O próximo a ser detido para averiguação foi Energúmeno Souza, vigia do rinque de patinação onde Eveline Vegas foi encontrada morta.”(p.98); “[…] um Pinto grave, circunspecto, e próximo de uma espécie de altar de mármore coberto por um manto de veludo vermelho com pompons macios nas pontas e detalhes em crochê de elefantinhos falsamente felizes.”(p.367);  “ […] viu adentrar no salão a jovem Mica Basso, acompanhada de seu inseparável poeta russo e das duas ruivas albinas congolesas, as quais traziam no braço, cada uma, o cadáver embalsamado das pequenas e misteriosas ruivas gêmeas desaparecidas, embaladas como bonecas nas mãos das duas, talvez, improváveis damas de honra, de um improvável casamento.” (p.368)

Episódios bíblicos são inesperadamente deslocados, ganhando dimensões de nonsense ou de caráter de metalinguagem irônica: “[…] um paraíso no qual o leão pastará ao lado do cordeiro e o urso de pelúcia ao lado do cavalo de carrossel.”(p.67); “Falo da escrita desse livro. Ele, Magela, tem a fluidez musical dos ótimos escritores e eu tenho a história toda na cabeça, logo, estamos no caminho certo, ainda que tropecemos algumas vezes. Mas se até Cristo tropeçou no caminho a caminho do Gólgota, quem somos nós para exigir a própria perfeição?” (p.374)

A irreverência em relação ao sagrado não são poucas: “[…] o que viria a seguir seria algo diverso do prometido no próprio nome da seita (Cristãs pelo Anal)” (p.295); “Seria preciso manter a fé e a ereção. E se a fé hoje em dia não remova mais montanhas é só porque os ambientalistas protestariam.” (p.368). Deus, que está presente no título do livro, é trazido na fala da protagonista Yves, a bela ruiva irlandesa: “– Se Deus fosse um de nós, o que faria  – perguntou novamente, solfejando a música com seu sotaque irresistível: What if god was one uf us.”(p.29). A canção é de Eric Bazilian, da banda The Hooters, que ganhou notoriedade na voz de Joan Osborne.

Humor negro, escatologia, símiles inusitados (como aquele, da p.160: “Tem o olhar infantil e melancólico de boxeadores aposentados.”) são ingredientes que tornam a narrativa saborosa. Personagens secundários entram na intriga para que o derramamento de sangue não faça cessar o fluir do riso: “[…] O barbeiro Pedro Silva era mais surdo que uma porta bem trancada, o que lhe garantia um número cada vez maior de clientes, sobretudo depois que Firmino Patusco, seu desleal colega de profissão, cortou a carótida de um pobre coitado após se assustar com o estouro de escapamento de um carro, provavelmente ocasionado por cabos de vela presos que faiscaram um no outro, o que lhe valeu um processo por homicídio culposo, que corre atualmente em segredo de justiça.” (p.281) Há outra figura que ninguém deseja cumprimentar: “Gostava de fazer origamis com papel higiênico usado e não costuma lavar as mãos.” (p.25)

No que diz respeito às imagens, principalmente quanto ao uso de símiles, chama-nos atenção certa obsessão pelo Sol, como se o autor, em meio aos intencionais disparates na obra, fizesse questão de buscar a lucidez. Vejamos alguns exemplos:
Seu olhar é de desprezo gelado, o jeito que um lagarto secando ao Sol olha para outro lagarto secando ao Sol.” (p.132)

 “Nunca viu nada parecido com o que viu e, ao mesmo tempo, sentia-se leve depois de ver, igual a um condor que se livra da presa durante o voo para chegar mais rápido ao Sol.” (p.281)

“[…] não gosta de lugares apertados. E que ali estava bem apertado, um ônibus espacial de médio porte com mil leprosos rumo ao Sol.” (p.319)

Em uma digressão sobre o filme de Pasolini sobre a obra de Sade, há essa crítica, também acompanhada pelo Sol: “ […] transpostas para o cinema suas imagens são indigestas ou tediosamente ridículas. Algumas são alergicamente teatrais. Parafraseando o teólogo Bataille: é o mesmo que querer olhar o Sol diretamente e, sem poder, contentar-se com as manchas de luz que espocam nas retinas ao forçar o fechamento dos olhos diante dele.” (p.300)

No que concerne aos disparates, vejam uma passagem impagável, envolvendo o cômico “Jeca” Mazzaropi, que foi sepultado numa cidade paulista, abruptamente deslocada para o Norte brasileiro: “E já que retomamos personagens, quero dizer que Plínio Parula fechou o sebo e prestou concurso público para coveiro em Pindamonhangaba, um cidade belíssima, capital do Acre, célebre por dar abrigo aos restos mortais do ator de pornochanchada Mazzaropi.”(p.378)

O assassino de John Lennon também entra no jogo dos disparates: “[…] Que foi visitá-la  ano passado, quando se inscreveu no ‘II Concurso Anual para Sósias do Mark Chapman do Município de Alden’.”(p.319). Ainda no quesito de sósias, eis uma passagem marcante, na p.54: “Clara Rosa, uma anã com vitiligo avançado […] casou escondido em Las Vegas com um sósia do Elvis Presley da fase decadente dos shows dos cassinos.

E há outros disparates associados a aspectos sexuais: Era natural de Buenos Aires, onde trabalhara de prostituta e descobrira que, quando depilava a boceta, os pelos pubianos caídos no chão formavam frases (em espanhol) que prediziam o futuro.” (p.128). A própria terra do autor é motivo de chacota: “– Morar no Recife hoje em dia me faz sentir como um absorvente. – Não entendi.– O lugar é bom, mas o momento é crítico.” (p.78)

A sexualidade, que é o motor da ação do serial killer, é tratada com humor e ironia, expondo os personagens com seus preconceitos, como é o caso de um homossexual enrustido, que age como homofóbico: “Gomes já deu provas suficientes de ser homofóbico e a homofobia, convenhamos, é fruto de um amor homossexual traumatizado, a soma de desejos reprimidos que permanecem latentes, pressionando de dentro a personalidade de Dúbio Gomes, empurrando-a em direção  da neurose, quiçá do fascismo (já que o fascista é só um neurótico que cumpriu suas ambições.” (p.42)

As cartilhas com conteúdo sexual, assunto polêmico na atual campanha presidencial, é abordado também com tintas da ironia: “Já no carro, durante o trajeto, escuta no rádio que, ano que vem, o governo vacinará contra o HPV, prioritariamente, meninas entre dez e onze anos de idade. Esse mundo está todo fodido mesmo, pensa Gonçalo Magela […] logo teremos cartilhas  de educação sexual nas escolas, orientando o que se deve fazer caso o dente de leite caia durante o sexo oral. Fato: não sei de que modo o assassino ainda consegue achar virgens nessa cidade sórdida, ainda por cima ruivas, ele completa. Se Raymond Chandler estivesse vivo, com certeza, escreveria um livro sobre o assassino de ruivas.” (p.161)

Dizer que se se trata de um romance lúdico ainda é muito pouco: a narrativa de E se Deus for um de nós é um grande desconcerto, no sentido de provocar constantemente o leitor, deixando-o literalmente zonzo, como se lê na p.352: “[…] Que não sobreviveu ninguém para contar a história. Que a história, aliás, era muito feia para ser contada. […] Parecia zonza com tanta informação despejada de uma só vez.” A presença de um personagem como Brum, mais onomatopeia do que nome, ajuda na construção barulhenta de figuras insólitas, como exibem as passagens: “Brum era um homem obsessivo e ciumento, que piorou bastante nas últimas semanas, sobretudo depois de a empresa que representava ter recusado sua ideia de montar uma linha de bichinhos de pelúcia com problemas mentais, os quis, segundo Brum, ajudariam a ensinar, de uma forma lúdica e finalmente, crianças a conviverem com as diferenças.”(p.164); “Brum foi detido no Aeroporto Internacional dos Guararapes […] levando na mala cinco protótipos dos seus brinquedos, com os quais esperava negociar a patente em Amsterdã. Entre eles: Durva, a tartaruga com síndrome de pânico; Lilith, a cobra anoréxica; Poliana, a ovelha com múltiplas personalidades; Troto, um crocodilo com fobia à água; e Sandrine, um hipopótamo albino com compulsão por comida.” (p.165)

Para quem desejar trechos, digamos assim, mais sérios, é só colher passagens que parecem um pouco aforismáticas: “Quem viaja é impelido para o futuro.” (p.25); “– […] deveríamos ter escutado nossas mães e estudado. Desde que o mundo é mundo que o livro é mais leve que a enxada.” (p.238); “[…] nenhum objeto é capaz de atiçar ou produzir um desejo. Ao contrário: é o desejo que, em seu movimento de dispêndio, torna desejado um objeto, como uma flecha que só procura um alvo depois de lançada.” (p.342); “[…] quem está cheio de si fica vazio de todo resto.” (p.362).

Quanto a mim, prefiro imagens assim, hilariantes, hiperbólicas, encharcadas de humor: “[…] parecia excessivamente sério, mas era a seriedade de um javali mijando sob a luz fosforescente.” (p.238); “[…] o álcool ajudava a destravar sua língua e até ali já bebera cerveja suficiente para inundar a Mongólia, isso sem contar a parte que Mulligan bebeu, a qual daria para alagar, senão o Vietnã, ao menos a região norte do Vietnã.” (p.272)

O leitor, afinal, mesmo morrendo de tanto rir, deverá reconhecer que está nas mãos de um bom assassino, ou “assassigno”. como diria o poeta Márcio Almeida. Tadeu Sarmento não se furta de, à maneira dos pós-modernistas, dar sua pitada metalinguística, como na p.214: “Não existe relação hierárquica entre leitor e escritor, Belino pensava, já que ambos caminham inseguros sobre o mesmo campo minado. Só que em horários diferentes, Belino completou para si mesmo e, ainda que se sentisse perdido, pois, a literatura só atrai os nostálgicos, os exilados, os que não se sentem bem em lugar algum, salvo no rio irreal dos parágrafos de um livro, Belino e Graham Greene se encontravam na mesma página, dançando desprotegidos, de patins, sobre pistas de gelo, ou atravessando, vendados, numa corda bamba em dia de vento, cada qual com seu salto quinze, pontudo.” E, mais adiante, quase no apagar das luzes de sua lúcida obra, ainda vem com esta: “Pois não estamos escrevendo ficção. Tudo o que descrevemos aqui aconteceu, só que mais ou menos. Mas mais para mais que para menos, segundo a escola Kurt Vonnegut para picaretagem & piano. O problema é que tudo que aconteceu tem um tempo e memorizar, no limite, é de fato polir. A imaginação é uma memória polida, aparada em suas arestas, pronta para ser recontada.” (p.376)

Queria rosetar mais ou menos assim. E, depois de vampirizar o texto do Tadeu Sarmento, volto aos versos da balada do vampiro curitibano: “ó curvas ó delícias/concede-me/ essa ruivinha que aí vai/a doce boquinha suplicando beijo/ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem”.

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

O exercício da distração – De Kátia Borges

Por Adriane Garcia

 

O livro que me acompanhou durante esta semana foi O exercício da distração, da poeta Kátia Borges (ed. Penalux, 2017). Li-o duas vezes, para melhor ficar distraída. A distração que Kátia oferece é aquela que nos faz sair do mundo ordinário. Não à toa, a capa traz acrobatas em equilíbrio no topo do Empire State, uma fotografia de 1934. Mas que diabos fazem três pessoas numa performance arriscada e inútil? Que diabos faz Kátia, construindo um livro de poemas (antes: lançando um olhar para a poesia das coisas), recusando-se a ser simples engrenagem neste sistema que apenas quer nos consumir o tempo de vida, apertando seus parafusos?

 

O exercício da distração é uma resposta rebelde. Uma resposta rebelde silenciosa, visto que a poesia é capaz de se comunicar no silêncio do outro. É rebelde porque se insere no mundo do cansaço, e teima: “Dizer do medo, a coragem/com a qual dançamos a vida/sem descalçar os sapatos”.

 

Dividido em três partes, Como se fosse o órgão vivo, Fugas extraordinárias e As pequenas vilanias da cidade, o livro se comunica o tempo todo com seu título. A distração, a inadaptação, o mundo como um não-lugar para os sensíveis, para a sensibilidade. A máquina do capital a massacrar as pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e o amor.

O amor, em O exercício da distração, é a “caça inútil”, a busca difícil, mas a busca da qual não se pode fugir, a busca necessária. O amor “arrasta os astros/pros lugares certos” e dá sentido ao que não tem. É o grande consolo, é a mão próxima, a possibilidade da dor compartilhada: “estou cansada de sentir este aperto no peito//amo esta mulher que diz que passa”. Ao mesmo tempo, não há ingenuidades, há uma maturidade nos versos de Katia Borges que não permite ilusões. A fantasia é proposital, a fantasia é um mecanismo de quem escolheu dar conta do mundo pelo seu avesso, mas com total consciência do processo. Este poema, que me lembrou dos momentos finais de Lorca, dá a dimensão do conflito tão presente neste trabalho:

 

Teu movimento

 

Antes que te chame

o pelotão de fuizilamento

repara o pássaro

apara o dia.

 

Há um olhar que se derrama

lento sobre a vigia

e graciosidade no andar

do carcereiro.

 

Antes, sim, que chamem

o teu nome, anota

num papel ou na parede

certo verso de cimento.

 

Na argamassa firme

teu movimento.

 

 

A distração é o exercício da liberdade, exercício cerceado, que só pode acontecer como desobediência, estranheza ou mesmo loucura, como a poesia. Já nos títulos de alguns poemas, a poeta brinca riscando palavras: Anotações para um poema sobre pássaros (sapos) flores. É assim, nas brechas, que se vai criando possibilidades de escolha para se inventar a própria autonomia. A poeta anda presentemente em sua cidade, indaga o mistério das perdas e sabe da resignação quanto a essas fugas, observa o mundo para além do que ele quer mostrar – falávamos sobre a distração como ato de rebeldia, a poesia como recusa à cegueira imposta.

 

Os poemas são de grande musicalidade, e há imagens imperdíveis, como em Hashi: “tão tristes os três tigres/do I Ching/espreitam o amor, a caça inútil// seria bom se descansassem/o peso das pernas,/seria bom se repousassem/o rosto nas patas”.

 

Por fim, O exercício da distração é um livro que traz paradoxos. Se por um lado, a distração parece que aliena, Kátia vem mostrar que, ao contrário, a distração é o que nos mantém vivos e acordados. E, obviamente, ela não está falando da distração permitida, da distração de massa, que quer fechar os olhos, banalizar até o ponto de não mais se poder perceber. A distração de que Kátia fala é aquela que nos abre ao desejo de molhar a planta que avistamos na varanda do vizinho, tão próxima ao nosso apartamento, afinal

 

“A vida é esse verde entre nós.

 

Talvez os biólogos nos expliquem

a fluidez do amor, a essa altura.

Serei melhor se lançar água

e, dessa distância que penso segura,

salvar uma begônia.”

 

Um livro lindíssimo. Para ler e reler.

Réquiem para Toda Poesia

Eu não quero relativizar a morte de Ferreira Gullar. Para minha coluna de hoje eu reuni algumas das anotações que fiz rapidamente. Não quero ter paciência para discutir a importância da obra ou aspectos da vida deste homem que tanto admiro. Foi poeta, resta ao mundo a obra; foi um homem de seu tempo, viveu para si e de acordo com o que acreditava, colocou sua vida em risco por isso. O que conhecemos da vida hoje é um passeio no shopping center, Gullar foi ao céu e ao inferno de sua época e isso é mais do que todos da minha época fizeram.
Calo minha pena pela eternidade do minuto e reabro os olhos mais lúcido que um poema. O morto apenas morre, eternamente, infenso à realidade que insiste.

Minha primeira impressão, a notícia da morte.

Eduardo Rocha, o artista que ilustra a zonadapalavra, ligou para mim, pela manhã e disparou a notícia que eu ainda não vira em nenhuma mídia. Há anos somos amigos e Ferreira Gullar, por representar um ponto de encontro com a poesia e as artes plásticas, também pautou nossa amizade. Sempre admiramos Gullar e não perdíamos oportunidades de ouvi-lo falar ao vivo. Além do pesar de não ter conhecido mais o autor que tanto admiro, escrevi algumas linhas, que reproduzo abaixo. Não tinha intenção fazer nenhum poema extraordinário, mas a lição é que, diante da morte, só na arte encontramos respostas.

Era a manhã de dezembro,
o dia tomava a vida.
Era a manhã de dezembro,
não era poesia.
Era a manhã de dezembro
e a voz do poeta sucumbia.

Nada se sentia além,
a vida continua, infensa
ao corpo
ao ar,
ao  b a r u l h o  incendiando
o  ú l t i m o  ruído.

Era a manhã de dezembro,
o poeta Ferreira Gullar partia
e acendia-se o espanto
em Toda Poesia.

Segunda impressão, a lembrança da obra.

Já fui acadêmico. Hoje não sei com clareza o que sou. Ferreira Gullar é o poeta brasileiro que mais me impressionou e não exagero em dizer que é minha maior influência sempre que escrevo. Dediquei alguns anos da minha vida pesquisando sua obra, tanto poética quanto crítica. Muito do que eu entendo sobre arte hoje vieram das explicações dele sobre a contemporaneidade e suas vanguardas. Minha primeira reação ao choque da sua morte foi rabiscar algo. Agora, acho justo oferecer, a quem se interessar, alguns textos.
Depois da minha defesa, liguei para Gullar, que me recebeu em seu apartamento. Entreguei-lhe meu texto,e ele cordialmente agradeceu pelo tempo que dediquei estudando seus poemas. Eu era tímido demais e mal consegui conversar muito, estava assoberbado pela sala com móbiles, livros, pinturas e objetos de arte sobre os quais apenas havia lido a respeito, mas reconhecia ao primeiro olhar. Hoje entendo que tanto quanto a admiração, meu respeito pela privacidade do artista me emudeceu.

Link para minha dissertação sobre a poesia de Ferreira Gullar:
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=7212%401

Link para um artigo sobre o livro A luta corporal:
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/rev_escrita.php?strSecao=input0

Link para artigo historiográfico sobre Ferreira Gullar:
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/terraroxa/article/view/24736

Terceira impressão, um poemínimo sentido.

Todo o conteúdo desta coluna nesta segunda-feira, eu considero como um tipo de crônica. Apenas, ao invés de ficar remoendo elogios e ressentimentos sobre a vida de Ferreira Gullar, onde não consegui ser um escritor mais objetivo ou um poeta mais armado, preferi ser de alguma utilidade para o leitor da zonadapalavra e acrescentar algum conteúdo extraliterário.
Para terminar, mais uns versos que valham.

perdi a gravidade
sou poema
sussura a palavra
amena
a velocidade da vida
acena
que a beleza mesmo
pequena
faz a vida
plena

R.

contra-a-morte

Contra a morte, 2016. Fotopoema do autor.  Em.: http://www.instagram.com/robertodutrajr

 

ESCRIPTONITA, ARE GO!


Hoje eu quero usar minha coluna para falar de um lançamento.

Editora Patuá finalmente revela as identidades secretas dos poetas mais eXtraordinários deste lado da América do Sul. Foi lançada neste final de semana, na Patuscada pelo neonovíssivo selo Patuá Comics A incrivelmente sensacional ESCRIPTONITA, antologia Pop/poesia, mitologia remix & super-heróis de gibi.

Além deste zonador que lhes escreve há também os zonadores: Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri, Nathan Souza, Ronaldo Cagiano. O pósfacio é assinado pelo Furio Lonza, aquele mestre Jedi da genial e pioneira Chiclete com Banana. Sintetizo minha empolgação com as palavras do editor, Eduardo Lacerda, que registrou no colofão:

quem salva
o dia?
só a palavra

na poesia.

tiragem indefinida: para o alto e avante!

Charles Xavier, fica a dica, este é um volume indispensável para a biblioteca da Mansão X. Sei que o Batman já encomendou uma caixa pra Sala de Justiça. O Homem-Aranha está sem grana, mas como o Peter Parker tirou a minha foto eu adiantei um volume pra ele.

Deixo abaixo um dos poemas que foram publicados (Sim, os super-autores tem mais de um texto, não é uma antologia peso-mosca, é da categoria da Métal Hurlant, pesada!!)


A solidão do Senhor Anderson (da trilogia Matrix)

De repente algo grita dentro mim.
Não gosto de estar sozinho,
não quero pensar,
não quero dormir.

Preciso dormir.

Súbito eu não mais vivo aqui.
Eu quero me curar do que sinto.
Quero curar os caminhos do mundo.
Tem dias que eu quero tomar o mundo de assalto.

Preciso me desplugar.
Fazer minhas regras…
Essa constante sensação de que há algo mais,
tudo são ilusões e eu preciso saber
qual meu papel no simulacro…
Eu sigo o coelho branco.

 

Robert Cage, já com seu exemplar à prova de balas.

Roberto Cage, já com seu exemplar à prova de balas.

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adquira o seu exemplar aqui: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=377&Itemid=53

GRAMÁTICA CONTEXTUALIZADA

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                                                        Leo Barbosa

                                           (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                        Gramática contextualizada

         Não é de agora que presenciamos um ensino de Língua Portuguesa pautado numa gramática obsoleta, marcada por discursos preconceituosos, desconhecendo a língua como construção social. Prega-se uma fala e uma escrita que é utilizada por uma minoria – aqueles que tiveram acesso à escola e dela extraíram proveito suficiente para falar e escrever um português culto.

   É lamentável e pouco produtivo reduzir o ensino de língua à Gramática Normativa, que dita construções sintáticas que são rarissimamente utilizadas até pelos falantes mais cultos, a exemplo de: “assistir ao filme” “namorar alguém”. Além disso, não são nomenclaturas que aumentarão a nossa performance linguística, mas a reflexão e o uso da língua. É proveitoso saber o que é uma “oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo” se eu não confiro a essa construção uma prática, marcada por um contexto e, logo, por uma semântica?

  Ainda que tenha sido acordado que devemos nos pautar por gramática contextualizada, o que vemos são as mesmas práticas de estudo de gramática. Grande parte dos livros didáticos ainda insistem em exigir do aluno que “retire os substantivos do texto”.

  Segundo Irandé Antunes, em “Gramática contextualizada” (Parábola, 2014) falar em gramática contextualizada é um tanto redundante porque a linguagem nunca ocorre de maneira isolada, fora de um contexto – linguagem é interação e só ocorre se houver um objetivo de comunicação.

   Nós, na condição de professores de Língua, precisamos refletir sobre nossas propostas de ensino, questionando o que concebemos como gramática quando visamos ensiná-la. Essa se aplica a qual contexto? Oral, escrito, formal, informal? E a qual gênero textual? Quais são os usos?

    O essencial é garantir aos nossos alunos o acesso constante aos vários tipos e gêneros textuais, para que os discentes sejam capazes de interpretar qualquer texto e de lograr êxito nas variadas situações de comunicação. Infelizmente, são raros os profissionais que inserem o texto como protagonista da aula de Língua Portuguesa. Geralmente, o tempo é ocupado com análises sintáticas e morfológicas de frases descontextualizadas, sem que ao menos reflitam sobre a tradição, sem fazer paralelo entre a norma e o uso. E mais (ou menos?): quase nada de escrita de textos – raramente considerando-se a delimitação temática e o gênero textual a ser desenvolvido, pouco exercício da oralidade formal, quase nenhuma atividade voltada à ampliação do repertório vocabular (à exceção dos ditados).

      Sem práticas como essas, continuará a se perpetuar a falsa ideia de que os alunos não sabem falar português, desconsiderando o que eles já dominam. Suas variantes linguísticas estão repletas de complexidades que podem e devem ser exploradas. Enfatize-se que não se defende a abolição da norma culta, mas que essa deve se pautar na observação dos usos orais e escritos da atualidade, nos vários âmbitos da cultura letrada brasileira.

   Inadmissível é exigir que alguém fale ou escreva como um Machado de Assis, um Guimarães Rosa, um Graciliano Ramos. Ninguém se expressa literariamente o tempo todo, tampouco é uma Gramática Normativa ambulante. Até os falantes mais cultos seguem uma norma mais flexível, por muitas vezes perde-se a referenciação dos pronomes, cometendo “erros” de concordância verbal e nominal.

   A língua está em constante mudança, e desconsiderar isso é ser retrógrado, contrariar o princípio de que a nossa experiência de linguagem está ancorada na vontade de inserção em um grupo social. Também vale lembrar o que disse Mário de Andrade (no início do século XX!) – é o povo que faz a língua, ou, como disse Marcuschi – “São os usos que fundam a língua e não o contrário”.

                                                                         Leo Barbosa é professor e poeta