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E se o assassino for o romancista?

Por Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

ó curvas ó delícias
concede-me essa ruivinha que aí vai
a doce boquinha suplicando beijo
ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem

(Dalton Trevisan, “Balada do Vampiro”, in Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 1992, p.23)

Há uma velha anedota brasileira sobre um motorista de caminhão, em cujo para-choque se lia: “Eu quero é rosetar”. Aquilo incomodava os bons costumes da cidadezinha, então o padre, o prefeito e as beatas exigiram que o engraçadinho excluísse a legenda libertina. Dias depois, o caminhão aparece com os elípticos dizeres: “Continuo querendo…” Evoco isso para fazer um comentário sobre o livro E se Deus for um de nós, de Tadeu Sarmento, editado pela editora fluminense Confraria do Vento, em 2016. Meu comentário não é análise, não é resenha, eu quero mesmo é rosetar sobre o texto desse autor pernambucano, agora radicado em Belo Horizonte, já na casa dos quarent’anos, poeta e romancista premiado nos últimos tempos.

Divertir, brincar, folgar, pagodear são os termos da área semântica de rosetar. E como fazer isso após a leitura de um romance cuja trama está repleta de crimes cometidos por um serial killer obcecado em perseguir ruivas virgens? É por isso que peço emprestado, à guisa de epígrafe, o trecho do vampiro de Curitiba, o nosso velho contista Dalton Trevisan, dono de uma linguagem concisa, com imagens precisas, amalgamando humor e tragédia ao captar o inconsciente coletivo encarnado em seus personagens suburbanos. E, por contraste, Tadeu Sarmento cria um narrador que é mais chegado a encher linguiça do que a elaborar uma narrativa contida: “E se conto em um livro longo é porque não tive tempo suficiente para escrever um curto. Pois cortar exige mais trabalho que encher linguiça. Enchendo linguiça escondemos melhor os defeitos do texto. Quem é capaz de identificar um erro ortográfico ou de concordância na grande Comédia humana de Balzac? Acredito que ninguém.”(p.376)

Ao encher a linguiça do texto, o romancista é o principal assassino, pois mata o nosso tempo, e, por muitas vezes, também ameaça a matar o leitor, matar de rir, bem entendido. Porque é o humor a principal arma desse autor, criando situações hilariantes com personagens que trabalham num Call Center repleto de funcionários digamos assim fora do esquadro, tratados sob perspectiva nada politicamente correta, como se lê na p.38: “E nossa empresa saiu na frente para cumprir o sistema social de cotas de vagas de emprego para deficientes. Por isso gagos, portadores de síndromes de Tourette. Além deles temos a equipe dos anões, dos cegos, dos albinos fosforescentes, dos esquizofrênicos controlados, dos autistas e dos tetraplégicos.

O narrador já havia esclarecido: “Somos supervisores de Call Center, Gomes e eu. Cada qual cuida de uma equipe de atendentes em um setor diferente, específico, da empresa. Minha equipe é composta por vinte e três operadores receptivos, os quais batizei de ‘garotos de Tourette’. Gomes pegou a equipe dos gagos. A de Gomes fica localizada no setor de cancelamento de serviços; a minha, em um setor obscuro, conhecido como NID, que recebe todas as ligações não classificadas pelo atendimento eletrônico inicial. Em geral, operadores de Call Center são cooptados nas fileiras dos perdedores, dos desgraçados, entre mães solteiras, estúpidos, prostitutas arrependidas, adolescentes estupradas e arrimos de família. […] Resumindo: operadores de Call Center jamais chegarão à realidade, são apenas promessas, casulos, presságios de uma infância duradoura.” (p.36)

Desse núcleo de “comunicação” há boas passagens humorísticas no livro, e faço questão de transcrever algumas. Por exemplo, na p.43 há uma situação que é a caricatura viva de um de nossos dramas cotidianos: “Não é possível cancelar por cancelar […] Depois, o motivo do cancelamento deve estar parametrizado no sistema e, caso não esteja, o operador gago lerá para o cliente todas as duzentas e sessenta e seis opções de cancelamento disponíveis.” Na p.50, o narrador evoca o nome de um cantor brega que se notabilizou por atirar calcinhas para seu público feminino: “Os trotes caem mais que caspa pelo NID. Os tarados também. Tem um que até já apelidamos de ‘Wando’: sempre liga mais ou menos no mesmo horário, para perguntar a cor da roupa de baixo dos rapazes.” Outro cantor, agora norte-americano, é evocado na p.53: “Sua voz era límpida, clara e segura, ainda que bastante grave e com sotaque inglês, como se fosse o próprio Tom Waits sentado sobre um caixote de engraxate, dublando Deus nos filmes bíblicos.” Até a grande obra épica lusitana se presta a um componente hilário na arte de encher linguiça: “[…] é comum recebermos ligações de suicidas e de estranhos admiradores de Camões, que varam a noite se revezando na leitura ao telefone de Os Lusíadas, no intuito de concluírem o sarau com o longo poema antes de o dia amanhecer.” (p.52)

Se Os lusíadas é uma obra real, há, ao longo do romance, referências a obras que só existem nesse universo ficcional salpicadas de humor erótico: “[…] além do catálogo da Taschen, meu seleto amigo levou os livros “Memórias de um rapaz subentendido”, de Melo Rego de Leite; “Morrer à sombra das cerejeiras”, de Paula Noku; “Quando a pomba gira mais que o carrossel”, de Dengoso Caminha; “100 sonetos de uma noite agropastoril”, do poeta soropositivo Florindo Saltita; “Laranjas, laranjais e ereções”, de Armando Vergalho; “A fotografia de meu antigo bofe sambando merengue”, de Pablo Potira, além dos clássicos “A noite dos bocais iluminados” e “O desenvolvimento da pederastia nas regiões montanhosas, de Almejo Pinto.” (p.17);  “[…] cofiando o longo bigode prussiano que cultivava desde que lera um livro chamado O Bigode e a Ostra: manual prático de cunilíngua para barbudos, de Nietzsche a Leminski, Vol.I, do escritor, filósofo e homem bem casado Silvério Lanugem.” (p.94)

Outras referências estéticas são acompanhadas por jocosos comentários: “Só que o que mais Magela apreciava no Conrad de sua adolescência era a ideia de se poder tomar qualquer navio daqueles e avançar sem rumo sobre o mar azulado sem correr o risco de o velho Roberto Carlos estar cantando em algum deles.” (p.162); “[…] casara com um pintor norte-americano da escola de Cézanne chamado Vulgo Angelis, um especialista persistente em retratar guarda-chuvas azuis ao fundo de confusas chuvas de granizo.” (p.319)

Nomes risíveis e figuras e situações excêntricas ocorrem a rodo na obra: “O próximo a ser detido para averiguação foi Energúmeno Souza, vigia do rinque de patinação onde Eveline Vegas foi encontrada morta.”(p.98); “[…] um Pinto grave, circunspecto, e próximo de uma espécie de altar de mármore coberto por um manto de veludo vermelho com pompons macios nas pontas e detalhes em crochê de elefantinhos falsamente felizes.”(p.367);  “ […] viu adentrar no salão a jovem Mica Basso, acompanhada de seu inseparável poeta russo e das duas ruivas albinas congolesas, as quais traziam no braço, cada uma, o cadáver embalsamado das pequenas e misteriosas ruivas gêmeas desaparecidas, embaladas como bonecas nas mãos das duas, talvez, improváveis damas de honra, de um improvável casamento.” (p.368)

Episódios bíblicos são inesperadamente deslocados, ganhando dimensões de nonsense ou de caráter de metalinguagem irônica: “[…] um paraíso no qual o leão pastará ao lado do cordeiro e o urso de pelúcia ao lado do cavalo de carrossel.”(p.67); “Falo da escrita desse livro. Ele, Magela, tem a fluidez musical dos ótimos escritores e eu tenho a história toda na cabeça, logo, estamos no caminho certo, ainda que tropecemos algumas vezes. Mas se até Cristo tropeçou no caminho a caminho do Gólgota, quem somos nós para exigir a própria perfeição?” (p.374)

A irreverência em relação ao sagrado não são poucas: “[…] o que viria a seguir seria algo diverso do prometido no próprio nome da seita (Cristãs pelo Anal)” (p.295); “Seria preciso manter a fé e a ereção. E se a fé hoje em dia não remova mais montanhas é só porque os ambientalistas protestariam.” (p.368). Deus, que está presente no título do livro, é trazido na fala da protagonista Yves, a bela ruiva irlandesa: “– Se Deus fosse um de nós, o que faria  – perguntou novamente, solfejando a música com seu sotaque irresistível: What if god was one uf us.”(p.29). A canção é de Eric Bazilian, da banda The Hooters, que ganhou notoriedade na voz de Joan Osborne.

Humor negro, escatologia, símiles inusitados (como aquele, da p.160: “Tem o olhar infantil e melancólico de boxeadores aposentados.”) são ingredientes que tornam a narrativa saborosa. Personagens secundários entram na intriga para que o derramamento de sangue não faça cessar o fluir do riso: “[…] O barbeiro Pedro Silva era mais surdo que uma porta bem trancada, o que lhe garantia um número cada vez maior de clientes, sobretudo depois que Firmino Patusco, seu desleal colega de profissão, cortou a carótida de um pobre coitado após se assustar com o estouro de escapamento de um carro, provavelmente ocasionado por cabos de vela presos que faiscaram um no outro, o que lhe valeu um processo por homicídio culposo, que corre atualmente em segredo de justiça.” (p.281) Há outra figura que ninguém deseja cumprimentar: “Gostava de fazer origamis com papel higiênico usado e não costuma lavar as mãos.” (p.25)

No que diz respeito às imagens, principalmente quanto ao uso de símiles, chama-nos atenção certa obsessão pelo Sol, como se o autor, em meio aos intencionais disparates na obra, fizesse questão de buscar a lucidez. Vejamos alguns exemplos:
Seu olhar é de desprezo gelado, o jeito que um lagarto secando ao Sol olha para outro lagarto secando ao Sol.” (p.132)

 “Nunca viu nada parecido com o que viu e, ao mesmo tempo, sentia-se leve depois de ver, igual a um condor que se livra da presa durante o voo para chegar mais rápido ao Sol.” (p.281)

“[…] não gosta de lugares apertados. E que ali estava bem apertado, um ônibus espacial de médio porte com mil leprosos rumo ao Sol.” (p.319)

Em uma digressão sobre o filme de Pasolini sobre a obra de Sade, há essa crítica, também acompanhada pelo Sol: “ […] transpostas para o cinema suas imagens são indigestas ou tediosamente ridículas. Algumas são alergicamente teatrais. Parafraseando o teólogo Bataille: é o mesmo que querer olhar o Sol diretamente e, sem poder, contentar-se com as manchas de luz que espocam nas retinas ao forçar o fechamento dos olhos diante dele.” (p.300)

No que concerne aos disparates, vejam uma passagem impagável, envolvendo o cômico “Jeca” Mazzaropi, que foi sepultado numa cidade paulista, abruptamente deslocada para o Norte brasileiro: “E já que retomamos personagens, quero dizer que Plínio Parula fechou o sebo e prestou concurso público para coveiro em Pindamonhangaba, um cidade belíssima, capital do Acre, célebre por dar abrigo aos restos mortais do ator de pornochanchada Mazzaropi.”(p.378)

O assassino de John Lennon também entra no jogo dos disparates: “[…] Que foi visitá-la  ano passado, quando se inscreveu no ‘II Concurso Anual para Sósias do Mark Chapman do Município de Alden’.”(p.319). Ainda no quesito de sósias, eis uma passagem marcante, na p.54: “Clara Rosa, uma anã com vitiligo avançado […] casou escondido em Las Vegas com um sósia do Elvis Presley da fase decadente dos shows dos cassinos.

E há outros disparates associados a aspectos sexuais: Era natural de Buenos Aires, onde trabalhara de prostituta e descobrira que, quando depilava a boceta, os pelos pubianos caídos no chão formavam frases (em espanhol) que prediziam o futuro.” (p.128). A própria terra do autor é motivo de chacota: “– Morar no Recife hoje em dia me faz sentir como um absorvente. – Não entendi.– O lugar é bom, mas o momento é crítico.” (p.78)

A sexualidade, que é o motor da ação do serial killer, é tratada com humor e ironia, expondo os personagens com seus preconceitos, como é o caso de um homossexual enrustido, que age como homofóbico: “Gomes já deu provas suficientes de ser homofóbico e a homofobia, convenhamos, é fruto de um amor homossexual traumatizado, a soma de desejos reprimidos que permanecem latentes, pressionando de dentro a personalidade de Dúbio Gomes, empurrando-a em direção  da neurose, quiçá do fascismo (já que o fascista é só um neurótico que cumpriu suas ambições.” (p.42)

As cartilhas com conteúdo sexual, assunto polêmico na atual campanha presidencial, é abordado também com tintas da ironia: “Já no carro, durante o trajeto, escuta no rádio que, ano que vem, o governo vacinará contra o HPV, prioritariamente, meninas entre dez e onze anos de idade. Esse mundo está todo fodido mesmo, pensa Gonçalo Magela […] logo teremos cartilhas  de educação sexual nas escolas, orientando o que se deve fazer caso o dente de leite caia durante o sexo oral. Fato: não sei de que modo o assassino ainda consegue achar virgens nessa cidade sórdida, ainda por cima ruivas, ele completa. Se Raymond Chandler estivesse vivo, com certeza, escreveria um livro sobre o assassino de ruivas.” (p.161)

Dizer que se se trata de um romance lúdico ainda é muito pouco: a narrativa de E se Deus for um de nós é um grande desconcerto, no sentido de provocar constantemente o leitor, deixando-o literalmente zonzo, como se lê na p.352: “[…] Que não sobreviveu ninguém para contar a história. Que a história, aliás, era muito feia para ser contada. […] Parecia zonza com tanta informação despejada de uma só vez.” A presença de um personagem como Brum, mais onomatopeia do que nome, ajuda na construção barulhenta de figuras insólitas, como exibem as passagens: “Brum era um homem obsessivo e ciumento, que piorou bastante nas últimas semanas, sobretudo depois de a empresa que representava ter recusado sua ideia de montar uma linha de bichinhos de pelúcia com problemas mentais, os quis, segundo Brum, ajudariam a ensinar, de uma forma lúdica e finalmente, crianças a conviverem com as diferenças.”(p.164); “Brum foi detido no Aeroporto Internacional dos Guararapes […] levando na mala cinco protótipos dos seus brinquedos, com os quais esperava negociar a patente em Amsterdã. Entre eles: Durva, a tartaruga com síndrome de pânico; Lilith, a cobra anoréxica; Poliana, a ovelha com múltiplas personalidades; Troto, um crocodilo com fobia à água; e Sandrine, um hipopótamo albino com compulsão por comida.” (p.165)

Para quem desejar trechos, digamos assim, mais sérios, é só colher passagens que parecem um pouco aforismáticas: “Quem viaja é impelido para o futuro.” (p.25); “– […] deveríamos ter escutado nossas mães e estudado. Desde que o mundo é mundo que o livro é mais leve que a enxada.” (p.238); “[…] nenhum objeto é capaz de atiçar ou produzir um desejo. Ao contrário: é o desejo que, em seu movimento de dispêndio, torna desejado um objeto, como uma flecha que só procura um alvo depois de lançada.” (p.342); “[…] quem está cheio de si fica vazio de todo resto.” (p.362).

Quanto a mim, prefiro imagens assim, hilariantes, hiperbólicas, encharcadas de humor: “[…] parecia excessivamente sério, mas era a seriedade de um javali mijando sob a luz fosforescente.” (p.238); “[…] o álcool ajudava a destravar sua língua e até ali já bebera cerveja suficiente para inundar a Mongólia, isso sem contar a parte que Mulligan bebeu, a qual daria para alagar, senão o Vietnã, ao menos a região norte do Vietnã.” (p.272)

O leitor, afinal, mesmo morrendo de tanto rir, deverá reconhecer que está nas mãos de um bom assassino, ou “assassigno”. como diria o poeta Márcio Almeida. Tadeu Sarmento não se furta de, à maneira dos pós-modernistas, dar sua pitada metalinguística, como na p.214: “Não existe relação hierárquica entre leitor e escritor, Belino pensava, já que ambos caminham inseguros sobre o mesmo campo minado. Só que em horários diferentes, Belino completou para si mesmo e, ainda que se sentisse perdido, pois, a literatura só atrai os nostálgicos, os exilados, os que não se sentem bem em lugar algum, salvo no rio irreal dos parágrafos de um livro, Belino e Graham Greene se encontravam na mesma página, dançando desprotegidos, de patins, sobre pistas de gelo, ou atravessando, vendados, numa corda bamba em dia de vento, cada qual com seu salto quinze, pontudo.” E, mais adiante, quase no apagar das luzes de sua lúcida obra, ainda vem com esta: “Pois não estamos escrevendo ficção. Tudo o que descrevemos aqui aconteceu, só que mais ou menos. Mas mais para mais que para menos, segundo a escola Kurt Vonnegut para picaretagem & piano. O problema é que tudo que aconteceu tem um tempo e memorizar, no limite, é de fato polir. A imaginação é uma memória polida, aparada em suas arestas, pronta para ser recontada.” (p.376)

Queria rosetar mais ou menos assim. E, depois de vampirizar o texto do Tadeu Sarmento, volto aos versos da balada do vampiro curitibano: “ó curvas ó delícias/concede-me/ essa ruivinha que aí vai/a doce boquinha suplicando beijo/ventosa da lagarta de fogo é o beijinho da virgem”.

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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O exercício da distração – De Kátia Borges

Por Adriane Garcia

 

O livro que me acompanhou durante esta semana foi O exercício da distração, da poeta Kátia Borges (ed. Penalux, 2017). Li-o duas vezes, para melhor ficar distraída. A distração que Kátia oferece é aquela que nos faz sair do mundo ordinário. Não à toa, a capa traz acrobatas em equilíbrio no topo do Empire State, uma fotografia de 1934. Mas que diabos fazem três pessoas numa performance arriscada e inútil? Que diabos faz Kátia, construindo um livro de poemas (antes: lançando um olhar para a poesia das coisas), recusando-se a ser simples engrenagem neste sistema que apenas quer nos consumir o tempo de vida, apertando seus parafusos?

 

O exercício da distração é uma resposta rebelde. Uma resposta rebelde silenciosa, visto que a poesia é capaz de se comunicar no silêncio do outro. É rebelde porque se insere no mundo do cansaço, e teima: “Dizer do medo, a coragem/com a qual dançamos a vida/sem descalçar os sapatos”.

 

Dividido em três partes, Como se fosse o órgão vivo, Fugas extraordinárias e As pequenas vilanias da cidade, o livro se comunica o tempo todo com seu título. A distração, a inadaptação, o mundo como um não-lugar para os sensíveis, para a sensibilidade. A máquina do capital a massacrar as pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e o amor.

O amor, em O exercício da distração, é a “caça inútil”, a busca difícil, mas a busca da qual não se pode fugir, a busca necessária. O amor “arrasta os astros/pros lugares certos” e dá sentido ao que não tem. É o grande consolo, é a mão próxima, a possibilidade da dor compartilhada: “estou cansada de sentir este aperto no peito//amo esta mulher que diz que passa”. Ao mesmo tempo, não há ingenuidades, há uma maturidade nos versos de Katia Borges que não permite ilusões. A fantasia é proposital, a fantasia é um mecanismo de quem escolheu dar conta do mundo pelo seu avesso, mas com total consciência do processo. Este poema, que me lembrou dos momentos finais de Lorca, dá a dimensão do conflito tão presente neste trabalho:

 

Teu movimento

 

Antes que te chame

o pelotão de fuizilamento

repara o pássaro

apara o dia.

 

Há um olhar que se derrama

lento sobre a vigia

e graciosidade no andar

do carcereiro.

 

Antes, sim, que chamem

o teu nome, anota

num papel ou na parede

certo verso de cimento.

 

Na argamassa firme

teu movimento.

 

 

A distração é o exercício da liberdade, exercício cerceado, que só pode acontecer como desobediência, estranheza ou mesmo loucura, como a poesia. Já nos títulos de alguns poemas, a poeta brinca riscando palavras: Anotações para um poema sobre pássaros (sapos) flores. É assim, nas brechas, que se vai criando possibilidades de escolha para se inventar a própria autonomia. A poeta anda presentemente em sua cidade, indaga o mistério das perdas e sabe da resignação quanto a essas fugas, observa o mundo para além do que ele quer mostrar – falávamos sobre a distração como ato de rebeldia, a poesia como recusa à cegueira imposta.

 

Os poemas são de grande musicalidade, e há imagens imperdíveis, como em Hashi: “tão tristes os três tigres/do I Ching/espreitam o amor, a caça inútil// seria bom se descansassem/o peso das pernas,/seria bom se repousassem/o rosto nas patas”.

 

Por fim, O exercício da distração é um livro que traz paradoxos. Se por um lado, a distração parece que aliena, Kátia vem mostrar que, ao contrário, a distração é o que nos mantém vivos e acordados. E, obviamente, ela não está falando da distração permitida, da distração de massa, que quer fechar os olhos, banalizar até o ponto de não mais se poder perceber. A distração de que Kátia fala é aquela que nos abre ao desejo de molhar a planta que avistamos na varanda do vizinho, tão próxima ao nosso apartamento, afinal

 

“A vida é esse verde entre nós.

 

Talvez os biólogos nos expliquem

a fluidez do amor, a essa altura.

Serei melhor se lançar água

e, dessa distância que penso segura,

salvar uma begônia.”

 

Um livro lindíssimo. Para ler e reler.

Réquiem para Toda Poesia

Eu não quero relativizar a morte de Ferreira Gullar. Para minha coluna de hoje eu reuni algumas das anotações que fiz rapidamente. Não quero ter paciência para discutir a importância da obra ou aspectos da vida deste homem que tanto admiro. Foi poeta, resta ao mundo a obra; foi um homem de seu tempo, viveu para si e de acordo com o que acreditava, colocou sua vida em risco por isso. O que conhecemos da vida hoje é um passeio no shopping center, Gullar foi ao céu e ao inferno de sua época e isso é mais do que todos da minha época fizeram.
Calo minha pena pela eternidade do minuto e reabro os olhos mais lúcido que um poema. O morto apenas morre, eternamente, infenso à realidade que insiste.

Minha primeira impressão, a notícia da morte.

Eduardo Rocha, o artista que ilustra a zonadapalavra, ligou para mim, pela manhã e disparou a notícia que eu ainda não vira em nenhuma mídia. Há anos somos amigos e Ferreira Gullar, por representar um ponto de encontro com a poesia e as artes plásticas, também pautou nossa amizade. Sempre admiramos Gullar e não perdíamos oportunidades de ouvi-lo falar ao vivo. Além do pesar de não ter conhecido mais o autor que tanto admiro, escrevi algumas linhas, que reproduzo abaixo. Não tinha intenção fazer nenhum poema extraordinário, mas a lição é que, diante da morte, só na arte encontramos respostas.

Era a manhã de dezembro,
o dia tomava a vida.
Era a manhã de dezembro,
não era poesia.
Era a manhã de dezembro
e a voz do poeta sucumbia.

Nada se sentia além,
a vida continua, infensa
ao corpo
ao ar,
ao  b a r u l h o  incendiando
o  ú l t i m o  ruído.

Era a manhã de dezembro,
o poeta Ferreira Gullar partia
e acendia-se o espanto
em Toda Poesia.

Segunda impressão, a lembrança da obra.

Já fui acadêmico. Hoje não sei com clareza o que sou. Ferreira Gullar é o poeta brasileiro que mais me impressionou e não exagero em dizer que é minha maior influência sempre que escrevo. Dediquei alguns anos da minha vida pesquisando sua obra, tanto poética quanto crítica. Muito do que eu entendo sobre arte hoje vieram das explicações dele sobre a contemporaneidade e suas vanguardas. Minha primeira reação ao choque da sua morte foi rabiscar algo. Agora, acho justo oferecer, a quem se interessar, alguns textos.
Depois da minha defesa, liguei para Gullar, que me recebeu em seu apartamento. Entreguei-lhe meu texto,e ele cordialmente agradeceu pelo tempo que dediquei estudando seus poemas. Eu era tímido demais e mal consegui conversar muito, estava assoberbado pela sala com móbiles, livros, pinturas e objetos de arte sobre os quais apenas havia lido a respeito, mas reconhecia ao primeiro olhar. Hoje entendo que tanto quanto a admiração, meu respeito pela privacidade do artista me emudeceu.

Link para minha dissertação sobre a poesia de Ferreira Gullar:
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=7212%401

Link para um artigo sobre o livro A luta corporal:
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/rev_escrita.php?strSecao=input0

Link para artigo historiográfico sobre Ferreira Gullar:
http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/terraroxa/article/view/24736

Terceira impressão, um poemínimo sentido.

Todo o conteúdo desta coluna nesta segunda-feira, eu considero como um tipo de crônica. Apenas, ao invés de ficar remoendo elogios e ressentimentos sobre a vida de Ferreira Gullar, onde não consegui ser um escritor mais objetivo ou um poeta mais armado, preferi ser de alguma utilidade para o leitor da zonadapalavra e acrescentar algum conteúdo extraliterário.
Para terminar, mais uns versos que valham.

perdi a gravidade
sou poema
sussura a palavra
amena
a velocidade da vida
acena
que a beleza mesmo
pequena
faz a vida
plena

R.

contra-a-morte

Contra a morte, 2016. Fotopoema do autor.  Em.: http://www.instagram.com/robertodutrajr

 

ESCRIPTONITA, ARE GO!


Hoje eu quero usar minha coluna para falar de um lançamento.

Editora Patuá finalmente revela as identidades secretas dos poetas mais eXtraordinários deste lado da América do Sul. Foi lançada neste final de semana, na Patuscada pelo neonovíssivo selo Patuá Comics A incrivelmente sensacional ESCRIPTONITA, antologia Pop/poesia, mitologia remix & super-heróis de gibi.

Além deste zonador que lhes escreve há também os zonadores: Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri, Nathan Souza, Ronaldo Cagiano. O pósfacio é assinado pelo Furio Lonza, aquele mestre Jedi da genial e pioneira Chiclete com Banana. Sintetizo minha empolgação com as palavras do editor, Eduardo Lacerda, que registrou no colofão:

quem salva
o dia?
só a palavra

na poesia.

tiragem indefinida: para o alto e avante!

Charles Xavier, fica a dica, este é um volume indispensável para a biblioteca da Mansão X. Sei que o Batman já encomendou uma caixa pra Sala de Justiça. O Homem-Aranha está sem grana, mas como o Peter Parker tirou a minha foto eu adiantei um volume pra ele.

Deixo abaixo um dos poemas que foram publicados (Sim, os super-autores tem mais de um texto, não é uma antologia peso-mosca, é da categoria da Métal Hurlant, pesada!!)


A solidão do Senhor Anderson (da trilogia Matrix)

De repente algo grita dentro mim.
Não gosto de estar sozinho,
não quero pensar,
não quero dormir.

Preciso dormir.

Súbito eu não mais vivo aqui.
Eu quero me curar do que sinto.
Quero curar os caminhos do mundo.
Tem dias que eu quero tomar o mundo de assalto.

Preciso me desplugar.
Fazer minhas regras…
Essa constante sensação de que há algo mais,
tudo são ilusões e eu preciso saber
qual meu papel no simulacro…
Eu sigo o coelho branco.

 

Robert Cage, já com seu exemplar à prova de balas.

Roberto Cage, já com seu exemplar à prova de balas.

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adquira o seu exemplar aqui: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=377&Itemid=53

GRAMÁTICA CONTEXTUALIZADA

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                                                        Leo Barbosa

                                           (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                        Gramática contextualizada

         Não é de agora que presenciamos um ensino de Língua Portuguesa pautado numa gramática obsoleta, marcada por discursos preconceituosos, desconhecendo a língua como construção social. Prega-se uma fala e uma escrita que é utilizada por uma minoria – aqueles que tiveram acesso à escola e dela extraíram proveito suficiente para falar e escrever um português culto.

   É lamentável e pouco produtivo reduzir o ensino de língua à Gramática Normativa, que dita construções sintáticas que são rarissimamente utilizadas até pelos falantes mais cultos, a exemplo de: “assistir ao filme” “namorar alguém”. Além disso, não são nomenclaturas que aumentarão a nossa performance linguística, mas a reflexão e o uso da língua. É proveitoso saber o que é uma “oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo” se eu não confiro a essa construção uma prática, marcada por um contexto e, logo, por uma semântica?

  Ainda que tenha sido acordado que devemos nos pautar por gramática contextualizada, o que vemos são as mesmas práticas de estudo de gramática. Grande parte dos livros didáticos ainda insistem em exigir do aluno que “retire os substantivos do texto”.

  Segundo Irandé Antunes, em “Gramática contextualizada” (Parábola, 2014) falar em gramática contextualizada é um tanto redundante porque a linguagem nunca ocorre de maneira isolada, fora de um contexto – linguagem é interação e só ocorre se houver um objetivo de comunicação.

   Nós, na condição de professores de Língua, precisamos refletir sobre nossas propostas de ensino, questionando o que concebemos como gramática quando visamos ensiná-la. Essa se aplica a qual contexto? Oral, escrito, formal, informal? E a qual gênero textual? Quais são os usos?

    O essencial é garantir aos nossos alunos o acesso constante aos vários tipos e gêneros textuais, para que os discentes sejam capazes de interpretar qualquer texto e de lograr êxito nas variadas situações de comunicação. Infelizmente, são raros os profissionais que inserem o texto como protagonista da aula de Língua Portuguesa. Geralmente, o tempo é ocupado com análises sintáticas e morfológicas de frases descontextualizadas, sem que ao menos reflitam sobre a tradição, sem fazer paralelo entre a norma e o uso. E mais (ou menos?): quase nada de escrita de textos – raramente considerando-se a delimitação temática e o gênero textual a ser desenvolvido, pouco exercício da oralidade formal, quase nenhuma atividade voltada à ampliação do repertório vocabular (à exceção dos ditados).

      Sem práticas como essas, continuará a se perpetuar a falsa ideia de que os alunos não sabem falar português, desconsiderando o que eles já dominam. Suas variantes linguísticas estão repletas de complexidades que podem e devem ser exploradas. Enfatize-se que não se defende a abolição da norma culta, mas que essa deve se pautar na observação dos usos orais e escritos da atualidade, nos vários âmbitos da cultura letrada brasileira.

   Inadmissível é exigir que alguém fale ou escreva como um Machado de Assis, um Guimarães Rosa, um Graciliano Ramos. Ninguém se expressa literariamente o tempo todo, tampouco é uma Gramática Normativa ambulante. Até os falantes mais cultos seguem uma norma mais flexível, por muitas vezes perde-se a referenciação dos pronomes, cometendo “erros” de concordância verbal e nominal.

   A língua está em constante mudança, e desconsiderar isso é ser retrógrado, contrariar o princípio de que a nossa experiência de linguagem está ancorada na vontade de inserção em um grupo social. Também vale lembrar o que disse Mário de Andrade (no início do século XX!) – é o povo que faz a língua, ou, como disse Marcuschi – “São os usos que fundam a língua e não o contrário”.

                                                                         Leo Barbosa é professor e poeta

SEM SELO DE GARANTIA

                                                 Leo Barbosa

                                  (escritorleobarbosa@hotmail.com)

 

                                            Sem selo de garantia

 

     Uma das muitas coisas que o ofício de professor permite é o da observação. Estamos o tempo todo em contato direto com múltiplos pensamentos. É a oportunidade de nos certificarmos o quanto o mundo é plural. Tenho vivido sobretudo com jovens. Percebo que são pessoas inquietas, cheias de possibilidades, de informações, mas, muito mais angustiadas. Angustiadas pelo deslocamento que a condição de jovem os coloca. Não são adultos. Não são crianças.

    Há tantas formas de adquirir conhecimento, mas a sabedoria está em filtrar as informações que nos chegam. Há muito barro entre os diamantes. Quanto tempo é desperdiçado em conversas infrutíferas, em programas de TV fúteis e em troca de mensagens via whatsapp, sms, facebook, etc. Mesmo que intuitivamente saibam do desafio que é passar em uma universidade e se consolidar no mercado de trabalho, eles preferem acreditar que terão as mesmas condições financeiras dos pais sem que para isso tenham que investir em força de trabalho, na garra cotidiana.

    Não raramente me deparo com um grande grupo de estudantes que, embora estejam em cursinhos preparatórios, ainda não decidiram qual profissão querem assumir. Estarão subestimando o tempo ou crendo que há sempre um plano B que os farão ter êxito?

    Geralmente, são esses filhos da classe média que estudaram em bons colégios, aprenderam outros idiomas, têm celulares modernos, tablets, videogames e toda a parafernália tecnológica. Entretanto, a eles faltaram o essencial: aprender a lidar com a frustração. Não raro são esses que quase nunca receberam um não. São esses que quando quebravam os brinquedos os pais imediatamente repunham (às vezes até por um melhor). Esses jovens não aprenderam a perder. Esses assimilaram que os pais são empregados prontos a servi-los.

    Só que, lamentavelmente, o mercado de trabalho não será assim tão complacente. Não adiantará fazer birra, gritar, espernear. A felicidade não se conquistará com o choro. O chefe não será um pai que concederá bens mesmo quando não houver mérito. Os pais precisam entender que há duas premissas básicas na educação: ensinar que há frustração, e que o esforço são exercícios do amor. Hoje limitamos nossos filhos para depois não fiquem estacionados.

    Genialidade não é um dom. Ninguém se orgulhe de um filho que passou noites nas baladas e mesmo assim passou na particular de medicina. Suar é digno – não é coisa para a classe C. Deixemos o culto à mediocridade de quem acha que ser bem-sucedido é “cruzar os braços e aproveitar a vida enquanto é jovem”. Felicidade não é um direito, é um dever que devemos cumprir diariamente. É uma conquista que se consolida através da labuta.

   Ser bem-sucedido não é estar sempre sorridente, nunca falar sobre os medos, nunca pedir perdão. Mais vale aguentar alguns minutos de choro a uma vida inteira de lamentações. Só será “rei” quem aprender a ter autonomia. E isso não se adquire em lojas de brinquedos. E a vida não vem com selo de garantia.

 

                                                                              Leo Barbosa é professor e poeta

POR PROFESSORES QUE LEIAM

                                                Leo Barbosa

                                    (escritorleobarbosa@hotmail.com)

                                       Por professores que leiam

      Por que será que nossos alunos passam onze anos na Educação Básica e chegam aos 18 anos de idade sem saber ler, escrever, ouvir e falar de maneira satisfatória? Cansados estamos de ver os elevados índices de reprovação dos discentes brasileiros.

    Sem exagero: não raro analfabetos ingressam em Universidades, e semianalfabetos estão ministrando aulas pelo país afora. Já me deparei com professores que dizem que não gostam de ler e que são incapazes de produzir um texto coerente e coeso. Então, como esses profissionais, independentemente em qual matéria curricular atuem, podem convencer os alunos da importância do ato de estudar e ler se eles mesmos não o fazem?

    Ninguém me argumente que a falta de tempo ocorre por causa da enorme carga-horária que os docentes assumem para que (sobre)vivam, como forma de justificar a renúncia à própria capacitação. Tampouco me digam que os baixos salários impedem a aquisição de livros. E as bibliotecas? Não existem ou estão defasadas? E o que dizer de pessoas próximas que possam emprestá-los para leitura?

    O ofício de professor deve ser para pessoas inquietas. Muitos teóricos, que não ficam apenas na teoria, já disseram que o professor deve ser aquele que desperta a curiosidade, que “provoca a fome pelo conhecimento”. E mais: o profissional da Educação deve mostrar convencimento naquilo que prega.

   Não devemos nos acomodar a essas justificativas para camuflar nosso fracasso, mas em alternativas que nos conduzam ao aperfeiçoamento da nossa profissão e, consequentemente, da nossa postura de cidadão. Se você é professor e não está nada satisfeito, então, por favor, faça a cortesia de desistir o quanto antes, porque provavelmente cederá à mediocridade, o que naturalmente ocorre com quem não tem apreço pelo que faz.

    Corre-se o risco de ao invés de professores nos tornarmos meros reprodutores de um saber sem sabor, de um conhecimento estanque e silenciador tanto para com os docentes quanto para os estudantes. É preciso refletir sobre as práticas educativas, questionar-se, duvidar do que os livros didáticos oferecem. Como ser um bom professor se nem o livro didático, material muitas vezes imposto pela instituição de ensino, o mediador do conhecimento não sabe analisar?

     Esse texto não tem como objetivo culpar os professores pelos altos índices de analfabetismo do país, mas promover uma reflexão sobre nossa postura perante nossas práticas.

    Muitas urgências marcam nossa vida pessoal e escolar : entregar notas, cuidar de um parente,  ministrar aulas em outra escola para aumentar a renda. Com tantas tribulações, resta pouco tempo para olhar com calma para nós e para os nossos alunos. Resta também quase nenhuma iniciativa coletiva dos docentes, porque quase não há disposição individual. Não queiramos ser mais um no meio da multidão.

      Interesse-se por si, pela profissão, pelos alunos. Amor não pagará nossas contas? Pagará sim, porque com amor nós lutamos, avançamos, nos destacamos, vencemos as lutas e os lutos diários de qualquer profissão.

                                                                       Leo Barbosa é professor e poeta