Arquivo do autor:AMADOR RIBEIRO NETO

Sobre AMADOR RIBEIRO NETO

Professor, poeta, crítico literário.

A POESIA DOS MESTRES

entregando meu paideuma em poesia brasileira

Amador Ribeiro Neto

Enquanto leio a produção poética contemporânea brasileira estou sempre relendo os poetas canônicos. Hoje quero falar de três modernistas: Bandeira, Mário e Oswald. E de três contemporâneos: Drummond, Cabral e Augusto.

Bandeira surpreende pelo inusitado do cotidiano. Ele o vê tão de perto que nem parece realidade. Parece coisa de cinema. Ou cena de teatro. Tudo ali, à nossa frente. Na integridade de sua nudez mais coloquial. Sua musicalidade, aliada da entoação usual, resgata a fala do povo, como sempre desejou T.S. Eliot. E cria imagens sublimes da mais pura poesia. Ler Bandeira é ouvir a voz da criança, dos amantes e dos desvalidos. Tudo em sua poesia se torna ouro de mina.

Mário de Andrade retrata a alma do caipira e a do homem das cidades com uma verticalidade que revela o quão pouco, nós brasileiros, nos conhecemos. Sua apropriação do modo de falar do brasileiro, quer na semântica, na sintaxe ou na inflexão melódica, desalojou a poesia empolada que, em grande parte, ainda tomava conta do cenário poético. Ele foi um demolidor do império dos sentidos exacerbados. Depois dele ninguém mais pôde fazer poesia com sabor parnasiano. Mas fez-se muita. E ainda se faz. O que revela, por parte destes ditos poetas, anacronismo estético e cultural.

Oswald, com seus  poemas-valise, poemas-pílula,  poemas-piada tirou o tapete de seriedade bem comportadinha. Ele invadiu a Carta de Caminha e desentranhou dela poemas antológicos. Pegou a antropofagia de nossos  índios e a alçou ao grau de uma estética filosófica. Releu a história da nossa colonização esculhambando tudo que merecia ser implodido. Até hoje é um  demolidor de mentes estanques.

Drummond, que não participou da Semana de 22, mas soube herdar dela o melhor, dispõe a vida em peças expostas tão ao sol e à luz que parecem de cristal, ao invés de barro. Seu humor corrosivo, sua lírica contida, seu senso de realidade social espelham um leque do homem brasileiro, e do homem de todas as geografias, criando um universo exemplar do que de melhor se produziu no país. Com sua marca definida, acabou deixando herdeiros de meia pataca. Aos montes. Mas o mais importante é a sua obra. Singular. Única. Que mexe e remexe com o leitor. Em qualquer época. Ou lugar.

João Cabral revolve a matéria com tanta força e gana que nem parece que uma construção rigorosamente organizada dos versos e da poesia está presente ali. Seu apego à forma entrelaça-se a uma consciência de mundo social e artístico, num contínuo jogo de interdisciplinaridades e intertextualidades sígnicas e históricas. A palavra é tomada na sua materialidade mais concreta e  palpável. A rima camufla-se nas vogais tônicas. A imagem condensa-se em tomadas microcinematográficas. Tudo é parcimônia. E beleza.

Augusto de Campos toma a palavra  como matéria e a faz concreta ou maleável, conformando-a a seus quereres. Que são muitos ao longos de seis décadas de poesia. Augusto ensinou os poetas do mundo  todo a trabalhar a palavra com rigor e sensibilidade, como coisas complementares. Um poeta  digital  “avant la lettre”. Ainda  hoje sua poesia é negação da facilidade.

Publicado pelo Correio das Artes, suplemento cultural do jornal A União, de João Pessoa, que circulou dia 28 de dezembro de 2014, com data dezembro/2014. Ano LXV, nº 10, p. 42.

POESIA DE AÇUCAREIRO

Amador Ribeiro Neto

 

Ana Martins Marques (Belo Horizonte, 1977) é mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Foi contemplada duas vezes com o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Literatura. A vida submarina (2009) reúne os poemas premiados.  Com Da arte das armadilhas (S. Paulo: Companhia das Letras, 2011) recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional.

As orelhas de seu mais recente livro são assinadas por Armando Freitas Filho, um nome respeitado por considerável número de críticos e leitores. Ele diz que leu os livros da poetisa num fôlego só, “de fio a pavio”. E acrescenta: “Não dá pra largar ou intercalar”.

O autor das orelhas mente. Esta poesia é um enfado.  A vida submarina nos oferece no máximo três poemas razoáveis, num volume de mais de 140 páginas. Ana Martins Marques peca pelo óbvio: nada tem a dizer e nem ao menos conhece a linguagem para dizer nada. Enfim: exaure. Dá nos nervos.

Considere, leitor, “Batata quente”: “Se eu te entregasse agora o meu amor / aceso como ele está, / como ele está, pesado, / você o trocaria rapidamente de mão, / você o guardaria um pouco na esquerda, / um pouco na direita, / por quanto tempo antes de o passar adiante?”. “Batatinha quando nasce” tem mais ritmo, imagens e ideias.

Agora veja “Reparos”: “Algumas coisas / quando se quebram / são fáceis de consertar: / uma xícara lascada / uma estatueta de gesso / um sapato velho / uma receita que desanda / ou uma  amizade arruinada. / Ainda que guardem / as marcas do remendo, / é possível que essas marcas / tenham  um certo charme / como algumas cicatrizes. / Mas experimente consertar / um poema que estragou”. Eis um poema de autoexorcismo, sem dúvida. A poetisa deveria ler o que escreve. E jamais publicar o que escreve. Já que nasce estragado.

O aborrecimento prossegue em Da arte das armadilhas. O lugar comum mais o prosaísmo e o coloquialismo insossos são a tônica ao livro. Se um concurso pode ter jurados bestiais, como entender os critérios de edição e seleção de uma prestigiosa editora como a Companhia das Letras ao publicar este miserabilíssimo volume?

Abre-se o livro e a poetisa Ana Martins Marques vem com o “Açucareiro”: “De amargo / basta / o amor // Agridoce, / ela disse // Mas a mim / pareceu / amargo”. Falta de expressividade quase absoluta. Estou pasmo. Trocadilho rude. Três estrofes competindo entre si: qual delas esgota mais rapidamente a paciência do leitor? Por ser o poema que abre o livro, não deixa de ser emblemático, não é mesmo, leitor?

Mas ele não está só. Encontra companhia em “Capacho”, que cito, tal como os anteriores, inteiramente: “Home / sweet / rua”. Pronto. É só isso o poema: um trocadilho de capacho. Outro: “Cinema”: “Encontramos na rua / uma fileira de cadeiras / de um velho cinema / levamos para casa / colocamos na varanda / passamos toda a tarde / bebendo e fumando / assistindo passar / um dia qualquer”. Nada mais nada igual a zero.

Veja agora o que ela diz em “Teatro”: “Certa noite / você me disse / que eu não tinha / coração // Nessa noite / aberta / como uma estranha flor / expus a todos / meu coração / que não tenho”. O leitor queria mais? A poetisa premiada não tem mais nada a oferecer.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 05.12.2014, p. B-7.

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POESIA DO ENREDAMENTO

Amador Ribeiro Neto

Alexandre Guarnieri (Rio, 1974) é Mestre em Tecnologia da Imagem pela Escola de Comunicação da UFRJ e arte-educador. Um os editores da prestigiosa revista eletrônica Mallarmargens. Estreia na poesia com Casa das Máquinas (Rio de Janeiro: Editora da Palavra), num belo projeto gráfico que faz jus à formação do poeta.

No entanto, enganam-se os que supõem ser a imagem a força de sua poesia. Não é. Ainda que presente, junto a um elaborado jogo de sonoridades, é o elogio da ideia que perpassa o livro enquanto dominante.

E aí reside um dos grandes méritos de Alexandre Guarnieri: aventurar-se pelo enredado universo temático, tomando-o como matéria da produção de sua poesia. Não é fácil, mesmo para poetas veteranos, a confecção de uma obra monotemática. Mas se o tema é uno, o poeta sabe extrair dele várias nuances, assegurando ao livro uma multiplicidade de enfoques.

O que poderia resultar em redundância ou repetição converte-se num procedimento lúdico de lidar com as peças da poesia-máquina. O poeta flerta com o futurismo, embrenha-se em engrenagens, tal como o operário chapliniano, mas sabe que a linguagem da poesia é sua ferramenta de trabalho. Por isto sua poesia é inventividade, concentração em alta voltagem crítica. E metalinguagem par excellence.

No campo das intertextualidades, o poeta deslinda-se em várias e longas epígrafes, a ponto de sua poesia ser obstinada conversa entre homens da palavra. Nem sempre os escolhidos são nomes significativos no campo da poesia. Todavia, não há como negar que os poemas, ou fragmentos citados, têm qualidade estética. E desempenham a contento a função de propulsores de novos motores do poema.

Há Francis Ponge. Uma presença marcante. Ao lado de João Cabral. Mas vem de Haroldo de Campos a mais contundente influência. Na elaboração da linguagem. Na facilidade ao criar palavras novas. No apuro de desentranhar outras do uso coloquial ou técnico. E aí Alexandre Guarnieri sabe ser aquele que aponta para os mestres, e deles se vale para o salto qualitativo de uma poesia que já nasce com fortes tintas do que todos almejam: a marca pessoal.

A identidade desta poesia, em livro de estreia, faz-nos concluir que estamos diante de um poeta forte. Não apenas promissor, já que sua poesia nasce madura. Antes: Alexandre Guarnieri é poeta daqueles da estirpe do aço inox. Dos que lidam com a matéria bruta da palavra dobrando-a a duros golpes. Anos-luz distante do papel alumínio que forja a máscara de grande parte da “galera” de sua geração.

Casa das máquinas nos traz um poeta que conhece a história da poesia. Da nossa poesia. E da poesia francesa, em especial. Além de Ponge, um toque de Baudelaire e outro de Mallarmé está na apreensão do real e no seu correlato na produção de uma linguagem objetiva. Está nos meandros de uma sintaxe que apropria-se da contiguidade da lógica. E a detona em  poeticidade sem acasos: flores-parafusos.

Casa das máquinas é uma só engrenagem, montada sob engenhosidade única. O leitor exigente tem diante de si um admirabilíssimo livro de poesia. Alexandre Guarnieri estreia sólido, seguro, altivo.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 28.11.2014, p. B-7.

POESIA DE OSSO E TUTANO

Amador Ribeiro Neto

 Sérgio de Castro Pinto (João Pessoa, 1947) é poeta, ensaísta e professor de literatura na Universidade Federal da Paraíba. Sua poética inclui Gestos lúcidos (1967), A ilha na ostra (1970), Domicílio em trânsito (1983), O cerco da memória (1993), A quatro mãos (1996), Zoo imaginário (2005), O cristal dos verões: poemas escolhidos – 40 anos de poesia (2007).

A flor do gol (São Paulo: Editora Escrituras, 2014) é seu mais recente livro. A obra tematiza, entre outros, o futebol e os bichos. Mas o tema é o menos importante para este poeta. Ele toma o mais corriqueiro acontecimento, o mais óbvio objeto, os mais domésticos animais e adensa-lhes a cor, a textura, o volume, o som, a imagem. Tudo pelo poder restaurador da linguagem.

A palavra é o osso e o tutano desta poesia de estrutura e músculos. Tudo rijo. Porque o poeta não perde tempo com diluições. Nem rarefações. Seu tiro é certo no cerne da palavra.

Se há memória do futebol? Há. Se há trejeitos dos bichos? Há. Se há amor e mordacidade? Há. A melancolia visita a morte em vários poemas. E sempre zombeteira. Alguns de frente. Outros, de soslaio. Jamais trágica. Ele fisga a dor no caniço pensante do coração que ri, qual o “tristíssimo palhaço” de Cruz e Sousa: zombeteiro.

O que conta são as tomadas pictóricas de cenas de fotografias e sequências cinematográficas. As primeiras, não raras vezes congeladas. As últimas, em câmera lenta. Parcas palavras. Vasto campo de visão.

Estrofes curtas várias vezes encerram o poema num único verso. O estampido da surpresa à la Poe é alumbramento para olhos, ouvidos e cabeça do leitor.

Sim, o som e a imagem operam o sentido em engendrado movimento de interação recíproca. Até parece coisa de malabarista. De cancionista. E pode ser: poemúsica.

Não há trem em “Aniversário”, mas ele apita no descarrilhamento das estações. Homero é um fio de tinta esboçado nos “dedos róseos da aurora”. Oswald vem cortante nos “transatlânticos singrando as águas da infância”. Proust transfigurado, é transcriação da poesia em madeleine, o biscoito fino. Por isto mesmo o poema “Intertextualidade” atiça o leitor para o diálogo do poeta com poetas e poemas. Tal como o coração marinheiro de Álvaro de Campos, em “Ah um soneto…”, pulsando agônico em “Urbano”.

Sérgio de Castro Pinto saúda a poesia e o haicaísta conterrâneo Saulo Mendonça ao inserir um haicai dentro dos versos alexandrinos de “Esta lua”: “lua dos haicais, amassada pelas águas. / lua que flagra o súbito peixe-espada / esgrimindo no ar a lâmina prateada”.

Em “O gato e o poeta” as molduras do poema não contemplam apenas os referentes do título. Na dança das fronteiras, o poema vai da vida à morte em lances metalinguísticos desestabilizadores de toda expectativa de ser e saber do leitor.

Quem tiver olho, ouvido, mente e coração abertos se deliciará com a matéria viva e minimalista da poesia anticonvencional de Sérgio de Castro Pinto. O poeta enlaça vida e palavra para erguer a morada da poesia. Tática precisa. Visada certeira. Gol de letra.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 21.11.2014, p. B-7.

POESIA DE MIL ASAS

Amador Ribeiro Neto

 A poeta Líria Porto (Araguari-MG, 1945) publicou Borboleta desfolhada (2009), De lua (2009), ambos em Portugal, Garimpo (2012) e Asa de passarinho (2014) pela Editora Lê, de Belo Horizonte. Os dois últimos, dedicados ao público infantil. Asa de passarinho é um livro que fala de bichos, águas, homem, liberdade e tempo. Tudo numa linguagem suave e sublime. Como só o lirismo delicado e penetrante de Líria Porto sabe ser e fazer. Pra combinar, traz ilustrações de grande beleza assinadas por Silvana de Menezes.

Lendo Asas de passarinho veio-me o poeta e romancista espanhol Ramón Gomez de la Serna (1888-1963), criador das “greguerías”, textos curtos com toque reflexivo bem humorado. Ou, como ele mesmo diz, “o atrevimento de tentar definir o que não pode ser definido”. É dele a frase: “O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar”. “Asas para voar”: a redundância, tomada como nova informação, torna-se chistosa.

Líria Porto parece ter algo em comum  com Gomes de la Serna. Sabe recortar o novo do senso comum. Sabe desentranhar o poético do usual. Sabe inserir a crítica no cerne da criação. Tudo com admirável condensação de ideias, imagens e sons.

Ler sua poesia é voar e levar consigo o peso do corpo. Não é viagem dentro do nada. É viagem no espaço sideral. Por entre astros, estrelas e imaginário provocados. “Sei voar e tenho as fibras tensas” canta Caetano, como se estivesse resenhando a poesia de Asa de passarinho.

Líria Porto tem o dom de cutucar o leitor, mirim e adulto, com fagulhas de palavras incendiadas pela alegria de viver. E pelas brasas de versos que ateiam ações e despertam a vontade de viver.

É que há uma militância em sua poesia. Mas não é aquela esvaziada pelo didatismo. Nem pela arrogância das persuasões. Ela sabe que o que vale para o poeta é a linguagem. De nada adianta o inflamado discurso engagée se algum tempo depois ele próprio dana-se, morro abaixo, nas forças do Tempo e da História. Datado. Vencido.

Assim, um poema como “Liberdade” abraça ternura e provocação infinitas, trans-históricas: “Beija-flor tomava banho / na piscina do vizinho. // Adiantou cerca de arame, / plantar flores com espinho?”. A densidade do poema flutua numa linguagem que nasce na fala cotidiana e corporifica-se na beleza delicada da metáfora. Riso, desafio e encanto. Eis a magia, uma das vertentes de Asa de passarinho.

Em “Cachoeira” o rio do tempo também se mostra contestador: “Serpenteia, / faz curva, / muda o rumo, / quando sente / que o impedem / de andar. // Todo rio / que se preze / fecha os olhos / e pula”. O salto do rio, no escuro, desaguando em cachoeira, é prenhe de significações. E o ritmo dos versos, intercambiando três e duas sílabas, iconiza estes momentos/movimentos de superação.

O nonsense, recurso tão caro aos universos infantil e poético, está presente em “Desperdiçado de cor”: “O que mais tenho vontade / é de rasgar ao meio a tarde / pra guardar o azul / no bolso”. O sublime agasalhado na roupa em forma de poesia. Líria Porto é poeta encantada. E sabe como encantar seus leitores.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 14.11.2014, p. B-7.

A NAVALHA DE CAZUZA

Amador Ribeiro Neto

Cazuza descobriu o Brasil. Escancarou a cara do país. A golpes de lâmina, é claro. Como convém a um poeta.

A navalha de sua “músicapoesia” cortou fundo. Deixou uma cicatriz para as cobaias de Deus continuarem seu (dele/delas) caminho. Afinal, ele disse: “o tempo não pára”, “a burguesia fede” e “o nosso amor a gente inventa”.

Cazuza foi farol na praia de uma geração que mal conhecia o blues, ignorava a prevenção da Aids e vivia porraloucamente a ‘abertura política’ (promovida de cima pra baixo – e por militares). O garoto rebelde e insatisfeito com a vida burguesa que herdara não hesitou em colocar sua dor e seu tesão nas paradas de sucesso.

Ao som  do blues e colado ao corpo da amada ele pede: “me avise quando for a hora”. Gritando um rock primitivo desafia: “Brasil, mostra tua cara”. Nos anos 80 ele é a voz e  poesia de uma  geração que tivera na Tropicália sua última escalada sócio-poético-musical.

Um jovem bonito e cheio de vontades mete o dedo na ferida dos corações aflitos e das mentes politicamente insatisfeitas. Une amor e política no mesmo palco. Sem sucumbir à pieguice política de uma certa corrente ‘engajada’ da MPB, surgida à época dos festivais, mantém-se atento às denúncias e avanços do melhor do rock internacional. Mas não se descuida da excelente MPB dos anos 20, 30 e 40, não sem razão conhecida como “Época de Ouro”.

Antenado com o ontem e o agora, nunca hesitou em expor as dores de um eu-lírico dilacerado pelo desamparo, pela falta de amor, pela inadequação ao mundo:  “você me quer? / você cuida de mim? / mesmo que eu seja uma pessoa / egoísta e ruim?” ele pergunta sem dissimulações, mergulhado na poeticidade da linguagem infantil de um certo Bandeira. Mas se no poeta pernambucano o lado frágil e criança emerge em situações bem-humoradas (como em ‘Madrigal tão engraçadinho’), em Cazuza o adulto volta à infância através da (fratura) da carência afetiva (exposta).

Talvez por isto mesmo um de seus discos se intitule “Só se for a 2”, o que aponta para a inclusão do outro no projeto deste sujeito primeiro. O outro aparece como possibilidade do eu safar-se do inferno. O outro é figura fundante e fundamental. É a possibilidade do céu na terra. Ainda que provisoriamente.

Mas quem é este outro? É o homem, a mulher, o governo, a família, a religião, a droga, o sexo; enfim, os cambau. O outro é complemento de aproximação e repulsa. Motivo de amor e escárnio. O outro é, de fato, complemento indispensável. Tanto a solidão pessoal como a marginalidade social são inimigos combatidos pela evocação do outro.

A não segregação entre indivíduo apaixonado e prática política é uma das metas mais almejadas pelos artistas. Infelizmente a maior parte sucumbe a um ou outro polo. Com Cazuza não. Ele sente e sabe. Canta: “Meu partido é um coração partido”. Que deve ser entendido também como “Meu partido é um coração-partido”.

Por isto o eu de suas composições ama sobre jornais: retratos e representações da vida cotidiana. Política, lazer, economia, esporte, cultura, classificados. Todas as notícias, todos os assuntos, todos os temas se amalgamam em Cazuza

Assim, Rimbaud e Dolores Duran passeiam por suas letras e músicas  de  mãos, copos, drogas e corpos dados. Noel Rosa e Mick Jagger, idem. Lupicínio Rodrigues e Jack Kerouac são companheiros de estrada na busca desenfreada por sentidos para a vida nonsense. A busca por uma estabilidade emocional e sócio-política deste eu aflito encontra em Fassbinder e em Glauber Rocha a violência/virulência de imagens cinematográficas neobarrocas. Os ambientes soturnos de Fassbinder e o sol enlouquecedor de Glauber refletem-se/reverberam-se nos artifícios das letras e dos acordes de Cazuza.  Viva Cazuza!

QUADRA, QUADRÃO

Amador Ribeiro Neto

 1. A quadra

A quadra, formada por versos de sete sílabas que rimam, via de regra, o segundo com o quarto e o primeiro e com terceiro, é um dos modos fixos do poema. Praticada amplamente desde a Antiguidade Clássica, em especial através dos epigramas, tem expressiva presença no barroco.

Ainda que com destacada importância no Modernismo, tanto brasileiro quanto europeu, é através da poesia provençal que ela nos chega. E faz-se presente, hoje, principalmente, nos repentes, desafios e cordéis dos cantadores nordestinos.

Embora simples na forma e versando sobre temas triviais, não é uma poesia que todos consigam exercer a contento. Quem pensa que o simples é fácil, já se engana na premissa principal. E aí tropeça no que acredita ser uma quadra poética – quando, na verdade, estamos diante de uma quadra quadrada, uma quadra careta. Ou seja: feita segundo as normas dos manuais de versificação. Mas desprovida de poeticidade.

Pois bem, entre tantos, Manuel Bandeira valeu-se da quadra em vários poemas onomásticos. Fernando Pessoa escreveu suas célebres “Quadras ao gosto popular”.  Ambos saíram-se muito bem, quer pelo exercício de uma linguagem propositadamente despretensiosa, quer pela engenhosidade de captar o poético em versos coloquiais nada previsíveis.

Uma quadra de Fernando Pessoa: “Tenho um relógio parado / Por onde sempre me guio. / O relógio é emprestado / E tem as horas a fio”. O relógio que serve de guia é aqui um relógio parado. O tempo para o eu-lírico é o da inexistência? Todavia, se relermos a quadra constataremos que o precário, o incerto, o minguado instauram-se ainda mais na vida deste eu ao declarar-se nem ao menos proprietário do relógio. Eis que aí reside uma das chaves que abre a quadra ao inesperado e ao belo poético: mesmo parado, o relógio processa o tempo. O relógio – consciência do eu – acusa o tempo inefável e permanente.

Valendo-se da simplicidade formal da quadra, Pessoa propõe uma reflexão sobre a brevidade do tempo e da existência. Não em si. Mas na contracorrente da relação viver e experienciar a vida em profundidade.

Ao seu modo, despojado e brincalhão, Bandeira dedicou uma quadra a Santa Roza: “Quem é malungo, malunga. / Se não presta este Mafuá, / Ponha, meu Santa, um calunga / No anterrosto, e prestará”. Tudo leva a crer que se trata de uma dedicatória ao livro Cafuá do Malungo do próprio Bandeira, ao amigo Santa Roza.

Esta quadra é uma lúdica reunião de sons e termos partícipes do universo da cultura popular. Entrelaçados com o espelhar dos universos infantil e adulto: lazer e bom humor. O poema sentencia: quem não é companheiro e irmão (= malungo), ao menos o seja na “cachaça” (= malunga), ou que se faça passar por camarada. E há um recado para o Santa: neste parque de diversões (= mafuá), que é o lançamento do livro de poesia, vista uma máscara com desenhos infantis (= calunga). Assim, tudo acaba em brincadeira e alegria. Evoé, festa da poesia!

O leitor logo percebe que a quadra bandeiriana lança-se simples no instante-já para atingir o instante-depois. Entende que os versos em redondilha maior não visam à rima pura e simples, ou a um reles trocadilho que tenha como resposta o riso fácil e amarelo.

O leitor adentra no mundo de Bandeira e constata que o poeta joga com a vivacidade da cultura popular, investindo no desvelamento que se dá “por baixo dos panos”. Ou como diria Derrida: que se processa “no fundo de cena da escrita”.

Enfim, a visada de Pessoa e de Bandeira revela um enquadramento em 3D que capta o agora para imortalizá-lo no devir. Para os dois poetas, colher o cotidiano com olhos livres é o inverso de injetar-se da tolice, do simplório, do ingênuo, da patetice do senso comum. Ao contrário: é desvendar o conhecido como nunca o fora demonstrado.

Apois, eis a beleza da quadra: ser uma eterna metonímia e não uma rasa metáfora.

 

 

  1. Quadras paulistanas

Fabrício Corsaletti é paulista (1978). Publica poesia, livros infantis e narrativas pela Companhia das Letras. É colunista da Folha de S. Paulo. Formou-se em Letras pela USP. Com o livro de poemas Esquimó arrebatou o Prêmio Bravo! 2011. Agora, com Quadras paulistanas é finalista do Prêmio Portugal Telecom 2014. Um belo currículo. Indiscutivelmente.

Ao lermos as quadras de Fabrício Corsaletti, garante-nos Alcino Leite Neto na quarta capa do livro: “Embriagado de realidade, o poeta-cronista flana por aí sem amarras, misturando ao léu objetividade e lirismo, imaginação e notícia, testemunho e confidência, sublime e nonsense”. E completa: “Uma São Paulo surpreendente emerge das quadras”. Alcino Leite Neto mente. Não se comprova uma palavra do que afirma. Isto decepciona o leitor atento, criterioso.

Ao abrir-se Quadras paulistanas deparamo-nos com: “na Liberdade entendi / (no auge da embriaguez) /não há nada mais bonito / do que um bebê japonês”. Nem com o aval da embriaguez o poeta tem o direito de produzir imagem tão torpe. O leitor sente-se traído ao constatar que há uma construção forjada de rimas e de um pretenso humor.

Mais adiante a pasmaceira continua em “ ‘VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO’ / diz o aviso, ‘SORRIA’ / eu bizarramente sinto / uma ponta de alegria”. O leitor tem mesmo de submeter-se a este olhar tolo do eu-lírico? Fabrício Corsaletti pensa que isto é observação poética sobre o trivial da vida? Leia Bandeira. Leia José Paulo Paes. Leia Leminski. Leia Pessoa. Mas, por favor, não nos venha com quadrinha de quinta categoria. Nós, leitores, não somos beócios. E sentimo-nos constrangidos com versos deste naipe.

Consideremos este que, na certa, o poeta imagina ser um chiste de primeira linha, quando não passa de uma bizarra quadrinha: “morrer talvez me agradasse / me sinto estranho e sozinho / mas, morto, como comer / a bisteca do Sujinho?”.

Nos dois versos iniciais, pode parecer que o “poeta” esteja promovendo uma interlocução com a poesia de Álvares de Azevedo e/ou com a de Mário de Andrade. O primeiro, pela via do lado sentimental e mórbido. O segundo, através da crônica que tematiza a cidade. Infelizmente não é nada disto. Pensamos e nos frustramos. O verso “chave de ouro” é um tiro no pé: nem dá sequência à sugerida ideia de transitoriedade da vida e/ou da vivência na trépida cidade, nem faz justa referência a um dos pontos mais tradicionais e frequentados de São Paulo hoje, o Sujinho. Creio que nunca este bar e restaurante fora tão ultrajado. O leitor de quadras, certamente também não.

Mas tem mais. Eis a pérola que se pretende político-poética: “prefeitos, vereadores / não fazem necessidades / pois como explicar a falta / de banheiros na cidade?”. Leitor, convenhamos: nem um panfleto de enésima categoria seria capaz de tamanha afronta. Lamentável. Não dá pra rir da equação. E nem pra chorar. O poeta conseguiu esta proeza. Somos invadidos pela imbecilidade de suas anotações. Em tempo: uso aqui o termo “imbecilidade” na acepção de “atraso mental acentuado, situado entre a debilidade mental e a idiotia”, segundo o dicionário do Aurélio.

No enfadonho rol das quadras paulistanas, há algo que beira à fixação psicanalítica do poeta: “em São Paulo tem de tudo / museu, teatro, metrô / mas nenhum banheiro público / pra gente fazer cocô”. Pergunto ao leitor: o que o dito poeta faz no poema é o que ele não consegue fazer na rua? Confere? Então, Fabrício Corsaletti, por favor, escolha melhor seu alvo. Poesia não é lata de lixo para suas necessidades biopsíquicas. E nós, leitores, não somos depositários de q     uadras pretensamente poéticas, quando de fato são inominável afronta à poesia.

Bem, para encerrar, esta fina tautologia tão ao gosto da dita poesia marginal: “cearense é cearense / carioca é carioca / gaúcho sempre é gaúcho / paulistano vem de fora”. Trocadilho estúpido com o paulistano. Constatação desprezível com o cearense, o carioca, o gaúcho. Dá para levar a sério este livro de Fabrício Corsaletti?

 

 

  1. O quadrão

Cego Aderaldo (1878-1967) é poeta popular cearense. Dono de grande perspicácia poética, integra a poesia da oralidade, muito prestigiada no nordeste brasileiro. Ficou nacionalmente conhecido por um desafio travado com Zé Pretinho, na primeira década do século passado. É de sua autoria  o seguinte “quadrão” –  que é uma quadra duplicada no número de versos: “Eu canto o quadro quadrado, / Quadrado bem quadrejado, / Meu quadro é quadriculado / Por causa da quadração, / Porque minhas quadras são / De maneira bem quadrada. / Por isso meu verso enquadra / Quadrado, quadro, quadrão”.

Os jogos sonoros e semânticos, que remetem ao próprio fazer poético, constroem a imagem do poema fazendo-se no improviso e na consciência da linguagem da poesia. O inesperado entranha-se em cada ideia apresentada, bem como na reverberação sonora e semântica de um vocábulo dentro de outro. Ao ato metalinguístico de fazer o poema, ele é  concomitantemente pensado como ato crítico. Ou seja: criação e crítica mescladas como massa de um mesmo biscoito fino. Homenagem à inteligência e à sensibilidade do leitor.

E eis aí a dita poesia popular, tão depreciada na academia e tão pouco valorizada fora dela.

Graças à sua prática de leitor e pesquisador sem limites, aberto ao vasto leque das variantes poéticas – estejam e estendam-se elas por onde for  –  devo a Augusto de Campos, em Verso reverso controverso, o quadrão de Cego Aderaldo, acima transcrito.

Cego Aderaldo é um dos muitos exemplos de que a poesia se faz com linguagem, e não com manipulação do mercado editorial, jornalístico e literário deste país. Se fosse regra a qualidade literária in strictu sensus, certamente Quadras paulistanas jamais seria uma obra publicada. E menos ainda finalista de prestigiado prêmio nacional de literatura. Fabrício Corsaletti tem muito a aprender sobre quadras antes de publicá-las. Avant la lettre, Cego Aderaldo dá-lhe o merecido “carão”.

 

 

 

 

POESIA E O PRÊMIO TELECOM

Amador Ribeiro Neto

 No próximo mês serão conhecidos os vencedores do Prêmio Portugal Telecom 2014. Em poesia foram 172 livros inscritos. Para a semifinal ficaram 22. E pra final, 4.

A premiação passa por três etapas. A primeira é formada por 300 profissionais do meio literário e elege 60 livros: vinte em cada uma das três categorias – romance, poesia, conto/crônica.

A segunda, por seis jurados mais os quatro curadores. Ela elege os doze livros finalistas. Na terceira e última etapa o júri, com a mesma composição anterior, escolhe o vencedor de cada categoria.

Os curadores são Cintia Moscovich (contos e crônicas), Lourival Holanda (romance), Sérgio Medeiros (poesia) e Selma Caetano (coordenadora). Os jurados: João Cezar de Castro Rocha, José Castello, Leyla Perrone-Moisés, Luiz Costa Lima, Manuel da Costa Pinto e Regina Zilbermann.

Dentre os 22 livros de poesia da segunda fase do concurso não entendo como foi possível figurar entre eles Ligue os pontos, poemas de amor e big bang de Gregório Duvivier; O aquário desenterrado de Samarone Lima; Quadras paulistanas de Fabricio Corsaletti; Rabo de baleia de Alice Sant’Anna e Rua da padaria de Bruna Beber. Todos, sem exceção, adeptos da poesia palatável, cheia de lugar comum. E torpe.

Por outro lado, senti falta de títulos como  Bernini de Horacio Costa, A galinha e outros bichos inteligentes de Ronald Polito, Recife, no hay de Delmo Montenegro, Corpos em  cena de Susanna Busato, Via férrea de Mário  Alex Rosa,  Diálogos  e sermões de Frei Eusébio do Amor Perfeito de Mafra Carbonieri, O choro da aranha de Sérgio Medeiros, Exília de Alexandre Marino.

Todavia, gostei de reencontrar Adélia Prado com seu belo Miserere, Chico Lopes com Caderno provinciano e Luis Maffei com Signos de Camões.

E, claro, gostei inteiramente da lista dos 4 finalistas: Ximerix de Zuca Sardan; Vozes de Maria Luíza do Amaral; Brasa enganosa de Guilherme Gontijo Flores e Observação do verão seguido de Fogo de Gastão Cruz.

Destes quatro pondero que o mais inventivo, o que possui a linguagem mais irreverentemente rigorosa e que apresenta uma vasta gama de ideias é Ximerix, de Zuca Sardan.

Ele rompe as fronteiras dos gêneros literários ao misturar poesia com drama, HQ com publicidade, música popular eletrônica com erudita. No mesmo caldeirão, junta o vanguardista Mallarmé com as sextilhas dos versos populares. Marx e Chaplin, Eisenstein e Fellini. Nonsense com crítica social didática. Ante sua feroz e ferina inventividade poética o riso vai do chiste ao chulo, num pulo. Carnavaliza o pensamento e a linguagem. Trapaceia com a língua e a literatura de plantão. Desmonta o mise en scène das caras e bocas patricinhas da poesia contemporânea. Sem dó. Com todo gás.

Resumo da ópera: Ximerix  é um dos livros mais gostosos de se ler dos  últimos anos. E dos mais criativos da nova poesia em língua portuguesa. Merece o Telecom de poesia, sem dúvida alguma.

Publicado pelo jornal CONTRAPONTO, João Pessoa-PB. Caderno B, coluna Augusta Poesia, dia 17.10.2014, p. B-7.