FIAT LUX IN TENEBRIS (poesia para tempos de sangue)

Joãozinho colecionava fósforos.
Cada caixinha quarenta lumes.

As primeiras palavras, a tabuada, a rima
do primeiro samba –
cabiam na caixinha os brinquedos
e a infância.

Aos 10 anos o apelido de palito de fósforo queimado apagou no seu peito a igualdade.
Na pele a sua identidade.

Aos 15 no chão do mercado em que trabalhava
(o peso do homem da guarda lhe esmagava)
esvaziaram-lhe os bolsos as calças e a dignidade.
“O cliente tem convicção, deve ser verdade.
Apreende, que o neguinho canta da grade.”

O silêncio dos colegas – a face da falsidade.

Dali em diante, pra cada costela quebrada, cada aula perdida, mais valia a regra da caixinha:
mantenha distância do rosto, a direção contrária dos olhos.

E toda nota de repúdio arde
na rede de mercados da cidade.

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