Poema (6) de Jennifer Trajano

relogio jennifer

Imagem: Pinterest.com

 

relógio

 

grudado ao pulso degusta,

no correr das batidas, o gosto dos sentidos

e nossos olhos, de armaduras semifechadas,

relutam contra o desfoque do tempo, que anuncia ao longe

terra à vista em alto mar

a ilha da garganta começa a arranhar a voz

porque o tigre grita na jaula dos tímpanos

dificultando distinguir a espécie dos pássaros

forçando a vista a acender o escuro

de lábios não tão alheios assim

os fios roxos, desrochosos, vão rachando o fêmur

até que os músculos receiem serem ceados pela boca da superfície

 

com medo do vulcão, a gravidade empurra as costas:

põe o nariz a contemplar o chão enquanto as mãos

desabadas da memória procuram uma terceira perna

de natureza morta e o ponteiro circula no braço

o manto, vestido pelo vento,

passa e desbota os pelos

aprofundando as rachaduras da casa corpo onde se habita

não em vão, os cupins da poesia entram sem serem

convidados e inundam todos os cômodos ouvindo

que a carcaça não é uma parede

mas sim um abismo feito de galáxia

ou de mar

 

Jennifer Trajano

Poema do livro Latíbulos, Editora Escaleras

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s