Poema de Expedito Ferraz Jr.

macas nuas

Imagem: Pinterest.com

 

OUTROS JOGOS FRUTAIS

I

Âmbares manhãs
entre as cortinas do ventre
o vitral da romã.

II

Vestida,
toda maçã está nua
da nudez que se insinua
em sua pele polida
da interdição que convida
ao corpo, o rubro rubi
da redondez mal contida
(forma do amor comprimida)
sob a fina lingerie

Despida,
toda maçã, se partida
ao meio, é meio caminho
de ida ao mel do pecado
doce cálculo do ocaso
que termina onde começa
fruto esculpido em mão hábil
sábio pomo da promessa
de lamber todos os lábios

III

Quem poderia supor,
de seu pendor para o cacto,
de seu ser avesso ao tato,
coroado, insubmisso,
o transformar-se, fatiado,
cortado em forma de flor,
nuns girassóis descorados,
de tão tenros, quase líquidos?

E quem lhe adivinharia
doçura na indócil armadura
de tartaruga, ou de ouriço?

IV

Ou bem se quer o sabor,
e se abandona o pudor
do visgo, da nódoa, do ricto,
ou bem se evita a mangaba.
E o tamarindo. E o amor.

V

Mentem ameixas,
passas e tâmaras.
Mentem damascos,
avelãs, castanhas.
Mentem amêndoas.
A memória mente.

No prato de frutas
secas, ruminado,
o tempo falsifica os grãos,
como se fosse,
adoçar o que é cica,
tornar doce o passado.

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