ENQUADRAMENTO (poesia para tempos de sangue)

acordei
o café era de ontem
minha fome também
varri a casa
com ela meu corpo
as dores da semana maiores que o colchão

outro dia
as mazelas de ontem
o ordenado não vem
esvaziei a lata
nem mais um grão
do arroz e sem o feijão

restou um trocado
no bolso de ontem
dá pra lotação
não tem pro varejo
não tenho pro pão
olha a hora de bater o cartão

ontem de novo
hoje também
amanhã é igualzinho
nas filas do trem
pra onde se olhe
as telas nas mãos

escapou-lhes pela janela
na moldura de aço das traves
o anil do dia de primavera
a formação das aves
que importa essa visão
se não estava na tela e não bate cartão

aquelas aves ainda voam na minha memória
e tornaram impossíveis todas as manhãs banais

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