Posfácio do livro de Alberto Bresciani, escrito por Ana Maria Lopes

Alberto livro capa

Um “post scriptum” para Fundamentos de Ventilação e Apneia (Ed. Patuá), de Alberto Bresciani
Por Ana Maria Lopes     Ana posfácio
Mesmo não sendo um fisiologista, Alberto Bresciani criou em Fundamentos de Respiração e Apneia a homeostasia poética. Homeostase é um termo criado para descrever a capacidade do ser humano de manter sua estabilidade e equilíbrio no meio interno. Não existindo a homeostasia, não há sobrevivência.
Nesse seu terceiro livro, o poeta se joga no fluxo sensorial do mundo – sem, entretanto, tirar os pés do chão – tensionando a linguagem e provocando o organismo leitor em dimensões que circulam entre respiração e apneia.
Avesso aos formalismos e fiel ao seu estilo, Bresciani incorpora maneiras de ver, sentir e estar no mundo colocando sempre a palavra como centro de toda sua poesia. E ela flui atingindo o leitor com força, singeleza e domínio da linguagem. É quase impossível não perceber a força da palavra, as vivências e as referências do autor no seu texto. Ele se constrói por suas leituras e riqueza intelectual. Refere-se a Li-Po, poeta chinês da dinastia Thang que morreu afogado tentando abraçar a lua; a Mary Jo Bang, poeta americana contemporânea, dona de uma aspereza sintática e plena de emoções; a T.S.Eliot, poeta modernista do século XX que buscava o sentido do tempo presente; e em livros anteriores, ao poeta bretão Paol Keineg, que fez da poesia uma trincheira.
A partir de suas escolhas culturais e inquietações, sobrevém uma poesia de fronteiras desguarnecidas e, consequentemente, mais política.
DISTRAÇÃO
I
Não poderia pensar
em política, extorsões,
nós econômicos,
reivindicações públicas
ou corrupção
Não entenderia
jogos de poder,
apresentações de egos
histriônicos
Não haveria
como
II
Todos esses dias
dentro dos dias
Esses séculos
sobre os ombros
Com estas presas
na jugular.
Slavoj Zizek, filósofo esloveno, afirma que os campos do simbólico, do imaginário e do real estão interligados como um nó borromeano. A poesia de Alberto Bresciani mantém esse paradigma e encadeia, como na teoria dos nós, os três campos.
NOTHOBRANCHIUS RACHOVII
Façamos como killifishes africanos
: que explodam as cores mais violentas,
cuspamos agora todo som, ódio, fúria
Sabemos que tudo se vai na brevidade
de um único ano e nossas vidas nunca
terão a chance de beber outra chuva
Sem perder o foco principal da função poética, os versos de Bresciani apagam os antigos critérios estéticos da modernidade e dão voz ao poder subversivo da escrita. É poesia sem rótulos. Poesia bresciânica de instintos e matizes finos.
Em Fundamentos de Respiração e Apneia, o autor, além de sua preocupação com o sentido da existência (o respirar), estabelece parâmetros com os seres que habitam sua poesia: os animais, esses seres que respiram, arfam, resfolegam. E são os animais que dão vida às metáforas fortes e provocadoras dos poemas.
ANATOMIA
Para o que servem coração,
rins, fígado, veia cava,
gônadas e glândulas
vocacionadas ao pó?
Todos os dispositivos
complexos, ligados, frágeis,
dentro de enguias, ursos,
tartarugas e gaivotas
Não importam cordilheiras
em transe, o livro nunca lido,
abstenções de carne, álcool,
esportes radicais, sexo e ar
Inúteis feixes de nadas
no fim das contas,
que pagaremos felizes
nesta segunda-feira
Por baixo da superfície dos poemas encontram-se os questionamentos e a sobrevivência, a sufocação e a descrença, o amor e a maturação. Nesse esforço de sobreviver procurando oxigênio por capilares, traqueias, brânquias e pulmões – onde respirar é um apostolado – o autor propõe uma estrutura bresciânica sem pieguismos ou disfarces. E no mergulho em águas profundas da poesia, percebe-se que, apesar das indagações existenciais, não há indecisões. Há certezas e saídas de tirar o fôlego.
METABOLISMO
Digerimos relógios, enquanto o ar
força entrada por guelras, engenhos,
instintos ou pela traqueostomia
Ainda ontem, o caminho da escola
era um trampolim para essa história
estranha, que ninguém viu passar
A janela está aberta,
hoje choveu
(a meteorologia e seus jogos)
Pode ser que um vírus se espalhe,
uma brand new de gripe
Todo acaso pode ser letal
Não há mesmo sentido,
como antever qualquer bom epílogo
para humanos ou antílopes
Melhor fazer como os utopistas
e acreditar que infusões de flores azuis
nos devolverão a algum deus.
O resumo de tudo isso é que a voz que se lê é a de quem permanece no esforço de indagar e sobreviver à falta de ar que permeia o mundo em que vivemos.
Fundamentos de Respiração e Apneia é o livro mais vigoroso de Alberto Bresciani. Ele foge, como em Incompleto Movimento e Sem Passagem para Barcelona, do mainstream literário sem deixar de permanecer acessível a qualquer leitor.
Ao percorrer este trabalho a sensação que fica é a de que nada precisaria ser dito. A obra respira por si. Porém, não é um conjunto de poemas conclusivo. A poesia de Alberto Bresciani é sempre renovada e nos fisga pela intermitência do oxigênio e da apneia. Ela nos agarrra para nos manter respirando. É a homeostasia poética que nos salva.
Ana Maria Lopes é poeta, jornalista e editora

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