Poema (2), de Luísa Gadelha

christian schloe

 

 

 

Ilustração: Christian Schloe

 

animula vagula blandula

(nos versos do imperador adriano):

essa alminha errante completa hoje

trinta e três voltas ao redor do sol

(me perdoem os geocêntricos)

trinta e três: a idade de cristo

(me perdoem os céticos)

quatro, quase cinco renovações totais

de todas as células do meu corpo

(me perdoem os criacionistas)

33 primaveras de mentira,

(aliás, 30, porque 3 passei fora do país)

(e porque em joão pessoa não há estações do ano)

e, no entanto,

me pergunto o que resta daquela menina

que brincava de barbies

neste corpo quase irreconhecível

naquela menina que

teve uma infância

ordinária

trivial

e vulgar

como quase todas as outras meninas

em todos os lugares

e todas as épocas

me pergunto o que resta

de mim

neste estrangeiro

corpo

que deixa de responder,

lentamente,

aos meus comandos

que esbranquiça as poucas madeixas

que não caíram

que escurece o entorno dos olhos

contra minhas ordens de repouso e trégua

que transforma alguns órgãos

em pequenos invólucros

de sentimentos

uma carcaça carregando

frágeis saquinhos de

amores, esperança, mágoas

um pouquinho de inveja,

algumas frustrações e

borboletas, balões, docinhos açucarados

o saquinho do entusiasmo

infla, seca e retoma

num eterno ciclo

em sintonia com a respiração,

elevando os seus juízos e inventos

o coração, esse órgão preferido dos apaixonados,

não sei que assombros carrega

sei apenas que, dentro deste saquinho em particular

carrego vários outros saquinhos

daquelas e daqueles que passaram dentro mim

citando cummings:

i carry your heart with me

(i carry it with my heart)

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Este post foi publicado em Avulso em por .

Sobre luisagadelha

Luísa é graduada e mestra em Letras, graduanda em Filosofia, ama literatura desde sempre e quadrinhos há alguns anos, tem preferência por romances (longos), sejam clássicos ou contemporâneos e se esforça - ou nem tanto - para ler mais poesia. Isso quando não está vendo séries.

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