SETEMBRO CHUVOSO DE 2018

Querida, recebi sua carta esta manhã, o que me encheu de boas energias para começar o dia. Eu que queria tanto saber daí, peguei o envelope e carreguei comigo durante o dia. Fui andar por aí, conhecer e me reconhecer. Se quiser se encontrar, perca-se, não é mesmo? Pela falta de praças, quando cansei, sentei numa igreja – não me pergunte, não sei, fui apenas retomar o fôlego. Li sua carta sentado em território santo e ouvindo um órgão barroco que tocava baixinho pelas laterais da nave. Lugar mais tranqüilo, impossível. Preciso descobrir onde ficam as bibliotecas daqui.

Fiquei muito alegre com os resultados de suas provas. Não deixe que nada lhe desanime nem que lhe digam que é perda de tempo. Os ignorantes odeiam livros e sabemos que estamos cercados deles. Você vem mesmo passar uns dias?

Chove muito nessa cidade. Estou achando que isso é um presságio, algo do divino que resolveu descarregar as cinzas sobre todos. Vesúvio aquático; já pensou? Parece título de novela ruim. Vou guardar mesmo assim, quem sabe uso. Ando escrevendo tudo isso em bilhetinhos e deixando pelo apartamento. Quando me sinto bloqueado começo a procurar pelas paredes uma idéia que se encaixe para continuar.

Sei que essas idéias sobre os dias chuvosos não soam como eu. Você bem sabe que gosto das tardes tranqüilas e chuvosas para trabalhar. Tudo parece fluir melhor com aquela claridade que não fere os olhos, eu me sinto mais concentrado. Na verdade me refiro à sensação que encontro nas pessoas quando preciso sair por algum motivo. Há uma tensão no ar e dei um nome a essa tensão hoje; é intolerância, ou um tipo de. Imagine que aguardava um ônibus e no mesmo local havia uma mulher com uma criança no colo e um casal de idosos. Todos cerrados em si e tentando se proteger da chuva, que naquela hora era uma garoa gentil – chuva de molhar gato, como vovó dizia. Eu nem observava como estavam, apenas me marcou pelo que aconteceu depois. O ônibus parou e de repente todos começaram a discutir a respeito de quem havia chegado primeiro e teria direito de subir primeiro no coletivo. Algo como “a fila é sempre implícita, não preciso anunciar no jornal, minha senhora”. O trocador fez um sorriso amarelo e respirou fundo e eu me adiantei e tratei de pagar minha viagem e me sentar, afinal o ônibus estava vazio. Pois sabe o que aconteceu? Tanto o casal de idosos quanto a mulher com uma criança pararam de discutir e se voltaram contra mim. Que havia furado a fila, que era abusado, e – pasme – viado. Repito, o coletivo estava va-zi-o, 48 lugares disponíveis, todas as janelas para escolher e o que importava era o “viado” aqui. O trocador riu. Fiquei sem saber como lidar com isso tudo. Ainda não digeri. Sinto como uma indigestão. Acho que estou escrevendo aqui apenas pra preencher a página até o final. Não me decidi nem se eu realmente seria abusado ou se estou me portando de alguma maneira que as pessoas interpretam que sou viado. Acho que as pessoas daqui tem problemas com isso. E eu que achava que a mentalidade das pessoas daí era provinciana. Será o mesmo aqui? Ou estou percebendo apenas o pior das pessoas porque sozinho a gente fica mais fragilizado? Vou procurar um antiácido.

Não estou mal por estar morando sozinho aqui. O apartamento ainda está sem mobília, mas tenho um colchão, lençóis limpos e panelas. Acho que isso é tudo que uma pessoa precisa para estar na dela. É isso, estou na minha. Pode parecer irreal porque no imaginário de todos, uma pessoa só pode estar bem, cercada de tudo que vê na televisão – nem tenho e sem grana não penso em ter, me tira o tempo das pesquisas e da escrita. Vai bem, aliás. Ainda esta semana quero entrar em contato com o Gregório, ele está certamente inteirado de tudo que está acontecendo aqui e sabe do meu potencial. Provavelmente terá uns bicos bons que poderei fazer por enquanto, ou que podem abrir os caminhos para algo que dê uma grana firme. Justamente o que iria bem agora junto com a sopa de inhame que estou preparando com umas rodelas de lingüiça, alho e umas folhas de alecrim pra dar um levante e atiçar a mente. Cheira bem. Já percebeu como a chuva faz com que a comida cheire ainda melhor?

Nada de amores por enquanto, nem de tristezas. Tenho saudades de todos. Estou escrevendo para você primeiro porque estou com esse bloquinho de papel amarelo e quero estrear logo. Pra parentada depois eu escrevo, na máquina, que sei que eles não entendem minha letra tão bem. Vó diz que fugi da caligrafia e como quero que ela responda, prefiro assim.

 Para tudo mais tenhamos calma, que amor não falta. escrevi na parede uma frase de Virgílio, como uma resposta ao Orwell: Omnia vincit amor.

Saudades de todos, atravesse a rua e distribua abraços e beijingos (assim mesmo, não vou riscar o papel nem pra corrigir) em todos. Ainda aguardo você aqui.

Seu, R.

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