Poema (2) de Sérgio Castro Pinto

borges e o gato.jpg

Imagem: Pinterest (Jorge Luis Borges e o gato)

 

O GATO E O POETA

 

O gato faz do poeta

gato e sapato:

foge do poema

para o telhado.

 

paciente, o poeta

atrai o gato

com o novelo

dos vocábulos:

 

puxa-o pelo rabo

bem devagarzinho…

e o que era rabo

vira focinho.

 

o poeta, satisfeito,

dá algumas voltas

numa chave de ouro

e o aprisiona

dentro do soneto.

 

Mas o astuto gato

não lhe ensinou

o pulo do gato

e de novo foge

do poema pro telhado.

 

pena que, nessa fuga,

os faróis de um fusca

acendem e ofuscam

os olhos do gato

que foscos se apagam

na escuridão do asfalto.

 

ah, insensato gato,

não estarias melhor

prisioneiro do poema

do que sem as sete vidas

que fogem, uma a uma,

no leito da avenida?

 

é quando, com um fio de miado

–  mas sem perder o da meada -,

o gato lavra o seu protesto:

“- valeu a pena, poeta,

fazer do seu poema

o meu cemitério?

por que não, poeta,

um poema-telhado,

cheio de vida e de gatos?”

 

e nada mais disse nem lhe foi perguntado.

 

Sérgio Castro Pinto

(In: Folha Corrida)

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