VENTINHO BOM

Uma escrivaninha em uma tarde. Tornada amarela em um gesto de dedicação, agora ampara seus livros, sua atenção, seu universo desdobrado em páginas. Há pequenas gavetas organizadoras onde canetas, papéis e lápis se distribuem sem disputa. São ferramentas do ofício, instrumentos de lapidar pensamentos. Há labor e prática envolvidos num despertar de individualidade. Há algo dentro de si que pede para sair assim que amadurecido. Há o ventilador sobre a escrivaninha, observando cada movimento, assim como um mestre, condescendente, acede conselhos apenas com um som da garganta. Seu zumbido constante embala as horas, que passam pela tarde, embora dentro dela prolongam-se em cada linha lida ou escrita. As ideias não voam simplesmente, são empinadas ao sabor do ventinho que lhe refresca o rosto. Talvez se percam em pequenos tornados em seus cabelos. Talvez naveguem na xícara que repousa mansa ao seu lado. A tarde prossegue lenta e sem distrações. Ela empilha leituras, uma após a outra em seu gesto particular de introspecção. Lá fora, crianças correm, como em qualquer tarde quente de jogos que serão esquecidos como apelidos infantis. Pouco a pouco um braço conquista espaço e um volume mais pesado é feito de encosto. Os cabelos se derramam e o cheiro de página nova não difere de relva mansa na memória. Algo vai acontecer, mas não será nesta tarde nem neste ventinho bom. Depois de bailar entre os dedos, também o lápis se deita.

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