Meu Pai (2)

Meu pai (2)

 

Ele já nasceu muitas vezes em mim

sempre foi grisalho na voz

mas hoje é mais falta do que quando

eu era jovem

é mais luz do que quando

eu era ímpeto e arremedo.

 

Hoje a distância

me engole de saudade

fotografa instantaneamente

cada suspiro, cada mania

cada orgulho, cada fragilidade

muro alto que me abrigava

hoje abriga o dorso dos meus olhos

e de minhas memórias.

 

Hoje ele é minha necessidade

meu espelho, minha ampulheta

já que não somos

nada mais que areia fina

incessante

e com destino certo

Sinto cair junto com ele

com meus filhos

cair sem retorno

cair porque só nos resta a queda.

 

Queria mais silêncios e abraços

enquanto caímos tão mais próximos

apesar dos quilômetros

sinto o cheiro doce do seu sono

na cadeira e na televisão

 

Queria só estar perto de fato

além do laço inquebrável

e sonoro que nos acende

juntos

tão perto

quanto neste poema

nessa memória quieta

que me acalenta

no canto da madrugada

enquanto ele dorme.

 

Márcio Leitão

 

 

 

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