Poema do livro “Acúmulo”, de Lilian Sais

Acumulo

 enobrecimento, disseram

 

eis a vida: produzir,

primeiro apenas fluidos,

dos olhos, sistema excretor,

para depois mais,

produzir objetos, relatórios,

projetos, máquinas,

massa, fumaça,

nota fiscal paulista,

 

produzir, o dicionário diz,

transitivo porém direto,

data: 1446,

que belas maçãs produziu

aquele macieira –

o dicionário diz,

 

produzir para comprar

o que o outro produz,

porque um mesmo

ser não produz

de tudo,

 

é certo,

 

produzir dores:

a topada no pé,

a mensagem

sem resposta, a mão

suja –

infecção gastrointestinal,

 

produzir material

para munição

(apreendido

em algum lugar

nesse exato momento),

 

é certo,

 

produzir como a marvel,

a netflix, a HBO,

na velocidade que se come

e se dorme e se quer viajar

e ler e vestir,

 

e se nada mais der certo,

produzir poemas,

esse vício, essa mácula,

esse consolo torto

ao qual me rendo

enquanto em algum ponto

entre o quarto e o sofá

você exerce seu pleno direito,

justo, inteiro e irritante

de não mais se lembrar de mim.

 

Lilian Sais

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