Resenha (1) de Alberto Bresciani

Daqui

 

 

A urbe, seus ritmos e arritmias em Daqui, de Lilian Aquino.

Alberto Bresciani

Sempre me interessam as questões urbanas, os mistérios que transitam pelas metrópoles, todas as possibilidades e impossibilidades configuradas, a ameaça intensa da solidão – quando quase não há espaço sequer para se respirar –. Esta solidão a que aludia o gênio de Drummond em “A Bruxa”: “Nesta cidade do Rio / De dois milhões de habitantes / Estou sozinho no quarto / Estou sozinho na América”. Sabem também meus amigos que sinto uma atração fatal por São Paulo (no meu imaginário, a mais ostensiva e sedutora corporificação desse habitat humano que me desafia). Não preciso dizer mais para justificar o quanto gostei de Daqui, o segundo livro de Lilian Aquino, publicado, agora em 2017, pela Editora Patuá (do incansável Eduardo Lacerda). Penso que é esse o universo que envolve todos os poemas do livro.

Na primeira parte, FORA, a voz poética parte de sua base telúrica e, ao mesmo tempo em que revela a condição humana tão pouca (“Daqui deste chão onde piso / não vejo nada além de edifícios / nada mais que a ousadia humana / de pensar que se é maior que um baobá” – “Baobá”), sugere que se perceba o mais que se expande do menos (“Venha aqui / e tire a mão do bolso / O asfalto que cobre / esta estrada / é a coisa mais certa / a cumprir” –“Juízo”). Os versos de Lilian são um chamado para o real, racionalmente lírico chamado. Versos capazes de provocar o imediato assombro. Sem tirar os pés do solo, a poeta retrata a contemporaneidade. E percorre o tempo, as memórias, radiografa o anonimato que nos põe em fila cadenciada e nos marca a fogo na urbe (“Uma cidade vista daqui de cima / três andares / onde podemos / ser o que somos /– corpos” – “Uma janela sobre a cidade”).

De um lado, há que se conhecer a dureza das rochas:

Perduração

                     de um poema de Donizete Galvão

O peso de um homem

é comparável

ao lugar onde pisa

ao modo como apoia os pés

um depois do outro

neste chão de pedregulhos

que só existe

na superfície

viva e faminta

dos dias.

 

E quando a superfície

acaba por livrar-lhe

da obrigação de sustentar

o próprio corpo

será sua a palavra

que desestabiliza

 

e não só a pedra dura.

 

De outro, como prenuncia a epígrafe de Leonard Cohen, é preciso que se descubra, com as armas restantes, com a aceitação última, a fenda, a fenda que em tudo há e que deixa a luz possível  entrar:

 

Por fora

 

eu inverno

agora

e aqui no meio

da memória e sei que vai esfriar

o tempo

que passa à minha porta

eu sei que

vai virar o tempo

foi o que aprendi

: que se eu inverno

não mais invejo

outra estação

 

Certas arritmias do cotidiano atravessam os poemas da segunda parte: DENTRO. Os ferimentos de todos os dias trazem a dor que as cicatrizes poderão ou não curar, perplexidades no dobrar de esquinas  (“dedos cruzam / fronteiras / esfomeados / unham a pele / fendem um corpo / (então) / abandonado / à beira do precipício // e não há quem seja / capaz de silenciar / seu ruído”  – “Tudo aquilo que causa arrepio”). Lilian Aquino não aceita a facilidade das palavras explicitamente poéticas e nem se esconde sob a aspereza de enigmas ou formulações clássicas. Sem perder o controle de sua poesia, a linguagem é elegante e suficiente, como cabe aos poetas de hoje. Em Daqui, os poemas são construídos sob o coloquial, mas com artifícios capazes de transformar ar e areia em explosivos. Um livro que, com harmonia, oferece poesia de qualidade e convida à entrega: “as rasuras bem ali / aos meus pés / É hoje: / abandone-se” (“Nesses tempos”).

 

 

DAQUI

Lilian Aquino

Editora Patuá, 2017

127 páginas

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