Poema (3) de Mariana Basílio

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Denise com o carneiro branco, de Portinari – 1961. Acervo digital ©Projeto Portinari

 

 

A GAME OF CHESS

 

A cadeira de balanço em que se sentava,
Como um trono polido luzindo na palha,
As linhas grossas contornavam uma liga
De vinhas frutificadas por antigos padrões
A partir da dobra das chamas da Infância.
Refletindo o presente sobre a mesa de
Altos candelabros intocáveis por seus dedos,
O cetim de sua roupa era manchado de um
Suor que luzia ainda mais que o assento
Em que se contava as histórias proibidas
Da queimadura verde e laranja do maxilar.
Afugentada, no pó líquido do teto gotejando
A criança avistava no alto espelho as orelhas
Como se uma janela se abrisse antes do ar.
Sob o pincel, sob seu cabelo, sob os remendos
Da toalha amarelada das vindouras refeições,
Expansões em pontos de chuva, passos movidos
Da escada a chaminé que no alto avistava cometas.

 

“Que barulho é esse?”
“O silêncio marulhando seu entorno”.
O vento sob a porta rangendo,

 

”O que o vento está fazendo à flor?”
As pérolas inundavam seus cabelos.

 

A voz de longe procurava pela sua presença.
“Minha mãe!” Lamentava, contemplando sua
solidão. Abençoava o trabalho das formigas abaixo.
Pressionando os joelhos no tabuleiro manchado
Comia amoras, banindo esperas. ”Minha mãe!”.
Essas memórias que eram sua centopeia.

 

A cadeira de balanço em que se saltava o
Próprio corpo, pequeno país, luzia nas sandálias,
As linhas finas de seu sorriso de diastema,
A partir da dobra do jardim as gramas a
Contemplavam no beco de suas palavras
”Eu quero o que não se nomina!” Sentia.

 

O vento abafava seus pulos de gato,
“O que o tempo está fazendo agora?”

 

O sol parecia saudá-la. Descendo vagaroso
Por entre os túneis e as sacadas das casas.
O pai se aproxima, a puxando para seu colo,
Para o peito que lhe recordava uma floresta
Particular: “O que aprendeu hoje?”

 

”Me solta!” Dizia. Correndo, correndo contra
A força dos minutos que insistiam em anoitecer
Sua brincadeira de desenhar as nuvens
Por cima do telhado. Por cima da palha
Machucou o dedo anelar, beijava o próprio
Sangue como o náufrago beija o mar.

 

SE APRESSE! VENHA CÁ!
“Se você não quer, não vá!”.
Ela pensavam sozinha e contente.
Teimosa como ervas daninhas ressoando a noite.
Se esparramando no chão e apertando as
Costas da cachorra que diziam para ela ser da cor
Champagne. ”Champainhi? O que é isso?!”
Balançavam as duas, latindo e sorrindo,
“Ah! Veja, o seu pelo é algodão”.
Acariciando a vida nos olhos de Priscila.

 

“Boa noite, senhores e senhoras, boa noite-noite!”
Se fechando como a selva entre os trilhos deixados
Para se entender os caminhos outras vezes mais,
A criança adentrava a casa e se aproximava de
Sua cama, uma enorme passagem de fábulas
Iluminava o seu sono. O sonho era a criança.
A cadeira de balanço que mais uma vez sentava.

 

Mariana Basílio

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