[despertei…]

despertei sobre o deserto da alva espetada no meu coração viajante com um sentimento de melancolia debruçada pela cabeça que todo me atordoou como se uma brisa triste sulcasse o corpo num claro abandono à beleza daquilo que nunca iremos tocar. repito. penso. penso que a beleza poderá ser isso mesmo:

– um esquecimento das coisas que jamais tocaremos ou viveremos.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

estou embrulhado no lençol de flores esplêndidas estendido perante a cama desarrumada todavia consigo olhar através dos cortinados e saborear vagarosamente a neblina que flutua lá fora. nada se mexe. nenhum raio de sol irrompe as vidraças quietas. só ouço os cânticos da música com que te escrevo este poema porque não sossegaria se não to escrevesse: nada há mais de sinceridade do que te acabo de transmitir. no fundo de mim transporto uma fonte de compaixão genuína que poucas pessoas compreendem quando a digo e a escrevo. sinto somente a voragem das coisas todas. perdoa-me se te afogo nessa melancolia tão minha e sofro com os confins do sofrimento dos outros. intransponível. coesa. coerente.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

no mais fundo dela a beleza não passa de uma desolação que nos queima ou devora quaisquer direcções que nesta vida não escolhemos rumar por sentirmo-nos isolados daquela compreensão estranha por dentro do silêncio e dalguma força irremediável que nos obriga a anular a nós próprios aonde os caminhos pertencem ao desconhecido ou à séria vontade de viver outra vida que não esta:

– a que quisemos escolher.

por isso escrevo-te para talvez uma tarde quem sabe me escreveres e agora neste precioso contexto de trevas me abraçares límpida misteriosa e doce como uma nuvem de mel enquanto te afago a firmeza da alma ao mesmo tempo que te acarinho as memórias da infância com convicção e paixão pela dor, sofrimento, mágoa, tristeza, alívio, solidão sentidos por ti.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

coragem. é isso que precisas: coragem para enfrentar o universo à tua frente e não desabares como as escarpas frágeis prontas a ruírem para uma morte de remorsos. seja qual for a morte. será sempre um renascimento noutra dimensão pressentida.

sabes:

mesmo com estas dores de cabeça tremendas que me trespassam os feixes de energia corporais e me deixam neste estado de completa inércia convalescente desfalecido numa morosidade inóspita mas sentindo profundamente o pensamento no que não existe para lá da morte ou antes do que existe noutra dimensão que nos é impossível atingir ou transportar-nos.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

digo-te então que vais sentir uma determinada beleza eterna na pessoa que partiu à breves semanas para regressar às tuas memórias puras iluminadas [e que te será sempre próxima] amando-a à tua maneira e desapareceu deixando-te só. muito só.

não deixa de ser estranho esse sentimento quase devedor inundado de um certa doçura existencial ou antes uma candeia de luz incandescente sobretudo porque te se acenderá uma acendalha de inabilidade ou habilidade para lhe pertenceres. e pertences. fixa isso.

sei que a vida por último não lhe foi fácil ausentando-se para a doença que a varreu do leito e a obrigou pois a escapulir às entranhas das noites assinaladas pela velhice e desilusão da monotonia diluída na carne apagada mas acredita que lhe foi concedida aquela misericórdia que nos ultrapassa a mente.

perdoa-a perdoando-te dos prejuízos, danos, medos, receios e omissões. lágrima a lágrima despontarás para as maravilhas da vida ainda não vividas por ti. prossegue ela o quererá desejando-o que o faças por ti mesma e que não te prendas às sombras sentadas contigo ao colo e todos os dias ou quase todos os dias te visitam povoando-te. rodeando-te a consciência do amor.

– sobe até ao mar acena à pessoa que zarpou para outro cais portuário com odores saboroso com vista bonita por sob paisagens inimaginadas como infinitos postais ilustrados pelas mais belas mãos de pintor e escultor. são paisagens que se vão sumindo para dar lugar a outras mais belas. purificadas aonde as cores rodam em torno dela e a fazem sorrir delicadamente para ti. essas paisagens cantam longas cantigas e ela dança com pés de asas e esvoaça entoando ela também outros cânticos novos. rejuvenescidos. contorcendo a flexibilidade do corpo como uma ave dança feliz por entre o céu azul claro e as galáxias em espiral tranquila. canta e dança rente à tua sabedoria para festejar a escolha dos teus sonhos concretizados e o amor que sussurras a quem te merece e deve ser amado por ti.

– questiona-te deitada defronte ao sol daquilo que queres de verdade [seja no que for] jamais por conveniência ou hábito ou comodismo. isso vai-te carcomer as veias do pescoço e asfixiarás com um nó de lâminas por dentro no dia que tentares erguer-te e não o conseguires não por falta de forças mas por não possuíres já uma imagem nítida de ti e do que um dia foste ou poderias ter sido. saltas para o espelho do quarto e sim não te reconhecerás mais. sim é tudo muito triste.

sinto aquela impressão permanente que o ventre da memória te nomeará para chorares fora e dentro do teu corpo em sobressalto.

está na hora do choro alastrado pelos veios do corpo acabar de arder e furar-te cessando estancando o espaço da ferida completa. fechando-a: poro por poro.

agora te digo que não se abrirá mais porque te contei o segredo da morte. por isso quando gesticulares um aceno de sorriso sorrirás para toda a eternidade para ela e ela te devolverá esse sorriso alegre.

este não é um poema de ódio, raiva, tristezas ou remorsos. é um poema para te relembrares da pessoa que a tua avó foi e é quando todas as noites esquecidas adormeces e sonhas com ela. é um poema de continuidade da tua vida. é isso que importa mais e ninguém tem que dar por isso a não seres tu própria.

agora pára de chorar e desperta.

 

«cartas», 2016, filipe marinheiro

 

 

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